por GIULIANO GOMES DE ASSIS PIMENTEL

Professor Adjunto do Departamento de Educação Física da Universidade Estadual de Maringá.

 

 

Notas sobre a vivência de práticas corporais ‘da juventude’ durante a maturidade

 

Foto de Sebastião SalgadoIntrodução

Em 2007, um professor universitário residente na terceira maior cidade do Paraná, adquire um skate long board (cujas dimensões são maiores que o skate normal, permitindo a simulação de movimentos do surf) e inicia suas tentativas de aprendizado. Não se tratava de um resgate de tempos idos, mas um desejo introduzido quando, num encontro casual, experimentou o skate de um de seus alunos. Em sua infância e adolescência não pudera experimentar essa prática corporal, mas, aos 33 anos, acreditara que ainda era possível equilibrar-se sobre uma prancha movida por rodinhas e deslizar pelo asfalto.

De fato, não obstante quedas e dificuldades em dominar o skate, essa pessoa ia conseguindo captar os gestos técnicos e competências físicas e motoras necessárias. Porém, ao deslocar-se era abordado por conhecidos, os quais, admirados, teciam comentários – bem intencionados, não pejorativos – sobre a incompatibilidade da posição social e idade daquele praticante com o objeto de sua ação (o skate), visto como coisa com que se brinca, no máximo, até a adolescência. Talvez aí o espanto de um menino transeunte: “Tio, não sabia que existia skate para gente velha.”.

Estaria a postura dos observadores infringindo ao sujeito uma limitação de sua liberdade individual em nome de convenções ocultas sobre limites entre faixas etárias? A atitude desse skatista remete-se a uma recusa contemporânea em não envelhecer ou, ainda, negação do amadurecimento (Síndrome de Peter Pan)? Por que a realização de práticas corporais de aventura (nomeados pela mídia como esportes radicais) prendeu-se no imaginário à noção de juventude na sociedade Ocidental?

Sobre a juventude

Como Pais (1990) comenta sobre a realidade européia, há uma relação estreita entre lazer e juventude, como há entre brincadeira e infância. Tal é a confusão entre a juventude como fase da vida e a prática do lazer que, segundo o autor, a sociologia da juventude predominantemente vem investigando o jovem e adolescente em suas relações sociais no tempo livre.

Ainda, segundo Betrán (2003, p. 183), é esperado especialmente da juventude, nas sociedades urbanizadas, a busca por práticas que tornem suas vidas “um pouco mais interessantes que as dos outros, daí a atração pelo risco”. Além de trazer uma satisfação instantânea, há o diferencial social no sentido de ter o que contar aos amigos.

Para Gallahue e Ozum (2001), referindo-se à sociedade norte-americana, embora o desenvolvimento seja um processo infindável, se percebe que aproximadamente até os 21 anos as pessoas estão envolvidas com novas descobertas recreativas, na prática de esportes e aquisição e aperfeiçoamento de habilidades motoras. Depois desse período, há um acréscimo do tempo de trabalho e cerceamento das práticas lúdicas a momentos e atividades demarcados. É um momento de mudança nos hábitos de vida.

Nesse sentido, é de estranhar ao sujeito do cotidiano deparar-se com a cena exemplificada nos primeiros parágrafos deste texto. A juventude está arraigada nos lazeres de aventura não apenas por representar uma atitude ou uma fase mais propícia a correr riscos. Em termos de imaginário coletivo social, refletivo nas imagens midiáticas, o corpo jovem, ‘ligado’, é uma representação dominante, por se aproximar de um tipo corpóreo ideal para a prática, um corpo saudável, mais resistente e tolerante a experiências limítrofes.

Mesmo que realmente não seja mais tão necessário ser alguém acima ou à margem da normalidade para praticar as aventuras esportivas e disso se apercebam os praticantes, certos atributos ainda perduram na sociedade. A constatação de Spink (2006) fornece uma noção do quão gelatinoso é o campo das expectativas sobre a relação entre juventude e aventura:

Os aventureiros tradicionais freqüentemente pertenciam às elites; já os novos aventureiros desvestem-se de qualquer excepcionalidade. São pessoas ‘normais’ que desenvolvem atividades ‘normais’. Nem ao menos são necessariamente jovens, muito embora a juventude seja fator importante numa modalidade específica de aventura: os esportes radicais. (SPINK, 2006).

Por qual motivo os praticantes esportivos de aventura não mais precisam ser jovens? Segundo Bruhns (2003) a tecnologia (medicamentos, transporte, comunicação e equipamentos) facilitou a vivência de emoções com maior segurança. Basta recorrer às falas dos aventureiros na mídia para concluir que o risco existe, e é percebido como elemento importante, mas sob maior controle. Outro aspecto que merece atenção é a possibilidade de afrouxamento das normas sociais sobre o que é lícito a cada idade.

Considerações

Com a atenuação do risco real, por meio da tecnologia e dos demais recursos de segurança, se tornou mais comum a procura por aventuras esportivas no lazer. Embora fosse esperado encontrar hegemonia de pessoas muito jovens nos pontos de prática das aventuras, não é incomum ver muitos sujeitos entre 30 e 40 anos, como no caso do vôo livre, com variação entre 16 e 50 anos (PIMENTEL, 2006).

De fato, a juventude é colocada como momento da vida quanto são socialmente tolerados comportamentos de risco no lazer, a exemplo do consumo de drogas, experiências sexuais e prática de esportes perigosos entre outros lazeres não-usuais (GULLONE, MOORE, 2000).

A “juventude de espírito” permanece tendo uma forte carga simbólica no imaginário sobre as aventuras de lazer, mesmo não sendo essas práticas mais restritas à faixa etária jovem (UVINHA, 2001). Com os níveis de segurança atuais e a diminuição do esforço físico, ambos proporcionados pela tecnologia, emoções atribuídas ao comportamento jovem (hoje, um valor alienadamente consumido na sociedade) podem ser fruídas de forma mais acessível.

Essa diluição de determinação entre atividade e fase da vida não é um fenômeno aceito e muito menos aderido por parte significativa da população. No entanto, nos grupos sociais que superaram a luta pelas condições básicas de vida (uma minoria no cenário latino-americano), o corpo perde seu status de instrumento de trabalho (o que é condição primeira à classe proletária) e passa a ser visto como instrumento de status. Nesse sentido, aparentar é tão ou mais importante que ser, havendo uma juvenilização dos corpos, a qual é apoiada por uma indústria cultural da saúde (que abrange da estética às sensações).

Evidencia-se um movimento nas classes com melhor poder aquisitivo no sentido de aproveitar as condições de prática proporcionadas pela tecnologia, para experimentar -em níveis aceitáveis de administração do risco- essas práticas simbolicamente rejuvenescedoras. Tudo conta para consumir juventude.

O recorte de classe é um dos aspectos fundamentais para compreender a adesão de pessoas mais velhas a estilos de vida com aventura, cuja associação à juventude, para além da associação com faixa etária, precisa ser entendida em sua polissemia. Isso significa o imperativo de encontrar respostas complexas ao fenômeno da juventude tardia. Afinal, quando se vivencia essas manifestações corporais de aventura, cuja efervescência evoca a juventude em espírito, tanto se pode encontrar a busca por uma marca distintiva, reforçando as desigualdades de acesso aos bens culturais na sociedade de classes, quanto, por outro lado, elas podem sugerir oposição às práticas esportivas competitivas, cuja marca é a viril superação do outro, ou, ainda, refletir um anseio em resgatar no cotidiano adulto a paixão revolucionária dos jovens. Essas são hipóteses que, para além de generalizações à distância, merecem aprofundamentos rigorosos.

 

Referências

BETRÁN, Javier. O. Rumo a um novo conceito de ócio ativo e turismo na Espanha. As atividades físicas de aventura, In: MARINHO, A.; BRUHNS, H. T. (Org.), Turismo lazer e natureza. Barueri- SP: Manole,, 2003, p. 182-189.

BRUHNS, Heloisa T. No ritmo da aventura: explorando sensações e emoções.  In: _____; MARINHO, Alcyane. (Org.).  Turismo, lazer e natureza. São Paulo: Manole, 2003.

GALLAHUE, David; OZMUN, John C.  Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescentes e adultos. São Paulo: Phorte, 2001.

GULLONE, E; MOORE, S.  Adolescent risk-taking and the five-factor model of personality. Journal of Adolescence. n. 23. p. 392-407, 2000.

PAIS, José M. Lazeres e sociabilidades juvenis: um ensaio de análise etnográfica. Análise social. Lisboa. vol. XXV. n. 108-109, 1990.

PIMENTEL, Giuliano Gomes de Assis. Risco, corpo e socialidade no vôo livre. Tese (Doutorado em Educação Física)-Faculdade de Educação Física. Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2006.

SPINK, Mary Jane. Suor, Arranhões e Diamantes: as contradições dos riscos na modernidade reflexiva. Esterisco: estudo sobre tecnobiociências e risco na sociedade contemporânea. Disponível em: http://www.ensp.fiocruz.br/projetos/esterisco/suor1.htm. Acessado em: 01 de jan. de 2006.

UVINHA, Ricardo R. Juventude, lazer e esportes radicais. Barueri: Manole, 2001.

 

por GIULIANO GOMES DE ASSIS PIMENTEL

 

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