por
GIULIANO
GOMES DE ASSIS PIMENTEL
Professor Adjunto do Departamento de Educação Física
da Universidade Estadual de Maringá.
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Notas sobre a vivência de práticas corporais ‘da juventude’ durante a
maturidade
Introdução
Em
2007, um professor universitário residente na terceira maior cidade
do Paraná, adquire um skate
long board (cujas dimensões são maiores que o skate normal,
permitindo a simulação de movimentos do surf) e inicia suas
tentativas de aprendizado. Não se tratava de um resgate de tempos
idos, mas um desejo introduzido quando, num encontro casual,
experimentou o skate de um de seus alunos. Em sua infância e
adolescência não pudera experimentar essa prática corporal, mas,
aos 33 anos, acreditara que ainda era possível equilibrar-se sobre
uma prancha movida por rodinhas e deslizar pelo asfalto.
De
fato, não obstante quedas e dificuldades em dominar o skate, essa
pessoa ia conseguindo captar os gestos técnicos e competências físicas
e motoras necessárias. Porém, ao deslocar-se era abordado por
conhecidos, os quais, admirados, teciam comentários – bem
intencionados, não pejorativos – sobre a incompatibilidade da
posição social e idade daquele praticante com o objeto de sua ação
(o skate), visto como
coisa com que se brinca, no máximo, até a adolescência. Talvez aí
o espanto de um menino transeunte: “Tio, não sabia que existia
skate para gente velha.”.
Estaria
a postura dos observadores infringindo ao sujeito uma limitação de
sua liberdade individual em nome de convenções ocultas sobre
limites entre faixas etárias? A atitude desse skatista remete-se a
uma recusa contemporânea em não envelhecer ou, ainda, negação do
amadurecimento (Síndrome de Peter Pan)? Por que a realização de
práticas corporais de aventura (nomeados pela mídia como esportes
radicais) prendeu-se no imaginário à noção de juventude na
sociedade Ocidental?
Sobre
a juventude
Como
Pais (1990) comenta sobre a realidade européia, há uma relação
estreita entre lazer e juventude, como há entre brincadeira e infância.
Tal é a confusão entre a juventude como fase da vida e a prática
do lazer que, segundo o autor, a sociologia da juventude
predominantemente vem investigando o jovem e adolescente em suas
relações sociais no tempo livre.
Ainda,
segundo Betrán (2003, p. 183), é esperado especialmente da
juventude, nas sociedades urbanizadas, a busca por práticas que
tornem suas vidas “um pouco mais interessantes que as dos outros,
daí a atração pelo risco”. Além de trazer uma satisfação
instantânea, há o diferencial social no sentido de ter o que
contar aos amigos.
Para
Gallahue e Ozum (2001), referindo-se à sociedade norte-americana,
embora o desenvolvimento seja um processo infindável, se percebe
que aproximadamente até os 21 anos as pessoas estão envolvidas com
novas descobertas recreativas, na prática de esportes e aquisição
e aperfeiçoamento de habilidades motoras. Depois desse período, há
um acréscimo do tempo de trabalho e cerceamento das práticas lúdicas
a momentos e atividades demarcados. É um momento de mudança nos hábitos
de vida.
Nesse
sentido, é de estranhar ao sujeito do cotidiano deparar-se com a
cena exemplificada nos primeiros parágrafos deste texto. A
juventude está arraigada nos lazeres de aventura não apenas por
representar uma atitude ou uma fase mais propícia a correr riscos.
Em termos de imaginário coletivo social, refletivo nas imagens midiáticas,
o corpo jovem, ‘ligado’,
é uma representação dominante, por se aproximar de um tipo corpóreo
ideal para a prática, um corpo saudável, mais resistente e
tolerante a experiências limítrofes.
Mesmo
que realmente não seja mais tão necessário ser alguém acima ou
à margem da normalidade para praticar as aventuras esportivas e
disso se apercebam os praticantes, certos atributos ainda perduram
na sociedade. A constatação de Spink (2006) fornece uma noção do
quão gelatinoso é o campo das expectativas sobre a relação entre
juventude e aventura:
Os
aventureiros tradicionais freqüentemente pertenciam às elites; já
os novos aventureiros desvestem-se de qualquer excepcionalidade. São
pessoas ‘normais’ que desenvolvem atividades ‘normais’. Nem
ao menos são necessariamente jovens, muito embora a juventude seja
fator importante numa modalidade específica de aventura: os
esportes radicais. (SPINK, 2006).
Por
qual motivo os praticantes esportivos de aventura não mais precisam
ser jovens? Segundo Bruhns (2003) a
tecnologia (medicamentos, transporte, comunicação e equipamentos)
facilitou a vivência de emoções com maior segurança. Basta
recorrer às falas dos aventureiros na mídia para concluir que o
risco existe, e é percebido como elemento importante, mas sob maior
controle. Outro aspecto que merece atenção é a possibilidade de
afrouxamento das normas sociais sobre o que é lícito a cada idade.
Considerações
Com
a atenuação do risco real, por meio da tecnologia e dos demais
recursos de segurança, se tornou mais comum a procura por aventuras
esportivas no lazer. Embora fosse esperado encontrar hegemonia de
pessoas muito jovens nos pontos de prática das aventuras, não é
incomum ver muitos sujeitos entre 30 e 40 anos, como no caso do vôo
livre, com variação entre 16 e 50 anos (PIMENTEL, 2006).
De
fato, a juventude é colocada como momento da vida quanto são
socialmente tolerados comportamentos de risco no lazer, a exemplo do
consumo de drogas, experiências sexuais e prática de esportes
perigosos entre outros lazeres não-usuais (GULLONE, MOORE, 2000).
A
“juventude de espírito” permanece tendo uma forte carga simbólica
no imaginário sobre as aventuras de lazer, mesmo não sendo essas
práticas mais restritas à faixa etária jovem (UVINHA, 2001). Com
os níveis de segurança atuais e a diminuição do esforço físico,
ambos proporcionados pela tecnologia, emoções atribuídas ao
comportamento jovem (hoje, um valor
alienadamente consumido na sociedade) podem ser fruídas de forma
mais acessível.
Essa
diluição de determinação entre atividade e fase da vida não é
um fenômeno aceito e muito menos aderido por parte significativa da
população. No entanto, nos grupos sociais que superaram a luta
pelas condições básicas de vida (uma minoria no cenário
latino-americano), o corpo perde seu status de instrumento de
trabalho (o que é condição primeira à classe proletária) e
passa a ser visto como instrumento de status. Nesse sentido,
aparentar é tão ou mais importante que ser, havendo uma juvenilização
dos corpos, a qual é apoiada por uma indústria cultural da saúde
(que abrange da estética às sensações).
Evidencia-se
um movimento nas classes com melhor poder aquisitivo no sentido de
aproveitar as condições de prática proporcionadas pela
tecnologia, para experimentar -em níveis aceitáveis de administração
do risco- essas práticas simbolicamente rejuvenescedoras. Tudo
conta para consumir juventude.
O
recorte de classe é um dos aspectos fundamentais para compreender a
adesão de pessoas mais velhas a estilos de vida com aventura, cuja
associação à juventude, para além da associação com faixa etária,
precisa ser entendida em sua polissemia. Isso significa o imperativo
de encontrar respostas complexas ao fenômeno da juventude tardia.
Afinal, quando se vivencia essas manifestações corporais de
aventura, cuja efervescência evoca a juventude em espírito, tanto
se pode encontrar a busca por uma marca distintiva, reforçando as
desigualdades de acesso aos bens culturais na sociedade de classes,
quanto, por outro lado, elas podem sugerir oposição às práticas
esportivas competitivas, cuja marca é a viril superação do outro,
ou, ainda, refletir um anseio em resgatar no cotidiano adulto a paixão
revolucionária dos jovens. Essas são hipóteses que, para além de
generalizações à distância, merecem aprofundamentos rigorosos.
Referências
BETRÁN,
Javier. O. Rumo a um novo conceito de ócio ativo e turismo na
Espanha. As atividades físicas de aventura, In: MARINHO, A.; BRUHNS,
H. T. (Org.), Turismo lazer e
natureza. Barueri-
SP: Manole,, 2003, p. 182-189.
BRUHNS,
Heloisa T. No ritmo da aventura: explorando sensações e emoções.
In: _____; MARINHO, Alcyane. (Org.).
Turismo, lazer e
natureza. São Paulo: Manole, 2003.
GALLAHUE,
David; OZMUN, John C. Compreendendo
o desenvolvimento motor:
bebês, crianças, adolescentes e adultos. São Paulo: Phorte, 2001.
GULLONE, E;
MOORE, S. Adolescent
risk-taking and the five-factor model of personality. Journal
of Adolescence. n. 23. p. 392-407, 2000.
PAIS,
José M. Lazeres e sociabilidades juvenis: um ensaio de análise
etnográfica. Análise social.
Lisboa. vol. XXV. n. 108-109, 1990.
PIMENTEL, Giuliano Gomes de
Assis. Risco, corpo e
socialidade no vôo livre. Tese (Doutorado em Educação Física)-Faculdade
de Educação Física. Universidade Estadual de Campinas, Campinas,
2006.
SPINK,
Mary Jane. Suor, Arranhões e Diamantes: as contradições dos
riscos na modernidade reflexiva. Esterisco:
estudo sobre tecnobiociências e risco na sociedade contemporânea.
Disponível em: http://www.ensp.fiocruz.br/projetos/esterisco/suor1.htm.
Acessado em: 01 de jan. de 2006.
UVINHA,
Ricardo R. Juventude, lazer e esportes radicais. Barueri: Manole, 2001.
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GIULIANO
GOMES DE ASSIS PIMENTEL
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