por
CARLOS
ALBERTO MÁXIMO PIMENTA
Pesquisador
do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas de Práxis Contemporâneas
(NIPPC) e docente de Sociologia da Universidade de Taubaté (UNITAU).
Autor do Livro “Sociologia da Juventude: futebol, paixão,
sonho, frustração, violência”. Taubaté - SP: Cabral Editora
e Livraria Universitária, 2006.
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Juventude,
violência e políticas públicas
Nas
últimas décadas, a violência atribuída aos jovens tem adquirido
importância econômica, política, social, cultural, de saúde pública,
e acredita-se que refletir sobre o tema juventude-violência implica
pensar em políticas públicas. Políticas, de ordem privada ou
estatal, com norteadores essencialmente de caráter público, que
possibilitam a realização de sonhos, a elevação da pessoa à
condição de sujeito e a concretização de expectativas de futuro
aos jovens, dentro do modelo de
sociedade em configuração no Brasil.
Diante
desse quadro, este artigo pretende explicitar a tensão social na
contemporaneidade promovida entre a relação “ser jovem” e
“expressões de violência”, sem perder o horizonte da constituição
histórica da categoria juventude e suas vinculações com as ações
que denominamos violência.
A
Invenção da Juventude
A
categoria Juventude,
considerada como um período de vida entre 15 e 24 anos,
é uma invenção da sociedade moderna industrial.
Até os anos 50, em face da idéia funcional contida no projeto de
civilização ocidental, “ser jovem” era viver um interstício
entre o mundo da criança, sem responsabilidades, e o mundo adulto,
voltado às responsabilidades do trabalho, da família e das exigências
da sociedade. Aqui, a instituição escolar, nas perspectivas de
classes adotadas nessa realidade, caracterizou-se como sendo o local
institucional específico para auxiliar o jovem na passagem da vida
“pré-adulta” à adulta, sem desconsiderar o papel da família.
Hobsbawm
(1995, p. 317), ao falar da revolução cultural da metade do século
XX, mostra como a juventude (período que se estende da puberdade até
a metade da casa dos vinte) se transforma em um grupo com
"consciência própria e se torna um agente social
independente". Para o autor, a base dessa "consciência
começa no conflito de geração e de sexo, no seio da família".
No caso, Hobsbawm está apontando um aspecto positivo atribuído à
juventude das décadas de 60-70. Na época, os jovens tiveram
importante papel diante da radicalização política, em face da
guerra fria.
Em
Morin (1986), apreende-se que o movimento de juventude vai além da
política, uma vez que se inscreve também na cultura. Há, no
mundo, o desencadeamento da internacionalização de um aspecto da
cultura que inclui os jovens, difundida por intermédio dos símbolos
emitidos pela música, cinema, moda. O autor denominou-a “cultura
de massa”. Nesse movimento de consolidação da cultura de massa,
vê-se reforçada a idéia da condição do “ser jovem”.
Para
Pierre Bourdieu (1983: 112), restringir o movimento de juventude
para uma condição, uma preparação ao mundo do trabalho,
significa reproduzir hierarquias em que “cada um deve se manter em
seu lugar”. Para ele, essa caracterização dá à juventude a
condição de ser apenas uma palavra. Bourdieu tem razão, em parte, uma vez que esse
interstício limitava-se aos jovens favorecidos, o que implicaria
uma redução do que se denominou “cultura juvenil”, valorada
com base em comportamentos, atitudes, estilos, modos histórica e
socialmente em composição que, de uma forma ou de outra, contrapõem-se
aos padrões (ou padronizações) esperados (as).
Hobsbawm
(1995: 320) entende que a dimensão da idéia de juventude não é
nova; o que é novo e importante ressaltar no período é que seu modus
operandi mudara. Eis aqui a novidade. A juventude dessa época
tinha uma predisposição de buscar o prazer com o corpo, numa
afronta às regras, à ordem e aos valores do capitalismo (vide os
movimentos de contracultura). Já no fim do século XX, segundo
Hobsbawm (idem: 328), a
revolução cultural representa o “[...] triunfo do indivíduo
sobre a sociedade, ou melhor, o rompimento dos fios que antes
ligavam os seres humanos em texturas sociais”.
No
Brasil, segundo os trabalhos de Costa (1993; 2006) e de Abramo
(1994), o movimento de jovens ganhou dimensões políticas e
culturais, e passou a organizar o lazer de determinados agrupamentos
de jovens, extrapolando a expectativa funcional e cívica do papel
social do “ser jovem”. Esses agrupamentos, em muitos casos,
ganharam conotação negativa aos olhos da sociedade, em razão de
seus comportamentos e posturas “fora dos padrões”. Para Costa
(2006: 18), os grupos de jovens, denominados gangues juvenis,
“começaram aos poucos a ter visibilidade, no fim dos anos 50 e início
da década de 60, inicialmente em cidades como Rio de Janeiro e São
Paulo, e, a seguir, em outras partes do Brasil”. Contudo, ainda não
eram tidos como um “problema” socialmente preocupante.
Desse
contexto, explicitado a partir de aspectos políticos, culturais, de
lazer e de massa, entender o que venha a ser “juventudes” ,
perpassada pela noção de “cultura juvenil”, requer interpretá-la:
como um estágio preparatório à vida adulta ou ao desenvolvimento
humano; como, no interior da lógica da sociedade atual, uma massa
concentrada de poder de compra; e, como parte de um
internacionalismo da cultura juvenil, de base urbana.
Juventude:
um “problema” social contemporâneo?
A
transposição da violência, dos “muros” periféricos aos
bairros de classes média e alta, fez com que a mídia, a sociedade
e os órgãos públicos passassem a enxergá-la com maior grau de
preocupação. É do final dos anos 80 em diante que, ao se refletir
sobre a violência urbana, se esbarra na temática da juventude.
Essa vinculação, violência-juventude, assume um caráter urbano
de expressões irradiadas dos grandes centros para as cidades de médio
e pequeno porte, em escala mundial.
A
juventude traduz-se em “problema” quando se fala do agressor ou
da vítima nos casos em que as violências se explicitam no urbano.
Aos olhos do senso comum e das instituições de formação e de
opinião pública, o “ser jovem” está intimamente atrelado às
expressões de violência que assombram o cotidiano urbano. Morte,
sangue, arma, droga, álcool, brigas, vandalismos, sensação de
superioridade sobre o outro, risco, excesso, irresponsabilidade,
indisciplina, mas também energia, vitalidade, possibilidade,
expectativa, sonho, visibilidade, solidariedade, sociabilidades,
compõem o universo e a singularidade de muitos agrupamentos de
jovens. Em campo aberto, os movimentos juvenis não se resumem à
violência; contudo, a ela, em muitos casos, estão atrelados.
Com
referência à relação juventude, violência e políticas públicas, ressalte-se que não há
políticas públicas à juventude. Há, sim, um conjunto de ações
isoladas, algumas interessantes, outras complicadas, no âmbito do
Estado e da Sociedade Civil, de caráter didático-pedagógico e
educacional. Do ponto de vista do conjunto dessas ações, a
juventude, quando considerada um “problema social”, traduz-se em
minimizar seus movimentos e, ao se tratar da ação repressiva, em
disciplinar, pela força e, exemplarmente, por suas ações.
Equivale a afirmar que as tendências de elaboração de políticas
públicas à juventude permanecem, em grande parte de suas outorgas,
na lógica funcional para uma formação ao mercado ou como controle
social.
Há,
no Brasil, cerca de 35 milhões de jovens,
e sabe-se que o crescimento do número de pessoas na faixa etária
de 15 a 24 anos é significativo. Por outro lado, as conseqüências
têm igual proporção, o que levou à realização de inúmeras
pesquisas, na tentativa de compreensão do fenômeno.
Os
dados contidos na pesquisa “Mapa da Violência IV: os jovens do Brasil. Juventude, Violência e
Cidadania” são consistentes e
importantes para a apreensão do movimento de juventude e da dimensão
da violência. Os números exprimem uma realidade: a.
Em 2002, 48.983 jovens foram vitimados no país, num total de 54,5
mortos por 100 mil habitantes; b.
Em uma década (1993 a 2002), assistimos ao aumento de 88,6% de
jovens mortos; c. Em 2002, 39,9% das mortes de jovens se deram por homicídio,
15.6% por acidente de trânsito e 3,4% por prática de suicídio.
Juntos, homicídio, trânsito e suicídio totalizam 59% das mortes
dos jovens brasileiros; e.
Em 2002, 31,2% das mortes de jovens foram causadas por arma de fogo;
f. Nos finais de semana,
os homicídios aumentam 2/3, em relação aos dias da semana.
Embora
a pretensão deste estudo seja a de oferecer subsídios à formação
de políticas públicas de juventude e à formatação de estratégias
preventivas direcionadas para reverter a situação sociocultural
vivenciada pelos jovens no país, pouco contribui como
questionamento ao processo histórico de constituição das relações
sociais no país. No entanto, é um contributo importante, pois,
diante da perplexidade desses dados, pergunta-se: por que tanta violência?
O que passa na cabeça de certos jovens? Que sociedade é esta? Como
se explica tamanha irracionalidade, no comportamento de alguns?
O
encaminhamento deste artigo é sociológico, e a ênfase
direciona-se aos traçados históricos, políticos, econômicos e
socioculturais delineados por nossa sociedade. Contudo, o
entendimento desse fenômeno não é tarefa fácil, uma vez que ele
incorpora múltiplos fatores e determina a necessidade de análises
mais abertas e menos reduzidas, deterministas ou policialescas.
Pensar
o movimento juventude implica incursões à realidade histórica,
econômica, política e sociocultural do país, inclusive porque a
chave para essa resposta se encontra nas próprias relações
sociais.
De outro modo, reduzir as discussões sobre juventude-violência às
questões de maioridade penal, de construção de presídios ou de
abrigos, de direito penal, de polícia, de educação ou de
disciplina significa perder a oportunidade de pensar a sociedade
brasileira e suas trajetórias.
Da
perspectiva histórica, o nosso projeto de modernização
desencadeou uma rede de relações no interior da sociedade,
baseadas no autoritarismo-paternalismo marcado pela padronização
de comportamentos civilizadores que não incorporou o negro, as
mulheres, os pobres, os índios e as diferenças (econômicas, políticas,
culturais, sexuais, entre outras). Conseqüentemente, a maioria das
vítimas da violência tem esse perfil.
Da
perspectiva econômica, a juventude deveria estar preparada para a
vida urbana e para a participação no novo modo de produção de
bens e de consumo. No entanto, o processo de urbanização, de
industrialização e tecnológico, no Brasil, intencionalmente ou não,
dificultou o acesso aos benefícios do capital para certos setores
da sociedade, embora tenha disponibilizado o desejo para todos. Essa
situação agravou-se no atual “avanço” tecnológico e na
sociedade da informação, produzindo aumento da distância entre
uma formação mais humana da pessoa e sua participação nos
destinos de sua vida individual e coletiva. É certo que quantidade
significativa de jovens está à margem desse acesso, o que diminui
a possibilidade de muitos terem o reconhecimento esperado, nesse
modelo de competição econômica.
Da
perspectiva política, sabe-se que, dos anos 60 em diante, a
sociedade brasileira passa a experimentar um processo de
individualização avassalador, o qual interfere, sobretudo, no
comportamento dos jovens. Esse processo permitiu o surgimento de um
conjunto de ações desmobilizadoras, do ponto de vista das organizações
sociais e coletivas, arremetendo as pessoas, os grupos, as instituições
e a sociedade para um esvaziamento de seu sentido político, no que
diz respeito às relações sociais.
Como
efeito, nos médios e grandes centros urbanos brasileiros, as relações
interpessoais passaram a ser anômicas, vazias e de pouca
interatividade, impedindo e dificultando a formação de identidades
mais coletivas, tolerantes, participativas e abertas. Esse
esvaziamento político, no sentido de estrangulamento de nossa condição
de sujeito sociocultural e político, abre espaço para condutas
fascistas, autoritárias ou de desrespeito ao “outro”
(estrangeiro, negro, professor, nordestino, mulher, homossexual,
pobre, instituições sociais), pelo simples fato de o outro ser
caracterizado como insignificante.
Sem
a mediação do político, as relações sociais contemporâneas, em
especial entre os jovens, contribuíram para a consolidação de um
quadro de condutas de risco, via de regra expresso por atos
caracterizados como de violência. Em campo aberto, a violência
ganha dimensão de banal, vazia e, aparentemente, sem sentido, sem
conteúdo, desconectada dos princípios civilizatórios.
Da
perspectiva cultural, a violência é parte do viver, do presente, e
está no trânsito, nas casas, nas ruas, nas escolas, no tráfico de
drogas, no Estado, nas relações de gênero e de poder, nas
instituições (policiais, judiciárias, hospitalares, educacionais
etc.). Se o homem é um ser simbólico que teceu as suas próprias
redes de relações, temos que decifrar seus significados e
sentidos.
A
partir dessas perspectivas (histórica, econômica, política,
cultural e social), a violência ganhou corpo, lugar, etnia, cor da
pele, rosto perfil e origem. Embora seja constituída nos jogos de
relações sociais, a culpabilidade de suas práticas restringe-se
às classes populares, causando espanto quando seus autores são de
classe média ou alta. Primeiro, porque quem produz a violência, no
visor imaginário do senso comum, é pessoa de baixo poder
aquisitivo, pobre, negro, mestiço e, além desses requisitos, ocupa
piores localizações no espaço urbano. Segundo, porque a ordem
social não reconhece que a violência “constitui” outras formas
de relações sociais, reproduzindo representações, códigos e
estilos de vida próprios, por vezes até como proteção contra
hostilidades de nosso tempo.
Por fim, porque o discurso corrente não reconhece que o indivíduo
inscrito na sociedade, independentemente de classe social, faz parte
de um sistema social complexo,
e reconhecer esse aspecto do sistema social requer aceitar que a
sua composição não é exclusivamente racional, como se pretendia
no processo civilizador moderno. Isso porque ele se complementa,
também, de informações diversas (míticas, ritualísticas e
sentimentos) e porque as pessoas, cada qual ao seu modo, reagem aos
estímulos dos afetos, das angústias, das frustrações e das
desgraças.
De
fato, é no social que a violência juvenil ganha a condição de
“problema” e se expressa como um componente da violência
urbana. Não está vinculada só, e exclusivamente, às estruturas
sociais injustas, às desigualdades econômicas, à pobreza, à inércia
do Estado ou à desestruturação da ordem legal. Esses argumentos,
distantes de uma óptica multifacetada, estão colocados em pauta
numa quantidade significativa de trabalhos sobre violência.
Acrescente-se
que não há como isolar a juventude da violência; a não ser que
se resgatem aos jovens as expectativas de futuro (nos termos da
sociedade de consumo), que se diminuam as distâncias socioeconômicas
e culturais e que se reconstitua uma formação mais política dos
grupos e sujeitos sociais com indicativos para minimizar os efeitos
da individualização.
Considerações
Finais
A
preocupação com a juventude é recente. De pouco é que se visa
empreender políticas públicas que contemplem interesses e
necessidades dos jovens. Até os anos 90, o que se ouviu, em termos
de políticas públicas direcionadas à juventude, se limitou a ações
no campo das instituições educacionais e esportivo-culturais, com
práticas didático-pedagógicas de preparação para a vida adulta.
Essa
preocupação não é exclusiva do Brasil. Nos últimos 10 anos, a
comunidade européia, para melhor entender o que vem a “ser
jovem”, tem financiado inventários sobre juventude,
com a pretensão de subsidiar a constituição de políticas públicas
com maior assertividade e consistência.
Em
nossa realidade, há “aparente” desconexão e ausência de diálogos
entre o material produzido, na academia, sobre juventude e as ações
sociais e públicas direcionadas a ela, em que pese o esforço de
algumas ONGs e de programas de pesquisa.
Tem-se
que, com devida urgência, elaborar um conjunto de ações, marco de
políticas públicas à juventude, em diversas frentes, inclusive
fora das demarcações voltadas à formação para o mercado, que
viabilize a emancipação, a singularidade e a autonomia do sujeito
e “proprietário” de seu próprio destino e processo histórico.
Ainda
que se considere o esforço das ações públicas, estamos longe de
equacionar a violência juvenil. É o que falam os jovens, em forma
de silêncio traduzido em suicídio, uso de álcool, excessos,
agressões, uso de drogas, indisciplinas e mortes.
Contudo,
para se elaborar um conjunto de ações as quais contemplem o que
chamaremos de políticas públicas direcionadas à juventude, não
se pode partir de receita pronta e acabada, vinda de cima para
baixo. Por não existir receita, devemos tomar os seguintes
cuidados: a. a violência não é privilegio das classes populares, embora
estas estejam mais suscetíveis a ela; b.
as ações devem ultrapassar o universo da educação e do
esporte, sem a intenção de reprimir a juventude ou suas práticas;
c. não há como formular
transformações significativas, dentro da lógica do mercado e do
capital, sem minimizar seus efeitos de individualização, de
consumo e de competição; d.
ações políticas que valorizem o reconhecimento do
“outro”, do coletivo e da dignidade humana; e.
resgatar o sentido de um projeto pessoal e coletivo de vida, na
experiência juvenil em nossa sociedade.
Cabe
enfatizar que a não observância dos cuidados apontados acima poderá
trazer o agravamento das violências presentes nos movimentos e
agrupamentos de juventudes. Se, por um lado, as classes populares
clamam pelo acesso aos benefícios das sociedades tecnológicas,
informacionais e de consumo, ou buscam estratégias de proteção às
desigualdades de nosso tempo, por outro lado, o esforço das classes
média e alta em proteger seus “bens” e “patrimônio”
promove práticas de higienização da sociedade, numa luta moral
para eliminar a “parte maldita”: os humildes, os pobres e a
pobreza.
__________
Definição extraída do livro “Mapa da Violência IV: os
jovens do Brasil. Juventude, Violência e Cidadania” (WAISELFISZ,
2004), realizado pela Unesco Brasil, órgão vinculado às Nações
Unidas (ONU), cujos dados utilizados foram extraídos do IBGE e
do Ministério da Saúde.
por
CARLOS
ALBERTO MÁXIMO PIMENTA
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