por
HENRIQUE T. NOVAES,
MILENA SERAFIM
& RENATO DAGNINO
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A
Filosofia da política pública para a promoção do cooperativismo
na Argentina (2003-2007):
Lições
preliminares
Introdução
Este
artigo dá continuidade a uma das linhas de pesquisa do Grupo de Análise
de Política de Inovação (GAPI – Unicamp). Num outro artigo
intitulado “A filosofia da política cooperativista na Venezuela
de Hugo Chávez: lições preliminares” (NOVAES e LIMA FILHO,
2006), relatamos o resultado, ainda preliminar, da primeira etapa da
pesquisa.
Ele
faz parte da segunda etapa da pesquisa por nós iniciada com o
objetivo de analisar e contrastar as políticas públicas para a
promoção do cooperativismo na Venezuela, Argentina, Brasil e
Uruguai.
Conforme
afirmamos no outro artigo, trabalhamos com a hipótese de que há
uma diferença qualitativa
entre as propostas dos Governos de Chávez, Kirchner, Lula e Tabaré
Vasquez, no que se refere à Política de Geração de Trabalho e
Renda (PGTR). Defendemos a idéia de que a proposta cooperativista
de Chávez está inserida numa visão de desenvolvimento
endógeno enquanto que no Brasil, Argentina e Uruguai, apesar
das especificidades de cada um, predomina a visão de contenção
social ao desemprego
em massa (NOVAES e LIMA FILHO, 2006).
Como
sabemos, o cooperativismo pode se encaixar
em distintos projetos de sociedade, que vão, nos dias de hoje, de
um espectro liberal-empresarial onde o cooperativismo tem se tornado
um negócio da China (TIRIBA, 2002) ao precarizar e burlar os
direitos trabalhistas, passando por uma proposta intermediária de desenvolvimento
endógeno e no outro extremo, porém com alguns pontos de
contato com o anterior, o cooperativismo é um tema muito caro aos
socialistas e anarquistas, onde o mesmo desempenharia um papel
fundamental na transição
socialista.
A
outra hipótese que trabalhamos tem a ver com a não-neutralidade da
C&T, uma das mais antigas linhas de pesquisa do professor Renato
Dagnino (2007). No debate promovido por nós neste artigo, se
materializaria na hipótese de que a baixa ou nula interação entre
a PGTR e a Política Científica e Tecnológica (PCT) dificulta a
sustentabilidade de políticas emancipatórias. No nosso
entendimento, se a política de promoção do cooperativismo não
contiver, como um dos seus componentes ou pressupostos essenciais,
uma nova base cognitiva-tecnológica que permita a emancipação das
cooperativas populares, das fábricas recuperadas, etc, ela será
limitada. Como se estivéssemos enxugando
gelo, a PGTR será pouco eficaz, aparecendo o problema
novamente.
Em
função da quantidade de dados já obtidos e em função das
entrevistas por nós realizadas, como resultado de duas bolsas de
estudo para permanecer na Argentina em 2007, já se pode aprofundar
um pouco a hipótese do cooperativismo como proposta de contenção ao desemprego em massa e também a baixa imbricação
entre as duas políticas públicas na Argentina, para o período de
2003-2007.
Como
toda pesquisa, a aqui esboçada segue alguns parâmetros. O primeiro
que gostaríamos de destacar tem a ver com a necessidade de conhecer
profundamente a história do país e
o contexto que dá origem a uma política pública. Em
qualquer análise, também se deve colocar em relevo o Estado
herdado por aqueles que fazem a política pública, no nosso
caso, a política cooperativista.
O
segundo refere-se à análise da correlação de forças que sobe ao
poder. No caso argentino, verificar qual foi a correlação que se
deu em 2003, se há homogeneidade
ou fragmentação. Já podemos afirmar que há distintas facções
do partido peronista que ocupam diversas alas do Estado argentino.
Mais que isso, os órgãos do Estado que apóiam o cooperativismo
parecem não ter uma posição de destaque. Apesar do discurso, as ações
e o poder de atuação destes órgãos mostram que o cooperativismo
não é prioridade na agenda de governo. Isso nos leva a crer que
cabe aos pesquisadores tentar elucidar qual é a tendência, as
contra-tendências e as vozes que dão a tônica de um governo.
Não
acreditamos na tese de que o Estado é um caos,
onde diferentes forças não conseguem chegar a um mesmo denominador
comum. Primeiro porque o Estado nunca foi e nunca será monolítico.
Mas ao mesmo tempo, não é tão anárquico
quanto tem feito parecer os analistas de política pública na América
Latina. Ainda que haja contradições no seio do Estado argentino, há
uma linha mestra, um carro-chefe que dá a última
carta ou dá a tônica no governo. Esta pode estar ou não em
concordância com o que foi explicitado na agenda de governo e com o
discurso. Infelizmente não poderemos nos debruçar sobre estes
temas neste artigo, apesar de acreditar que os mesmos são
relevantes para caracterizar os limites e as possibilidades de uma
política pública.
O
objetivo deste artigo é limitado e preliminar. Ele se resume a
explicitar a filosofia da política cooperativista do governo
Kirchner. Nossa proposta é apenas ajudar a explicitar a visão
hegemônica daqueles que dão a tônica ao governo Kirchner, para
depois analisar a visão dos órgãos do Estado que promovem o
cooperativismo e as mutuais.
Por último, analisaremos a hipótese por nós levantada sobre a
baixa ou nula interação entre a PGTR e a PCT. Encerramos o artigo
com algumas considerações finais.
Breve
história da Argentina
A
Argentina é um país dependente, tal como os outros países
latino-americanos. Mesmo sendo um país dependente, no início do século
XX, sua classe trabalhadora conseguiu alcançar condições de vida
que não foram obtidas em outros países da América Latina.
A
crise dos anos 1930 gerou uma ampla onda de desemprego que afetou a
todos os países do sistema capitalista. Entretanto, passada essa
crise, a Argentina foi o único país da América Latina que até
meados da década de 1970 conseguiu manter um considerável desenvolvimento,
baseado na promoção do pleno emprego, de relativa proteção
social e de estabilidade laboral.
Os níveis de integração e de coesão social estavam fortemente
apoiados no poder da classe média e dos assalariados (HINTZE,
2006).
Com
a ditadura militar, em meados dos anos 1970, o país gradativamente
entrou num processo de desindustrialização, de empobrecimento, de
vulnerabilidade e de exclusão social. Em 1991, o Presidente Menem
adota a política de paridade cambial (um peso um dólar), abdicando
da sua soberania monetária. Junto a isso, a Argentina adotou políticas
de abertura comercial, privatização e desnacionalização da
economia, para não falar nas reformas trabalhista, previdenciária,
tributária e na liberalização financeira. Azpiazu e Basualdo
(2001), ao analisar os impactos das mudanças da década de 1990,
observam que houve na Argentina um aprofundamento dos processos de
concentração e centralização de capital, o que resultou na
reconfiguração do poder econômico neste país. A maioria das 200
maiores empresas está nas mãos do capital estrangeiro seja em função
da aquisição de empresas públicas, seja através da associação
aos pequenos grupos (ex?)-nacionais. Para estes autores, são os
conglomerados locais e estrangeiros, principalmente em função dos
processos de privatização, que se consolidaram como o núcleo
hegemônico de poder econômico na Argentina, adequando o Estado às
suas necessidades.
Não
é preciso nos estender sobre este tema, uma vez que ele está
bastante presente nas nossas mentes, em função das chamadas políticas
neoliberais que varreram a América Latina. Mas é preciso
reconhecer que outros grupos também se beneficiaram deste processo.
Por exemplo, a classe média argentina e outros setores da elite
aprofundaram a ostentação de um padrão de vida baseado em viagens
ao exterior e importação maciça de bens de consumo.
As
políticas de ajuste estrutural, juntamente com a recessão econômica,
trouxeram como conseqüência uma forte fragmentação social,
baseada na perda de direitos sociais e no desmantelamento da
estrutura salarial e trabalhista: aumento do desemprego, e do
subemprego dentro outras atividades informais, da exclusão
social, e do processo de descoletivização.
Nesse
caminho, o país ao entrar no século XXI se defrontou com uma das
piores crises vividas na sua história, a crise de 2001. A produção
industrial retrocedeu significativamente. A indústria nacional foi
destruída, as taxas de desemprego e subemprego chegaram a números
estarrecedores. Em outubro de 2002, 54,3% da população estava
abaixo da linha de pobreza. O desemprego apontou sua taxa máxima em
maio de 2002 com 22% da população fora do mercado de trabalho (INDEC
–2007).
A Argentina, referência na América Latina como um país homogêneo,
onde a classe trabalhadora andava
junto com a classe média, a partir de 2001, passou a ter uma
sociedade fortemente fragmentada, evidenciando todas as características
da barbárie social. A partir daqui, todos nos tornamos
latino-americanos.
O
número de countries
(condomínios fechados de ricos) crescia no mesmo ritmo que as villas
(favelas). O Coeficiente de Gini aumentou de 0,40 nos anos 1980 para
0,55 depois da crise. Segundo
Blanco (2005, p.5), a Argentina
“tiene distribución de la riqueza más desigual de los últimos
30 años. Los datos, procesados a fines del año 2003, muestran que
el 10% más rico de la población posee el 38,6% del ingreso
nacional y gana 31 veces más que el 10 por ciento más pobre. En la
década del setenta esta última relación era de solo 12 veces”. Podemos
dizer que agora somos todos latino-americanos.
Além
disso, se a venda de anti-depressivos é bom termômetro
da sociedade, podemos dizer que a sociedade argentina está numa
depressão profunda, enquanto que a indústria farmacêutica tem
lucros espetaculares (LAKOFF, 2003).
Sobre
o Estado argentino e as reformas de primeira
e segunda geração, já há
um número significativo de trabalhos, sintetizados, nos artigos de
Oscar Oszlak, Atílio Boron, Azpiazu e Basualdo, dentre outros. A nós,
só cabe destacar que a Argentina também sofreu uma destruição do
aparelho estatal, para não falar dos processos de privatização
e/ou saqueamento das riquezas públicas. Se no Brasil afirmamos que
vivemos o Estado mínimo para
os trabalhadores e o Estado máximo para o capital,
principalmente o capital financeiro, guardadas algumas
especificidades, o mesmo pode ser dito para a Argentina.
Os
altos níveis de pobreza e miséria, agravados pela profunda
desindustrialização, resultaram na necessária
criação de instrumentos para conter tal situação. Se até o Século
XX, as respostas convencionais por parte do Estado para amenizar o
desemprego funcionavam, o
mesmo já não pode ser dito para o Século XXI. Criou-se um
programa emergencial de auxílio à pobreza e ao desemprego, a fim
de se fazer cumprir o inciso 22 do artigo 75 da Constituição
Nacional, que trata do Pacto Internacional de Direitos Econômicos,
Sociais e Culturais das Nações Unidas. Este programa denominado de
Jefes e Jefas de Hogar
buscou por meio da redistribuição de renda diminuir as pressões
sociais e as necessidades da população.
Após
dois anos de crise, em maio de 2003, Néstor Kirchner, tema da nossa
próxima seção, foi eleito presidente da república com apenas 22%
dos votos, após a desistência de Menem. Assim como no Brasil,
a história política da Argentina pós-ditadura é
caracterizada pela ausência de uma ruptura no que se refere à
manutenção dos mesmos grupos de poder, apesar da pequena diferença
em cada momento histórico, assunto este que não poderemos
detalhar. Não é preciso dizer que a ala do Partido Peronista que
sustentou o governo Menem na década de 1990 foi a ala mais à
direita. Será que as classes e frações de classe que se
beneficiaram com as políticas do governo Menem desapareceram
no Governo Kirchner? Nos parece que não.
Apesar
do ligeiro sinal de recuperação econômica devido à recuperação
da taxa de câmbio do peso frente ao dólar, da restrição do gasto
público, do moderado aumento do PIB e da renegociação da dívida
externa em 2001/2002, a população ainda se deparava com as
desastrosas conseqüências da barbárie social – desemprego,
pobreza e fome.
A
proposta de Kirchner: uma nova recomposição do Estado keynesiano?
Kirchner
deu continuidade ao programa emergencial instituído pelo governo
Duhalde, entretanto, com algumas mudanças. Elegeu
como prioridade “consolidar
las tareas realizadas para la inclusión social de la población más
vulnerable, con eje en la persona y en la familia, como unidad
decisiva para el desarrollo social y económico de nuestro país”
(Decreto nº 1506/04).
Devido
à escassez relativa de recursos para as áreas sociais
– em grande medida devido à evasão de recursos do Estado em
função da manutenção dos grupos de poder que continuaram ganhando
dinheiro seja com a dívida externa ou com a hipertrofia do
capital financeiro, o governo elencou alguns assuntos visualizados
na sua agenda de governo,
que se converteram em políticas públicas.
Carcanholo
e Amaral (2007) nos lembram que após a crise de 2001, com uma forte
retórica, como se enfrentasse duramente as imposições dos
credores internacionais, o Governo (e o mundo) passou a apresentar a
Argentina como uma estratégia alternativa à neoliberal. Ao nosso
ver, o governo argentino simplesmente abriu o caixa e não encontrou
nele dinheiro, não restando então outra alternativa do que a
renegociação. Não se trata evidentemente de uma saída soberana,
uma vez que a dívida não foi cancelada, mas sim renegociada,
como nos mostram os autores acima. Sobre isso, basta ver o peso que
a dívida externa renegociada ainda
desempenha no orçamento do Governo (CARCANHOLO e AMARAL, 2007).
Eles
sustentam ainda que a manutenção do ritmo de acumulação de
capital na Argentina se deve ao elevado grau de superexploração do
trabalho. É isso que explica a possibilidade de pagamentos da dívida
e o crescimento a uma média de 9% nos últimos 4 anos.
Como
uma espécie de bomba de sucção que chupa
sangue dos trabalhadores – expressão de Marx – e que
alimenta os credores da dívida – em maior medida - e parcelas da
elite argentina – em menor medida, a Argentina é hoje é um belo
exemplo dos mecanismos criados pelo capital para extrair
sobretrabalho. Não por acaso, é neste momento que surgem na América
Latina – para não falar no mundo todo – novas formas de extração
do trabalho excedente. Entre elas, uma nova forma de organizar a
produção - o chamado toyotismo – que nada mais que é do que a
elevação da produtividade do trabalhador para se extrair mais
valia. No Brasil, surge a birôla, doença advinda da atividade de
trabalho nos canaviais que leva os trabalhadores à exaustão. No
Japão, surge o karoshi.
Qual será a doença por excesso de trabalho na Argentina?
A
estratégia de atuação que deu origem a política cooperativista
conformou-se em quinze planos nacionais. Destes, quatro são
voltados às políticas de inclusão social. Na busca por se contrapor
às políticas assistencialistas e focalizadas do governo anterior,
mas no fim das contas repetindo os mesmos erros
da mesma, o Ministério de Desenvolvimento Social lançou o Plano de
Desenvolvimento Local e Economia Social (“Manos a la obra”), o
carro-chefe de Kirchner para a PPGTR. O objetivo
do plano, ao menos no discurso, é o fomento do ingresso da população
em situação de vulnerabilidade social, em especial os beneficiários
do jefes e jefas de hogar,
no setor da Economia
Social mediante apoio técnico e
financeiro a empreendimentos produtivos de inclusão social e de
fortalecer as organizações públicas e privadas, espaços e redes
associativas (Ministério de
Desarrollo Social, 2007). É dentro dessa política guarda-chuva
que se encontra a política pública para a promoção do
cooperativismo.
Ao
analisarmos a política pública em discussão, verificamos que além
do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), há a participação
de outros organismos governamentais, como o Ministério do Trabalho,
Emprego e Seguridade Social (MTEySS), o Instituto Nacional de
Associativismo e Economia Social (INAES), além do Instituto
Nacional de Tecnologia Industrial (INTI), dentre outros. Ressaltamos
que houve a participação de alguns organismos não-governamentais,
todavia, não serão abordados nesse artigo como objeto de destaque.
É
interessante observar aqui que a Argentina, se comparada ao Brasil,
tem menor margem de manobra no que se refere ao financiamento das
políticas públicas. As conseqüências disso para os quadros
compromissados com a emancipação humana são conhecidas. Por
exemplo, o Banco Mundial financia algumas políticas e querem
números que comprovem a execução, ignorando, como não
poderia deixar de ser, as especificidades da sociedade em questão.
A eficácia limitada destas políticas é visível, nos relataram os
funcionários do Estado argentino e, na verdade, não se trata de ajuda,
como nos dá a entender o Banco Mundial, mas da velha e conhecida
forma de dominação via alívio ou administração
da pobreza em níveis toleráveis.
Dos
atores governamentais, o único a participar diretamente da construção
da política com o MDS foi o MTEySS. A participação se deu por
dois motivos: primeiro porque os beneficiários do plano eram os
mesmos do programa Jefes e Jefas de Hogar do MTEySS e segundo porque o MTEySS tem
articulação, por meio da sua rede federal de capacitação, e
capacidade em prover qualificação e capacitação profissional.
Entretanto, sua participação se restringe a isso, principalmente,
porque o foco do ministério é uma política ortodoxa ao emprego
formal. O entendimento, apesar de trabalhar com linhas de crédito
às fábricas recuperadas, é de que a problemática da economia
social é do MDS. Por isso, quem dá a real tônica à política de
cooperativismo é o MDS, ou seja, a Secretaria de Políticas Sociais
e Desenvolvimento Humano.
O
governo ao instituir a Resolução nº 2038/2003 incentivando a
conformação de cooperativas habitacionais e de prestação de
serviços em geral, criou forçosamente demanda por cooperativas.
Trata-se evidentemente
de uma tentativa de criação de cooperativas através das demandas
públicas do Estado.
Sobre
os novos ventos keynesianos, é visível na Argentina a utilização
do Estado pela classe dominante como instrumento que a auxilie no
processo de acumulação de capital. Como uma espécie de recomposição
do Estado keynesiano, os ventos que sopram na Argentina nos levam a
crer que uma associação entre pequenas parcelas dos empresários
argentinos que restaram e o capital estrangeiro, se utilizam do
Estado para recompor suas taxas de acumulação de capital.
Isso pode ser visto, entre outros, nas políticas de reindustrialização
que o governo Kirchner vem criando.
Analisando
a construção do plano “manos a la obra”, o discurso e as ações
dos quatro organismos (dois ministérios e duas instituições)
nota-se as diferenças no entendimento em relação ao PGTR e na
prioridade em relação ao cooperativismo. Tanto aqueles ministérios
que dão a tônica ao governo Kirchner quanto os ministérios que
promovem o cooperativismo demonstram uma não opção por uma outra
sociedade, baseada no trabalho com sentido social, prazeroso,
deasalienante, reforçando ainda mais a nossa hipótese de contenção
social.
A
visão hegemônica do governo, ao menos no campo das relações de
trabalho, é a de recompor a taxa de emprego blanqueado
(trabalhadores com carteira assinada), a velha relação patrão
empregado em empresas convencionais.
No
que se refere ao papel do MDS, pode-se perceber que suas ações
serem pontuais, desconexas e insuficientes em âmbito nacional, o
que acaba conferindo à política um forte caráter
assistencial, estigma esse que o ministério pretende diminuir.
Estas características nos dão a entender que são poucas as
tentativas de ruptura da feudalização do Estado – característica
genética do Estado capitalista, onde cada Ministério executa uma
parte da ação, não planejando o todo.
Uma
comparação com o Brasil se faz necessária para compreender a visão
do MDS argentino, ainda que não se possa aprofundar a questão. Nas
entrevistas que fizemos nos ministérios que promovem o
cooperativismo, além da análise dos informes, textos, etc era visível
que o cooperativismo deveria ter um papel de maior destaque, segundo
os representantes destes ministérios.
Apesar de Kirchner sempre discursar que a Economia Social é estratégica
e é um dos pilares da nova Argentina, na verdade, os órgãos
promotores do cooperativismo reconheceram que a economia social não
é o carro-chefe do governo. Até aqui o quadro descrito é muito
parecido ao brasileiro. A diferença surge quando se verifica que o
discurso da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES) dá
um tom mais crítico que o esboçado pelos congêneres argentinos.
No
caso brasileiro, o cooperativismo se insere dentro de uma proposta
de desenvolvimento solidário, talvez em função de uma visão estratégica
da SENAES, uma vez que falar de socialismo já está um pouco em desuso.
No entanto, o secretário Paul Singer ainda é um defensor do
socialismo, ainda que seja um socialismo um pouco
estranho (NOVAES, 2006). Foi por isso que afirmamos que a SENAES
é uma pedra proto-socialista num colar pró-capital, principalmente
pró capital financeiro (NOVAES e LIMA FILHO, 2006). Ainda que seja
difícil de explicar, há um leve nuance que diferencia o Brasil da
Argentina, que colocaria a SENAES um pouco mais à esquerda.
Outra
característica que impacta na crescente filosofia de contenção
social é o repasse de recursos em massa, baseado na crença de
que os micros e
pequenos empreendimentos produtivos não eram sustentáveis e
emancipáveis por falta de acesso a crédito (SERAFIM, 2007a).
Adicionado a isso, a falta de acompanhamento e de avaliação dos
projetos, a visão neutra da C&T, conforme veremos a seguir, a
baixa integração das ações, a dificuldade para entender os
processos produtivos,
a falta de parcerias mais sólidas e de outra natureza com as
universidades, municípios e agências de desenvolvimento local de
tipo público-privado termina por caracterizar numa política frágil.
Esses e outros pontos foram levantados por Daniel Arroyo, secretário
de políticas sociais e desenvolvimento humano no 2º Encontro do Fórum
Federal de Pesquisadores e Docentes realizado pelo MDS em 2004.
Todavia, apesar do avanço em alguns pontos, não diagnosticamos uma
efetiva mudança na totalidade dos pontos apresentados.
O
MDS conta com o INAES e INTI, como já foi mencionado, para executar
o plano manos a la obra e
a política de promoção do cooperativismo. Contudo ambos
ressaltaram, inclusive o INAES (órgão especializado em
cooperativismo), que só foram chamados a participar depois que o
plano estava conformado, como veremos a seguir.
INAES
e INTI: dois organismos na tentativa de promover a política
cooperativista
O
órgão responsável por assessorar essa política forçada de criação de cooperativas é o INAES.
Este organismo é vinculado ao MDS e tem como objetivo
atender as cooperativas (seja de usuários ou de proprietários) e
as mutuais (prestadoras de
serviços), no intuito de assessorá-las (na criação de
personalidade jurídica e na obtenção de financiamento), dando condições
de serem autônomas e competitivas.
Mais que isso, ele tem o propósito de formular políticas e ações
a fim de fomentar a consolidação de uma Economia Social
argentina, baseada na cooperação, na ajuda mútua e na promoção
social.
Sobre
as possibilidades de autonomia das cooperativas, o INAES reconheceu
que caso o apoio financeiro dado pelo Estado seja retirado das
cooperativas por eles criadas, imediatamente as mesmas cairiam.
Mais uma vez, assim como colocamos em outros artigos [Novaes e Lima
Filho, 2006; Dagnino e Novaes, 2005] as propostas de Adequação Sócio-Técnica
nas cooperativas demandariam um tempo muito maior do que o
estipulado pelos órgãos de governo, em geral pensando que resolverão
o problema da independência das cooperativas em 4 anos, isso para não
falar nada sobre as possibilidades de independência das mesmas num
contexto onde as grandes corporações transnacionais não viveriam
sem o Estado.
Entretanto,
apesar dos objetivos da instituição, o INAES vem prestando apenas
assessoria burocrática às cooperativas populares (reconhecimento
de personalidade jurídica às cooperativas e mutuais; controle e
fiscalização do funcionamento, bem como, da dissolução e liquidação
das cooperativas e mutuais; e orientar na obtenção de
financiamentos), quase não participando ou formulando das políticas
e ações que dizem respeito ao cooperativismo.
Passando
ao quarto ator social, o INTI, ele foi responsável por configurar
um “enfoque tecnológico” nas PGTRs. Nas palavras do presidente
da instituição Enrique Martínez - em entrevista realizada no dia
03/03/07 - “por 46 anos a política do INTI sempre foi ortodoxa,
visando a política industrial e a melhor técnica. O instituto
nunca havia cogitado a idéia de se ocupar do tema da inclusão
social por meio da tecnologia”.
A
partir de 2003, após longo diálogo com o MDS e MTEySS para
explicar-lhes o quão necessário era o enfoque
tecnológico nas PGTRs, o tema de Economia Social foi
incorporado na pauta do INTI. Com isso, o instituto passou a dar
apoio tecnológico (orgware, hardware e software) às Fábricas
Recuperadas e às Cooperativas, por meio de projetos de extensão.
Observa-se nesse diálogo,
uma oferta forçada por
parte do INTI e não uma demanda endógena por parte do MDS e do
MTEySS, o que evidencia que os outros ministérios não conseguem perceber
a necessidade de um enfoque tecnológica para a questão da geração
de trabalho. Além disso, conforme já vimos, esta ausência de diálogo
também reflete a falta de planejamento do todo na construção da
política pública.
Não podemos desprezar também que estes ministérios foram ocupados
por diferentes grupos que tem pouca simpatia um pelo outro.
Essa
oferta forçada de apoio
tecnológico tem sua origem, em maior medida, tanto na conscientização
do presidente do INTI e da sua equipe, quanto na demanda tímida, não
organizada e pontual por parte das Fábricas Recuperadas e
Cooperativas Populares que pressionaram esta instituição a lhes ajudar.
Indiretamente, a conjuntura sócio-econômica influenciou a criação
desta política pública de apoio tecnológico desenvolvida pelo
INTI.
Apesar
de todos os problemas, é forçoso reconhecer que o simples fato do
INTI buscar inserir o enfoque tecnológico numa pequena parcela das
PGTR já é um avanço, no sentido de buscar uma política que passe
a inserir o tema da tecnologia na PGTR.
Nota-se
que o enfoque tecnológico existente seja na política de promoção
do cooperativismo ou de forma mais geral, na PGTR, é oriundo da
consciência dos presidentes do INTI ou do INTA, no caso da
agricultura familiar ou da pequena agricultura (SERAFIM, 2007a). De
resto, qualquer enfoque ou demanda tecnológica que possa surgir é
oriundo de ONGs ou de Universidades que tentaram assessorar
principalmente as Fábricas Recuperadas. Infelizmente, na maioria
dos casos, não é intrínseca ao desenho da política e ao
entendimento dos formuladores de política.
Sobre
o papel dos movimentos sociais empenhados na construção da política
cooperativista, não são poucos os pesquisadores que afirmam que
Kirchner cooptou o movimento social. Apesar da Argentina ter uma
tradição cooperativista muito forte, os militares e a década de
1990 ou extirparam as mesmas ou as deixaram à margem. Os movimentos
sociais que surgiram posteriormente que tem como bandeira o
cooperativismo ou foram cooptados pelo governo Kirchner ou não
conseguiram materializar suas propostas em alguma política pública
efetiva.
A
baixa interação entre Política Científica e Tecnológica e Política
de Geração de Trabalho e Renda
A
visão dos gestores públicos das PGTR sobre a necessidade de interação
com a PCT é baixa ou nula. Na tentativa de entender a baixa
ou nula interação entre as duas políticas na Argentina partimos
de quatro suposições verificadas no Brasil, em outras pesquisas,
ainda em andamento (SERAFIM, 2007a; Serafim, 2007b). A primeira é a
de que a necessidade de interação entre PGTR e PCT nunca foi
explicitada, ocasionando a não-tomada de decisão pelos policy
makers. A segunda é a de que a necessidade foi explicitada, mas
não houve nenhuma proposta de interação. A terceira suposição
é a de que os policy makers,
baseados na visão hegemônica da neutralidade da ciência e do
determinismo tecnológico (DAGNINO, 2007), não entendem a necessidade de haver uma interação entre as duas políticas.
A quarta e última suposição vem ao encontro da terceira, mas tem
um menor peso na determinação da PCT. Ela se refere ao fato de que
países periféricos formulam sua PCT imitando as PCTs dos países
centrais ou de capitalismo avançado.
O
fato de adotarmos uma postura baseada na concepção neutra da ciência
e no determinismo tecnológico cria-se uma PCT alienada e incompatível
com a realidade dos países periféricos, neste caso a Argentina, e
com isso, incoerente com a PGTR.
Como
a interação entre PGTR e PCT é uma via de mão dupla, o não
entendimento de que as duas políticas devem estar interagindo também
ocorre pelos policy makers responsáveis pela formulação da política de
trabalho, e assim, da política de promoção do cooperativismo. Aliás,
a não-percepção por parte deles causa maior impacto na construção
da PGTR, tendo em vista, a seriedade da exclusão
social. A falta de um enfoque científico-tecnológico à
questão do cooperativismo ou, em maior medida, à questão da geração
de trabalho e renda dificulta a sustentabilidade dessa política. Sendo assim, a segunda hipótese sobre a nula
interação ou baixa interação forçada entre as políticas é visível
na filosofia da política pública para a promoção do
cooperativismo na Argentina, assim como supomos ser no Brasil, tema
da dissertação de mestrado de um dos autores.
Considerações
Finais
A
proposta deste artigo foi a de explicitar qual a visão hegemônica
que circunda a filosofia da política pública de cooperativismo no
governo Kirchner, a visão dos ministérios que promovem o
cooperativismo, além de mostrar a baixa ou nula interação com a
PCT.
Vimos
que Argentina foi desmantelada, primeiramente pelos militares, em
seguida na década de 1990 e depois com o Governo Kirchner, que
elevou a superexploração dos trabalhadores. Se um dia a Argentina
conseguiu se diferenciar do resto da América Latina, podemos dizer
que agora somos todos latino-americanos.
Ao
analisarmos a construção das políticas PPGTR e PCT, três fatores
confirmaram nossas duas hipóteses sobre a visão que está por trás
da política cooperativista.
O
primeiro fator é a arbitrariedade na formulação da política. A não
participação dos institutos parceiros da política (INAES e INTI)
e a baixa participação de representantes das cooperativas e
mutuais nos mostra a construção de uma política top-down.
O segundo fator é o repasse de recursos para a criação forçosa
de cooperativas, a fim de cumprir a resolução nº 2038/2003. E o
último fator tem a ver com a força da tecnologia convencional,
introjetada na mente da esquerda. Para o nosso caso, se materializa
na falta de entendimento
pelo MDS e INAES sobre a necessidade de uma outra base cognitiva
tecnológica para as cooperativas, o que redunda numa política pública
pouco eficaz. A baixa interação entre a PCT e a política de
cooperativismo confirma nossa segunda hipótese.
Uma
PCT para a promoção do cooperativismo demandaria primeiro, que ela
deixasse de ser marginal e passasse a ser a locomotiva
da PCT dos países periféricos. Enquanto ela não for promovida,
junto às outras políticas públicas, a PGTR estará fadada ao
insucesso. Ao invés de promover tecnologias e qualificar
pessoas para as grandes corporações que têm em vista a acumulação
de capital, esta nova PCT estaria engajada na produção de bens
socialmente úteis e na autogestão das fábricas. Se isto ocorrer,
haverá a necessidade de formação de engenheiros, economistas,
sociólogos do trabalho, etc incumbidos de ajudar os trabalhadores a realizar mudanças e até mesmo a criação
de novo maquinário, mudanças na organização do processo de
trabalho, na repartição do excedente, além da criação de
produtos voltados para a satisfação das necessidades humanas do
povo latino-americano.
Nossas
pesquisas no INTI nos mostraram que o conhecimento dos assessores
está impregnado pela visão de heterogestão, da acumulação de
capital etc e não da autogestão, o que nos leva a crer que há a
necessidade de uma PCT voltada para a formação de um novo tipo de
assessores (NOVAES, SERAFIM, DAGNINO, 2007).
A
união destes três fatores reitera a grande hipótese de que a
promoção do cooperativismo está pautada na idéia de contenção
social ao desemprego em massa, em função dos grupos de poder
que permanecem ditando as linhas do Governo Kirchner. Ficamos com a
impressão de que a visão hegemônica do governo, ao menos no campo
das relações de trabalho, é a da meta que tenta recompor a taxa
de emprego blanqueado (trabalhadores
com carteira assinada), a velha relação patrão empregado em
empresas convencionais. Enquanto isso, o cooperativismo tem uma função
marginal, como uma espécie de colchão
amortecedor exótico, já que a crise exige que apostemos em tudo, diriam reservadamente as vozes hegemônicas que
ditam a PGTR.
Como
diz o ditado popular, ações são mais do que palavras. Apesar da
retórica do governo sobre a geração de trabalho e renda através
de uma nova economia, a economia social, as ações não nos
mostraram a mesma intenção.
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por
HENRIQUE T. NOVAES,
MILENA SERAFIM
& RENATO DAGNINO
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