por
SANDRA
MARA MEZALIRA
Bióloga e mestranda em Educação nas Ciências
– Unijuí/RS - Bolsista Capes.
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A
perspectiva da complexidade na compreensão da relação Ciência,
Tecnologia e Sociedade (CTS) no ensino de Ciências Naturais
A
Ciência moderna é apresentada, na maioria das vezes, em suas
partes distintas ou especializadas, tanto na formação de
pesquisadores da área quanto de professores desse componente
curricular na Educação Básica. Já o ensino de Ciências Naturais
(Biologia, Química e Física) nas escolas vem sendo alvo de muitos
questionamentos quanto aos procedimentos metodológicos que são
adotados para o desenvolvimento dos conteúdos e conceitos com os
estudantes.Uma das inquietações maiores está em, como
desenvolver/tratar com os estudantes e professores, os temas sociais
como, por exemplo, a transgenia, as células-tronco e outros temas,
que envolvem a Ciência e a Tecnologia, sem refletir sobre suas
implicações sociais?
Sob
esse ponto de vista, uma das preocupações do texto é refletir o
tema CTS na perspectiva da complexidade, ou seja, mostrar que quando
estudamos os fenômenos naturais eles precisam ser vistos numa outra
ótica, o da complexidade como uma possibilidade de compreensão dos
mesmos. Perceber as relações existentes entre a tríade CTS, quais
as implicações sociais da Ciência e Tecnologia é um fato
pertinente nesse trabalho.
Para
isso, o texto trata inicialmente sobre o ensino-aprendizagem em Ciências
Naturais sob o ponto de vista cartesiano, mas mostra também
propostas inovadoras que buscam melhorar essa maneira de ver o
mundo. Logo depois, traz a complexidade, a inter/transdisciplinaridade
como possíveis características importantes para a compreensão dos
fenômenos naturais. E por último, a complexidade, inter/transdisciplinaridade
aliadas ao estudo dos aspectos CTS.
O paradigma cartesiano no ensino de Ciências Naturais
Estudos
(MALDANER; ZANON, 2004), mostram insuficiências na aprendizagem de
conceitos e conteúdos pelos estudantes, por isso propostas metodológicas
curriculares como a Situação de Estudo (SE), são produzidas e
desenvolvidas para a Educação Básica. A SE tem como propósito,
além de acatar a possibilidade disciplinar que também é
fundamental, considera o caráter interdisciplinar aliado à vivência
dos estudantes, a evolução conceitual e sua significação no
percurso das aulas, a formação inicial e continuada de professores
e a compreensão da relação entre conhecimento científico, novas
tecnologias e a sociedade (ARAÚJO et
al, 2005). Acreditamos que essa metodologia de trabalho possa
permitir um avanço no ensino-aprendizagem nos espaços formais e
informais.
Trazemos
inicialmente para a reflexão o documentário “O
Ponto de Mutação” (vídeo), baseado no livro com
o mesmo nome do físico austríaco Fritjof
Capra (1986), que retrata a vida sob os aspectos biológicos,
físicos, sociais, políticos e poéticos, entre outros. Estes são
apresentados sob o ponto de vista mecanicista e holístico.
Consideraremos a teoria derivada do Método de Descartes, que
explica a visão mecanicista, a natureza e seus fenômenos, portanto
funcionando como máquinas, que se compõem
de partes. As máquinas possuem um conjunto de peças, com
funções específicas, que poderão ser compreendidas quando
desmembradas e que, quando somadas, constituem novamente o todo
inicial. Acreditamos que essa idéia de máquina possa estar
relacionada com o pensamento tradicional de Ciência no que diz
respeito aos conteúdos e conceitos desenvolvidos nas escolas ainda
hoje.
O
diálogo do documentário destaca com ênfase essa concepção
mecanicista ao trazer a figura de uma árvore como exemplo de análise,
ou seja, cada parte funciona independentemente do restante: as raízes
nada têm a ver com o funcionamento do caule e das folhas. As raízes,
no entanto, absorvem os sais minerais e a água, o caule e os ramos
conduzem as substâncias e as folhas absorvem o gás carbônico,
para realizar a fotossíntese e liberar o oxigênio. Logo, uma parte
complementa a outra para garantir a vida das plantas e dos demais
seres vivos.
Essa
metáfora servirá como reflexão sobre o ensino de Ciências
Naturais desenvolvido hoje. A hiperespecialização dos saberes
advindo desse processo é uma realidade na área, pois cada vez mais
procuramos saber tudo sobre uma pequena parte.
Especializamo-nos em
citologia (estudo da célula), que é um ramo da Biologia, mas,
sabemos pouco sobre outros ramos, como a Botânica, a Zoologia, e
menos ainda de outras ciências, como a Química, a Física, que
permitiriam compreender melhor os fundamentos desse estudo. “Assim
como ao se descer num poço a percepção do terreno ao redor vai se
tornando mais e mais difícil, o conhecimento especializado pode
conduzir a uma falta de percepção do contexto em que tal
conhecimento foi produzido. Pode conduzir, portanto, a distorções
ao tratar das implicações desse conhecimento” (D’AMBROSIO,
2001: 76).
Nas
instituições escolares e no dia-a-dia das pessoas está ainda
muito presente esta visão cartesiana, ou seja, a fragmentação, a
linearidade, a descontextualização dos conteúdos e conceitos
escolares, os quais se apresentam, conforme Giordan “sem ligação
com a realidade vivida, sem perspectivas pessoais ou sociais e,
sobretudo sem um mínimo questionamento prévio, esses saberes são
jogados na vida dos estudantes como moscas que caem no prato da
merenda escolar”. (2002: 226).
Cada
vez faz-se mais presente nos meios educacionais a convicção de que
temos de avançar para que as vivências e opiniões que os
estudantes trazem para a sala de aula, ou seja, os conhecimentos
provenientes do “senso comum”, ou da sua realidade social, sejam
empregados para a compreensão dos conceitos científicos. “Não
importa que esses conceitos (do cotidiano) sejam diferentes daqueles
(científicos) que a escola ensina. Ambos são importantes no
trabalho pedagógico, pois nele se enriquecem mutuamente, conforme
pressupostos de Vigotski” (MALDANER; ZANON, 2004: 52).
Nesse
sentido, a proposta curricular de SE busca repensar o processo de
ensino-aprendizagem tradicional, por meio do desenvolvimento de
algumas características, dentre elas, a inter-transdisciplinaridade
nas aulas de Ciências Naturais, pois se acredita que os fenômenos
naturais sejam eles biológicos, físicos, químicos, sociais ou
mentais, não têm sentido real se não forem compreendidos na sua
especificidade e na sua complexidade.
A complexidade, a interdisciplinaridade e a
transdisciplinaridade
Edgar
Morin ao formular a Teoria da Complexidade sugere a
interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade como estratégias
cognitivas para analisar e compreender a realidade do mundo. Esta
também é uma preocupação dos educadores de Ciências Naturais em
função, justamente, do que está se ensinando para os estudantes e
o que eles estão aprendendo.
O
conceito de complexidade é definido pelo autor como “aquilo que
está tecido junto, aquilo que está ligado”, ou seja, são interações
que caracterizam os fenômenos bio-físico-culturais, mas que também
têm suas incertezas, pois nada é absoluto na ciência.
Segundo Morin (2000: 59),
“conhecer e pensar não é chegar a uma verdade absolutamente
certa, mas dialogar com a incerteza”. Martinazzo (2004) considera
que o conhecimento nunca é algo fechado e pleno, mas aberto e
recorrente, uma vez que a natureza em si está em constante renovação/evolução,
e, portanto, a ciência também não é algo absoluto, mas provisório.
A
compreensão da complexidade possibilita visualizar a simplicidade
(disjunção e redução) como “um paradigma que põe ordem no
universo e expulsa dele a desordem [...] vê quer o uno, quer o múltiplo,
mas não pode ver que o Uno pode ser ao mesmo tempo Múltiplo” (MORIN,
1990: 86).
Há
uma tendência nas ciências em querer separar as estruturas e as idéias
para poder estudá-las, ou seja, tirar o objeto de seu contexto para
poder pesquisá-lo. Tenta-se atomizar, reduzir tudo que existe, por
exemplo, estudar os organismos, as células, as substâncias, as moléculas,
os átomos, os elétrons... Uma forma de desconectar o que está
junto, ou seja, analisar as partes separadamente, em vez de considerá-las
no seu conjunto e na sua relação entre parte-todo, pode ocorrer
quando um biólogo tenta classificar os seres vivos, colocá-los em
seus “devidos lugares”, conforme as suas características
(VASCONCELOS, 2005). Para esta autora, pelo princípio da
estabilidade o mundo é considerado estável, ordenado, em que tudo
tem uma causa e um efeito, ou seja, é linear, objetivo, manipulável
e previsível. E no princípio da objetividade é possível conhecer
o mundo assim como ele é. O observador se distancia de sua
pesquisa, fica de fora dela, ou seja, longe do objeto, para ter uma
visão abrangente e sem interferências. É ter “realismo
do universo” (VASCONCELOS, 2005). Essa maneira de pensar
engessa as observações e compreensões construídas pela Ciência
tradicional.
É
muito difícil pensar a complexidade para quem vive a simplicidade,
mas sempre estudaremos com o “objeto em contexto”, “depois de
termos separado muito bem o sistema nervoso do sistema digestivo, é
extremamente assustador encontrar neurotransmissores no sistema
digestivo e hormônios digestivos no sistema nervoso”
(VASCONCELOS, 2005: 111). Isso é a complexidade, que não víamos
até então porque nos ensinaram assim.
“[...] a inteligência que só sabe separar fragmenta o
complexo do mundo em pedaços separados, fraciona os problemas,
unidimensionaliza o multidimensional. Atrofia as possibilidades de
compreensão e de reflexão, eliminando assim as oportunidades de um
julgamento corretivo ou de uma visão a longo prazo” (MORIN, 2000:
14).
Giordan,
ratificando o pensamento da complexidade, estuda o organismo humano
e reforça a necessidade da interligação dos saberes afirmando
que: “[...] todas as células – nosso corpo possui mais de
60.000 bilhões – dependem da regulação da água. Além do mais,
tudo está interligado: gerenciando a água, o organismo gerencia a
concentração dos diversos sais minerais, o pH, a pressão
arterial, a temperatura e a velocidade de reação das enzimas, o
metabolismo, portanto. Nosso corpo é um conjunto tão complexo que
é inconcebível sem uma regulação de suas diversas funções”
(2002: 231).
No
organismo humano tudo se comunica com tudo, mas não de qualquer
maneira. “Cada rede de comunicação tem suas vantagens e seus
limites. [...] diante de um perigo imediato, é a de o organismo
reagir brutalmente por uma mensagem nervosa e cultivar depois, pela
duração necessária, a emissão de mensagens hormonais” (GIORDAN,
2002: 235). São interações biológicas, químicas e físicas
ocorrendo ao mesmo tempo com as partes e com o todo, “é o todo
que realiza a relação das partes entre elas enquanto partes, de
forma que, fora do todo, não há partes” (238). Por isso, estudar
os conteúdos das Ciências Naturais separadamente, como apresentado
em alguns livros didáticos, e muitas vezes nas discussões em sala
de aula, é uma concepção tradicional, pela qual não se consegue
notar a ligação existente entre os
conteúdos das áreas das Ciências Naturais e até sociais,
presentes no estudo de células, de tecidos, de órgãos, de enzimas
e assim por diante. “Na escola primária nos ensinam a isolar os
objetos (de seu meio ambiente), a separar as disciplinas (em vez de
reconhecer suas correlações), a dissociar os problemas, em vez de
reunir e integrar. Obrigam-nos a reduzir o complexo ao simples, isto
é, a separar o que está ligado; a decompor, e não a recompor; e a
eliminar tudo que causa desordens ou contradições em nosso
entendimento” (MORIN, 2000: 15).
É
necessário, pois, pensar que “a interdisciplinaridade pode
significar, pura e simplesmente, que diferentes disciplinas são
colocadas em volta de uma mesma mesa, como diferentes nações se
posicionam na ONU [...]. Mas interdisciplinaridade pode significar
também troca e cooperação” (MORIN, 2000: 115), o que tentamos
desenvolver. Assim sendo,
a inter/transdisciplinaridade e a complexidade parecem suscitar a
elaboração de propostas curriculares como a Situação de Estudo
(SE), que satisfaçam este pressuposto, ao conceber o sujeito
(estudante, professor, comunidade escolar) e o seu contexto como
fundamentos dessa relação.
Morin
(2003: 138) esclarece ainda que a interdisciplinaridade, por si só,
não é capaz de romper com as barreiras disciplinares, cada vez
mais soberanas, em que cada disciplina reina como se fosse a única
a se fazer reconhecer. Assim, o autor busca a transdisciplinaridade
como uma possibilidade de intercambiar conceitos e conhecimentos.
Segundo
Martinazzo (2004: 92),
“O olhar transdisciplinar busca contextualizar os conceitos,
observando os diferentes e múltiplos vieses na apreensão da
complexidade dos fenômenos e dos objetos observados”. O autor
ainda faz referência aos conceitos de inter
e transdisciplinaridade: “A interdisciplinaridade se caracteriza
por uma comunicação e, até mesmo, colaboração entre as
diferentes disciplinas, mantendo-se, porém, cada uma com e em sua
especificidade. Já na transdisciplinaridade realiza-se um
verdadeiro intercâmbio e uma transrelação nos diferentes níveis
de conhecimento. Ela rompe e supera as barreiras e as fronteiras que
delimitaram os conhecimentos em territórios fechados” (95).
Nesse
sentido acreditamos que por meio da complexidade, da inter/transdisciplinaridade
e da valorização da vivência do estudante no ensino de Ciências
Naturais e, portanto, no currículo escolar, será possível uma
maior compreensão sob a perspectiva CTS e a necessidade de
desenvolver este propósito com os estudantes. É uma interação
necessária e complexa no mundo de hoje, em que a Ciência e a
Tecnologia, muitas vezes, envolvem e/ou influenciam o modo de vida
das pessoas de maneira extremamente contagiante. É preciso
compreender que a Ciência e a Tecnologia não são distintas do
social, como, as relações com o meio ambiente.
Assim
sendo, “devemos ‘ecologizar’
as disciplinas, isto é, levar em conta tudo que lhes é contextual,
inclusive as condições culturais e sociais, ou seja, ver em que
meio elas nascem, levantam problemas, ficam esclerosadas e
transformam-se” (MORIN, 2000: 115).
Complexidade e compreensão da relação CTS
Conforme
Morin (2000) há muito tempo a sociedade industrial está organizada
na forma de um modelo “mecanoprodutivista
do positivismo”: o progresso científico levaria ao progresso
técnico, este ao desenvolvimento econômico e, por fim, ao
progresso sociocultural.
Essa
concepção de ciência envolveu as pessoas de tal maneira que elas
acreditaram e muitas ainda acreditam que a Ciência e a Tecnologia
provocam somente o bem - estar social e a felicidade de todos, sem
medir a repercussão e as conseqüências negativas advindas dessa
forma de fazer e pensar o mundo. O “bem
- estar social” fez com que a maioria das pessoas
“tomasse” a ciência como um “deus”, que fosse resolver
todos os seus problemas, conforme afirmam Santos e Mortimer:
“Passaram a confiar na ciência e tecnologia como se confia em uma
divindade [...] Como conseqüência do cientificismo que emerge
desse processo, a supervalorização da ciência gerou o mito da
salvação da humanidade, ao considerar que todos os problemas podem
ser resolvidos cientificamente” (2002: 1).
Nem
todos os problemas, entretanto, podem ser resolvidos
cientificamente. O conhecimento científico e tecnológico, estudado
como algo desvinculado da realidade, sem relação com as questões
sociais, é uma forma que a ciência encontrou de manipular,
objetivar, ou seja, controlar o mais possível para a exatidão, a
verdade do que se deseja.
Constata-se
que os fenômenos naturais são complexos, uma teia de relações
que se não compreendida, percebida dessa maneira, “desintegrará
a complexidade do real” (MORIN, 1990) e estará sendo
simplificadora.
O
estudo das relações CTS é uma das questões que precisam ser
abordadas e analisadas nestas relações, para que consigamos
perceber a realidade como sendo complexa, ou seja, perceber as conexões
e relações da realidade com um olhar não apenas disciplinar, mas
transdisciplinar.
Assim,
apesar da boa intenção, nem sempre a Ciência e a Tecnologia
produzidas foram benéficas. Vários são os interesses de poder que
estão em jogo, principalmente no que se refere aos interesses econômicos,
como destaca Iglesias: “C&T é usada hoje na conquista de
novos mercados e na produção de novos produtos que acelerem o
ciclo de absolescência característico da sociedade de consumo.
[...] grandes investimentos são realizados na área de informática,
onde famílias de computadores se tornam absoletas em poucos anos.
[...] As pesquisas sobre a Aids não têm tampouco uma finalidade
puramente humanitária; as indústrias químicas e farmacêuticas
esperam faturar bilhões de dólares com a produção de remédios
e/ou uma vacina para a doença” (1989: 166).
Temos
uma noção de que a construção do conhecimento científico e
tecnológico e o seu rápido avanço nos trouxeram muitas
“regalias”, tais como a engenharia genética com a possibilidade
de curar doenças e prever o futuro delas, a clonagem terapêutica,
o melhoramento genético das plantas e dos animais (transgênicos),
as células-tronco com a possibilidade da especialização destas células
em outras (regeneração de órgãos e reprodução de outros). Isso
sem mencionar as outras novidades da Ciência e da Tecnologia, na área
da computação, na área da eletroeletrônica, na área da Química,
da Física... Ao mesmo tempo em que ultrapassou os seus limites de
bondade e mostrou também um outro lado, que modificou
significativamente as relações entre os sujeitos e destes com o
meio, provocando a dizimação imediata ou em longo prazo de espécies
animais e plantas, modificações da paisagem, como desvio de rios e
montanhas. Para efeito de exemplificação podemos citar a degradação
ambiental efetivada também pelo armamento químico (as bombas),
biológico; as indústrias, os carros, exalando poluentes na
atmosfera causadores de vários problemas como o aquecimento global,
efeito estufa e as conseqüências disso na natureza; a produção
de alimentos com conservantes sintéticos, que podem com o tempo
levar ou não ao desenvolvimento de doenças ou alterações, mutações,
pois não temos tanta certeza do que isso pode ocasionar no futuro.
Em
parte a escassa reflexão sobre a forma e o modelo do conhecimento
produzido traz algumas conseqüências negativas para as nossas
vidas e nos remete a analisar como e quando essas questões devem
ser discutidas pela população em geral. Isso é fundamental para
que as pessoas sejam científica e tecnologicamente “formadas”
de modo a perceber problemas daí decorrentes e construir soluções
conscientes e referenciadas. É preciso habilitar as pessoas para o
tipo de ciência que está sendo produzida, para que elas também
possam ter o poder de decidir o que e até quando a ciência nos
beneficia ou nos prejudica, seja na área da saúde, na informática,
ou seja, em todos os aspectos. Estes, entre outros problemas
advindos do conhecimento científico e tecnológico, nos preocupam,
uma vez que urge o descobrimento de soluções imediatas, sob pena
de as próximas gerações tenderem ao extermínio não só como
conseqüência das guerras.
Várias
perguntas emergem quando pensamos o ensino de Ciências Naturais: os
estudantes estão sendo alfabetizados científica e
tecnologicamente? Para que fins a ciência e a tecnologia são
inventadas e designadas? A Ciência e a Tecnologia são percebidas
na relação com a sociedade e as temáticas sociais? Existem
possibilidades de mudanças? Que concepção CTS queremos
desenvolver?
Há
um pré-requisito indispensável que
precisa ser atendido: uma reforma do modelo de pensamento. “A
reforma do pensamento é uma necessidade democrática fundamental:
formar cidadãos capazes de enfrentar os problemas de sua época é
frear o enfraquecimento democrático que suscita, em todas as áreas
da política, a expansão da autoridade dos experts, especialistas de toda a ordem, que restringe
progressivamente a competência dos cidadãos” (MORIN, 2000:
103-104).
A
temática CTS emergiu de reflexões nos anos de 60 e 70 do século
XX, quando as conseqüências do avanço científico e tecnológico
estavam repercutindo na vida das pessoas, tanto nos seus aspectos
positivos quanto negativos. A
Estrutura das Revoluções Cientificas, de Thomas Kunh, e Silent Spring (Primavera Silenciosa), de Rachel Carson, obras
publicadas em 1962, impulsionaram ainda mais as discussões,
favorecendo o debate político e promovendo a criação do movimento
CTS, que começou a ser considerado na educação básica (AULER et
al, 2001).
Defende-se
aqui a necessidade de uma alfabetização científica e tecnológica
de cunho crítico e participativo nas tomadas de decisão para a
resolução de problemas da Ciência, ao invés da simples transmissão-recepção
de conteúdos e conceitos sem ao menos refletir, significar e
contextualizá-los. Isso será possível talvez na reorganização
curricular como possibilidade de mudança, uma possibilidade de
reflexão sobre a natureza da Ciência, sobre o papel da Ciência,
da Tecnologia, dos temas sociais e suas relações tão complexas.
Alguns
objetivos da perspectiva CTS no currículo escolar são propostos
por Santos e Mortimer (2002): “[...] desenvolver a alfabetização
científica e tecnológica dos cidadãos, auxiliando o aluno a
construir conhecimentos, habilidades e valores necessários para
tomar decisões responsáveis sobre questões de ciência e
tecnologia na sociedade e atuar na solução de tais questões”
(4).
No
momento em que a tríade CTS em muitas situações vem sendo
estudada como conceitos separados e inclusive descontextualizados do
meio em que as pessoas vivem, embora existam grupos de estudos como
o Gipec (Grupo Interdepartamental de Pesquisa sobre Educação nas
Ciências) na Unijuí (Universidade Regional do Noroeste do Estado
do Rio Grande do Sul), que na produção e desenvolvimento de Situações
de Estudo tentam abordar nas aulas de Ciências Naturais essa questão,
a educação para a autoformação da pessoa e sua cidadania por
meio da inter/transdiciplinaridade torna-se um mediador dessa
responsabilidade que é educar para a responsabilidade de sua nação,
e educar para as tomadas de decisão quanto às questões da Ciência
e Tecnologia.
E,
com certeza, essa questão não será de imediato resolvida, mas a
tematização contínua e a elaboração de propostas que a leve em
conta permitirão a compreensão
dessa visão de mundo complexa, que pressupõe superar as
instituições parceladas e fragmentadas,
em que o todo é mais que a simples soma das partes. Há
necessidade de sermos persistentes na mudança para alcançar uma
melhor qualidade de vida e um pensamento “que compreenda que o conhecimento das partes depende do
conhecimento do todo e que o conhecimento do todo depende do
conhecimento das partes” (MORIN, 2000: 88).
A
temática CTS no currículo de Ciências Naturais pode permitir
junto da perspectiva da complexidade, necessariamente, o
envolvimento de uma reflexão sobre a natureza da Ciência, sobre os
valores das atividades científicas, sobre os métodos para a validação
de um conhecimento, sobre a relação com a tecnologia, sobre as
relações da sociedade com o sistema tecnocientífico e vice-versa
e as contribuições desse para a cultura e para o progresso da
sociedade (ACEVEDO et al,
2005: 122-123). A educação científica “debe proporcionar
conocimientos para compreender mejor los mundos natural y artificial
por médio de la indagación, destrezas y habilidades que son
imprescindibles [...] para poder desenvolverse mejor en la vida
cotidiana” (125), para assim poder participar das decisões
tecnocientíficas que afetam os cidadãos.
Enfim,
a complexidade nesse processo é importante, pois possibilita
perceber o enredamento de um problema social sob diversos aspectos,
sejam eles políticos, econômicos, biológicos, químicos e/ou
outros, podendo esclarecer melhor a compreensão do mundo da vida,
que não é compartimentado, estanque, mas complexo.
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