por
LEANDRO
KONDER
Filósofo
marxista brasileiro. Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor da
Universidade Federal Fluminense e da Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro
Nota do editor:
Os
textos desta série foram publicados pelo autor no jornal carioca Tribuna
da Imprensa, ao longo do ano de 1990. No final de cada artigo
é indicada a data de publicação. Os artigos foram reunidos e
publicados em "Intelectuais brasileiros &
marxismo" (Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991).
O autor, a quem agradecemos, autorizou a publicação na REA.
Também registramos o agradecimento ao Prof. Paulo Cunha.
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Intelectuais
Brasileiros & Marxismo
Astrojildo
Pereira (1890-1965)
Se
estivesse vivo, como Astrojildo Pereira estaria reagindo à crise do
socialismo? Como encararia os acontecimentos da Europa oriental?
Qual seria a sua reação diante da imagem mostrada na televisão do
guindaste que removeu a imensa estátua de Lênin?
Nascido
em 1890, na cidade de Rio Bonito, no Estado do Rio de Janeiro,
Astrojildo estaria completando um século de vida. E estaria vendo
coisas que nem sm seus piores pesadelos podia ter imaginado.
Imagino
o constrangimento, a perplexidade do sereno e discreto fundador do
Partido Comunista do Brasil. Relembro seu vulto franzino, já
velhinho, pouco antes de morrer, usando uma boina escura para
proteger a calva. Revejo a expressão suave mas teimosa do seu
olhar, acostumado a enfrentar todos os tipos de tempestade. E torno
a me perguntar: o que ele acharia dessa tempestade de agora?
Infelizmente,
Astrojildo não está presente entre nós, no momento em que
transcorre o seu centenário. Não podemos saber o que ele faria, o
que ele diria.
Quando
penso no vigor da sua fé, entretanto, sinto-me tentado a assegurar
que o veterano lutador reiteraria sua confiança absoluta na causa a
que servia. Tenho a impressão de que talvez dissesse: “O
socialismo está morto? Então, viva o socialismo!”.
***
Astrojildo
Pereira não nasceu socialista (ao contrário do que poderia parecer
aos que o conheceram mais tarde e que ficavam impressionados com a
total adesão do homem às concepções de Marx e Lênin).
Astrojildo tornou-se socialista.
Antes
de assimilar o “marxismo-leninismo”, foi um moço rebelde,
inquieto e meio moleque, dividido, cheio de dúvidas, que pensou em
se tornar frade, mas ao mesmo tempo (no Colégio Anchieta, de Nova
Friburgo) redigia um jornalzinho pornográfico clandestino.
Abandonou
o curso ginasial no terceiro ano, tornou-se antimilitarista,
republicano e democrata radical. Com o fracasso da campanha
civilista de Rui Barbosa, com a repressão desencadeada contra a
revolta do marinheiro João Cândido e com o fuzilamento do pedagogo
Ferrer na Espanha, Astrojildo foi levado a radicalizar suas posições
e passou a se interessar pelas idéias anarquistas.
Em
1911, partiu num navio, como passageiro de terceira classe, para a
Europa, de onde regressou com uma mala cheia de livros de Kropótkin,
Malatesta, Grave, Faure, Hamon e Bakunin. E a partir de então se
dedicou à difusão do anarquismo em regime de tempo integral.
Trabalhou
em vários dos pequenos jornais que constituíram a “imprensa
alternativa’ da época: A Voz do Trabalhador, Guerra
Social, Spártacus, O Cosmopolita e outros. Para
suprir a falta de colaboradores, desdobrou-se em numerosos pseudônimos,
tais como Aurélio Corvino, Pedro Sambê, Tristão, Cunhambebe, Alex
Pavel, Astper, etc. Chegou até a polemizar consigo mesmo, usando os
colaboradores que tinha inventado para animar as publicações,
tornando-as mais interessantes.
De
1918 a 1921, o anarquismo viveu um período de crise interna.
Astrojildo, inicialmente, defendeu com paixão os ideais ácratas,
definindo-se como “um intransigente libertário”. Ganhou um
premio em dinheiro na loteria e fez uma doação de vários contos
de réis para o jornal anarquista A Voz do Povo.
Pouco
a pouco, porém, o anarquista convicto passou a rever as teorias que
serviam de base às suas convicções políticas e filosóficas. Sob
o impacto das conseqüências da revolução leninista em escala
mundial, fascinado pelo que estava acontecendo no recém-fundado
Estado bolchevista, acabou aderindo ao comunismo e participou
decisivamente da preparação da criação do Partido Comunista do
Brasil, em 1922.
A
opção de Astrojildo Pereira pelo comunismo deixou mágoas
profundas em alguns dos companheiros anarquistas que não o
acompanharam. Em José Oiticica, por exemplo, tais mágoas ainda
estavam vivas em 1956, quanto ele se referiu, num artigo, aos danos
causados ao movimento anarquista pela “intromissão sorrateira,
venenosa, nefasta, do bolchevismo, operada, sem nenhuma ciência
minha nem dos militantes anarquistas mais conscientes, pela cavilação
manhosa de Astrojildo Pereira”.
Oiticica,
evidentemente, subestimava os diversos outros anarquistas que se
tornaram comunistas, considerando-os demasiadamente influenciáveis,
desprovidos de motivações próprias. Em certo sentido, porém, o
combativo intelectual anarquista também estava prestando uma
homenagem a Astrojildo, quando atribuía à sua influência pioneira
o esvaziamento do anarquismo em 1921-1922. O próprio Astrojildo,
com sua natural modéstia, jamais se atribuiria um papel tão
destacado.
Astrojildo
sempre primou pela discrição, pela modéstia. Quando o PCB foi
fundado, a maioria dos comunistas já o reconheciam como líder. Mas
ele preferiu ficar em segundo plano e apoiou Abílio de Nequete para
o posto de secretário-geral (e só assumiu o comando da agremiação
quando Nequete renunciou, poucos meses depois).
Heitor
Ferreira Lima, que o conheceu em 1923, descreveu-o mais tarde, com
simpatia: “Calmo, sério, falando sem pressa, tinha prosa agradável
e variada. Jovial e simples, apreciava anedotas, bebendo às vezes
cerveja, nos encontros de cafés com os companheiros”.
Polemizou
com ex-companheiros de militância anarquista e se esforçou para
levar o Partido Comunista do Brasil a ser oficialmente reconhecido
pela Internacional Comunista (reconhecimento necessário para lhe
assegurar a sobrevivência).
Ao
longo dos anos vinte, foi gradualmente esboçando na orientação
política do seu partido um movimento capaz de tirá-lo do
isolamento, capaz de lhe permitir pôr em prática uma política de
alianças um pouco menos estreita do que aquela que vinha sendo
seguida. Fez um acordo com o professor positivista Leônidas de
Rezende para que os comunistas utilizassem o jornal diário A Nação
em seu trabalho de propaganda. Organizou o Bloco Operário e Camponês
(BOC) para participar das eleições. E procurou Luís Carlos
Prestes na Bolívia, levando-lhe literatura comunista, para tentar
atrair o comandante da “Coluna Invicta”.
Num
dado momento, a vinculação com a Internacional Comunista, que na
cabeça de Astrojildo garantia a sobrevivência ao PCB, começou a
ser uma fonte de graves transtornos: um emissário da Internacional,
o lituano August Guralski, veio para o Uruguai e de lá passou a
“enquadrar” os comunistas brasileiros. Astrojildo foi chamado a
Montevidéu para uma reunião, levou um pito, foi obrigado a
dissolver o Bloco Operário e Camponês; em novembro de 1930, foi
destituído de seu posto e mandado para São Paulo: deram-lhe uma
chance de se “reabilitar”, atuando nas bases do partido.
Por
fim, em 1931, depois de muita humilhação, Astrojildo se retraiu,
afastou-se do partido que tinha fundado. Não abandonou em nenhum
momento seus princípios e suas convicções, porém deixou de ter
militância. Foi um tempo triste e sombrio para ele. Felizmente, a
vida lhe proporcionou um consolo: casou-se com aquela que viria a
ser a sua companheira até o final da sua vida, dona Inês, filha de
Everardo Dias, autor da História das lutas sociais no Brasil.
Nos
anos trinta, Astrojildo trabalhou numa empresa dedicada ao comércio
de bananas e arranjou tempo para se dedicar a uma velha paixão: a
literatura. Quando tinha dezoito anos, Astrojildo soube que Machado
de Assis estava morrendo. Resolveu visitar o grande escritor, a quem
dedicava uma admiração enorme. Chegou, foi conduzido ao leito do
agonizante. Não disse nada: se ajoelhou e beijou a mão do mestre.
Depois, se levantou e saiu, em silêncio. Euclides da Cunha, que
relatou o episódio, comentou: “Naquele momento – no meio
segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis
– aquele menino foi o maior homem de sua terra” (Jornal do
Commércio, 30-9-1909).
Nos
anos trinta, Astrojildo escreveu sobre Machado de Assis, lembrou que
ele era não só o mais universal dos nossos escritores como também
o mais verdadeiramente nacional dos nossos romancistas. Recordou a
frase de Machado sobre José de Alencar, dizendo que havia nele
“um modo de ver e de sentir que dá a nota íntima da
nacionalidade”. E observou, com argúcia, que essas palavras se
aplicavam mais ao próprio Machado. Hoje, essa interpretação de
Machado é a que vem prevalecendo entre os melhores críticos; nos
anos trinta, porém, Astrojildo a defendia remando contra a maré.
Astrojildo
nunca pôde desenvolver uma concepção especificamente estética
a partir do marxismo: em geral, limitou-se a empregar as idéias de
Marx no âmbito limitado de uma sociologia da literatura.
Tendia a salientar nas obras, unilateralmente, o valor de documentos
históricos. Não discutia os problemas do universo ficcional, a
criação da fantasia no texto. Apesar dessa limitação da sua
aparelhagem teórica, entretanto, o bom senso e o bom gosto o
ajudavam a distinguir, na arte literária, o que era realmente bom e
o que era ruim. Assinalou os limites artísticos de Joaquim Manuel
de Macedo. Reconheceu as qualidades literárias de Policarpo
Quaresma, de Lima Barreto. E saudou com admiração o
aparecimento de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, em 1938.
Em
1945, teve participação destacada nos trabalhos do 1º Congresso
Brasileiro de Escritores, que exigiu as liberdades democráticas que
vinham sendo negadas pela ditadura de Getúlio Vargas. Depois, pediu
seu reingresso no Partido Comunista, que o aceitou de volta, mas lhe
impôs uma autocrítica dolorosa e injustificada.
Adaptou-se
às características da atividade política do PCB, como ele mesmo
admitiria mais tarde, deixou de lado seu espírito crítico e
praticou o culto da personalidade de Stálin e de Prestes.
Com
a “desestalinização” de 1956, contudo, reanimou-se e retomou a
reflexão, o exame das complicações que a vida estava criando.
Insurgiu-se contra as esquematizações simplistas e sectárias.
Retornou ao seu caríssimo Machado de Assis e lhe dedicou alguns
ensaios reunidos no livro Machado de Assis – Ensaios e
apontamentos avulsos, lançado em 1959 pela Livraria Editora São
José.
Depois
de sua volta ao PCB, Astrojildo dirigiu a revista Literatura
(1946-1848) e a revista Estudos Sociais (1958-1964). E
publicou o livro Formação do PCB, que veio a ser
severamente criticado por seu antigo companheiro de partido, Octávio
Brandão.
A
pendenga era antiga. Mesmo quando atuaram politicamente juntos,
Astrojildo Pereira e Octávio Brandão sempre foram personalidades
radicalmente diversas. Astrojildo era discreto, aberto ao diálogo,
sensível às sutilezas e complexidades da realidade humana; era
jovial, cordato, acessível, indulgente. Octávio Brandão era um
asceta, carismático, presunçoso, ostentava uma cultura que nunca
chegou efetivamente a dominar; simplificava tudo, falava como se
fosse o dono da revolução e era drástico em seus juízos.
Enquanto Astrojildo admirava Machado de Assis, Octávio Brandão o
desprezava e escreveu sobre ele um livro sintomaticamente intitulado
O niilista Machado de Assis (Ed. Organização Simões
Editora, 1958), condenando o nosso maior escritor porque, tendo
vivido ma época de Marx e Engels, ignorou os ensinamentos dos
fundadores do “socialismo científico”...
O
golpe de 1º de abril de 1964 surpreendeu Astrojildo em sua casa, na
Rua do Bispo, 151 (número X), no Rio Cumprido, no Rio de Janeiro.
Ele teve de sair de casa e de mergulhar na clandestinidade. Depois
de uns poucos meses, contudo, a vida clandestina lhe pareceu sem
sentido: apresentou-se voluntariamente ao comandante de um dos IPMs
em que era indiciado. Foi preso e submetido a longos interrogatórios,
pautados pela idiotice daquilo que o humorista Stanislaw Ponte Preta
chamou de Febeapá (Festival de Besteira que Assolou o País).
Fizeram-lhe uma porção de perguntas sobre a fundação do PCB,
sobre os anos vinte, sobre o período em que fora secretário-geral
do PCB. Em janeiro de 1965 (poucos meses antes do seu falecimento),
os carcereiros o soltaram. E ele comentou, com sutil ironia, o
comportamento daqueles que o tinham detido: “São pesquisadores de
um novo tipo. Colocam no xadrez as fontes de informações históricas”.
24-4-1990
KONDER,
Leandro.
Intelectuais
Brasileiros e Marxismo.
Belo
Horizonte: Oficina de Livros, 1991, pp. 13-18.
próximo
>>> Octávio Brandão (1896-1980)
por
LEANDRO
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