por MARGARETE J. V. C. HÜLSENDEGER

Professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre e Mestre em Educação em Ciências e Matemática (PUCRS)

 

Mudanças e novos referenciais na ciência: breves considerações sobre caminhos por ela percorridos

O nosso velho mundo de sólidos objetos concretos está rodeado e impregnado de um mundo fluido de energia radiante, em constante movimento, em constante mutação, como o oceano. (BRENNAN, 1993: 39)

 

Os cientistas são um grupo bastante interessante, até mesmo um pouco excêntrico. Pensam coisas que a ninguém mais ocorreu pensar, vão onde jamais ninguém esteve, mas, paradoxalmente, temem o desconhecido, querendo-o tornar conhecido a qualquer preço. É interessante observar que, quando os físicos não conseguem compreender muito bem algo, eles costumam dar nomes a este algo. Esta técnica permite ao físico deixar de temer aquilo que não consegue compreender, passando a buscar respostas para questões, muitas vezes, incompreensíveis para a pessoa comum.

Esse tem sido o caminho percorrido pela ciência, no mundo ocidental, desde a antiguidade. Os gregos, por exemplo, baseavam suas explicações na observação direta do que ocorria na natureza. A experimentação, com o sentido que lhe atribuímos nos dias de hoje não era considerada indispensável, pois o que importava era a possibilidade da realização de uma investigação apaixonada, mas desinteressada (RUSSEL, 2001).

Essa forma de como interpretar os fenômenos naturais, não mais aceita nos dias de hoje, prevaleceu por séculos. Quando ela começou a apresentar falhas e inconsistências, outras explicações começaram a surgir, iniciando sua própria luta para serem reconhecidas e aceitas.

Galileu é apenas um dos vários exemplos que a história da ciência pode apresentar dessa busca por novas explicações para os fenômenos naturais. Conta-se que, ao convidar os sábios de sua época a olhar através de uma lente de aumento o que se passava na superfície do Sol e da Lua, muitos se recusaram a fazê-lo e outros se negaram a aceitar o que viam. Ou seja, mesmo diante de evidências concretas (as imagens das manchas solares e das crateras lunares) o homem dessa época ainda não estava pronto para aceitar essa nova visão do universo. E, quando as diferenças entre determinadas concepções se tornam inconciliáveis elas, “inevitavelmente travarão um diálogo de surdos ao debaterem os méritos relativos dos respectivos paradigmas” (KUHN, 2000: 144).

Mas prosseguindo na análise de episódios da história da ciência, vamos perceber que muitas das dificuldades encontradas por Galileu naquele período tinham origem no monopólio que a Igreja Católica matinha do que poderia, ou não, ser conhecido pelo homem comum. Segundo Marcelo Gleiser, a Igreja condenava a busca do conhecimento por considerá-lo “pagão”, pois, “O barbarismo que corrompia o corpo era o mesmo que corrompia a mente; qualquer apropriação de informação através dos sentidos decerto só poderia levar à corrupção da alma” (GLEISER, 1997: 95).

Para combater essas idéias, surgem, nos anos seguintes, nomes como Francis Bacon e René Descartes, entre outros. Todos defendendo que a ciência devia começar a caminhar sozinha, descobrindo suas próprias leis e limites de atuação. Caberia ao homem de ciência desnudar a natureza, dissecá-la e observá-la nos seus mínimos detalhes.

A questão que se impunha, na época, era: como conquistar esse espaço?

Bacon preocupou-se em elaborar um novo método científico embasado na experimentação, uma forma de compreensão da natureza apartada da fé, pois, para ele, fé e razão deveriam tratar de suas próprias coisas sem uma se imiscuir com a outra. Já Descartes seguiu um caminho que, basicamente, foi resultado de seu interesse pela matemática. Ele procurou aplicar um método matemático à reflexão filosófica.

Essa foi uma das razões pelas quais, durante muito tempo, as idéias de Descartes foram mal interpretadas: afirmava-se que ele havia negado Deus ou que O havia excluído da ciência e, conseqüentemente, da natureza. No entanto, hoje se sabe que nunca foi a intenção de Descartes negar ou excluir a visão de Deus, ou do divino, da vida do homem. Hoje se compreende melhor que seu objetivo era apenas provocar uma ruptura entre os assuntos ligados à religião e os ligados à ciência.

E assim, procurando sua independência e autonomia, a ciência ocidental acabou dividindo o homem. Segundo Japiassu, “A doutrina cartesiana faz do homem um estranho composto de duas partes justapostas, o corpo e o espírito. Há um fisicalismo para o corpo e um espiritualismo para o espírito” (JAPIASSU, 1991:103, grifos do autor).

Essa ruptura trouxe seus benefícios; no entanto, fez com que o homem ocidental moderno passasse a encarar qualquer manifestação não-física com suspeita e ceticismo extremo. Tudo o que não podia ser explicado pela ciência (e de preferência matematizado) deixou de ter valor ou significado.

Exagero? Talvez. Mas essa foi a forma encontrada pela ciência moderna para conquistar sua autonomia e, simultaneamente, continuar explicando como a natureza se comporta. E é impossível deixar de reconhecer que muito se conquistou e se avançou a partir dessa ruptura.

Entretanto, como nada é definitivo ou permanente, nem mesmo os caminhos descobertos e traçados pela ciência, um novo e estranho universo surgiria para desafiar as mentes mais racionais e deterministas. Um universo inacessível aos nossos cinco sentidos e, portanto, absolutamente inexplorado: o átomo.

Para explicá-lo foram elaboradas novas teorias, algumas aparentemente inverossímeis. O choque ocasionado por essas novas idéias desestabilizou de tal forma as mentes estruturadas dos cientistas, que se começou, inclusive, a questionar o significado do que é real e do que não é. Entretanto, como em tantos outros momentos de ruptura, essas novas concepções não foram imediatamente aceitas. Ao contrário, elas foram contestadas de todas as maneiras possíveis. Segundo T. Kuhn, Na ciência, assim como na experiência com as cartas do baralho a novidade somente emerge com dificuldade (dificuldade que se manifesta através de uma resistência) contra um pano de fundo fornecido pelas expectativas” (2000: 90-91).

Uma das teorias que causou grande alvoroço foi o Princípio da Incerteza ou de Heisenberg. Nele, o físico alemão Werner Karl Heisenberg estabeleceu que “é impossível medir a velocidade de uma partícula e, simultaneamente, determinar a sua posição, sem que a partícula seja influenciada pelos instrumentos de medição [...]” (ABDALLA, 2002: 99). Ou seja, posição e velocidade não são mais grandezas físicas absolutas, elas agora dependem da forma como são observadas. Absurdo, ou uma realidade a ser aceita?

Muitos cientistas de renome, entre eles Einstein e Planck, se insurgiram contra essa e outras idéias igualmente polêmicas. Einstein, em carta a outro físico, Born, chega a afirmar: “Neste caso, preferia ser um sapateiro remendão ou empregado em uma casa de jogos em vez de ser físico” (ibid, 2002: 77). Para ele, esses conceitos não eram Física.

Observa-se, então, que uma antiga disputa volta à tona: o que é ciência e o que não é?

No entanto, apesar de todas as resistências, essas teorias eram o prenúncio do nascimento de uma nova área do conhecimento denominada Mecânica Quântica.

E aqui estamos diante de uma estrutura de pensamento que exige o abandono de certezas que foram nossos referenciais durante toda a nossa existência, em favor de algo que, no momento, está além do nosso entendimento. Um novo campo de batalha estava armado. De um lado, aqueles que continuavam defendendo uma concepção mecanicista, linear e determinista; de outro, os que passaram a defender uma forma de ver o mundo mais abrangente, menos absoluta e nada linear. Essa batalha ainda não foi decidida, mas o inevitável já ocorreu, “como os místicos, os físicos passaram a lidar com experiências não-sensoriais da realidade e, também como eles, tiveram de enfrentar os aspectos paradoxais dessas experiências” (CAPRA, 1988: 26).

Do mesmo modo, o homem passou, novamente, a ter uma alma, tornando-se esse um assunto não só de religiosos, mas também de cientistas. Hoje, muitos deles compreendem a necessidade de se estabelecer uma diferença entre instituições religiosas e espiritualidade. Assim, por exemplo, psicólogos, psiquiatras e terapeutas de diversas correntes já estudam a influência das emoções, dos sentimentos e da espiritualidade na prevenção e cura das mais variadas doenças. O médico e psicoterapeuta Rüdiger Dahlke e o psicólogo Thorwald Dethlefsen defendem, por exemplo, que

Assim, como os processos ocorrem no corpo, da mesma forma acontecem na alma; embaixo, como em cima. Não temos pressa para mudar ou curar seja lá o que for. Ao contrário, vale a pena aceitar tudo o que acontece, pois negar os fatos apenas serviria para relegar de volta à sombra todo esse âmbito de vivências (Dahlke; Dethlefsen, 2004: 79).

Assim, dentro deste novo paradigma, surge uma idéia central: o homem não pode ser mais considerado como apenas um amontoado de átomos e moléculas; ele é, na verdade, um ser único, constituído de um corpo físico, mas também de um corpo espiritual, que se inter-relacionam, não podendo se pensar em apenas um, excluindo o outro. Segundo Gerber: “A conexão invisível entre o corpo físico e as forças sutis do espírito detém a chave para a compreensão dos relacionamentos internos entre matéria e energia” (GERBER, 1997: 37).

Vivemos, portanto, em uma época na qual, talvez estejamos mais preparados para compreender e aceitar questões consideradas polêmicas e até tabus. Uma época na qual se esteja preocupado em desenvolver não só novas tecnologias, mas também a sensibilidade a realidades e verdades pouco perceptíveis e, quem sabe, imensuráveis. A evolução da visão de mundo da ciência ocidental moderna nos demonstra que nada é realmente impossível, inquestionável ou estanque. Em outros termos: “Somente pode ser científico o que for discutível. A ciência tem compromisso ineludível de ser crítica e criativa” (DEMO: 2000: 21).

Da mesma maneira, atualmente, não podemos continuar nos agarrando a idéia de que a verdade deve ser quantificada ou matematizada. Conforme argumenta o Dalai Lama,

Além do mundo objetivo da matéria, que a ciência é mestre em explorar, existe o mundo subjetivo dos sentimentos, emoções, pensamentos e os valores e as aspirações espirituais baseados neles. Se tratarmos esse reino como se não tivesse nenhum papel constitutivo na nossa interpretação da realidade, perdemos a riqueza da nossa própria existência e nossa interpretação não poderá ser abrangente (2006: 43).

Isso tudo nos leva a refletir sobre a importância de começarmos a desenvolver novas sensibilidades para conseguirmos ver o mundo que nos cerca de maneira diferente. Portanto, é importante compreender que, se muito há ainda a ser provado, mas mais ainda há a ser sentido. Devemos, na verdade, lutar para encontrar caminhos que nos ajudem a buscar novos significados e interpretações para o mundo que nos cerca. Um mundo que transcende a matéria e que ainda está inacessível aos nossos sentidos, mas que nem por isso é menos vivo e vibrante.

por MARGARETE J. V. C. HÜLSENDEGER

 

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Referências

DALAI LAMA, O Universo em um Átomo – o encontro da ciência com a espiritualidade.

Rio de Janeiro Ediouro, 2006.     

ABDALLA, Mara Cristina B. Bohr – o arquiteto do átomo. São Paulo: Odysseus Editora,

2002 – (Imortais da ciência/ coordenação Marcelo Gleiser).

BRENNAN, Bárbara Ann. Mãos de Luz: um guia para cura através do campo de energia humana. São Paulo: Editora Pensamento, 1993.

CAPRA, Fritjof. Sabedoria Incomum: conversas com pessoas notáveis. São Paulo: Cultrix, 1988.

DAHLKE, Rüdiger e DETHLEFSEN, Thorwald. A doença como Caminho: uma visão nova da cura como ponto de mutação em que um mal se deixa transforma em bem. São Paulo: CULTRIX, 2004.

DEMO, Pedro. Pesquisa e Construção de Conhecimento: metodologia científica no caminho de Habermas. 4. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2000.

GERBER, Richard. Medicina Vibracional: uma medicina para o futuro. São Paulo: Editora Cultrix, 1997.

GLEISER, Marcelo. A Dança do Universo: dos mitos de criação ao big bang. São Paulo:

Companhia das Letras, 1997.

JAPIASSU, Hilton. As Paixões da Ciência: estudos de História das Ciências. 2. Ed. São

Paulo: Letras & Letras, 1999.

KUHN, Thomas S. A Estrutura das Revoluções Científicas. 5.ed. São Paulo, 2000.

RUSSEL, Bertrand. História do Pensamento Ocidental: a aventura dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

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