por ADRIANA MARIA ALMEIDA DE FREITAS

Professora Adjunta do Instituto de Educação da UERJ e Doutora em Literatura Comparada pela mesma Instituição

 

 

Continuidade e ruptura na literatura brasileira contemporânea

 

A produção literária brasileira das três últimas décadas do século XX é marcada por uma enorme pluralidade. Várias tendências convivem e se mesclam; continuidade e ruptura se alternam e se confundem. A diversidade, entretanto, não pode impedir que se apontem alguns traços comuns, indicadores da existência de tendências predominantes.

Uma das marcas desse período – especialmente das décadas de 70 e 80 – foi a proliferação de obras que pretendiam resgatar a memória individual ou coletiva e preencher, via literatura, os imensos vazios de uma sociedade que durante muito tempo se viu privada de informação.

Nas décadas citadas, há uma profusão de memórias políticas (Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis entre outros); de narrativas autobiográficas (Marcelo Rubens Paiva e Eliane Maciel) e de romances de cunho jornalístico (José Louzeiro). Essas obras atingiram estrondoso sucesso de público. Certamente isso se deu em função de uma necessidade de conhecer “a verdade”, de fazer justiça, há muito sufocada por um regime autoritário (SÜSSEKIND, 1984; HELENA, 1985).

Os limites inerentes a essa linha seguida pelo romance brasileiro contemporâneo são bastante conhecidos. Atribui-se à linguagem literária o dom da transparência, da capacidade de reproduzir a realidade vivenciada num dado momento histórico. Tal debate em torno das relações entre ficção e história há muito mobiliza diversos autores:

Pelas precedentes considerações se manifesta que não é oficio do poeta narrar o que aconteceu; e, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade. Com efeito, não diferem o historiador e o poeta, por escreverem em verso ou prosa... – diferem, sim, em que diz um  as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. (ARISTÓTELES, 1973, p. 451)

História: a narrativa de factos considerados como verdadeiros, ao contrário da fábula, que é a narrativa de factos considerados como falsos. (VOLTAIRE, 1978, p. 203)

[...] os historiadores narram acontecimentos verdadeiros que têm o homem como ator; a história é um romance verdadeiro. (VEYNE, s.d., p.10)

Os trechos citados – respectivamente de Aristóteles, Voltaire e Paul Veyne – atestam que desde a Antigüidade o tema tem sido objeto de reflexão de diversos pensadores. Mais do que isso, eles evidenciam que história e literatura são formas importantes e convergentes do conhecimento humano. À história caberia o relato de “acontecimentos verdadeiros”; à literatura, a criação ficcional.

Contudo, o historiador reconstrói a “realidade” a partir de fontes primárias na forma de texto, documentos oficiais ou não, monumentos, obras de arte. Todas essas fontes são, na verdade, construção, interpretação de determinada pessoa ou grupo sobre determinado acontecimento. O historiador é pois, uma espécie de reintérprete, que fornece uma imagem verbal da realidade (WHITE, 1978, p.121).

De fato, numa época em que até mesmo o discurso histórico se revela incapaz de ser completamente transparente e veículo de “verdade pura”, o projeto literário calcado no desvelamento da verdade torna-se, no mínimo, questionável. Mesmo assim, a literatura de denúncia política, naquele período, cumpriu um determinado papel, serviu de base para produções posteriores que conseguiram ultrapassá-la.

A referida tendência, de natureza mítico–simbólica, aparece também remodelada em novas faces. Trata-se de obras que, apesar de priorizarem o trabalho ficcional e parodístico, terminam por sugerir – conscientemente ou não – uma essência nacional, coesa ou fragmentada, a ser restituída à sociedade brasileira. Nessa trilha encontram-se  as obras que abordam a questão da identidade nacional – como Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro e Galvez, Imperador do Acre, de Márcio Souza, dentre outras.

Mais recentemente, próximo aos 500 anos da conquista do Brasil, essa tendência  foi redinamizada com a publicação de romances que, mais uma vez, remetem para a discussão da identidade nacional. Jardim Brasil: conto, de Ronaldo de Lima Lins; O primeiro brasileiro, de Gilberto Vilar; Terra Papagalli, de José Roberto Torero e Marcus Pimenta; e Domingos Vera Cruz (Memórias de um Antropófogo Lisboense no Brasil), de Glauco Ortolano, são alguns exemplos.

As obras citadas parecem ter a clara intenção de se afastar dos moldes de um discurso fundador bastante disseminado, embora não exclusivamente, pelo Romantismo. A afirmação de superioridade de nossa natureza e do heroísmo que nos serviria de matriz cede lugar ao questionamento, à diferença, ao recontado. Constata-se o afastamento de um modelo de construção nacional já impensável para o Brasil de hoje.

Paralelamente, vem se confirmando uma vertente que, inconformada com as tradicionais fronteiras da ficção, empreende um exercício simultâneo de ultrapassagem e questionamento. Observa-se portanto, a inserção de uma perspectiva ensaística que, ainda no âmbito da ficção, discute questões, tais como a relação entre intelectual e poder ou entre palavra e sociedade.

Esse alargamento das fronteiras do ficcional que, difusas, passam a comportar outros meandros, realiza-se em romances como Em liberdade e Stella Manhattan, de Silviano Santiago ou em Bandoleiros e Hotel Atlântico, de João Gilberto Noll, que apresentam, no entanto, diferentes manifestações de tal procedimento. De fato, Em liberdade configura explicitamente a tendência em questão, colocando para o leitor questões exógenas, que ele compreende, embora possa, por vezes, não distinguir-lhes o alcance. Por outro lado, em Stella Manhattan, Bandoleiros e Hotel Atlântico o questionamento inerente à perspectiva ensaística encontra-se sub-reptício ao trabalho com a ficção. Há ainda nestas obras uma discussão centrada em seu próprio estatuto ficcional, uma vez que a reflexão promovida pela narrativa coloca-a em xeque.

Configura-se assim um movimento de auto-referencialidade que, na visão de muitos autores, consiste em um dos aspectos fundamentais da arte contemporânea. Sem subestimar, é claro, a enorme contribuição feita neste campo por escritores como Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector, só para se falar da literatura brasileira, ao contrário, pretendo apenas destacar que, mais recentemente, outros autores radicalizaram tais mecanismos, suscitando inclusive o instigante e complexo debate em torno da caracterização desta arte como de ruptura ou não.

Num momento histórico em que avultam a descrença e a desintegração; em que os grandes mitos estão abalados; em que se convive com o absurdo e o inaceitável; a arte resiste e se transforma. Até mesmo o escritor se vê obrigado a se submeter (ou, a no mínimo, se relacionar com) ao mercado, que passa a interferir, acredito, no feitio da ficção.

A obra de Rubem Fonseca – tomada genericamente – aproxima-se dessas produções que, diante dos impasses da narrativa contemporânea, não aceitam as tradicionais fronteiras da arte e ainda problematizam sua própria especificidade artística. .

A trajetória recente da literatura brasileira comprova, pois, que palavra narrativa vem resistindo, em um mundo cada vez mais interligado pelas redes planetárias de comunicação, marcado pela proclamada supremacia da imagem, da mídia, da informação rápida, da ausência de fronteiras.

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Referências

ARISTÓTELES. Poética. In: Aristóteles. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Os Pensadores).

HELENA, Lúcia. Tótens e tabus da modernidade brasileira. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. CEUFF, 1985.

SÜSSEKIND, Flora. Tal Brasil, qual romance? Rio de Janeiro: Achiamé, 1984.

VEYNE, Paul. Como se escreve a história. Lisboa: Ed. 70, s.d.

VOLTAIRE, François M. A . de. Dicionário Filosófico. In:CHAUÍ, Marilena (org.). Voltaire. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores).

WHITE, Hayden. The fictions of factual representation. In:____. Tropics of discourse: essays in cultural criticism. Baltimore, London: The Johns Hopkins University Press, 1978.

 

por ADRIANA MARIA ALMEIDA DE FREITAS

 

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