por
PAULO
DENISAR FRAGA
Professor do Departamento de Filosofia e Psicologia
da Unijuí, RS.
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Juventude
e cultura:
identidade,
reconhecimento e emancipação
Para
se compreender a relevância da relação entre a juventude e a
cultura, não basta tomar esse tema de forma externa, ou dizer,
simplesmente, que a juventude é uma das mais contundentes
portadoras das variadas expressões da cultura. Para além disso, o
importante é tentar apreender, ainda que de forma geral, o binômio
juventude–cultura na sua imanência interna, ou seja, na própria
compreensão do modo
de ser da juventude
na sociedade moderno-contemporânea (ou tardo-capitalista).
Isso
se torna importante, sobretudo, porque o problema de grande parte
dos teóricos que trataram sobre a juventude consiste ou em vê-la
de forma singular (como se houvesse uma única
juventude), ou em não conseguir explicar como se dá a constituição-diferenciamento
de suas várias identidades sem se perder da unidade.
Num
estudo intitulado 1968... ou
de como a besta deveio imaginação, Alejandro Ventura (1994)
estabeleceu a tese de que a melhor forma para se compreender o
comportamento do indivíduo na sociedade capitalista é pelo conflito
profundo entre o desenvolvimento do potencial
criativo versus os bloqueios
do sistema, sejam estes de ordem material-externa ou moral-interna.
Muito
diferente de ser apenas um “estado de espírito”, “representação
estanque de uma faixa etária”, ou um “mal que se cura com o
tempo”, a juventude é o momento da vida em que se dá com maior
intensidade esse conflito, que interfere diretamente nas escolhas e
na definição da identidade individual e coletiva das pessoas. Não
podendo ser encerrada apenas pela determinação quantitativa
de uma condição etária, a juventude se define especialmente como
momento qualitativo em que o futuro da vida está sendo decidido, em que são
tomadas as grandes decisões. E, se a juventude caracteriza-se pelo pico
do conflito entre potencial criativo versus
bloqueios, então essas decisões e escolhas se dão sob forte tensão
e sob a figura da angústia.
Albert
Camus (1997) mostrou que a saída do homem moderno angustiado é a revolta – o que pode adquirir dimensões sociais explosivas. Mas
essa “revolta” não precisa ser de caráter estritamente político.
Pode ser a mais “despolitizada” possível. Na verdade, ela é a
busca de uma nova forma de reconhecimento, alternativa àquelas que
o sistema bloqueou, àquelas que, diga-se assim, eram vinculadas ao
que John Lennon, genericamente, chamou de “sonho”. É
fundamentalmente a partir disso que a juventude vai se identificar
pluralmente em diversas formas de reconhecimento: na religião, no
modismo consumista, nas comunidades alternativas, nos esportes, na
política, nas drogas, na violência, na apatia e no suicídio, na música
e nas artes e, portanto, também, nas expressões mais propriamente
denominadas como cultura(is).
Nada disso impedindo que tais manifestações se comuniquem ou se
rearticulem em diferentes graus entre si.
Ao
contrário do juízo simplista e instrumental de uma certa esquerda,
é socialmente superficial, historicamente falso e politicamente
equivocado identificar a juventude com o progressismo.
Ainda que os jovens tenham sido sujeitos marcantes em muitos eventos
importantes da esquerda, não é possível ignorar, por exemplo, que
na Alemanha a juventude nazista era, no tempo do grande Partido
Social-Democrata Alemão, de Kautsky e Rosa Luxemburgo, muito mais
numerosa do que a juventude socialista (IANNI in BRITTO, 1968: 237).
Assim como não é atualmente plausível desconhecer os diversos
grupos juvenis, dos skin-heads
aos carecas do ABC, que reencontraram na violência a forma bárbara
da diversão.
Contra
a visão de que a juventude é algo quase “naturalmente”
progressista – que bastaria a esquerda agitar as suas bandeiras
para obter a sua adesão –, o melhor entendimento, sobre esse
aspecto particular da formação ideológica juvenil, é o de Karl
Mannheim (in BRITTO, 1968: 74), para quem a juventude não é nem
progressista, nem conservadora. É uma enorme potencialidade em
disputa. E é neste sentido que a cultura se investe de enorme valor
na definição do modo de ser da juventude, em sua visão de mundo e
em sua práxis social e política.
Sobretudo
para o ponto de vista crítico, isso se revela explicitamente caro
nos tempos atuais, quando o “novo irracionalismo brasileiro”,
denunciado por Sérgio Paulo Rouanet (1992), externa o desprezo dos
jovens pela cultura erudita, pela teoria e pela filosofia, pela música,
pela literatura e pelas artes, numa anticultura alienada/estranhada,
regada por um saber puramente instrumental, que se alimenta
narcisicamente atrás de um microcomputador e no consumismo mercadológico
irrefletido.
Enquanto
a direita prega, a seu modo, o fim da ideologia [não como Daniel
Bell (1980), que o fez teoricamente, mas como postura tacanha e
rebaixada para disfarçar o caráter de sua própria ideologia – o
da dissimulação fragmentária do saber e da desmobilização
social], as organizações de esquerda e os setores sociais
progressistas têm, em contrapartida, uma tarefa iluminista, qual
seja, a da retomada do valor do conhecimento, da relação dialética
afirmativa entre as culturas popular e erudita, da relação do
homem com a natureza e, assim, do espírito crítico e autocrítico
como um todo.
Evitando-se
o subjetivismo axiológico, que sem se ater à dominação material
imagina poder mudar o mundo pregando éticas universais abstratas,
trata-se de apostar na formação intelectual crítica da juventude,
elemento importante para o que Gramsci chamou de luta contra-hegemônica.
Embate de idéias e valores, sim! Mas enraizado na vida real das
lutas sociais entre as classes, que hoje não podem mais ignorar os
temas ecológicos, étnicos e de gênero. Questões estas,
entretanto, que só encontram sentido radical se vinculadas ao
projeto de uma luta mais geral que arremeta “para além do
capital”, como propõe Mészáros (in COGGIOLA, 1997).
A
exigência da crítica – como forma da negação em andamento –
não deve, porém, soterrar a clareza de que menos importante do que
aferir “moralmente” o grau imediato
de “politização” da juventude é decifrar dialeticamente o
significado social e político daquilo que as juventudes
estão expressando à sociedade. E ler as contradições dessa
sociedade de modo imanente, na trama das relações que constituem o
processo de sua totalidade. O conceito da condição juvenil como
torrente de um conflito psicossocial dos indivíduos pressupõe a noção
crítica de um
comportamento oblíquo aos
sistemas vigentes e, portanto, uma potencialidade de recusa.
Mas que também pode virar simplesmente à
direita ou ao comodismo
em sua luta por reconhecimento. A percepção dessas culturas
juvenis como modos contraditórios, porém legítimos, de
ser/existir na sociedade capitalista, é um pressuposto para que com
elas possa dialogar a
cultura de intervenção que vem da crítica teórica.
Um
filme como Trainspotting: sem
limites (1996) ilustra, de modo exemplar, como um jovem pode
resolver o seu conflito profundo (potencial criativo versus
barreiras do sistema) sendo absorvido pelo próprio sistema. Tanto
que, no começo do filme, Renton – o personagem principal – diz:
“Ter uma vida, ter um emprego, ter uma carreira, uma família, ter
uma casa, carros, amigos, ter um futuro... Para que eu iria querer
isso? Preferi não ter uma vida. Preferi outra coisa. E os motivos?!
Não há motivos. Para que motivos se tem heroína!” Ao passo que,
no fim do filme, depois de dar um golpe nos amigos e arrumar muito
dinheiro, se pergunta: “Por que fiz isso?” E responde: “Teria
várias respostas, todas mentiras”. Daí ele assume que é mau,
mas que foi a última vez, que isso vai mudar... E, então, diz:
“Agora vou entrar na linha, vou ser como você: terei trabalho,
família, carro, TV, um bom terno...” E arremata, na perspectiva
do comodismo: “Vou viver esperando o dia de morrer”.
Renton
é um jovem que resolveu o seu conflito no interior da perspectiva
do sistema capitalista, fazendo entender o significado da fórmula
“de como a besta devém imaginação” – não esquecendo de que
“a imaginação no poder!” era um dos lemas do Maio de 1968. Não
por acaso, intelectuais sixties
engajados, como Gabeira e Cohn-Bendit, subscrevem, menos de 20 anos
depois, no honesto interesse de saber o que foi feito dos ideais de
sua geração, livros com títulos conjugados em sintomático
passado como Nós, que amávamos
tanto a revolução (GABEIRA, 1985). Seu objeto não é apenas
um efeito dos ventos comuns da mudança histórica. Vem crivado pelo
poder dos mecanismos de adaptação do sistema, que sempre querem se
insinuar como normalidade racional. Veja-se, sobre isso, um ex-líder
operário como Lula que, discursando como presidente de seu país,
acha plausível reprisar a retórica positivista clássica da
direita contra o movimento estudantil, segundo a tese de que a espécie
humana “evolui” naturalmente da esquerda para a direita conforme
a idade. E que o ponto racional de equilíbrio é o centro.
Isto
posto, do ponto de vista da emancipação, a relevância histórica
do trato do binômio juventude–cultura está em saber se a resolução
do que se chamou aqui de luta por um novo reconhecimento se dará
(re)canalizando as energias das rebeldias juvenis em favor do próprio
sistema, ou se se requalificará substantivamente, convertendo-se em
necessidades radicais, as
quais, como disse a primeira Ágnes Heller (1978: 179) lendo Marx,
constituem uma demanda cuja exigência qualitativa não pode mais
ser satisfeita nos marcos da sociedade capitalista. Na hipótese
dessa reversão dialética, a luta pelo reconhecimento encontra uma
chance de superar as raias do estranhamento e de se afirmar no novo
patamar de um processo de emancipação.
Referências
BELL,
D. O fim da ideologia.
Brasília: Edunb, 1980.
CAMUS,
A. O homem revoltado.
3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1997.
GABEIRA,
F. Nós, que amávamos tanto a
revolução: diálogo Gabeira–Cohn Bendit. 3.ed. Rio de
Janeiro: Rocco, 1985.
HELLER,
Á. Teoría de las necesidades en Marx. Barcelona: Península, 1978.
IANNI,
O. O jovem radical. In:
BRITTO, S. de. Sociologia
da juventude: v. 1 – da Europa de Marx à América Latina de
hoje. Rio de Janeiro: Zahar, p. 225-242, 1968.
MANNHEIM,
K. O problema da juventude na sociedade moderna. In: BRITTO, S. de. Sociologia
da juventude: v. 1 – da Europa de Marx à América Latina de
hoje. Rio de Janeiro: Zahar, p. 69-94, 1968.
MÉSZÁROS,
I. Ir além do capital. In: COGGIOLA, O. (org.). Globalização e socialismo. São Paulo: Xamã, p. 143-154, 1997.
ROUANET,
S. P. As razões do iluminismo.
3.ed. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1992.
TRAINSPOTTING:
sem limites. Direção de Danny Boyle. Inglaterra: Channel Four
Films et al.: Dist. Alpha
Filmes e Spectra
Nova, 1996. 1 DVD (89 min): son., leg., color.
VENTURA,
A. 1968... o de como la bestia
devino imaginación. Montevideo: Jenscet, 1994.
por
PAULO DENISAR FRAGA
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