Confusão
na livraria:
Harry
Potter e a mágica das escritoras latino-americanas
Era
o dia 20 de julho de 2007, as 23:30 hs. De uma certa distância,
eu já podia ver a multidão diante da livraria. E ouvia as
suas vozes também. Quando cheguei mais perto, a primeira
pessoa que eu vi foi Sor Juana Inés de la Cruz, a freira
mexicana do século XVII que escreveu poemas e peças de
teatro, e que depois se meteu em uma encrenca porque ousou
escrever uma carta muito bem escrita a um padre, desafiando
suas posições teológicas e seu conselho de que ela parasse
de escrever coisas seculares e se concentrasse somente em
temas religiosos.
Sor Juana, como ela é mais conhecida, estava batendo um papo
com Fanny Buitrago, aquela engraçada escritora colombiana que
escreve livros sobre sexo e amor e sobre como as mulheres
gostam destas duas coisas, muitíssimo.
Fanny estava usando um vestido vermelho, e trazia uma bolsa plástica
cheia de livros da poeta chilena Gabriela Mistral,
assim como um violão, que ela mostrou a Sor Juana e disse que
uma vez tinha pertencido à poeta e compositora Violeta Parra.
Outro grupo estava discutindo com a escritora Clarice
Lispector, que nunca pertenceu à Academia Brasileira de
Letras e disse que não se importava com isto, embora a Rachel
de Queiroz tenha sido aceita, e hoje em dia a Nélida Piñón
preside a Academia. Em uma mesa dentro da cafeteria da
livraria, Alfonsina Storni estava tendo uma discussão com sua
compatriota argentina Victoria Ocampo, enquanto Carolina Maria
de Jesus e Marjorie Agosín tomavam um cafezinho e conversavam
com a extraordinária Mercedes Cabello de Carbonera, a qual
tinha nas mãos um livro de Lygia Fagundes Telles e perguntava
a Carolina Maria o que ela achava do trabalho de María Luisa
Bombal.
Em um outro canto da cafeteria, um grupinho havia se formado
ao redor da cubana Lydia Cabrera, e discutiam as práticas de
vudu no Caribe. Ao lado deste grupo, três poetas, Cora
Coralina, Adélia Prado e Olga Savary conversavam animadamente
sobre a natureza do sagrado na poesia, enquanto Cecília
Meirelles tomava notas e sorria.
Estava
ficando difícil identificar todas as escritoras! Os grupos se
dissolviam, e suas participantes iam conversar com membros de
outros grupos, tudo sobre literatura, como fazê-la, que
diferença ela faz, o que significa ser mulher e escritora na
América Latina, e como podem unir forças.
Enquanto
isto, o pessoal de vendas da livraria estava trabalhando
febrilmente tentando arrumar os estandes com o livro que ia
começar a ser vendido exatamente à meia-noite. As livrarias
do mundo inteiro esperavam vender milhares de exemplares
durante a próxima semana, enquanto que o total de vendas
esperado no mundo inteiro deveria atingir milhões de
exemplares.
O
relógio estava fazendo seu tic-tac, e a hora chegando mais
perto e mais perto da meia noite. As crianças e adultos
usando fantasias representando escritoras latino-americanas
estavam ficando mais e mais animadas, mais agitadas. Como
co-editora da enciclopédia que ia ser posta à venda à meia
noite, eu não podia acreditar que havia tanta gente esperando
ansiosamente pelo livro. Os vendedores dentro da livraria
finalmente se aproximaram das portas de vidro. Um deles tinha
uma chave, e abriu a porta. A multidão de compradores entrou
correndo na livraria, e todos rodearam a primeira mesa coberta
com cópias e mais cópias do livro.
Neste
momento, mesmo de fora da livraria, eu pude ouvir o suspiro
coletivo quando os compradores viram a capa do livro. Era
Harry Potter and the
Deathly Hallows, de J. K. Rowling, e não a Latin American Women Writers, an Encyclopedia que eles estavam
esperando. Eles
se voltaram para mim, desapontados, e perguntaram, “Por quê?”
Acordei.
Era realmente o dia 20 de julho de 2007, e o livro que ia ser
colocado à venda à meia noite era realmente o sétimo da série
de Harry Potter,
enquanto que a enciclopédia — com a qual eu trabalho há
mais tempo que Rowling publica as aventuras do jovem bruxo
Harry Potter — ainda está nas mãos do grupo editorial
Routledge, que vai publicá-la no fim deste ano de 2007.
O
que causou o meu sonho e a confusão entre uma enciclopédia
acadêmica e o (suposto) último capítulo da história/companhia
inventada por uma mulher que, de acordo com suas próprias
palavras na sua página de internet, imaginou o menino bruxo
enquanto viajava de trem em 1990?
Talvez
a primeira coisa seja que 2007 é também para mim o fim de
uma longa jornada com meu projeto. Em 1997, levada a princípio
pela falta que eu via quando precisava material sobre
escritoras brasileiras e sobre outras latino-americanas mais
jovens, eu discuti com uma colega a idéia de escrever esta
enciclopédia. Naturalmente há outros livros sobre a
literatura de mulheres na América Latina, mas eles são mais
restritos, e muitos deles mostram que seus autores não sabem
que o Brasil é parte da América Latina, porque embora os títulos
dos livros se refiram ao continente, ali não se encontra nem
uma autora brasileira. Desde 1997, um ano antes que J.K.
Rowling publicasse o primeiro Harry
Potter, eu tenho publicado convites em jornais da área de
literatura, feito muitas chamadas em conferências, explicando
a idéia do projeto. Também troquei centenas de cartas,
inicialmente, e depois de mensagens de email, à medida que o
sistema ficou mais popular, com muitíssimos colegas de todos
os países das Américas, e de alguns da Europa. Também li
primeiras, segundas e terceiras versões de textos; tentei
aprender a montar uma página de internet (e falhei); escrevi
um pedido de assistência financeira do National Endowment for
the Humanities para reestruturar a página de internet que
minha segunda co-editora, María Claudia André, havia construído
e colocado no site de sua instituição, a Hope College (a
N.E.H. não nos deu os fundos); escrevi, juntamente com minha
co-editora, dezenas de cartas a editoras, tentando conseguir
um contrato para publicar a enciclopédia e, quando assinamos
com Routledge, trabalhei centenas de horas com o time de
editores/consultores lendo os textos e escrevendo minuciosas
revisões dos textos para os colegas que contribuíram.
Finalmente, no começo deste mês de julho, gastei 15 dias
trabalhando 10 horas por dia lendo e corrigindo as provas do
texto, minha última tarefa antes que os editores de Routledge
mandem o texto para a produção. Nestes dez anos, tive
momentos de grande alegria quando uma nova escritora nos foi
revelada, ou quando uma colega escreveu um artigo sobre uma
escritora de um século passado que está sendo finalmente
descoberta e apreciada, ou quando outras escreveram seu
primeiro artigo acadêmico para o projeto. Mas houve momentos
em que a idéia do projeto parecia impossível, em que eu
desanimava de conseguir publicar o livro, e até houve o
momento em que duas pessoas me atacaram e insultaram, tentando
causar dano ao projeto e à minha carreira profissional.
(Infelizmente, algumas pessoas não admitem que outras tenham
uma idéia antes delas, e fazem qualquer coisa para destruir
aquilo que não podem possuir.) Mas o projeto seguiu e estas
coisas negativas foram pequenas comparadas à grande alegria
de ver o projeto completo com a ajuda indispensável da minha
co-editora María Claudia André, e dos mais de 200 colegas
que participaram. O dinheiro não é o nosso objetivo. A
conclusão do projeto, e a divulgação da literatura das
mulheres da América Latina são a nossa meta.
Rowling,
enquanto isto, parece que se saiu muito bem. Pelo que tenho
lido a respeito de sua vida, ela teve muita dificuldade antes
de Harry Potter, mas
desde a sua publicação, ela se tornou a mulher mais rica da
Inglaterra (mais rica que a rainha, dizem), e foi nomeada
oficial do Império Britânico. E como foi que ela ficou tão
rica baseada neste grupo de personagens e nestes livros?
Eu
não posso negar: eu também li o primeiro livro, depois o
segundo, e depois o terceiro, enquanto morava no Japão e a
narrativa era tão interessante que me fazia ficar tão
entretida que várias vezes esqueci de descer na minha parada
de trem durante minhas viagens diárias para ir ao trabalho na
região de Osaka. Apesar do meu treinamento como professora de
literatura, era divertido para mim poder ler os livros somente
pela aventura, pelo simples prazer de ler, de seguir a história
de Harry, Hermione e Ron em Hogwart, com os seus colegas,
professores, e suas mágicas. Parece que a maioria dos fãs de
Harry Potter lêem
os livros desta mesma maneira. Mas, desde que voltei aos
Estados Unidos, como aqui eu tenho que dirigir o carro para ir
ao trabalho, não li mais nenhum livro da série, mas já vi vários
dos meus alunos lendo Harry
Potter.
Há
alguns dias, na estação de rádio NPR (National Public
Radio), durante uma discussão de Harry
Potter e do enorme sucesso de Rowling, uma professora de
inglês com uma atitude bastante esnobe telefonou ao programa
e acusou a autora de algum tipo de crime, porque, ela disse,
os livros não são tão bons como os de J. R. R. Tolkien (que
escreveu O senhor dos anéis),
ou de Charles Dickens (autor de muitos contos e de romances
tais como The Pickwick
Papers, The Adventures of Oliver Twist, David Copperfield,
e muitos outros), e inclusive insinuou que não é certo que
Rowling e “outras pessoas” estejam ganhando tanto dinheiro
com os livros e os filmes.
Eu
ri quando ouvi esta última “acusação,” e comparei o que
Rowling supostamente ganhou com Harry Potter e o que eu ganhei com a enciclopédia que vai ser
publicada em dezembro. Na verdade, comparando-se o que Rowling
ganhou com estes sete livros e
tudo o que todas as escritoras da América Latina
ganharam com todos os livros que elas publicaram nestes quatro
séculos, Rowling ganhou talvez duzentas vezes mais que todas
elas juntas.
E
isto é necessariamente errado? Eu acho que esta não é a
pergunta mais relevante.
O
que Rowling conseguiu, com a série de Harry
Potter, é uma coisa fenomenal para a história do livro
na cultura ocidental. O fato de que uma geração inteira de
crianças e jovens ficou interessada em ler um romance, e —
ainda por cima — sete deles, já foi um grande feito. Em um
tempo em que os jovens se dedicam mais a ver televisão e a
jogar video games, é impressionante ver como tantos deles
aguardavam ansiosamente a publicação de mais um livro
contando a continuação das aventuras de Harry Potter e seus
amigos. O fato que os personagens cresceram com seus leitores
também foi um fator importante nesta relação e na lealdade
dos leitores. E daí que os livros têm mágica? Basta lermos
Gabriel García Márquez, ou Julio Cortázar, ou Horacio
Quiroga, ou Guimarães Rosa, ou João Ubaldo Ribeiro, ou Lygia
Fagundes Telles, ou Maria Clara Machado, ou mesmo Salmon
Rushdie, entre tantos outros, para vermos que o uso de mágica
é parte da melhor literatura, e os autores “canônicos” a
utilizam livremente, de diversas maneiras. É verdade a mágica?
É mentira? Este não é o ponto da questão, mas sim o que a
mágica possibilita ao autor representar dentro do universo do
romance, uma coisa que os autores que praticam ou praticaram o
realismo mágico (como García Márquez ou Isabel Allende, por
exemplo), sabem muito bem.
Mas,
voltando à enciclopédia de escritoras da América Latina:
depois de ler as mais de 800 páginas do manuscrito, eu posso
dizer que as mais de 270 poetas, romancistas, dramaturgas e
contistas que vêm de todos os países de fala espanhola,
assim como do Brasil, tentaram, à sua maneira, conseguir
coisas muito parecidas às quais Rowling tentou. Quando, por
exemplo, Emília Freitas escreveu Rainha
do ignoto, romance psicológico, em 1899, ela queria
contar uma história, explicar uma filosofia, e chamar a atenção
da sociedade brasileira para possíveis alternativas para a
ideologia imposta a eles; quando Rosario Castellanos publicou Mujer
que sabe latín em 1973, ela também queria documentar a
situação das mulheres e ao mesmo tempo gravar o status
dos homens e mulheres dentro da sociedade mexicana.
Castellanos é a mesma que, antes, havia publicado o romance Balún
Canán, o qual é visto, até hoje, como uma das defesas
mais apaixonadas das populações indígenas da região de
Chiapas, no México. Tanto as autoras consagradas como Rosario
Castellanos, Lya Luft, Elena Poniatowska, Cecília Meirelles,
Alfonsina Storni, Gabriela Mistral e outras, às mais jovens
que recém publicaram os três livros requeridos para que
pudessem aparecer na enciclopédia, todas estas autoras querem
deixar a sua marca, falar como mulheres e como cidadãs do seu
país, e como artistas, e como inventoras que usam a palavra
para criar mundos ao mesmo tempo que registram o seu mundo.
É
um assunto complicado indagar porque, mesmo que estas mais de
270 autoras possam ter escrito trabalhos melhores que a série
de Harry Potter,
elas não poderão jamais alcançar uma audiência do tamanho
que Rowling alcançou. O público leitor reduzido da América
Latina, o preço dos livros, a própria filosofia das casas
editoriais, comparados à imensa máquina de promoção das
editoriais inglesas, mais o alcance e a influência dos filmes
para a continuação do interesse em todo mundo pelo destino
dos personagens principais, tudo isto contribuiu para a fama
da série. Mas não podemos descontar o gênio de Rowling,
porque, afinal, o manancial de mitos e de histórias que ela
usou construção do seu universo estão disponíveis a todos,
mas só ela soube usá-los desta maneira. E, pensando bem, se
ela fosse um homem, será que alguém estaria perguntando
quanto dinheiro ela fez com estes livros? Alguém perguntou,
por exemplo, a Mario Puzo, quanto ele ganhou com O
Chefão (livros e filmes)? Uma vez Ken Kesey falava sobre
seu livro One Flew Over the Cockoo’s Nest em uma conferência, e uma pessoa
da platéia perguntou quanto ele tinha ganho com o filme.
Kesey tomou um gole de um frasco que sempre trazia, olhou bem
a pessoa, e respondeu, “Eu não faço idéia. E você não
tem nada a ver com isto, afinal de contas”. Imagine se
Rowling respondesse da mesma forma! Muito provavelmente, ela
seria comparada às piores bruxas de Harry
Potter.
Logicamente,
como todos os que estamos interessados na carreira de mulheres
escritoras, estou esperando para ver o que Rowling vai
escrever em seguida, especialmente agora que ela é rica e
pode escrever simplesmente pelo prazer de escrever. E, quem
sabe, ela pode até já ter um projeto encaminhado, planejado.
Enquanto isto, em algum lugar na América Latina, na África,
na Ásia, na América do Norte, Austrália, Inglaterra, etc,
uma jovem está lendo algum dos livros de Harry
Potter e pensando, neste momento, que ela pode e vai
escrever um livro também.
E
aqui é onde Rowling se aproxima de cada uma daquelas centenas
de mulheres escritoras da América Latina que aparecem na
enciclopédia em que trabalhei por dez anos. O trabalho destas
escritoras inspira aos que o lêem. Cada escritora encontra
maneiras diferentes de expressar as ansiedades e as alegrias
de seu tempo, da sua forma pessoal, com seu timbre artístico
e humano. Poucas ficarão ricas ou famosas, mas todas, juntas,
continuam avançando o imenso projeto de dar um espaço do
qual todas possam falar, possam tornar conhecida a visão
feminina do mundo.
Para
nós, acadêmicos e professores de literatura de qualquer país,
o incrível sucesso de Rowling atesta, primeiramente, o seu gênio
de inventar, reinventar e usar, da sua maneira, enquanto
capturando e mantendo a atenção do leitor por centenas de páginas.
Se ela lucrou com os livros e direitos dos filmes, e se outros
também lucraram com o lado puramente comercial da empreitada,
não podemos esquecer o imenso lucro cultural e literário
para o jovem leitor, que depois de ler os sete livros agora
pode contá-los como algo que o iniciou/a iniciou no hábito
da leitura, e que agora só precisa ser mantido pelos pais e
professores com boas escolhas de outras obras literárias.
Tudo
isto reverte, obviamente, para um ganho geral em termos de
apreciação pela literatura e pela leitura em geral. E alguém teria alguma coisa contra
isto?