por LUIZ ROSEMBERG FILHO* & SINDOVAL AGUIAR**

 

* Luiz Rosemberg Filho é diretor de cinema, escritor e artista plástico na cidade do Rio de Janeiro. Foi roteirista de Adyós General e Viva a Morte.


** Sindoval Aguiar é mineiro e co-dirigiu dois longas, ao lado de Braz Sediak: Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja.

 

 

Você pode ser um bom presunto

 

Este é o título do filme desterrado de Sérgio Muniz. A época era de chumbo! Uma era como as que nunca se desfazem, no Brasil. O filme continua exilado. Claro, seu personagem é a história, a memória. O passado, o presente e, quem sabe, o futuro. Triste país! Prendem, torturam, arrebentam, queimam e exterminam. É a barbárie. Para chegar aonde chegamos: o mundo das Corporações, do dinheiro, do poder, do mercado. E você pode dar um bom presunto.

Naquele período, etapa preparatória para presuntos, violência e excrementos, para a acumulação do poder das Corporações transnacionais, e o sonho das burguesias latifundiárias e urbanas brasileiras. Nossa juventude estudantil, futura liderança, era comparada aos marginais comuns e a qualquer vagabundo. Em suas lutas e sonhos, o que homens com H maiúsculo como Marighella e Lamarca legaram, como parte da consciência de uma época que não pode morrer, eram outros exemplos. Quando caçados como feras e apanhados, tinham cabelo, barba e bigodes raspados. Seriam presuntos, como etapa preparatória de alimentação do horror para a contemplação de um Sistema.

Cada época constrói individualidades, mas também síndromes e patologias: um indivíduo era Sérgio Paranhos Fleury. A nós cabia a opção de amá-lo ou deixá-lo. Era o trabalho da mídia amestrada fazendo a cabeça, alimentada pelo dinheiro das Corporações e dos donos do poder, uma ditadura implacável, que queimava. Se deixar, seguirá arrebentando ainda hoje, construindo a origem e os fulcros da tragédia da ignorância, a cultura das inutilidades, a oligofrenia.

Entre nós, a patologia de feras como Fleury. E por que será que as coisas fluem assim, degeneradas e sem controle? O Brasil é um país que não carece somente de história, de cultura, de respeito pelo seu povo. Mas precisa, também, de um grande hospital para tratamento histórico, lento, gradual e holístico. Para que pudéssemos entender que, antes de se tornar um país de todos, deveríamos ser um país de nós e para nós. Um lugar onde os Fleury(s) não encontrassem espaços para vicejar e espargir enxofre e balas 45, escarnecendo, em forma de delírio e gozo. Para o prazer dos tarados daqui e dos delinqüentes de fora. Como um fiel carrasco que mata e exorbita do dever cumprido.

Os Esquadrões da Morte foram se formando. Seus assassinos exorbitavam do dever de casa cumprido. Eram homenageados e condecorados por isso. Foi assim que a nossa Marinha condecorou Fleury, senhor de uma Ordem que já se tornara linguagem. Horror, com siglas, etiquetas e logomarcas. Prá Frente Brasil! Por que será que um país, uma nação, ou o que pensamos ser, abre espaços tão férteis para a destruição de sonhos, desejos e projetos, enquanto pensamos na construção de um país de todos?

Precisamos de uma cultura que responda. Entre nós tudo acontece e pode acontecer, mas tudo fica por saber. País vítima de um arquivo eternamente queimado para a limpeza da história, que supera etapas de acumulação da violência para chegar à barbárie.

Já tivemos etapas mais avançadas da Indústria de presuntos, que nos ameaça sempre. E você pode ser mais um.... Essa é a importância de Sérgio Muniz, resgatando a história em um projeto que não pode morrer. Como o desse diretor que, para concluir esse filme, fez trincheira nas inúmeras e insuportáveis barreiras. É o filme de uma época, um documentário. Um documento que fala e registra. Tempo e espaço. Homens, política e ideologia, onde todos nos reduzimos, confundindo sujeitos e suas imagens. As mesmas que hoje produzem as máquinas, excluindo a configuração do humano e os seus processos criativos, individuais com os sentimentos do ser e do existir. Como a subversão de Hollywood e duas engenhocas que eliminam pela ilusão, a distância entre a imagem e seu criador, matando a vida, fingindo a realidade.

O documentário de Sérgio Muniz segue o caminho inverso da documentação que temos visto ultimamente. Não investiga. Denuncia pela ordem dialética da repetição histórica. Confrontando, desafiando, legitimando. Não é um filme de síntese, mas de exposição, para que nossa juventude oligofrenizada de hoje conheça a história, sinta o odor de vampiros como Fleury e o horror dos tempos, tão próximos e tão retornantes. Fleury não é apenas uma imagem, um personagem, um horror. Mas uma Era.

O filme de Sérgio Muniz não precisa ser visto como uma obra de arte. Basta por si, como um documento que não conseguiram rasgar, queimar e extinguir. É parte de nossa história esquecida e que se faz esquecer, o que não ocorre com os filmes investigativos de agora.

O que vai a Globo fazer em uma favela, em espaços e tempos de excluídos, externalizados de tudo, inclusive de sonhos e projetos, porque de futuros anunciados? Descobrir lideranças, estratégias, investigações para futuras ações de Fleury(s)? Ou o cinema estará no fim? Tendo nas TVs e na Internet o seu holocausto? O filme de Wim Wenders, “No Decurso do Tempo”, parece profetizar isso.

O filme “Você Pode Ser um Bom Presunto” é uma esperança de que a memória possa ser ativada por alguma coisa próxima ou distante. Como a música das esferas, que ninguém ouve e que ninguém vê, mas que, de repente, sentimos mesmo com os sentimentos da dor do Ser. Como um quadro na parede, uma rosa solitária no vaso ou um piano sem música. Mas ela está ali, e nós dando vida a tudo. Vida só temos uma. E nenhum presunto, mesmo os da TV, do marketing e das Corporações transnacionais, tem como compensá-la. Se ainda pudermos ouvir a música das esferas.

 

por LUIZ ROSEMBERG FILHO & SINDOVAL AGUIAR

   

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* publicado originalmente em Via Política, 29.06.07

 

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