Você
pode ser um bom presunto
Este
é o título do filme desterrado de Sérgio Muniz. A época era de
chumbo! Uma era como as que nunca se desfazem, no Brasil. O filme
continua exilado. Claro, seu personagem é a história, a memória.
O passado, o presente e, quem sabe, o futuro. Triste país! Prendem,
torturam, arrebentam, queimam e exterminam. É a barbárie. Para
chegar aonde chegamos: o mundo das Corporações, do dinheiro, do
poder, do mercado. E você pode dar um bom presunto.
Naquele
período, etapa preparatória para presuntos, violência e
excrementos, para a acumulação do poder das Corporações
transnacionais, e o sonho das burguesias latifundiárias e urbanas
brasileiras. Nossa juventude estudantil, futura liderança, era
comparada aos marginais comuns e a qualquer vagabundo. Em suas lutas
e sonhos, o que homens com H maiúsculo como Marighella e Lamarca
legaram, como parte da consciência de uma época que não pode
morrer, eram outros exemplos. Quando caçados como feras e
apanhados, tinham cabelo, barba e bigodes raspados. Seriam
presuntos, como etapa preparatória de alimentação do horror para
a contemplação de um Sistema.
Cada
época constrói individualidades, mas também síndromes e
patologias: um indivíduo era Sérgio Paranhos Fleury. A nós cabia
a opção de amá-lo ou deixá-lo. Era o trabalho da mídia
amestrada fazendo a cabeça, alimentada pelo dinheiro das Corporações
e dos donos do poder, uma ditadura implacável, que queimava. Se
deixar, seguirá arrebentando ainda hoje, construindo a origem e os
fulcros da tragédia da ignorância, a cultura das inutilidades, a
oligofrenia.
Entre
nós, a patologia de feras como Fleury. E por que será que as
coisas fluem assim, degeneradas e sem controle? O Brasil é um país
que não carece somente de história, de cultura, de respeito pelo
seu povo. Mas precisa, também, de um grande hospital para
tratamento histórico, lento, gradual e holístico. Para que pudéssemos
entender que, antes de se tornar um país de todos, deveríamos ser
um país de nós e para nós. Um lugar onde os Fleury(s) não
encontrassem espaços para vicejar e espargir enxofre e balas 45,
escarnecendo, em forma de delírio e gozo. Para o prazer dos tarados
daqui e dos delinqüentes de fora. Como um fiel carrasco que mata e
exorbita do dever cumprido.
Os
Esquadrões da Morte foram se formando. Seus assassinos exorbitavam
do dever de casa cumprido. Eram homenageados e condecorados por
isso. Foi assim que a nossa Marinha condecorou Fleury, senhor de uma
Ordem que já se tornara linguagem. Horror, com siglas, etiquetas e
logomarcas. Prá Frente Brasil! Por que será que um país, uma nação,
ou o que pensamos ser, abre espaços tão férteis para a destruição
de sonhos, desejos e projetos, enquanto pensamos na construção de
um país de todos?
Precisamos
de uma cultura que responda. Entre nós tudo acontece e pode
acontecer, mas tudo fica por saber. País vítima de um arquivo
eternamente queimado para a limpeza da história, que supera etapas
de acumulação da violência para chegar à barbárie.
Já
tivemos etapas mais avançadas da Indústria de presuntos, que nos
ameaça sempre. E você pode ser mais um.... Essa é a importância
de Sérgio Muniz, resgatando a história em um projeto que não pode
morrer. Como o desse diretor que, para concluir esse filme, fez
trincheira nas inúmeras e insuportáveis barreiras. É o filme de
uma época, um documentário. Um documento que fala e registra.
Tempo e espaço. Homens, política e ideologia, onde todos nos
reduzimos, confundindo sujeitos e suas imagens. As mesmas que hoje
produzem as máquinas, excluindo a configuração do humano e os
seus processos criativos, individuais com os sentimentos do ser e do
existir. Como a subversão de Hollywood e duas engenhocas que
eliminam pela ilusão, a distância entre a imagem e seu criador,
matando a vida, fingindo a realidade.
O
documentário de Sérgio Muniz segue o caminho inverso da documentação
que temos visto ultimamente. Não investiga. Denuncia pela ordem
dialética da repetição histórica. Confrontando, desafiando,
legitimando. Não é um filme de síntese, mas de exposição, para
que nossa juventude oligofrenizada de hoje conheça a história,
sinta o odor de vampiros como Fleury e o horror dos tempos, tão próximos
e tão retornantes. Fleury não é apenas uma imagem, um personagem,
um horror. Mas uma Era.
O
filme de Sérgio Muniz não precisa ser visto como uma obra de arte.
Basta por si, como um documento que não conseguiram rasgar, queimar
e extinguir. É parte de nossa história esquecida e que se faz
esquecer, o que não ocorre com os filmes investigativos de agora.
O
que vai a Globo fazer em uma favela, em espaços e tempos de excluídos,
externalizados de tudo, inclusive de sonhos e projetos, porque de
futuros anunciados? Descobrir lideranças, estratégias, investigações
para futuras ações de Fleury(s)? Ou o cinema estará no fim? Tendo
nas TVs e na Internet o seu holocausto? O filme de Wim Wenders,
“No Decurso do Tempo”, parece profetizar isso.
O
filme “Você Pode Ser um Bom Presunto” é uma esperança de que
a memória possa ser ativada por alguma coisa próxima ou distante.
Como a música das esferas, que ninguém ouve e que ninguém vê,
mas que, de repente, sentimos mesmo com os sentimentos da dor do
Ser. Como um quadro na parede, uma rosa solitária no vaso ou um
piano sem música. Mas ela está ali, e nós dando vida a tudo. Vida
só temos uma. E nenhum presunto, mesmo os da TV, do marketing e das
Corporações transnacionais, tem como compensá-la. Se ainda
pudermos ouvir a música das esferas.
por
LUIZ
ROSEMBERG FILHO & SINDOVAL AGUIAR