Caso
Renan Calheiros: a renúncia da ética
A
ética é dos suplentes
O
caso Renan Calheiros revela mais que o seu protagonista.
Revela as entranhas do parlamento brasileiro. Por este motivo,
este artigo poderia ter recebido como título A Ética
Suplente, que teria o mesmo sentido. Afinal, o Conselho de
Ética do Senado foi tomado por suplentes de senadores que, um
a um, renunciam à sua função, alguns deles, menos de 24
horas depois de tomar posse.
O
Senado dos suplentes parece com menos pompa e, assim, mais
real. O Conselho de Ética do Senado, que julga o recebimento
de verba de um lobista por parte do Presidente desta Casa, era
presidido por Sibá Machado, ex-sindicalista que assumiu a
cadeira da ministra Marina Silva. Renunciou em virtude do
imenso desgaste público. Foi uma renúncia de conveniência.
Desgastado, Sibá ameaçou colocar o relatório do petebista
Epitácio Cafeteira em votação na comissão, o que
fatalmente seria rejeitado e acabaria por acelerar a condenação
de Renan Calheiros. A bancada petista e articuladores do
governo federal surpreenderam-se e negociaram sua renúncia.
Com a renúncia, adiaram ainda mais um pouco qualquer decisão
do conselho, tática atual dos defensores de Renan Calheiros,
que acreditam que o prolongamento do julgamento por dois meses
jogará o tema às calendas, forçando a imprensa a abandonar
o assunto.
Epitácio
Cafeteira também havia renunciado. Como relator do processo
de falta de decoro parlamentar de Calheiros (processo
instaurado por iniciativa do PSOL), adiantou um parecer que
absolvia o réu. As denúncias e investigações da imprensa
esvaziaram os argumentos do seu relatório. As provas
apresentadas por Calheiros, de venda de gado (portanto,
recurso próprio) para pagar despesas pessoais o que provaria
não ter utilizado nenhum recurso escuso, oriundo de lobby,
foi desmentida no dia 14 de junho. Um repórter investigou o
valor da venda do gado (1,7 mil cabeças) e revelou um
superfaturamento de 600 bois. Também revelou que duas
empresas indicadas como compradoras já haviam sido multadas
pela Secretaria de Fazenda de Alagoas por extravio de notas
fiscais. Epitácio, cujo nome é quase um convite a um
trocadilho, não suportou. Assumiu seu lugar um outro suplente
de senador: Wellington Salgado, dono da Universo (universidade
que se notabilizou pela agressividade comercial nos últimos
anos). Salgado é político do espetáculo. Tem um prazer
especial em criar chistes, situações de efeito, atos
surpreendentes. Pouco depois de assumir a relatório que tinha
sido de Cafeteira, Salgado rasgou cópias de cheques sob
suspeição (que teriam sido usados para a compra do gado) e,
em voz alta, dirigida para os repórteres de plantão, disse
que era isto que desejavam que ele fizesse, mas que se negava
a isto. A entrada triunfal no seu novo posto foi o mote do
estilo utilizado para sua renúncia, menos de 24 horas após
sua posse. Um laudo da Polícia Federal havia demonstrado 14
irregularidades nas notas fiscais emitidas na venda do gado de
Renan.
Após
longas e duras negociações, o senador Lemar Quintanilha,
aliado de Calheiros, assumiu a presidência do Conselho de Ética.
O pessedebista Arthur Virgílio havia apresentado sua
candidatura, mas foi derrotado pelos seus pares do conselho
por Quintanilha por 9 votos a 6. O deputado Jefferson Peres,
que havia solicitado a renúncia de Renan Calheiros, não
compareceu à votação, voto que teria tornado mais dramática
a vitória do bloco pró-Renan, mas não evitaria a continuação
da atual toada de julgamento. O debate entre os dois
candidatos à Presidência do Conselho de Ética do Senado
teve um ou outro momento mais surpreendente. Arthur Virgílio
disse que, se vitorioso, indicaria o petista Eduardo Suplicy
para relator do processo enfrentado por Calheiros, o que
obrigou Quintanilha a oferecer a mesma vaga, se eleito, para
Renato Casagrande, do PSB do Espírito Santo. Uma cartada de
alto risco, já que Casagrande, embora da bancada governista,
é um defensor do aprofundamento das investigações e
demonstra incômodo com as provas apresentadas pelo réu. O
fato é que o convite foi retirado por Quintanilha, logo após
consumar sua vitória como novo Presidente do Conselho de Ética,
o que irritou Casagrande. O novo desgaste obrigou ao novo
Presidente refazer o convite ao peessedebista.
A
ópera bufa
Relatar
os últimos acontecimentos ilustra a ética do Conselho de Ética
do Senado, que antes era obra de movimentação nos bastidores
da política. Com a república dos suplentes, a movimentação
veio para frente das câmeras de televisão e jornais,
motivadas pelos 15 minutos de fama à que todo ser humano tem
direito ou por pura inexperiência. Não se discute o
significado da renúncia numa relatoria que julga falta de
decoro parlamentar de um par quando sua opinião, enquanto
relator, não prevalece, mesmo antes de seu relatório ser
votado. Como se fora um jogo infantil que na iminência da
derrota, um dos jogadores desiste de continuar a disputa. Mas,
no caso em questão, a disputa é pela ética. Este é o nome
do conselho. Renunciar por seu relatório ser questionado é
renunciar à defesa da ética. Portanto, no Conselho de Ética,
o Senado ficou mais transparente. A pompa deu lugar às
circunstâncias do jogo de pequena envergadura. O que conta é
quem vence e não o que é julgado. Pior saber pela imprensa
que ronda pelos corredores do Senado a ameaça que Renan
Calheiros delataria colegas que utilizam verbas públicas para
alimentar namoros ou dívidas astronômicas com bancos públicos.
O
emaranhado de lealdades armadas nos bastidores da ética do
Senado, se real, indica que o que menos contaria é a
representação do cidadão. Assim, fica ainda a dúvida, já
que a Comissão de Ética desta Casa deve ser o bastião da
sua ética e, portanto, um lugar cobiçado por todos partidos,
dos critérios para se avaliar e aprovar indicados a
embaixador ou à presidência do Banco Central.
Constitucionalmente, os senadores zelam pelos direitos
constitucionais, julgam o Presidente da República, ministros
do Supremo Tribunal Federal, o procurador-geral da República
e o advogado-geral da União. É considerada uma Câmara Alta,
com função moderadora. Os três senadores por Estado são
eleitos por princípio majoritário e possuem um mandato dos
mais dilatados: oito anos. Assim, teriam por competência do
cargo, que procurar despartidarizar seus julgamentos, porque
estariam numa câmara especial, de representação dos
interesses éticos e determinações constitucionais da nação.
O artigo 52 da Constituição Federal define as competências
dos senadores. Além das já citadas, destacam-se:
a)
aprovar a escolha de magistrados, ministros do tribunal de
contas, presidente e diretores do Banco Central,
procurador-geral da República;
b)
aprovar chefes de missões diplomáticas;
c)
dispor limites globais de operações de crédito de
governos;
d)
dispor de limites globais para dívida mobiliária;
e)
eleger membros do Conselho da República.
São
competências nobres, mas que podem perfeitamente ser atribuídas
à Câmara Federal. Mesmo porque, o escândalo envolvendo o
Presidente do Senado e o modo como este caso vem sendo
conduzido por seus pares, não chega a legitimar uma diferença
de competências tão distinta entre senadores e deputados
federais.
Com
efeito, mais que o escândalo, o caso Renan, por revelar como
os senadores (em especial, do Conselho de Ética) não se
comportam de maneira distinta daquele comportamento típico
dos deputados federais, coloca em xeque o sistema bicameral da
estrutura parlamentar brasileira. Na prática, não há
motivos para a diferenciação. Não há motivos para um
mandato de oito anos, o maior mandato parlamentar nacional. Não
há motivos para a escolha de três senadores por Estado,
sendo um deles, oriundo de casuísmo, que chegou a ser
denominado de biônico.
Há
pouco, a ONG Transparência Brasil divulgou que o parlamento
brasileiro gasta 11 reais por minuto para manter
parlamentares, assessores, verbas de gabinete, combustível e
passagens aéreas. Cada um dos 513 deputados federais custa
6,6 milhões por ano. Mas os senadores são ainda mais caros:
33 milhões de reais por ano, por cabeça. Só os EUA gastam
mais com seus parlamentares.
Parece
evidente que passar o
Brasil a limpo como se acostumou desejar freqüentemente,
significa questionar a própria existência do Senado e os
gastos fabulosos de recursos públicos que ele enseja.
E,
daí, abrir um amplo debate público sobre as condições
efetivas de funcionamento dos parlamentos brasileiros. As
candidaturas avulsas, sem necessidade de filiação partidária,
poderiam oxigenar o sistema de representação política.
Poderia criar o que as eleições dos conselhos de fábrica
causaram na Europa. Como as chapas poderia ser filiadas ou não
à uma central sindical, esta possibilidade acabou por obrigar
as centrais sindicais a se inserirem com mais dinamismo no
interior das fábricas, sob pena de serem eliminadas do
sistema de negociação fabril. A lógica de negociação e
articulações de cúpula tinha, assim, um contrapeso das eleições
avulsas dos conselhos de fábrica.
A
eleição avulsa para os parlamentos brasileiros poderia gera
o mesmo efeito, obrigando as burocracias partidárias a
cederem espaço político à militância de base. A representação
política retomaria o fluxo natural, iniciada mesmo antes do
próprio processo eleitoral, inserido no cotidiano do cidadão
comum.
Mas
ainda é pouco. Com adoção do sistema distrital misto seria
possível adotar o recall,
que poderia cassar o mandato de parlamentares que
demonstrassem não cumprir o desejo do seu eleitor.
O
parlamento precisa, ainda, se embeber nas práticas
participacionistas que atingiram o Executivo no Brasil. A criação
de conselhos ou câmaras temáticas ou de representação de
segmentos sociais, poderiam gerar um vínculo maior entre o
parlamentar e a dinâmica social real.
O
fato é que o parlamento brasileiro é o que se mantém mais
atrasado e apegado a uma liturgia ultrapassada, academicista,
que encobre bastidores pouco convenientes à ética política
e ao desejo dos brasileiros. Os parlamentares, em seus
pronunciamentos, começam a sentir a desaprovação nacional
à sua conduta e grande desilusão com a possibilidade do
sistema político de representação poder se renovar. São
tantos casos explícitos de descontrole, acordos que encobrem
erros grosseiros entre colegas parlamentares, renúncias e
casos de conduta duvidosa, que parece esgotar a crença, ainda
que mínima, na capacidade de convalescença dos
parlamentares.
Enfim,
se os gatos têm a seu favor o mito das sete vidas, não se
sabe de algo similar em relação ao Senado. E é cada vez
mais evidente que até mesmo os senadores já perceberam este
fato.
por RUDÁ RICCI