Resenha:
Michael
Löwy. Franz Kafka, sonhador insubmisso.
Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005 (208 p.)
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Franz
Kafka:
a
afirmação da liberdade
para
José Eduardo Izzo Junior
“Pode-se
ainda dizer algo novo sobre Kafka?”, pergunta-se Michael Löwy.
Ainda que a obra do escritor tcheco seja daquelas que produziram
leituras interpretativas e exegéticas diversas, o autor de “Franz
Kafka, sonhador insubmisso” aposta que sim. Mas é possível
ser original e superar as leituras de cunho estritamente literário,
biográfico, psicanalíticas, teológicas, judaizantes e sociopolíticas
dos diversos comentadores e críticos literários que se debruçaram
sobre a obra kafkiana? Löwy investe num olhar que procura captar o
“fascinante poder de insubmissão” expresso na escrita de Franz
Kafka (p. 07).
A
leitura de Michael Löwy é marcada pela perspectiva antiautoritária
do autor de O Processo. Essa é a chave da leitura que
permite responder afirmativamente à questão colocada e, ao mesmo
tempo, produz uma reflexão ímpar, que, situada no rol das
interpretações sociopolítica, procura “articular os outros níveis,
graças a um fio vermelho que permite ligar a revolta contra
o pai, a religião da liberdade (de inspiração judaica ortodoxa) e
o protesto (de inspiração libertária) contra o poder mortal dos
aparelhos burocráticos: o antiautoritarismo” (p. 11).
A
obra de Kafka, incorporada ao léxico de várias línguas através
do termo kafkiano, expressa a crítica antiautoritária,
vale frisar, a afirmação da liberdade, na medida em que seu
significado é profundamente assimilado “pelos milhões de
leitores modernos para os quais o nome de Kafka tornou-se sinônimo
de inquietação, em face do sistema burocrático” opressor. “As
cadeias da humanidade torturada são feitas de papel de escritório”,
afirmou Kafka (págs. 13-14). Para Löwy, essa imagem kafkiana
“sugere, ao mesmo tempo o caráter opressivo do sistema burocrático,
que subjuga os indivíduos com seus documentos oficiais, e o caráter
precário das cadeias, que facilmente poderiam ser rompidas se os
homens quisessem libertar-se delas” (p. 15).
O
olhar diferenciado de Michael Löwy lança luz sobre as
potencialidades libertárias e insubmissas do autor de Praga. E, por
outro lado, oferece ao leitor a possibilidade de realizar uma
leitura política crítica. Mas não se trata de enquadrar
ideologicamente a obra de Kafka e reduzi-la “a uma doutrina política,
seja ela qual for”. Como esclarece Löwy: “Kafka não produz discursos,
ele cria personagens e situações e exprime, em sua obra,
sentimentos, atitudes, uma Stimmung. O mundo simbólico da
literatura é irredutível ao mundo discursivo das ideologias; a
obra literária não é um sistema conceitual abstrato, na
trilha das doutrinas filosóficas e políticas, mas criação de um universo
imaginário concreto, de personagens e coisas” (p. 19).
Eis
a diferença fundamental entre literatura e textos de caráter político.
Ainda que a obra literária tenha significado político, não se
trata de política partidária ou adesão a uma ideologia específica.
Neste caso, estaríamos diante de um panfleto. Isso não significa
que o autor seja ideologicamente neutro, mas sim que o texto literário
pertence a outro campo diverso da atividade humana, com características
que lhes são próprias. Não obstante, isto não impede a leitura
crítica da obra literária. Em relação a Franz Kafka, por
exemplo, não impossibilita que se explore “as passagens,
passarelas, os elos subterrâneos entre seu espírito antiautoritário,
sua sensibilidade literária, suas simpatias socialistas, por um
lado, e seus principais escritos, por outro” (id.).
O
acesso à documentação sobre a vida e obra do autor, e o diálogo
crítico e criterioso com os diversos intérpretes e comentadores,
faz de Michael Löwy um leitor privilegiado da literatura kafkiana.
Isto se evidencia no transcorrer do livro. O leitor não acostumado
às querelas interpretativas pode até mesmo cansar-se diante das
discussões e detalhes apresentados em certos trechos. Porém, o
leitor interessado em compreender profundamente a obra kafkiana terá
o seu esforço recompensado. O que parece bizantinismo em
certos aspectos ganha importância na medida em que configura a
riqueza da obra. Por outro lado, o diálogo de Löwy com as várias
linhas interpretativas ilumina a sua argumentação e, conforme avançamos
na leitura, delineia-se o perfil insubmisso de Franz Kafka.
Löwy
analisa as inclinações socialistas de Kafka, um socialismo de
verniz antiautoritário. Sua pesquisa se orienta nessa direção. Daí
a referência ao anarquista russo Piotr Kropotkin. Ele se fundamenta
em relatos contemporâneos e em determinados aspectos da obra
kafkiana como América. Contudo, como nos alerta Löwy, não
se trata de “demonstrar uma pretensa “influência” dos
anarquistas de Praga – ou de Kropotkin – sobre seus escritos. Ao
contrário, foi ele que, a partir de suas próprias experiências
e de sua sensibilidade antiautoritária optou por freqüentar
durante alguns anos, esses meios (e por ler alguns de seus textos).
Com efeito, nada seria mais falso do que acreditar que ele tivesse
desejado transcrever suas simpatias libertárias em sua obra literária”
(p. 55).
É
equívoco rotular a obra kafkiana de anarquista (ou outro ista
qualquer). Mas é possível identificar o ethos libertário.
Este “se exprime em diferentes situações que estão no centro
dos seus principais textos literários, mas, antes de tudo, na
maneira radicalmente crítica como é representado o semblante
compulsivo e angustiante da não-liberdade: a autoridade”.
O leitor que queira descobrir na obra kafkiana um livro que expresse
diretamente a utopia libertária certamente se frustrará. Esta “não
aparece como tal em lugar nenhum em seus romances e contos: ela
existe somente em negativo, como crítica de um mundo totalmente
desprovido de liberdade, submetido à lógica absurda e arbitrária
de um “aparelho” todo-poderoso” (p. 56).
Löwy
mostra que as experiências de vida do autor de Praga – a relação
paterna, o emprego etc – reforçam a perspectiva antiautoritária.
Esta não aparece enquanto doutrina política, mas na forma “de um
estado de espírito e de uma sensibilidade crítica
– cuja principal arma é a ironia, o humor” (p.
57). Se a sua obra expressa um dos aspectos fundamentais do
pensamento anarquista, nem por isso é passível de defini-la
enquanto tal. “Kafka estava longe de ser um “anarquista”, mas
o antiautoritarismo – de origem romântica e libertária –
atravessa o conjunto de sua obra romântica e libertária, num
movimento de universalização e de abstração crescente do poder
da autoridade paterna e pessoal até a autoridade administrativa e
anônima” (p. 59), acentua Löwy.
Um
dos elementos diferenciadores da análise de Michael Löwy é sua
capacidade de universalizar a experiência para além das interpretações
psicologizantes. A crítica à ditadura paterna constitui um dos
fundamentos íntimos da perspectiva rebelde e insubmissa de Kafka.
Ele se coloca do lado dos trabalhadores empregados do pai; fica do
lado dos oprimidos. Por outro lado, como demonstra Löwy, o escritor
tcheco nutre admiração especial por aqueles que se rebelam e lutam
pela liberdade, com destaque para as figuras femininas.
A
leitura do livro de Michael Löwy nos permite compreender a obra de
Kafka. Sua análise revela o quanto o poder impessoal também pode
ser tirânico e como este significado está presente nos livros e
contos kafkianos. Em América, Na Colônia Penal, O
Castelo, O Processo, etc., Kafka disseca e desvenda o
poder em todas as suas manifestações. Simultaneamente, Löwy
observa o quanto a obra de Kafka também está sujeita às
interpretações conformistas ou mesmo aquelas que culpabilizam as vítimas
do despotismo burocrático. É o caso de alguns intérpretes da obra
O Processo. Löwy assinala que esse tipo de exegese tem em
comum “o fato de neutralizarem ou apagarem a formidável dimensão
crítica do romance, cujo tema central, como bem compreendeu Hannah
Arendt, “é o funcionamento de uma hipócrita máquina burocrática
na qual o herói foi inocentemente capturado” (p. 110).
Após
apresentar e analisar as várias interpretações e se deter sobre a
conclusão de O Processo, Löwy considera que esta “é ao
mesmo tempo “pessimista” e resolutamente anticonformista. Ela
exprime a sensibilidade do pária-rebelde em Kafka, que manifesta
nessas páginas ao mesmo tempo a compaixão pela vítima e uma crítica
da submissão voluntária. Podemos lê-las como um apelo à resistência”
(págs. 126-127).
A
obra de Kafka expressa uma theologia negativa, conforme notou
Walter Benjamin. Michael Löwy resgata a correspondência entre
Walter Benjamin e Gershom Scholem e concorda que este conceito “é
efetivamente o único que pode dar conta de modo adequado do tipo
muito particular de problemática religiosa presente nos romances de
Kafka” (págs. 131-132). “Em outros termos”, afirma Löwy,
“os escritos de Kafka descrevem um mundo entregue ao absurdo, à
injustiça autoritária e à mentira, um mundo sem liberdade em que
a redenção messiânica só se manifesta negativamente, por sua ausência
radical” (p. 132). Configura-se, portanto, uma utopia negativa
que tem afinidades eletivas com a teologia negativa. Um dos
textos que melhor condensam esta “espiritualidade libertária”
é a parábola “Diante da lei”. O significado deste texto é
analisado por Löwy no capítulo com o sugestivo título “A religião
da liberdade e a parábola “Diante da lei” (págs. 129-156).
A
análise da obra O Castelo é atualíssima. A leitura nos
propicia o entendimento de como o despotismo burocrático conta com
a servidão voluntária para se legitimar. Com efeito, vivemos num
mundo em que a acomodação e adaptação à ordem constituem
comportamentos elogiáveis e aconselhados. Mesmo os que em tese
deveriam nutrir posturas críticas diante da máquina burocrática
se submetem efusivamente e aceitam as diretrizes emanadas dos órgãos
superiores sem esboçar qualquer resistência. O comum é aceitar a
autoridade burocrática como natural.
Löwy
contextualiza os romances analisados. O Castelo está
relacionado à conjuntura da vaga insurrecional que sacudiu a Europa
nos anos 1818-1922. Isto explicaria porque, em sua avaliação,
nesta obra a ênfase recai sobre a temática da resistência ao
poder. Mas se trata da resistência individual. Nesta perspectiva, Löwy
chama a atenção para um personagem em geral pouco observado.
Trata-se de Amália, “uma dessas raras personagens nos romances de
Kafka que encarnam, de modo irredutível, a recusa a obedecer, a
insubmissão, em suma, a dignidade humana – pagando por isso um
preço muito alto” (p. 185). Aqui, mais uma vez, nota-se a admiração
de Kafka pelas mulheres que se rebelam contra o poder instituído.
Após
discutir as interpretações sobre o “realismo” de Kafka,
Michael Löwy finaliza este ensaio enfatizando “o poder de
“iluminação profana” da obra kafkiana. A capacidade do autor
de Praga em lançar luz sobre um mundo prisioneiro de “cadeias de
papel de escritório”, um mundo despoticamente dominado por formas
de poder impessoais e tiranias profeticamente apresentadas em textos
como O Processo, “é, sem dúvida, uma das causas do seu
extraordinário impacto sobre a cultura do século XX” (p. 201).
Portanto, não é casual que o nome do autor tcheco tenha se tornado
um adjetivo vinculado aos absurdos do nosso tempo. Como enfatiza Löwy:
“Não é por acaso que o termo “kafkiano” entrou para a
linguagem corrente: ele designa um aspecto da realidade que as ciências
sociais tendem a ignorar e para o qual não têm qualquer conceito
pertinente: a opressão e o absurdo da reificação burocrática tal
como são vividos pelas pessoas comuns” (págs. 204-205). Não
obstante, a obra de Kafka também expressa a possibilidade de
resistir, de não se submeter. Para tanto, é preciso compreender os
mecanismos que nos dominam e, como o autor, cultivar a insubmissão.
Para
concluir, o livro de Michael Löwy também mostra o quanto
determinados indivíduos influenciam as nossas vidas. No Post-Scriptum
ele expõe em poucas linhas como chegou a esse tema e como suas
pesquisas evoluíram durante anos até a publicação deste livro.
Neste relato ele presta uma justa homenagem a Maurício Tragtenberg:
“Ouvi
falar pela primeira vez de Kafka durante meus anos de ginásio no
Brasil, numa conferência de Maurício Tragtenberg sobre “A
burocracia em O Castelo de Kafka”.
Maurício era um jovem intelectual judeu-brasileiro, autodidata
– mais tarde, faria uma carreira universitária – de
sensibilidade marxista-libertária. Não me recordo dos detalhes
da conferência, mas, em linhas gerais, ele sustentava que o
romance de Kafka era uma das mais interessantes análises críticas
da significação dos poderes burocráticos nas sociedades
modernas. Meu livro deve muito a essa longínqua intervenção de
meu amigo desaparecido, Maurício Tragtenberg” (p. 16).
Ainda
bem que existem indivíduos e livros como esses. São palavras que
permanecem e cativam as gerações. São exemplos de insubmissão.
Os sonhadores utópicos e insubmissos resistem!
por
ANTONIO OZAÍ DA SILVA