Globalização
perversa e políticas econômicas nacionais: um contraponto às visões
correntes em certos meios
Freqüentemente
somos confrontados, na imprensa diária ou em revistas de opinião,
com artigos de orientação crítica ao processo de globalização,
com argumentos não muito diferentes daqueles que são repetidos, ao
ponto de fastídio, nos conclaves de antiglobalizadores. O mesmo
ponto de vista crítico se encontra também nos próprios discursos
das autoridades, que retomam argumentos de igual teor contra a
“globalização assimétrica”. Pessoalmente, considero que esse
tipo de “embate” intelectual está de antemão condenado ao
fracasso ou à inocuidade, uma vez que não parece haver no mundo
força humana ou social que consiga canalizar a globalização para
uma trajetória “bem comportada”, digamos assim. Isso se dá
pela simples razão de que não existe ninguém no comando do
processo, pelo menos não como força politicamente organizada,
ainda que muitos acreditem que seus promotores e “condutores” se
reunam todo ano em Davos.
Como
tenho deparado com uma incidência usualmente maior de artigos que
postulam o caráter intrinsecamente perverso da globalização e
como seus autores prometem “resolver”, ou pelo menos
“melhorar”, os problemas do Brasil no tratamento do “problema,
resolvi condensar alguns contra-argumentos às afirmações que
tenho encontrado na imprensa. Não tenho a mínima intenção de
fazer a “defesa” da globalização, tanto porque seria sumamente
ridículo pretender adotar qualquer postura pessoal em relação a
esse processo, que independe, como disse, da vontade dos homens, dos
partidos, dos capitalistas organizados ou mesmo dos Estados
nacionais. Minha intenção é tão somente coletar algumas alegações
que tenho encontrado na imprensa e agregar minhas próprias observações
críticas a elas.
Cada
uma das seções seguintes conterá uma afirmação que pode ser
apresentada como um exemplo típico dos argumentos condenatórios da
globalização perversa, ou “assimétrica”, após o que aduzirei
meus próprios comentários.
1.
O
Brasil cede espaços na lógica perversa da economia global, porque
resolveu adotar, nos anos 1990, uma abertura econômica exagerada e
uma liberalização comercial sem barganha, perdendo uma
oportunidade de uma inserção benévola na globalização.
PRA:
Os fenômenos de inserção econômica global convivem mal com
qualificativos ou adjetivos, uma vez que os processos de integração
à economia mundial não são pré-determinados, para que deles
possamos decidir, ex-ante, que deles aceitaremos apenas aspectos favoráveis,
rejeitando os menos risonhos, mormente quando se trata da globalização,
que não é comandada por nenhuma força identificável em
particular. Países decidem estabelecer medidas de política econômica
que são mais ou menos abertas a influxos externos por decisões
conscientes de suas autoridades e estima-se que, a menos que sejam
particularmente estúpidas ou perversas, tenham elas feito um cálculo
de custo-benefício da abertura econômica e concluído que o exercício
era importante para o país.
Da
mesma forma, não há nenhuma lógica “perversa” – ou “benéfica”,
que seja – na economia global, pela simples razão que essa
economia global, supondo-se que funcione da mesma forma que sistemas
complexos, não obedece a critérios de utilidade racional, unitários
ou comandados a partir de um centro. Ninguém está no comando da
globalização, ponto. Isso precisaria ficar muito claro aos favoráveis
e aos opositores da globalização, que pedem seja uma globalização
não-assimétrica, seja um outro mundo possível. Tudo isso é
absolutamente inócuo.
Muitos
analistas, sobretudo os identificados com as “teses” do Fórum
Social Mundial, têm a tendência a ver apenas aspectos desfavoráveis
na globalização. Acredito que um chinês, retirado de sua aldeia
miserável do interior do país para um salário razoável em
Xangai, poderia ter uma opinião claramente distinta da economia
mundial e de suas oportunidades “positivas”.
Não
creio, pessoalmente, que o Brasil tenha perdido oportunidades ao se
abrir nos anos 1990, uma vez que ele seguiu uma tendência geral à
qual ele antes era contrário. Não resta dúvida que, em virtude de
suas políticas setoriais – comercial e industrial – o Brasil
era classificado, nos anos anteriores, como protecionista. Assim
como não deveria haver dúvidas a respeito dos efeitos globalmente
positivos da globalização: os países que nela se inseriram com
intensidade (e sem qualquer adjetivo), dela retiraram benefícios,
como provam os casos da China e da Índia.
Qualquer que seja o julgamento que se possa fazer sobre a qualidade
das políticas econômicas nacionais desses dois países, o fato é
que nenhum benefício delas adviria se eles não tivessem conduzido
processos de abertura aos investimentos estrangeiros e ao comércio
internacional.
2.
Mesmo se a abertura econômica do Brasil foi necessária,
ela pode ser considerada açodada, uma vez que veio sem o “escudo
protetor” de um “projeto estratégico”. Este poderia diminuir
os riscos inerentes à abertura e capturar algumas vantagens econômicas
da fragmentação das cadeias produtivas globais, como ocorreu nos
casos da China, da Índia, da Coréia do Sul e do Chile.
PRA:
“Açodada” não é bem o termo para um país que faz um reforma
tarifária modesta (entre 1990 e 1993), que depois de concluída viu
tarifas serem continuamente reescalonadas para o alto, em todas as
demais oportunidades anteriores (e ainda agora, com a tentativa de
elevar as alíquotas incidentes sobre têxteis, calçados e móveis),
e que ainda mantém uma média e picos tarifários superiores –
para automóveis, por exemplo – aos da maior parte dos países
emergentes (com algumas exceções pontuais que mereceriam qualificação).
“Projeto
estratégico” é geralmente uma ilusão conceitual, pois ele
raramente existe em circunstâncias normais, sendo mais um conceito ex-post para “explicar” o que deu certo. Se não deu certo, vai
para a lata do lixo da história e ninguém mais fala do conjunto de
políticas exercidas naquele momento ex-ante.
Todos os países possuem políticas e práticas, algumas mais
exitosas do que outras, em função de variáveis que devem ser
explicadas caso a caso, e não como o resultado de algum
desenvolvimento teleológico que já estava pré-determinado em sua
origem.
A
única coisa que podemos afirmar dos “projetos estratégicos”
dos países citados é que eles estavam dispostos a aproveitar as
oportunidades oferecidas pela economia global, justamente,
mobilizando seus fatores produtivos e seus potenciais competitivos
em função dos mesmos mecanismos ricardianos e das vantagens dinâmicas
percebidas que poderiam ser exploradas de forma positiva no contexto
altamente competitivo da economia global. Fora essa qualificação
absolutamente genérica, e portanto inútil para todos os efeitos, não
há rigorosamente nada que se pareça em cada experiência nacional,
em termos de “projeto estratégico”.
3.
Os países
considerados de maior sucesso na globalização operam um diagnóstico
preliminar de suas potencialidades e dos espaços de inserção e
utilizam políticas econômicas não (ou menos) ortodoxas. Com isso
eles conseguem crescer a taxas elevadas: a China, a médias anuais
próximas de 10%; Índia, Coréia do Sul e Chile, em torno de 6%; e
o Brasil, que pratica políticas ortodoxas, não tem passado de
pouco mais de 2% desde os anos 1990.
PRA:
Esse crescimento certamente não foi “dado” de graça pela
globalização e sim obtido por cada um deles a partir da demanda
externa de seus produtos e da demanda interna criada por uma nova
dinâmica econômica que atuou em sinergia com os novos fatores
produtivos, potencializados em grande medida pela inserção na
economia mundial (que necessariamente representa mercados, capitais,
know-how, melhorias tecnológicas,
etc). Países temerosos ou cautelosos em se lançar nessa ciranda
geralmente acabam ficando para trás. Basta verificar o coeficiente
de abertura externa – comércio exterior sobre PIB – de cada um
deles, para constatar que são sistematicamente mais elevados do que
o Brasil.
Mas
os principais fatores de crescimento são sempre internos, uma vez
que a interface externa nem sempre representa a maior parte do PIB,
sobretudo no caso de grandes mercados domésticos, como ocorre com o
Brasil. Por isso devem ser levados em conta no processo de
crescimento os demais fatores de ordem econômica interna, que podem
explicar a taxa de crescimento: variáveis fiscais, monetárias,
mercado de capitais, a existência ou não de crowding-out pelo Estado (isto é, a captura da poupança privada
pelo governo), a infra-estrutura (tanto a material como a
institucional, isto é legal) e a logística favoráveis, a
estrutura tributária, o ambiente de negócios, e muitos outros
fatores mais.
Conferindo
os registros históricos de inflação, equilíbrio fiscal,
investimentos produtivos e ambiente de negócios de todos esses países,
acredito que teríamos muito mais razões para diferenciá-los em
termos de taxas de crescimento do que qualquer “projeto estratégico”
(que dificilmente poderia ser comparado sem enorme subjetivismo).
Indicadores e séries estatísticas são fatores objetivos à
disposição de qualquer observador, e posso apostar,
preventivamente, que os indicadores macro e microeconômicos do
Brasil eram e são globalmente negativos para fins de crescimento
econômico: poupança, investimentos, tributos, créditos,
infra-estrutura, governo, etc. Não creio que seja necessário
montar tabelas comparativas para evidenciar essas realidades,
conhecidas da maior parte das pessoas que trabalham com dados estatísticos.
Seria
verdade, por outro lado, que esses países seguem de fato políticas
econômicas não ortodoxas? Trata-se de uma afirmação que
tem de ser tomada cum grano
salis, uma vez que as antigas políticas seguidas pela China
socialista, pela Índia nacionalista e
“planejadora” e pelo Chile de Allende, “cepaliano”, eram,
sem qualquer exagero, totalmente heterodoxas (para não dizer que
elas eram absolutamente contrárias a qualquer princípio de
mercado). Toda a evolução das políticas econômicas desses países
foi sempre no sentido de adesão aos princípios gerais que
coincidem com os chamados good
fundamentals, qualquer que seja o resíduo “nacionalista” e
“heterodoxo” de suas políticas setoriais. Esses países só
deslancharam porque, justamente, eles se afastaram das políticas
seguidas antes. Ainda que se possa recusar, para efeitos puramente
de “nacionalismo” econômico, a classificação de “consenso
de Washington” para suas políticas econômicas, um exame mesmo
perfunctório de seu sentido geral revela, não um afastamento, mas
sim uma concordância básica com aquele conjunto de regras. A China
e a Índia, atualmente, são países muito mais próximos do
consenso de Washington do que jamais estiveram em qualquer época
anterior: se isso significa não ortodoxia, que seja, uma vez que
ninguém persegue, a rigor, santidade fundamentalista de mercado, e
sim eficiência econômica.
4.
A
China continua a se pautar por estratégias próprias de crescimento
econômico, a maioria em sentido contrário ao que é preconizado
pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) ou pela Organização
Mundial do Comércio (OMC). Mesmo assim ela consegue atrair grandes
fluxos de investimentos diretos internacionais e se tornar grande
geradora de tecnologia.
PRA:
A China, antes de ingressar no FMI e na OMC, podia ostentar políticas
contrárias a essas instituições e suas regras estatutárias. Se
algo houve, depois, foi justamente no sentido da convergência
dessas políticas com as regras multilaterais, e portanto a afirmação
peca por inconsistência lógica. De fato, ela possui grande
variedade de estratégias nacionais para seu processo de
crescimento, sendo que a principal delas continua a ser a atração
contínua de capitais estrangeiros, seguida da busca incessante de
mercados externos. O que a China fez, isso sim, foi multiplicar
estratégias e políticas ao arrepio completo de suas antiquadas
regras restritivas e de suas leis nacionais completamente defasadas
para uma inserção na globalização. Quando a China solicitou seu
ingresso no GATT, em 1987, o grande desafio colocado aos demais
membros foi, justamente, o de colocar a legislação chinesa de comércio
exterior em compasso com as regras do GATT (não se falava então de
OMC). Pode-se dizer que, ainda que maneira “gauche”, a China vem
cumprindo razoavelmente bem o que se espera dela nas instituições
multilaterais.
5.
A Índia
cuida de suas grandes empresas locais, zela pelo seu mercado interno
e, com isso, virou o maior produtor de software do mundo.
PRA:
Não exatamente: a Índia não foi
privilegia especialmente o seu mercado interno, no processo de
“inserção benévola” à economia global. O que explica o
sucesso da Índia nessa área é
justamente a existência de muitos indianos nos EUA e na Europa que
souberam aproveitar as oportunidades existentes nesses mercados para
oferecer serviços baratos que atendem justamente ao mercado
externo, a partir de suas bases indianas, necessariamente mais
baratas do que os mesmos serviços oferecidos nos mercados
consumidores. Assim como Lênin dizia que o comunismo soviético era
o socialismo mais eletricidade, o êxito indiano na globalização
poderia ser explicado como sendo know-how ocidental mais engenheiros
indianos falando inglês.
Por
fim, acredito que não foi exatamente a “Índia” – aqui algo
equivalente ao Estado – que obteve esse sucesso, mas as empresas
indianas, que puderam expandir-se graças, justamente, à liberação
das antigas amarras do Estado indiano. Se isso são políticas
“heterodoxas” é duvidoso e incerto, pois o sentido geral é o
do alinhamento com as políticas econômicas favoráveis à inserção
globalizada.
6.
O Chile,
apontado como exemplo de neoliberalismo bem-sucedido na América
Latina, teve a prudência de não privatizar o cobre, sua grande
fonte de exportações, manteve uma meta de inflação razoavelmente
flexível e permanentes controles do capital especulativo.
PRA:
O sucesso do Chile não tem absolutamente nada a ver com a
nacionalização do cobre: ele teria ocorrido – e talvez até
pudesse ter sido maior – mesmo na liberalização e na privatização
desse importante setor provedor de divisas para a economia chilena,
divisas que continuariam entrando num regime privado. A nacionalização
apenas serviu para dar dinheiro extra aos militares que se equiparam
de forma talvez excessiva para os padrões necessários (ou talvez
requeridos no caso do Chile, em face da Bolívia e do Peru ainda
reinvindicantes). A Vale do Rio Doce é absolutamente privada há
mais de uma década e aumentou enormemente as exportações
brasileiras e trouxe divisas ao Brasil como nunca antes. Aliás, num
regime privado, ela se tornou internacional e pode adquirir empresas
em outros países, o que a Codelco chilena ainda não fez e não se
sabe se o fará: a internacionalização é algo absolutamente
necessário para qualquer empresa, e empresas estatais em geral são
pouco propensas a se internacionalizarem.
Conclui-se
disso que a nacionalização do cobre chileno é prejudicial, não
“estratégico”, para fins de globalização “benévola”. Aliás,
se o Chile está extraindo grandes “lucros” com a exportação
de cobre, isso se deve basicamente aos altos preços vigentes nos
mercados externos, o que não tem absolutamente nada a ver com políticas
econômicas ortodoxas ou heterodoxas, nacionalistas ou globalizantes,
e sim a lei da oferta e da procura. Poderia ser exatamente o contrário,
isto é, commodities com
baixa cotação, o que daria menos “lucros” ao governo e ao exército
chileno. Isso não diminuiria em nada o sucesso do Chile – ou
melhor, das empresas chilenas – em outras vertentes do comércio
exterior e do crescimento econômico como um todo.
Quanto
ao alegado controle sobre capitais especulativos, há uma
incompreensão muito grande em torno disso. O Brasil dos anos 70
mantinha, como o Chile até 1997, mecanismo de esterilização de
capitais especulativos, pois atraia muitos capitais em vista das
suas altas taxas de crescimento (como o Chile nos anos 90). Aplicava
retenções de 25% sobre o capital aplicado em prazos menores do que
12 meses, o que é exatamente a famosa quarentena chilena. Ou seja,
não há absolutamente nada de extraordinário no que o Chile fez.
Deve-se
também alertar para o fato de que, na crise de 1997, o Chile
suspendeu, justamente, o mecanismo de retenção, o que os alegados
defensores do modelo chileno (e brasileiro) não conhecem ou se
escusam de lembrar. O Brasil tem um mecanismo (IOF) que poderia ser
estendido ao ingresso de capitais, caso fosse necessário utilizá-lo.
Por
fim, o que distingue o sucesso chileno na globalização é o seu
crescimento contínuo durante duas décadas, estimulado por exportações
crescentes dos mais variados setores – e não apenas do cobre –,
com base na lei das “vantagens comparativas”. As “importações”
de capital ajudaram a modernizar o seu setor de serviços, sua logística
exportadora e assim colaboraram na tarefa. Controles sobre capitais
estrangeiros são feitos por razões de política monetária, não
para se proteger da “globalização perversa”.
7.
Todos
os países que apresentam crescimento elevado praticam taxas de
juros compatíveis com o mercado internacional. O Brasil é
penalizado por juros excessivamente elevados, que além disso atraem
capitais especulativos.
PRA:
As taxas de juros internas são sempre um equilíbrio entre a
remuneração interna (descontado o risco país) e a remuneração
externa dos capitais, de maneira a manter neutra a balança de
capitais. Se o Brasil manteve altas taxas não foi por uma decisão
perversa de suas autoridades monetárias, e sim para evitar fuga de
capitais que sempre ocorre quando se tenta infringir aquele equilíbrio.
De fato, os países de maior crescimento possuem taxas de juros mais
reduzidas do que o Brasil, mas pergunta-se quantos planos econômicos
mirabolantes, quantos confiscos e calotes esses países aplicaram ao
longo das últimas décadas? Comparem-se as estruturas tributárias
e o já referido crowding-out.
O
crescimento econômico medíocre do Brasil é um fato, mas isso tem
pouco a ver com a atração de capital especulativo. Os capitais
estrangeiros afluem quando eles têm condições de obter um retorno
razoável, o que é justamente obstado, no caso do Brasil, pelo
crescimento medíocre. Eles também visam as condições de negócios
e as do Brasil são horríveis. Nenhum país pratica rentismo por
que quer, ou então suas elites são absolutamente irresponsáveis.
O que se chama de rentismo são os juros elevados, que se explicam
justamente pela péssima qualidade da política fiscal. Capitais
especulativos são “atraídos” pelo Estado devorados de recursos
do setor privado, e por isso mesmo obrigado a prometer altas
remunerações. Afaste-se o “causador” dos juros altos e os
capitais “especulativos” procurarão outras paragens.
8.
A busca de
uma inflação muito baixa prejudica o crescimento. Daí nossos
juros elevados que atraem capital, valorizam a moeda e acarretam
importações excessivas. As políticas corretas devem ser favorecer
a elevação do dólar, via controle dos capitais especulativos, e
baixar a taxa de juros para patamares mais modestos.
PRA:
Pela primeira vez, em um século talvez, nossa inflação se
aproxima da média mundial. Isso não deve ser nenhum mérito, mas
algo “normal”. O sucesso exportador explica a valorização
cambial e qualquer medida que vise aumentar esse sucesso –
desvalorizando a moeda, por exemplo –
vai também pressionar a moeda para cima novamente. Não é
difícil controlar “fluxos especulativos”, basta um imposto e
algumas simples regras. Na verdade, eles só são especulativos
porque as oportunidades de lucro internamente são maiores do que as
existentes nos mercados maduros. Por outro lado, se o crowding-out
não fosse tão intenso, os capitais “especulativos” seriam
predominantemente nacionais.
Por
fim, o que mantém a taxa de juros alta é o desequilíbrio das
contas públicas, não o desejo do Copom ou a perversidade do Banco
Central. O Chile “produz” superávits nominais há muito anos:
quando o Brasil vai fazer o mesmo?
Em
conclusão, eu diria que o Brasil ainda tem muito a fazer para
aproximar sua política econômica do que se chama good
fundamentals. Quando o fizer, podemos ter certeza de que vai
deslanchar em termos de crescimento econômico. O que tem retido o
Brasil são justamente políticas feitas para garantir o máximo de
receitas para o Estado ao mesmo tempo em que diminuem as
possibilidades de investimento privado.
Algumas
“ousadias” seriam recomendáveis: vamos ousar, por exemplo
reduzir o tamanho do Estado? Apenas a título de comparação: a
carga fiscal no Chile é de 18% do PIB, na China de 17%. No Brasil,
como todos sabem, ela supera 35%. Alguma relação de causa a
efeito?
por
PAULO
ROBERTO DE ALMEIDA