Escola
que não ensina?
(Contribuição
para um debate sobre o fracasso da escola no Brasil)
Apenas
10 municípios conseguiram médias superiores a seis, nota máxima
do novo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, do
MEC/2007. No Paraná, a pequena Ivatuba obteve 6.0, nota máxima,
para sua escola que pertence a rede pública de ensino. Já uma
cidade de médio porte, Maringá, obteve 4.35, ou seja, está na média
paranaense, mas é o 781º. lugar do ranking do Ideb. Municípios de
Minas Gerais e São Paulo têm médias melhores.
Comparada
com os demais municípios brasileiros, Maringá passa. Mas,
comparada com outros países tem um ensino medíocre. Comparada com
cidades mais ou menos do seu tamanho, Maringá fica abaixo de outras
cidades do mesmo porte do Paraná, como Londrina, Cascavel, Ponta
Grossa, que alcançaram 4.7 de média. Fica abaixo, ainda, de outras
cidades da região, como por exemplo, Cianorte (4.5), menor do que
Maringá e localizada mais ao norte do Paraná.
O
desempenho escolar de nossa cidade “é injustificável”,
declarou em entrevista na CBN local a Profa. Dra. Marta Sforni,
coordenadora da CAE, da UEM, porque nossos professores são de nível
superior, muitos têm pós-graduação e longa experiência no
trabalho de ensinar. As escolas estão equipadas com quadras de
esportes, bibliotecas, computadores. Alguns municípios adotaram
oito horas diárias de permanência na escola. Enfim, por que nossa
escola não ensina o suficiente?
Por
outro lado, quais seriam as causas para uma cidade como Ivatuba se
sair bem no seu projeto de ensino? Levantamos cinco pontos sobre as
causas para se ter um bom ensino escolar. É minha
contribuição para o debate.
1)
A prefeitura possui um programa de formação continuada dos
professores. Infelizmente, poucos são as Secretarias Municipais
de Educação que fazem parcerias com as universidades locais,
sobretudo com os departamentos de educação, convidando seus
professores para contribuir para a formação continuada dos
professores.
2)
O ambiente de trabalho
escolar é bom. Se a escola é conduzida por uma gestão democrática,
se os professores trabalham em equipe e a diretora é uma líder que
tem visão de como fazer uma escola eminentemente ensinante, são
fatores imprescindíveis para construir uma boa escola e um bom
ensino. Ou seja, a cultura da escola deve fornecer uma ambiência de
trabalho para o ensino e a aprendizagem; ela deve despertar o
interesse e o gosto dos alunos, professores, e dos funcionários
para estarem neste espaço e crescerem juntos. Na contramão de uma
boa ambiência de trabalho está uma escola mal administrada, com
atritos entre professores e alunos, que causa mal-estar entre
professores e alunos, reforça o desinteresse, a indisciplina e até
violência na escola. Não raro, a violência “na” escola é
resultado da violência “da” própria escola; quando ela não se
responsabiliza pela sua função que é fazer o aluno aprender, e
por isso não proporciona bom ensino, e nem sustenta a autoridade e
a competência do professor em sala de aula.
3)
A formação dos professores consegue superar o conteudismo e o modismo.
Ou seja, os pedagogos e professores do presente para o futuro ainda
não são preparados para enfrentar o desinteresse, a
indisciplina e a violência, hoje, quase epidêmicas nas escolas,
que sabotam qualquer professora supostamente “bem” preparada
para ensinar "conteúdos". Uma coisa é estar preparada
para ensinar matérias e outra é ter habilidade e sabedoria para
lidar com comportamentos diversos e muitas vezes avessos ao propósito
ensinante da escola. Em vez de “doutrinar” os professores para
seguir um novo modismo teórico-medotológico de ensino, falta
desenvolver neles uma perspectiva interdisciplinar. Antes de ensinar
conteúdos, é preciso compreender por que cresce o número de
alunos mal educados resistentes, apáticos, ou indiferentes sobre o
papel da escola. Como desenvolver uma nova estratégia pra
“incluir” esses alunos no rol dos aprendizes com
status de estudantes? Há alunos que vão à escola apenas com
o intuito de perverter o trabalho da professora ou atrapalhar os
demais alunos. A exemplo do que ocorre em Ivatuba, as demais escolas
também deveriam valorizar o ensino de Filosofia e a Ética, na
composição do currículo escolar, para a formação das virtudes,
como queria o velho Aristóteles. Infelizmente, há intelectuais que
ignoram o papel da Filosofia, que acha que Aristóteles é de
´direita’ porque se preocupava com as virtudes e
valorizava a “justa medida” ou atitude de moderação. Mesmo com
a obrigatoriedade da Filosofia nas escolas, hoje ainda sofremos os
efeitos da ditadura militar, que excluiu essa disciplina do currículo
escolar. Além da Filosofia-Ética, penso que o ensino de Português
deve ser prioridade para levar o aluno a ler e compreender um texto.
O aluno que sabe ler mas não compreende um texto não vai bem nas
outras disciplinas, inclusive em Matemática, porque ele não sabe
interpretar o que o enunciado pede para ele resolver. O ensino de
Português precisa se tornar mais eficiente e pragmático, por
exemplo, estabelecendo um diálogo com a biblioteca da escola. Os
professores de Português precisam ler muita literatura para saber
escolher “bem” o que deve ser indicado aos alunos. A Filosofia e
Português deveriam manter um diálogo na escola, para levar os
alunos a aprenderem a pensar e se comunicar por que se deve viver
uma vida com conhecimentos e sabedoria.
4)
Em vez de impor uma única
linha teórica e metodologia de ensino e aprendizagem, a equipe
pedagógica da escola promove um debate sobre o limite de cada uma e
sua eficácia para levar o aluno a aprender. Entendo que o foco
parece ser mais uma luta pelo monopólio ideológico do espaço político
do ensino do que verdadeiramente resolver os problemas concretos da
educação do país. Ao contrário da Finlândia ou mesmo Cuba, onde
o exercício da interdisciplinaridade é um compromisso
verdadeiramente dialético entre a teoria e a prática, aqui, muitos
cursos de pedagogia repassam essa "briga" para as escolas,
que amesquinham sua práxis ao optarem, por exemplo, por uma "única"
linha metodológica para dar conta de todos os problemas da
diversidade cultural das nossas escolas. Recentemente, os
professores do Programa do Desenvolvimento Educacional (PDE) do
Estado do Paraná se sentiram constrangidos com o discurso agressivo
de um especialista de uma teoria da moda, querendo ocupar o espaço
das escolas públicas usando a velha tática de desconstrução de
tudo que foi construído na educação até gora. Até mesmo Paulo
Freire, um dos grandes nomes de nossa educação, que é
reverenciado pelo nosso Secretário de Educação, Maurício Requião,
entre outros, foi desqualificado por um arrogante especialista. Para
ele, só Vigotski salva a educação! Vigotski e o marxismo dogmático
made in União Soviética.
Nada contra ensinar Vigotski e o marxismo, desde que sem dogmatismo,
sem sectarismo, sem arrogância e messianismo teórico. O espírito
científico e filosófico é que devem orientar os trabalhos de uma
escola. Mas, a atitude dogmática que é avessa ao debate de idéias,
impede tanto o ensino como a pesquisa. Os educadores brasileiros
deveriam se dispor a analisar e debater, cientificamente, o que
funciona e o que não funciona no sistema de ensino. O
abstracionismo pedagógico deveria ser superado por investigações
mais voltadas para a realidade concreta da escola, para além dos
“ismos” e das perspectivas políticas e ideológicas que ainda
predominam na nossa educação. Uma atitude
interdisciplinar ainda está por ser conquistada. Lembrei-me
da educadora cubana, Esther Lobaina, respondendo a uma pergunta,
disse que o sucesso da educação do seu país socialista deve,
sobretudo, a dois fatores: o nacionalismo
e a interdisciplinaridade. Ou seja, faltam esses dois componentes em
nossa cultura escolar brasileira.
5)
Saber “motivar” os alunos. Os
alunos de nossa época são hiperativos. Seu foco de interesse é
mais o virtual do que o impresso. Está em curso a superação
da cultura impressa pela cultura virtual – ou visual – isto é,
onde a informação e o conhecimento podem ser acessados e
compartilhados pelas telas da Internet, da televisão, celular,
etc.A verdade é que nossa escola ainda não sabe operacionalizar a
Internet e as novas linguagens para o ensino, até porque uma boa
parte do professorado, no fundo, resiste usar as novas tecnologias
de ensino. Uma pesquisa do IBGE, publicada na Folha de S. Paulo
(07/01/2006), revela que 40% dos adolescentes que deixaram de
estudar apontaram a falta de vontade para assistir às aulas. Para
eles, a escola é uma chatice. Aliás, para a “geração
Internet” chato é tudo que está fora de uma tela.
Na avaliação de Eliane Andrade, professora do
departamento de educação da UERJ (Universidade Estadual do Rio de
Janeiro) e da UniRio, não há
motivo único que leve o jovem a abandonar a escola. Para ela, a
necessidade de trabalhar não pode ser desprezada, mas
o problema principal está na [própria]
escola”. Portanto, a escola precisa sofrer uma reforma,
urgente.
Evidentemente,
há um contexto mais amplo para ser analisado, mas é preciso
reconhecer que a escola em si tem sua parcela de responsabilidade
por não levar os alunos aprender o mínimo necessário do currículo.
A escola não tem sido uma instituição atraente para o aluno
influenciado pela linguagem da Tv, dos games e da Internet, que
prende sua atenção por horas a fio, todos os dias. Embora façam
parte do ‘sistema escolar’ e das ‘políticas educacionais’
de governo, a verdade é que cada escola tem sua própria cultura ou
um “jeito próprio” de organizar os professores para ensinar.
Infelizmente, muitas escolas fracassam na execução do seu projeto
pedagógico. A verdade é que os programas de formação continuada
dos professores, promovidos pelos governos estaduais, ainda não
tiveram coragem de repensar a reforma da escola. (Refiro-me a
“reforma” e não “revolução” da escola, porque os países
que fizeram a revolução socialista não realizaram a revolução
da escola).
É
preciso parar de colocar a culpa ora nos professores pelo fracasso
da escola, ora nos próprios alunos. O problema maior é a escola ou
o sistema de ensino, que não conseguem dar conta da realidade
objetiva e subjetiva dos atores envolvidos no processo de ensino e
aprendizagem.
por
RAYMUNDO DE LIMA