por WALID SALEM Diretor do "Panorama", Centro Palestino para Disseminação da Democracia e Desenvolvimento Comunitário, ONG baseada em Jerusalém Oriental. É autor de vários livros e artigos sobre democracia, sociedade civil, juventude, refugiados e estudos sobre a paz. Foi jornalista e membro do Conselho Nacional Palestino.

 

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O que deverá se seguir à tomada de Gaza pelo Hamas não é necessariamente uma tomada da Cisjordânia. Poderá, por exemplo, ser o Egito...

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O Golpe de Gaza: a islamização está chegando

 

1) A Islamização Chegando

Em resposta aos eventos da semana passada em Gaza, o Dr. Sa'eb Erekat, chefe do departamento de negociações da OLP, disse em 14/06/2007: "Este é o pior fato assistido pela Palestina desde a derrota na guerra de 1967".

Do outro lado, Sami Abu Zuhri, porta-voz do Hamas em Gaza, declarou candidamente numa emissão da Rádio Hamas em Gaza na 6ª feira, 15/06, que havia ocorrido a segunda libertação da Faixa de Gaza:

"A primeira libertação foi das hordas dos colonos israelenses, e esta segunda é das hordas dos colaboradores de Israel".

Outros líderes do Hamas costumavam chamar aqueles que foram derrotados como os "Lahdis" (referindo-se a Antoin Lahd, chefe do antigo Exército do Sul do Líbano, que era ligado a Israel), e até diferenciavam entre esses "Lahdis" e a Fatah, dizendo que as lutas se deram apenas contra os "Lahdis", e de nenhuma maneira com a Fatah.

Erekat e todas as facções da OLP expressaram reações muito pessimistas sobre os eventos em Gaza, enquanto o Hamas festejou e até organizou marchas e encontros públicos para celebrar a segunda libertação de Gaza...

A OLP e a era do programa nacional palestino estão em declínio, enquanto a nova era da islamização está em ascensão. Esta nova era começou com a vitória do Hamas nas eleições de 2006, e ganhou maior impulso com o controle unilateral do Hamas sobre Gaza a partir desta 6ª feira, 15/6.

A questão agora é se isto será ou não um primeiro passo para a tomada da Cisjordânia (ou possivelmente do Egito) pelo Hamas ou a Irmandade Muçulmana. Os fatos futuros responderão.

2) Islamização versus Nacionalismo

Na era do nacionalismo palestino, a agenda nacional palestina era a prioridade, e o trabalho em função dessa agenda para chegar a um Estado Palestino tomava praticamente todos os esforços da OLP e suas facções.

Hoje isto mudou. A questão nacional palestina é apenas um ponto da agenda do Hamas. Como parte dos grupos da Irmandade Muçulmana, seu principal tema é a criação de um sistema de califado islâmico.

Assim o que deverá se seguir à sua tomada de Gaza não é necessariamente uma tomada da Cisjordânia, se a situação lá não for tão favorável. Poderá, por exemplo, ser o Egito, se este já estiver mais maduro que a Cisjordânia para a islamização. Os grupos da Irmandade Muçulmana, incluindo o Hamas, irão trabalhar pela islamização, onde ela for primeiramente possível, sem restringir-se a uma certa agenda nacional, pois acreditam que sua agenda transcende o nacionalismo.

É por isto que o Hamas não está assustado com questões como a separação de Gaza da Cisjordânia e o impedimento da criação de um Estado Palestino, como as facções da OLP o acusam de estar fazendo. Simplesmente esses temas não são parte de sua agenda principal. Entretanto, o Hamas como o ramo da Irmandade Muçulmana em Gaza, e também na Cisjordânia, também irá trabalhar para tomar a Cisjordânia após Gaza para evitar separar uma da outra.

Isto posto, deve-se acrescentar que a Irmandade Muçulmana foi fundada em 1928 para recriar o sistema de califado islâmico. Desde aquele tempo, foram incapazes de consegui-lo em qualquer dos países islâmicos. Portanto, eles não hesitarão em fazê-lo em Gaza, estabelecendo lá um semi-califado na forma de um emirado islâmico. A destruição das casas de Yasser Arafat (e de Abu Mazen) em Gaza, como maiores símbolos do nacionalismo palestino, são sinais nesta direção, e o que virá será bem maior.

3) O Processo de Islamização

Como irá se realizar o processo de islamização da Faixa de Gaza?

Será importante acompanhá-lo, pois será a primeira vez que um grupo da Irmandade Muçulmana estará no poder, e será um ensaio para o que eles farão em outros países quando os tomarem futuramente.

Ainda não existe uma resposta completa para esta questão, mas algumas declarações feitas por alguns líderes do Hamas em Gaza estão sinalizando sobre a disposição dessa liderança em impor leis islâmicas em Gaza. Na 6ª feira 15/6, o Sheikh Ismail Hannieh, pediu em discurso às Brigadas Al-Qassam para tratar seus reféns das forças de segurança derrotadas da AP de acordo com as normas de "tolerância islâmica", que obviamente toleram aqueles que não mataram membros do Hamas antes, mas que também ditam que devem ser executados aqueles que mataram ou atacaram membros do Hamas.

Em outro exemplo, o Sheikh Nizar Rayyan, um líder do Hamas, disse na 5ª feira 14/6 que o que aconteceu em Gaza foi um conflito entre o Islã e a apostasia, que estava concluindo com o fechamento da era do secularismo e ateísmo em Gaza. Acrescentou que irá transformar o quartel-general das forças de segurança da AP em Gaza numa mesquita, e que faria uma pregação especial na 6ª feira na Muntada (O complexo presidencial de Abbas em Gaza).

Se adicionarmos a estas declarações as crescentes atividades de vários grupos salafitas em Gaza, apoiados por algumas alas do Hamas, e que agem contra os Internet Cafés e mulheres que não cobrem suas cabeças com véus e contra cristãos, então a tendência para se impor o Islã sobre todos os gazanos, incluindo aqueles que não crêem nele, ficará mais clara. O que se dará depois é uma medida do tipo de islamização que será implementada com base nas diferenças de posições de diversas alas do Hamas. Mas este é um mero detalhe, que não influenciará a direção principal que é em direção à islamização.

A resposta direta a esse processo de islamização não foi apenas que algumas pessoas do Fatah estejam tentando sair de Gaza, mas também que os seculares, os intelectuais, os empresários do setor privado, os líderes de ONGs e a maior parte dos democratas progressistas estão saindo por causa das ameaças às suas vidas. Lamentavelmente, por outro lado, isto irá acelerar o processo de imposição das normas do Hamas em Gaza.

4) A Vida do Povo em Gaza

Além do processo de islamização que será acelerado em Gaza, a outra questão é: Como irá o povo viver em Gaza de hoje em diante?

a - Segurança: A ironia aqui é que as pessoas irão agora se sentir mais seguras nas ruas com o controle unilateral do Hamas sobre Gaza, mas ao mesmo tempo a violência irá continuar, incluindo assassinatos extra-judiciais por vingança e contra-vingança, e execuções daqueles que forem considerados como apóstatas ou "colaboradores". A palavra "colaborador" na linguagem do Hamas não se refere apenas aos que passam informações a Israel. Para eles, existem outros tipos de colaboradores, como colaboradores políticos, culturais, econômicos e o colaborador por desvio de comportamento, como detalhado num trabalho escrito pelo Dr. Saleh Abdel em 1988.

Outra questão que influenciará a segurança será a contradição entre as forças de segurança do Hamas e aquelas que receberão ordens de Ramalá. Esta é uma contradição futura porque no curto prazo o Hamas terá total autoridade sobre Gaza.

B - O mapa político interno de Gaza mudará. O próprio Hamas assistirá a uma crescente influência de suas alas extremistas e ideológicas que desejam islamizar a sociedade, enquanto a Fatah em Gaza já perdeu (ao menos temporariamente) sua ala disposta a esmagar o Hamas (esta tendência foi derrotada nos eventos da semana passada). Duas outras facções da Fatah crescerão agora em Gaza. Uma é liderada por Ahmad Hilles, ex-secretário-geral da Fatah em Gaza, que evitou que seus apoiadores combatessem o Hamas na semana passada, apoiado por Ibrahim Abu Naja. Eles tentarão chegar a um compromisso com o Hamas sobre assuntos da vida diária, levando em consideração o novo contexto. A outra tendência na Fatah irá se adaptar completamente à nova estrutura de poder em Gaza, tentando encontrar soluções para problemas pessoais e individuais dentro da nova estrutura de poder.

A nova oposição ao Hamas em Gaza será agora a Jihad Islâmica, com sua agenda nacional pela contínua resistência à ocupação israelense, sem respeito ao cessar-fogo que o Hamas propôs várias vezes. Porém mais perigosas são as novas organizações do tipo da Al-Qa'eda, como a Suyuf Al-Alhaq (As Espadas dos Justos), Jaish Al-Islam (Exército do Islã) e o Kata'eb Al-Jihad Al-Muqaddas (Brigadas da Jihad Santa), as quais também são apoiadas pelas alas mais extremistas do Hamas.

O Hamas por si será dividido entre aqueles que são mais ideológicos (Mohamad Zahar e Nizar Rayan) e os que são mais políticos (como Ghazi Hamad, porta-voz do governo, que silenciou totalmente durante as recentes semanas de ataques). Hanieh está liderando assumindo a posição intermediária entre essas duas correntes, porque precisa de ambas. Ele precisa da posição ideológica para islamizar a sociedade, e também da política para poder falar com o mundo mais amplo.

Finalmente, a ala da Fatah que foi derrotada deve continuar suas tentativas de reagir, mas isto será refletido em incidentes menores, aqui e ali, após terem perdido suas bases e suas armas para o Hamas.

c - Economia e sustento: na ausência de uma economia real em Gaza após a eleição do Hamas em janeiro de 2006, e as sanções internacionais que se seguiram, o contrabando tornou-se a economia, e a forma de muitos garantirem sua sobrevivência ali. Agora, com o fechamento de todas as passagens de fronteiras com Gaza após a tomada do Hamas, o contrabando aumentará, incluindo armas e todos os bens, a não ser que o lado egípcio seja autorizado por Israel (contradizendo o acordo de Camp David) a alocar massivamente forças no lado egípcio para impedir esse contrabando.

Por outro lado, os empregados da AP em Gaza continuarão recebendo seus salários. Ou do novo governo de emergência de Salam Fayyad (o novo primeiro-ministro) composto em 17/6, ou (caso seja nomeado por Hanieh após a decisão de Abu Mazen de demiti-lo de sua posição, com a qual não concorda) do Hamas, que continuará a receber fundos dos ramos da Irmandade Muçulmana em todos os países islâmicos, e também do Irã, e provavelmente indiretamente de alguns países árabes como provavelmente o Qatar.

Contudo, os problemas mais sérios serão aqueles relacionados a subsistência diária da população, e serão exacerbados principalmente se Israel continuar fechando as passagens de fronteiras, o que significaria não apenas desconectar completamente Gaza da Cisjordânia, mas também impedir que a assistência humanitária das organizações da ONU e outras cheguem ao povo necessitado de Gaza. Mais ainda, se Israel impedir a importação de bens para Gaza através dos portos israelenses.

O original deste artigo (inglês) foi publicado em 20/06/2007 pelo MEW - MidEastWeb for Coexistence - www.mideastweb.org, e traduzido por Moisés Storch para o PAZ AGORA|BR e a Revista Espaço Acadêmico

   

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