por GALIA GOLAN Professora emérita da Universidade Hebraica de Jerusalém e da Escola de Governo do Centro Interdisciplinar de Herzlia. É uma das principais líderes do Movimento PAZ AGORA

 

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O isolamento e o sofrimento do povo de Gaza já se provaram benéficos ao Hamas...

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A paz após a tomada de Gaza pelo Hamas

 

Não é muito difícil enxergar como chegamos onde estamos hoje com respeito aos palestinos. Sucessivos governos israelenses sistematicamente destruíram ou enfraqueceram lideranças palestinas moderadas. Desde a destruição da Frente Nacional Palestina (os primeiros promotores nos territórios da solução de Dois Estados) em meados dos anos '70, até a total ausência de quaisquer medidas que pudessem ter fortalecido Abu Mazen (Mahmoud Abbas) como primeiro-ministro ou presidente aos olhos do seu povo,e incluindo a recente prisão dos poucos líderes do Hamas dispostos a falar com Israel.

Acrescente-se a isto o exitoso esforço do premier Ariel Sharon em enfraquecer e dispersar a Autoridade Palestina, assim como a política não-declarada de Israel para separar Gaza da Cisjordânia, e chegamos à situação que hoje enfrentamos.

A Fatah obviamente tem também sua parte de responsabilidade pela situação, por causa de suas próprias divisões internas, corrupção e indecisões. Não esqueçamos, porém, do assunto mais crítico subjacente: o fato de Israel não ter acabado a ocupação que, por todos esses 40 anos, vem aumentando o sofrimento, a pobreza, a frustração, a perda de terras e vidas e a desesperança das populações pela qual o Hamas e a Fatah competem.

A questão é: podem esses (e muitos mais) erros do passado proporcionar algumas dicas para que possamos proceder melhor no futuro? Com um "governo" dissolvido oficialmente pelo presidente da Autoridade Palestina, mas ainda reinando sobre Gaza, um novo governo de emergência nomeado por Abu Mazen, um Conselho Legislativo dominado pelo Hamas – mas possivelmente também dissolvido sob regulamentos de emergência (se existirem) –, uma força de segurança em Gaza e uma outra aparentemente mantendo sua supremacia na Cisjordânia, e as opiniões políticas visivelmente divididas mesmo dentro do Hamas e da Fatah – é difícil ter respostas precisas.

Mas, teoricamente ao menos, existe uma série de opções para Israel (e para os EUA e a comunidade internacional). Entre elas estão:

a) introdução de uma força internacional em Gaza (alguns adicionariam também na Cisjordânia – algo que ofereceria estabilidade para todos os territórios e se daria concomitantemente com a retirada israelense para linhas temporárias);

b) relacionamento exclusivo com Abu Mazen, e seu fortalecimento, acompanhado do total isolamento do Hamas com boicote e pressão sobre Gaza;

c) apoio a esforços para reconstrução do governo de união nacional, incluindo o levantamento do boicote ao Hamas, sujeito à demonstração do seu controle sobre as várias milícias islâmicas em Gaza e concomitante com o fortalecimento de Abu Mazen; e

d) abertura de negociações para um acordo abrangente através da intermediação da Liga Árabe.

Intervenção Internacional?

A primeira opção, de uma força internacional, aparece como a mais atraente, aliviando tanto Israel quanto os palestinos da responsabilidade pela população palestina. Se isto incluísse a Cisjordânia, significaria o fim da ocupação. Israel, claro, jamais mostrou qualquer interesse nesse tipo de arranjo, mas poderia levar a uma saída também para a Cisjordânia.

A força internacional foi uma alternativa aberta por Israel como opção para Gaza, agora que o Hamas detém o controle da Faixa. Mas exatamente por isto, ela também não funcionaria: o Hamas não concordaria com tal limitação ao seu poder, e nenhum órgão internacional estaria disposto a assumir tal tarefa sob essas condições. Seria razoável que os egípcios concordariam com o fortalecimento internacional dos seus contingentes na fronteira (travessia de Rafah, etc.), mas sem um acordo com o Hamas ou outro órgão com controle sobre Gaza, a comunidade internacional possivelmente temeria arriscar uma presença física.

Isolar o Hamas?

A opção já adotada por Israel e os EUA (que possivelmente será logo acompanhada pelo resto do Quarteto) é fortalecer Abu Mazen e isolar Haniyeh. A idéia é fornecer os meios (principalmente financeiros, mas possivelmente também materiais) para que a Fatah demonstre seu valor para a população palestina em comparação com o Hamas. Isto seria feito pelo levantamento dos bloqueios sobre a Autoridade Palestina e a liberação de fundos palestinos retidos, assim permitindo o pagamento desesperadamente necessário para os funcionários públicos (embora não seja claro se isto incluiria os servidores em Gaza).

Mas para ganhar a simpatia da população, mais medidas seriam necessárias. Fala-se de abrir alguns checkpoints e aliviar um pouco a ocupação para os palestinos da Cisjordânia. Mas a medida de "construção de confiança" mais eficaz para valorizar a Fatah perante a população seria uma ampla soltura de prisioneiros (obviamente excluindo prisioneiros do Hamas). Tal medida poderia demonstrar que Abu Mazen pode "trazer resultados" – mitigando, talvez, as acusações de "colaboração" de Fatah com Israel (e os EUA).

Um grande risco nesta política, porém, é o reconhecimento e possível institucionalização da separação da Cisjordânia de Gaza, ou seja a idéia de Três Estados que na verdade iria sabotar a criação de um Estado Palestino e a solução do conflito com Israel.

O jogo seria que Abu Mazen deveria encontrar um jeito de trazer benefícios para a população de Gaza (salários para servidores civis, por exemplo) sem que isto fosse creditado ao Hamas ou facilitasse o domínio do Hamas. A Fatah precisa contar com a incapacidade do Hamas para governar (como fez após as eleições de 2006), mas o isolamento e sofrimento do povo de Gaza já se provaram mais benéficos do que prejudiciais ao Hamas vis-a-vis a Fatah entre os gazanos.

Fatah + Hamas?

Por esta razão, a terceira opção – ressuscitar o governo de união nacional e tratar também com o Hamas – pode ser necessária. Claramente não é uma solução ideal para Israel. Na verdade é a que o governo israelense menos apoiaria. Mas é uma opção que alguns na Fatah (e no mundo árabe) ainda acreditam ser razoável. Seria uma idéia promissora se fosse alcançada após um significativo fortalecimento de Abu Mazen e/ou a emergência de uma liderança da Fatah unida e forte. Caso contrário, iria simplesmente repetir a luta pelo poder que acabamos de presenciar em Gaza.

Assumindo que ambas as opções deverão no final dar lugar a novas eleições na Autoridade Palestina, a escolha deveria ser a que pudesse proporcionar uma melhor chance de enfraquecer o Hamas.

Iniciativa Árabe de Paz

A última opção traz a questão de um domínio dividido dentro dos territórios ocupados e está baseada na hipótese de que o fim da ocupação poderia mudar todo o cenário político.

Os palestinos, na forma da OLP, são parte da Liga Árabe (listados como o "Estado da Palestina") onde são representados por Abu Mazen. Caso Israel concordasse em entabular negociações com base na Iniciativa Árabe de Paz, e se fosse alcançado um acordo de paz, poderíamos esperar uma série de coisas.

Primeiro, o Hamas teria dificuldade em ganhar uma maioria contra um acordo que pusesse um fim à ocupação com base na solução de Dois Estados.

Segundo, uma força internacional de manutenção de paz nas fronteiras seria muito mais viável no contexto de um acordo de paz.

Terceiro, seria muito difícil - se não impossível – que uma minoria rejeccionista persistisse significativamente enquanto os países de todo o mundo árabe estivessem apoiando a normalização, os arranjos de segurança e a paz com Israel.

É evidente que esta opção já poderia ter sido escolhida bem antes, e sem a vitória do Hamas em Gaza.

Mas ela ainda existe.

Publicado na http://www.bitterlemons.org   em 12/06/2007 a traduzido por Moisés Storch para o PAZ AGORA|BR e a Revista Espaço Acadêmico

   

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