_____________________________________________________________________
O
isolamento e o sofrimento do povo de Gaza já se provaram benéficos
ao Hamas...
_____________________________________________________________________
A
paz após a tomada de Gaza pelo Hamas
Não
é muito difícil enxergar como chegamos onde estamos hoje com
respeito aos palestinos. Sucessivos governos israelenses
sistematicamente destruíram ou enfraqueceram lideranças palestinas
moderadas. Desde a destruição da Frente Nacional Palestina (os
primeiros promotores nos territórios da solução de Dois Estados)
em meados dos anos '70, até a total ausência de quaisquer medidas
que pudessem ter fortalecido Abu Mazen (Mahmoud Abbas) como
primeiro-ministro ou presidente aos olhos do seu povo,e incluindo a
recente prisão dos poucos líderes do Hamas dispostos a falar com
Israel.
Acrescente-se
a isto o exitoso esforço do premier Ariel Sharon em enfraquecer e
dispersar a Autoridade Palestina, assim como a política não-declarada
de Israel para separar Gaza da Cisjordânia, e chegamos à situação
que hoje enfrentamos.
A
Fatah obviamente tem também sua parte de responsabilidade pela
situação, por causa de suas próprias divisões internas, corrupção
e indecisões. Não esqueçamos, porém, do assunto mais crítico
subjacente: o fato de Israel não ter acabado a ocupação que, por
todos esses 40 anos, vem aumentando o sofrimento, a pobreza, a
frustração, a perda de terras e vidas e a desesperança das populações
pela qual o Hamas e a Fatah competem.
A
questão é: podem esses (e muitos mais) erros do passado
proporcionar algumas dicas para que possamos proceder melhor no
futuro? Com um "governo" dissolvido oficialmente pelo
presidente da Autoridade Palestina, mas ainda reinando sobre Gaza,
um novo governo de emergência nomeado por Abu Mazen, um Conselho
Legislativo dominado pelo Hamas – mas possivelmente também
dissolvido sob regulamentos de emergência (se existirem) –, uma
força de segurança em Gaza e uma outra aparentemente mantendo sua
supremacia na Cisjordânia, e as opiniões políticas visivelmente
divididas mesmo dentro do Hamas e da Fatah – é difícil ter
respostas precisas.
Mas,
teoricamente ao menos, existe uma série de opções para Israel (e
para os EUA e a comunidade internacional). Entre elas estão:
a)
introdução de uma força internacional em Gaza (alguns
adicionariam também na Cisjordânia – algo que ofereceria
estabilidade para todos os territórios e se daria concomitantemente
com a retirada israelense para linhas temporárias);
b)
relacionamento exclusivo com Abu Mazen, e seu fortalecimento,
acompanhado do total isolamento do Hamas com boicote e pressão
sobre Gaza;
c)
apoio a esforços para reconstrução do governo de união nacional,
incluindo o levantamento do boicote ao Hamas, sujeito à demonstração
do seu controle sobre as várias milícias islâmicas em Gaza e
concomitante com o fortalecimento de Abu Mazen; e
d)
abertura de negociações para um acordo abrangente através da
intermediação da Liga Árabe.
Intervenção Internacional?
A
primeira opção, de uma força internacional, aparece como a mais
atraente, aliviando tanto Israel quanto os palestinos da
responsabilidade pela população palestina. Se isto incluísse a
Cisjordânia, significaria o fim da ocupação. Israel, claro,
jamais mostrou qualquer interesse nesse tipo de arranjo, mas poderia
levar a uma saída também para a Cisjordânia.
A
força internacional foi uma
alternativa aberta por
Israel como opção para Gaza, agora que o Hamas detém o controle
da Faixa. Mas exatamente por isto, ela também não funcionaria: o
Hamas não concordaria com tal limitação ao seu poder, e nenhum órgão
internacional estaria disposto a assumir tal tarefa sob essas condições.
Seria razoável que os egípcios concordariam com o fortalecimento
internacional dos seus contingentes na fronteira (travessia de Rafah,
etc.), mas sem um acordo com o Hamas ou outro órgão com controle
sobre Gaza, a comunidade internacional possivelmente temeria
arriscar uma presença física.
Isolar
o Hamas?
A
opção já adotada por Israel e os EUA (que possivelmente será
logo acompanhada pelo resto do Quarteto) é fortalecer Abu Mazen e
isolar Haniyeh. A idéia é fornecer os meios (principalmente
financeiros, mas possivelmente também materiais) para que a Fatah
demonstre seu valor para a população palestina em comparação com
o Hamas. Isto seria feito pelo levantamento dos bloqueios sobre a
Autoridade Palestina e a liberação de fundos palestinos retidos,
assim permitindo o pagamento desesperadamente necessário para os
funcionários públicos (embora não seja claro se isto incluiria os
servidores em Gaza).
Mas
para ganhar a simpatia da população, mais medidas seriam necessárias.
Fala-se de abrir alguns checkpoints e aliviar um pouco a
ocupação para os palestinos da Cisjordânia. Mas a medida de
"construção de confiança" mais eficaz para valorizar a
Fatah perante a população seria uma ampla soltura de prisioneiros
(obviamente excluindo prisioneiros do Hamas). Tal medida poderia
demonstrar que Abu Mazen pode "trazer resultados" –
mitigando, talvez, as acusações de "colaboração" de
Fatah com Israel (e os EUA).
Um
grande risco nesta política, porém, é o reconhecimento e possível
institucionalização da separação da Cisjordânia de Gaza, ou
seja a idéia de Três Estados que na verdade iria sabotar a criação
de um Estado Palestino e a solução do conflito com Israel.
O
jogo seria que Abu Mazen deveria encontrar um jeito de trazer benefícios
para a população de Gaza (salários para servidores civis, por
exemplo) sem que isto fosse creditado ao Hamas ou facilitasse o domínio
do Hamas. A Fatah precisa contar com a incapacidade do Hamas para
governar (como fez após as eleições de 2006), mas o isolamento e
sofrimento do povo de Gaza já se provaram mais benéficos do que
prejudiciais ao Hamas vis-a-vis a Fatah entre os gazanos.
Fatah
+ Hamas?
Por
esta razão, a terceira opção – ressuscitar o governo de união
nacional e tratar também com o Hamas – pode ser necessária.
Claramente não é uma solução ideal para Israel. Na verdade é a
que o governo israelense menos apoiaria. Mas é uma opção que
alguns na Fatah (e no mundo árabe) ainda acreditam ser razoável.
Seria uma idéia promissora se fosse alcançada após um
significativo fortalecimento de Abu Mazen e/ou a emergência de uma
liderança da Fatah unida e forte. Caso contrário, iria
simplesmente repetir a luta pelo poder que acabamos de presenciar em
Gaza.
Assumindo
que ambas as opções deverão no final dar lugar a novas eleições
na Autoridade Palestina, a escolha deveria ser a que pudesse
proporcionar uma melhor chance de enfraquecer o Hamas.
Iniciativa
Árabe de Paz
A
última opção traz a questão de um domínio dividido dentro dos
territórios ocupados e está baseada na hipótese de que o fim da
ocupação poderia mudar todo o cenário político.
Os
palestinos, na forma da OLP, são parte da Liga Árabe (listados
como o "Estado da Palestina") onde são representados por
Abu Mazen. Caso Israel concordasse em entabular negociações com
base na Iniciativa Árabe de Paz, e se fosse alcançado um acordo de
paz, poderíamos esperar uma série de coisas.
Primeiro,
o Hamas teria dificuldade em ganhar uma maioria contra um acordo que
pusesse um fim à ocupação com base na solução de Dois Estados.
Segundo,
uma força internacional de manutenção de paz nas fronteiras seria
muito mais viável no contexto de um acordo de paz.
Terceiro,
seria muito difícil - se não impossível – que uma minoria
rejeccionista persistisse significativamente enquanto os países de
todo o mundo árabe estivessem apoiando a normalização, os
arranjos de segurança e a paz com Israel.
É
evidente que esta opção já poderia ter sido escolhida bem antes,
e sem a vitória do Hamas em Gaza.
Mas
ela ainda existe.