O
empreendedor e a economia solidária
Embora
exista grande convergência de opiniões sobre ser a economia solidária
a forma por excelência para a superação do atual desemprego,
derivado de certos aspectos da globalização, existem dificuldades
para sua real implementação. A mais importante é o desafio do
desenvolvimento da capacidade empreendedora dos trabalhadores.
Sempre
se fala nos temidos eventos já anunciados por Jeremy Rifkin em sua
obra “O fim dos Empregos: o declínio inevitável dos níveis dos
empregos e a redução da força global de trabalho”, de 1994, e
essa “profecia” se confirma cada dia mais. Prova disso é a
observação de Juan Somavia, diretor geral da OIT em seu artigo:
“A Geração do Milênio procura trabalho para superar a
pobreza” de 21/09/2005:
“É
verdade que nos últimos anos foram criados muitos postos de
trabalho, mas ao mesmo tempo o desemprego a nível mundial
aumentou 26% nos últimos 10 anos. Esta cifra não deve nos fazer
esquecer de um problema ainda maior, o do subemprego, o de bilhões
de pessoas – em especial mulheres – sem acesso a empregos
dignos que lhes permitam desenvolver seu potencial produtivo”.
Além
disso, outra temível previsão de Rifkin tem se tornado uma dura
realidade:
“Quando
um número cada vez maior de pessoas para as quais não haverá
qualquer tipo de trabalho no setor de mercado, os governos
enfrentarão duas escolhas: Financiar proteção policial
adicional e construir mais cadeias para encarcerar uma classe
criminosa crescente, ou financiar formas alternativas de trabalho
no terceiro setor”.(RIFKIN, 2001:272)
Vimos
que na prática, a maioria dos governos adotou um misto das duas
soluções, sem muito sucesso. A criminalidade tem se tornado
incontrolável e as “formas alternativas” são cada vez mais o
trabalho precário e informal, sempre beirando a marginalidade. As
políticas “sociais” por sua vez são ineficazes ou
insuficientes para contentar as populações, principalmente os
jovens, sem perspectivas de trabalho decente.
A
imensidão da população carcerária nos EUA, as “demonstrações
de força” de organizações criminosas no Brasil e distúrbios
violentos, provocados por jovens “bem protegidos” pelo Estado de
bem-estar social na França, são demonstrações definitivas disso.
Em
geral uma das soluções apontadas é a adoção dos princípios da
“Economia Solidária” em complementação ao sistema de produção
capitalista ou até como uma forma de superá-lo. De fato, vários
autores que investigam o fenômeno da globalização chegaram a essa
conclusão:
“É
nesse contexto que ganha enorme importância à práxis de um
cooperativismo autônomo, autogestionário e solidário, que inova
no espaço da empresa-comunidade humana e também na relação de
troca entre os diversos agentes [...] o associativismo e o
cooperativismo autogestionários, transformados em projeto estratégico,
podem ser os meios mais adequados para a reestruturação da
socioeconomia na nova era que se anuncia”. (ARRUDA E BOFF,
2000:53).
Poderíamos
citar muitos outros autores, além do fato de que as idéias de
economia solidária e cooperativismo não serem nada novas. Na
verdade surgiram logo depois do nascimento do próprio capitalismo
industrial.
Além
disso, ao contrário das idéias socialistas autoritárias ou do
anarquismo, jamais foram combatidas ou reprimidas, seja pelos
Estados nacionais ou pelas próprias empresas capitalistas. A mais
bem sucedida experiência nesse sentido, a Cooperativa de Mondragón,
fui fundada em 1956, por um clérigo basco (padre Arizmendi) em
plena Espanha franquista.
Hoje
esta cooperativa é um complexo que combina cooperativas de produção
industrial e de serviços comerciais com um banco cooperativo, uma
cooperativa de seguro social, uma universidade e diversas
cooperativas dedicadas à realização de pesquisas tecnológicas.
Sabemos
que muitos países capitalistas, Brasil inclusive, até incentivam o
cooperativismo e Marcos Arruda assinala ainda que: “Tenhamos
presente que o cooperativismo também floresceu nos países
socialistas-estatístas, e que essas experiências merecem nossa
atenção”.(ARRUDA E BOFF, 2000:84).
Então
se é assim, porque essas idéias parecem simplesmente não
prosperar para alem de limites muito estreitos?
Aparentemente o professor Paul Singer tem uma resposta:
“Por
meio do emprego, os trabalhadores alcançaram uma espécie de
'cidadania social' que compensaria a posição subordinada e
alienada que ocupam na produção. Essa mudança foi sem dúvida
uma das causas do crescente desinteresse pela economia solidária
[...] Surgiu uma classe operária que se acostumou ao pleno
emprego (que vigorou nos países centrais entre as décadas de
1940 e 1970) e se acomodou ao assalariamento”.(SINGER,
2002:110).
De
fato não há duvida de que as ilusões do pleno emprego e do Estado
de bem-estar social contribuíram para reduzir o entusiasmo pelo
cooperativismo, mas acredito que existe um outro componente ainda
mais forte, e que pode vir a ser o obstáculo maior para a implantação
de projetos de economia solidária.
Esse
componente é a falta de capacidade empreendedora da maioria das
pessoas e dos trabalhadores em particular. Por “capacidade
empreendedora” entendemos a visão de Schumpeter quando afirma
que: “Chamamos ‘empreendimento’ à realização de combinações
novas [de fatores de produção]; chamamos ‘empreendedores’
aos indivíduos cuja função é realizá-las”.(SCHUMPETER,
1982:54).
Se
concordarmos com Schumpeter, não são os “capitalistas” que
criam inovações e sim os “empreendedores”, embora uma coisa não
exclua a outra necessariamente. Mas existem implicações muito
importantes em suas conclusões. A mais notável é a de que o
sistema de produção capitalista não tem “desenvolvimento econômico”
real apenas com capital aplicado e trabalho assalariado.
Para
Scumpter, na realidade, sem os empreendedores a economia seguiria
apenas num “fluxo circular”, apenas com crescimento vegetativo,
mas sem desenvolvimento. É fundamental o aparecimento do
empreendedor de modo a desencadear o processo de desenvolvimento
econômico. Mas a imensa maioria das pessoas tende a se apegar aos
modos arraigados de pensar.
“No
peito de quem deseja fazer algo novo, as forças do hábito se
levantam e testemunham contra o projeto em embrião. É, portanto,
necessário uma força de vontade nova e de outra espécie para
arrancar, dentre o trabalho e a lida com as ocupações diárias,
oportunidade e tempo para conceber e elaborar a combinação nova e
resolver olhá-la como uma possibilidade real e não meramente como
um sonho. Essa liberdade mental pressupõe um grande excedente de
força sobre a demanda cotidiana e é algo peculiar e raro por
natureza”.(SCHUMPETER, 1982:61).
Além
disso, um empreendedor não é uma espécie de “ser assinalado”
e o simples fato de passar a administrar o negócio que criou o faz
retornar a condição de mero “homem de negócios”, ou seja, uma
pessoa voltada à rotina e não mais ao empreendimento.
Seriam
também atributos do empreendedor qualidades como “liderança”,
“iniciativa”, “autoridade” e “previsão”. Em outras
palavras, o empreendedor de Schumpeter é por natureza uma pessoa
individualista, tende a ser muito independente e quer fazer as
coisas ao seu modo. Assim a empresa capitalista seria seu
“elemento natural” e uma cooperativa um ambiente contrário às
suas reais necessidades de realização.
Isso
explicaria a tendência de as empresas capitalistas sempre liderarem
o processo de desenvolvimento econômico, sendo raro que grandes
inovações surjam em cooperativas. Esse conceito pode ser estendido
para as economias do tipo “socialista”, e até mesmo grandes
empresas capitalistas “acomodadas” em cartéis e monopólios.
O
caso da IBM com um verdadeiro exército de técnicos e engenheiros,
que teve de contratar dois estudantes universitários (Bill Gates e
Paul Allen) para desenvolver o sistema operacional de seu
microcomputador seria um exemplo perfeito.
As
questões fundamentais que se colocam seriam então as seguintes: A
“capacidade empreendedora” poderia ser desenvolvida entre
pessoas “comuns”, principalmente trabalhadores? Uma cooperativa
pode incentivar o aparecimento de empreendedores ou atrair pessoas
com essas características para seus quadros de associados?
Existe
uma a idéia quase que universal de que a empresa capitalista atrai
os empreendedores porque os estimula ao máximo. Disso quase sempre
se segue que somente a vigência da propriedade privada dos meios de
produção pode gerar atividade inovadora. O colapso do socialismo
“realmente existente” seria uma prova adicional.
Mas
o próprio Schumpeter não confirma essa idéia. Ele cita como
motivações básicas dos empreendedores três “conjuntos de estímulos”:
1) O sonho e o desejo de fundar um reino privado ou uma dinastia. 2)
O desejo de conquistar, o impulso de lutar para ser superior, ter
sucesso e fama. 3) A alegria de criar, de fazer as coisas, ou
simplesmente de exercitar a energia e a engenhosidade.
E
conclui em relação à capacidade empreendedora que: “apenas no
primeiro conjunto de estímulos a propriedade privada [...] é um
fator essencial para torná-la operante”. (SCHUMPETER, 1982:65).
Poderíamos
acrescentar que o desejo de fundar um “reino privado ou uma
dinastia” está mais ligado às atividades políticas e militares
e tem muito menor importância para pessoas que lidam com inovações
e invenções na área estritamente econômica. A história tem
mostrado inclusive, que os grandes empreendedores em geral, só
passam a lutar por seus “reinos privados” muito tempo depois de
já terem obtido sucesso em suas atividades inovadoras.
Nesse
caso, o problema que cooperativas têm para estimular o aparecimento
dos empreendedores entre seus membros se reduz ao problema do
surgimento do empreendedor em si.
Existe
uma vasta “literatura de negócios” sobre o assunto, e quase
toda ela se baseia na glorificação do empreendedor como uma espécie
de “super homem”.
Mas proponho que nos limitemos a “ler Scumpeter ao contrário”,
ou seja, não vamos nos preocupar muito com o que um empreendedor é,
mais sim com o que impede a maioria das pessoas de desenvolver essa
capacidade. Nas suas palavras:
“Dentro
dos hábitos e circunstâncias sociais dados, a maior parte do que
as pessoas fazem todos os dias lhes aparece primariamente do ponto
de vista do dever, e traz consigo uma sanção social ou divina.
Nisso ha muito pouco de racionalidade consciente, ainda menos de
hedonismo e de egoísmo individual”. (SCHUMPTER, 1982:64).
Em
outras palavras, a força do hábito e o enorme peso das convenções
sociais é o que de fato torna a maioria das pessoas avessas ao
comportamento empreendedor. A razão primordial desse fato é que
somos todos “educados para a obediência” e para a convenção,
e não para a democracia ou para a inovação.
Em
especial, a classe trabalhadora é ensinada a não pensar por si própria.
Mesmo aqueles que se pretendem seus defensores, os ensinam o tempo
todo a “fechar com o sindicato”, “seguir a linha do
partido”, etc. Nas palavras de Paul Singer:
“O
maior inimigo da autogestão é o desinteresse dos sócios, sua
recusa ao esforço adicional que a prática democrática exige. Em
geral não é a direção da cooperativa que sonega informações
aos sócios, são estes que preferem dar um voto de confiança à
direção para que ela decida em lugar deles”. (SINGER, 2002:19).
Como
não reconhecer a “força de vontade nova e de outra espécie”,
que segundo Schumpeter se exige do empreendedor, no “esforço
adicional” aqui mencionado? Isso porque, obviamente, as decisões
realmente difíceis para uma cooperativa ou para uma empresa
capitalista ocorrem justamente no momento de inovar.
Seja
por pressão da concorrência, ou diante de novas oportunidades, é
nessa hora que as certezas desaparecem, e a decisão sobre o que
fazer perde o caráter de “dever” para se tornar um desafio rumo
ao desconhecido. Em poucas palavras, é a hora em que tudo depende
dos empreendedores.
Então
podemos concluir que existe uma forte relação entre a verdadeira
cultura (em sentido amplo) de um povo e sua capacidade
empreendedora. A existência de uma verdadeira democracia, amplas
liberdades, e uma real mentalidade inovadora, combinada a um
ambiente de solidariedade, induziriam ao surgimento de um número
muito maior de empreendedores interessados em projetos de economia
solidária.
Mas
o culto à propriedade privada seria uma condição necessária ao
empreendedor? Acredito que essa é uma idéia absolutamente falsa.
Como vimos no “conjunto de estímulos” que se atribui à realização
do empreendedor, essa é uma condição totalmente secundária. Então
existiria algo como “empreendedorismo solidário”, ou somente o
“empreendedorismo competitivo”?
Os
hackers como Linus Torvalds e Richard Stallman, são perfeitos
exemplos dos empreendedores descritos por Schumpeter. E não há o
menor sinal de que seus objetivos primordiais tenham sido “fundar
reinos privados”. No caso deles, a solidariedade não é incompatível
com o individualismo, a auto-estima e o desejo de realização
pessoal. Para eles uma coisa simplesmente não exclui a outra.
No
caso de Bill Gates, sua biografia demonstra claramente que seus estímulos
principais eram idênticos. Foi somente ao passar a conviver numa
sociedade onde a propriedade em si passa a ser a mediada do sucesso,
foi que suas prioridades mudaram.
Da
“alegria de criar, de fazer as coisas, ou simplesmente de
exercitar a energia e a engenhosidade”, Gates passou a se
concentrar em criar um monopólio. Trocou seus colegas hackers por
um exército de advogados, e as horas extras, alugadas no computador
da escola, pelas audiências em tribunais nos processos pelas leis
antitrustes.
Dessa
comparação, podemos concluir que o sistema exacerbado de
propriedade privada pode ser tão nocivo para o empreendedor quanto
o mais fechado Estado marxista-leninista.
Por
outro lado, a economia solidária pode e deve se basear na figura do
empreendedor. Talvez a verdadeira revolução esteja justamente na
capacidade das sociedades globalizadas de gerar o maior número possível
de empreendedores dentro de uma visão solidária.
BIBLIOGRAFIA:
JEREMY,
Rifkin. O Fim dos Empregos. São Paulo, Pearson Education do Brasil,
2001.
ARRUDA,
Marcos e BOFF, Leonardo. Globalização: Desafios socioeconômicos,
éticos e educativos, Rio de Janeiro, Vozes, 2000.
SINGER,
Paul. Introdução a Economia Solidária. São Paulo, Editora Fundação
Perseu Abramo, 2002.
SCHUMPETER,
Joseph Alois.Teoria do desenvolvimento econômico, São Paulo, Abril
Cultural, 1982.
Artigos:
SOMAVIA,
Juan. “A Geração do Milênio procura trabalho para superar a
pobreza” Disponível em: http://www.oitbrasil.org.br/news/artigos/ler_artigos.php?id=810
Acesso em: 05/06/2006.
por
LAURO
AUGUSTO MONTECLARO JUNIOR