Desafios
da prática de ensino de Filosofia no Ensino Fundamental – Parte II
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para ler a primeira parte]
O
principal momento de nossa prática foi a abordagem crítica da
organização da turma, o que motivou a participação de
praticamente todos os alunos nas discussões e culminou com algumas
mudanças de atitudes. Para fortalecer nosso espaço de discussão
de valores e atitudes da turma, constituímos um Conselho de Alunos
e estabelecemos critérios para a continuidade e avaliação das
aulas, para a definição de notas e das formas de agir diante dos
que se manifestavam contrariamente ao conjunto da turma e aos
objetivos das aulas.
4.
O Conselho de Alunos: uma idéia inovadora e conflituosa
Ao
propormos um novo jeito de coordenar as ações de alunos e
professor em sala de aula, centralizando o poder no Conselho de
Alunos e estimulando a autonomia e responsabilidade dos sujeitos
envolvidos na atividade educativa, estávamos anunciando uma
novidade que os alunos não imaginavam que pudesse existir. Com a unânime
aprovação do Conselho de Alunos e o compromisso assumido
coletivamente nos momentos de decisão, execução e avaliação dos
seus resultados, parecia que estávamos conseguindo despertar nos
alunos a compreensão sobre a importância da democracia para a vida
humana. A histórica esperança que a humanidade alimenta sobre a
possibilidade dos seres humanos poderem se organizar
democraticamente e evoluir na construção de uma sociedade onde a
maioria dos problemas possam ser resolvidos se manifestava em forma
de textos e em cada momento das aulas dali para frente. A maioria da
turma estava se convencendo de que a cidadania poderia ser
compreendida através de sua prática, que, ali, permitia um melhor
ambiente ao estudo e que, em outros espaços, poderia contribuir
para a solução de problemas.
No
entanto, com o passar das aulas, velhos problemas voltavam a surgir
e as mútuas trocas de acusações entre alunos do Conselho de
Alunos e o restante da turma passaram a se acentuar. O fato de
alguns alunos, mesmo que eleitos e dentro de critérios definidos
por toda a turma, poderem exercer o poder de avaliar colegas em sala
de aula e acompanhá-los até a Coordenação Pedagógica da escola,
em caso de desobediência ao acordo da maioria, revoltou muitos
alunos e inibiu a efetiva ação dos que participavam do conselho.
Então, por decisão da maioria, foi abolido o Conselho de Alunos,
um pouco antes do término do ano letivo.
Mesmo
não tendo êxito nessa primeira tentativa, a experiência do
Conselho de Alunos revelou um potencial e muitos desafios. Podemos
afirmar que todo o processo foi muito válido pelo que despertou na
turma. A abertura da coordenação das aulas para a participação
organizada, consciente e responsável dos alunos ficou marcada como
uma prática de vivência da democracia desde a atividade escolar, o
que ficou registrado nas manifestações de muitos alunos que
sentiram de perto a dificuldade encontrada numa prática que se
contrapõe a um conjunto de valores colocados como absolutos e únicos
pela ideologia dominante. Sem dúvida, a discussão das relações
presentes em sala de aula, como, por exemplo, o autoritarismo, a
desorganização, a submissão e outras manifestações comuns na prática
escolar, e a experiência com uma proposta inovadora que,
traduzindo-se em atividade concreta para ser avaliada (nos referimos
ao Conselho de Alunos), mereceu um lugar de destaque em nossa prática
educativa, colocando a Filosofia como um método capaz de discutir
problemas e analisar possíveis soluções a alguns desafios que a
humanidade revela na história e que podem ser vivenciados.
5.
O significado da prática e sua contribuição para a superação do
contexto
O
Conselho de Alunos, conforme já nos referimos anteriormente, foi
uma tentativa de construção de um espaço deliberativo dos alunos
sobre problemas pertinentes às aulas de Filosofia, estimulando a
sua participação direta nas decisões e o desenvolvimento de sua
autonomia. Embora tenha sido encarado como muito interessante pela
turma, em seu início, pouco antes do final das nossas aulas o
referido conselho foi extinto pelos próprios alunos. O que motivou
o descrédito na proposta? Percebemos que o fato de alguns alunos
estarem representando os demais em uma instituição que lhes
conferia poder, acabou gerando conflitos entre a turma. Parte desses
conflitos foram somente mais evidenciados, visto que já existiam
anteriormente. Nesse aspecto, os membros do conselho que tinham
algum desentendimento com um colega e que passaram a ter maior
poder, passaram a ser rotulados de autoritários. É interessante
avaliar que, embora as ações do conselho estivessem baseadas em
critérios aprovados por todos, o fato dos seus membros estarem
agindo, enquanto colegas, em favor do cumprimento desses critérios
(e, por isso, contra os colegas que descumpriam as decisões
coletivas) contribuiu para a rejeição. Um outro aspecto dos
conflitos foi a forma como os membros do conselho agiram em relação
aos seus colegas, gerando novos conflitos, muitas vezes desnecessários.
Pelo fato de estarem imbuídos de poder, alguns membros do conselho
passaram a ter comportamentos agressivos, provocando reações
fortemente contrárias. Um terceiro aspecto do surgimento dos
conflitos foi a tendência de indiferença de muitos alunos diante
de ações dos membros do conselho, desrespeitando-os (“afinal,
eram colegas”) e desconsiderando sua função. Isso contribuiu
para que alguns membros se tornassem ainda mais agressivos em suas ações.
Havia também uma minoria de membros do conselho que eram críticos
a essa idéia, posicionando-se contrariamente à instituição que
representavam e favoráveis aos demais colegas. Esse é um fato
claramente contraditório, visto que aceitaram participar do
conselho e, ora não se posicionavam, ora contrariavam o próprio
conselho e se manifestavam incapazes de representar a turma,
criticando a idéia do conselho que representavam.
É
importante afirmar que, ao invés de tentar resolver os conflitos,
os alunos optaram pelo fim do Conselho, que era a instituição
criada exatamente para resolver os conflitos. Assim, ao invés de
discutir os problemas da turma, ficou mais fácil culpar o conselho,
inclusive reconhecendo a incapacidade da turma em trabalhar com ele.
Isso revela um pouco do despreparo dos alunos com relação ao exercício
da democracia. Esperávamos que a conjuntura de problemas da turma
pudesse desencadear um processo de tomada de atitudes no sentido de
sua auto-organização. Mas, precisamos reconhecer, de acordo com
Doll Jr. (1997: 180), que “a
perturbação só vai desencadear a auto-organização quando o meio
ambiente for suficientemente rico e aberto para que múltiplos usos,
interpretações e perspectivas entrem em cena”. Nesse sentido, é
necessário entender que os alunos manifestavam características típicas
de sua idade e do contexto em que viviam. Além disso, precisamos
ressaltar que a referida experiência foi um trabalho isolado das práticas
dos demais professores, sendo realizada somente na disciplina de
Filosofia, com uma carga horária de apenas 2 horas-aula semanais.
Nossa intervenção no processo escolar da turma, certamente, foi
uma ruptura com uma forma de aprendizagem experienciada pelos alunos
até então. Isso não serve para justificar aspectos negativos da
prática, mas, pelo contrário, pode contribuir para contextualizar
a experiência realizada com o intuito de melhor compreendê-la.
Muito
se fala em formação para a cidadania e o que verificamos é que
apenas em poucos momentos os alunos têm oportunidades concretas de
exercê-la. Desde a infância, na família, na igreja, na escola e
nos diversos espaços sociais as pessoas não aprendem a tomar decisões
democráticas. Pelo contrário, aprendem a reproduzir relações
paternalistas, autoritárias e sem limites. Parece que um dos
grandes desafios da educação é conseguir trabalhar a idéia de
liberdade, especificamente no que se refere à existência de
limites nas relações humanas. Que tipos de limites podemos
reconhecer como importantes ou necessários? Como a escola pode
oportunizar espaços para que, cada vez mais, os alunos aprendam a
tomar decisões coletivas, construindo a sua autonomia? Esses
desafios foram lançados a partir da experiência aqui analisada e,
certamente, irão nos influenciar em novas práticas que assumiremos
na educação.
Outro
problema foi o método de avaliação. Como proposta, apresentamos a
idéia de avaliarmos a turma pelo seu desenvolvimento gradativo,
acompanhando os trabalhos escritos de todos os alunos e os debates
que fomos construindo, considerando a prova somente como um último
recurso. No entanto, os alunos estavam acostumados a competir entre
si por notas e, vários deles (os mais esforçados), se sentiam
frustrados com a idéia de que não haveria uma prova com notas,
classificando os alunos. Outros aprovaram a idéia, muito baseados
na expectativa de que sem prova seria mais fácil. No decorrer dos
trabalhos fomos constatando que, como muitos não entregaram seus
trabalhos e vários debates limitavam a participação de
alguns, seria necessário rediscutir, com a turma, a forma de avaliação.
Chegamos a um acordo e consideramos, em parte, os trabalhos
entregues e o restante seria complementado pela prova. No dia da
prova a maioria queria voltar à proposta anterior e se recusavam a
fazer a prova bimestral, sendo que, com essa discussão, muitos
acabaram não tendo tempo para responder todas as questões. Isso
gerou uma revolta principalmente naqueles alunos que, acostumados a
competir, viam na prova o principal instrumento para sua conceituação
em sala de aula.
A
forma como muitos se manifestaram ilustrou seu conceito de educação:
uma fase que se enfrenta para “vencer na vida” ou até para
“ser alguém na vida”. Essas afirmações estavam presentes em vários
momentos e identificam o tipo de cidadãos que estamos formando. O
caráter competitivo de escola, aliado aos demais mecanismos de
competição que a sociedade cria, nos conduz a uma profunda reflexão
sobre a sua função social. Se a lógica da sociedade é
excludente, a escola
deve preparar seus alunos para não serem excluídos ou deve
questionar a sua estrutura excludente e os meios que excluem? Se
quisermos educar promovendo a cidadania é importante submeter
nossas práticas educativas sob um constante olhar crítico para
que, uma vez conscientes da cultura competitiva da sociedade, não
estejamos em contradição com nossos discursos que, geralmente,
apresentam conteúdos de solidariedade, democracia, participação,
etc.
Temos
consciência de que a educação, historicamente, tem oferecido uma
base para a reprodução da sociedade e, como afirma Bozzetto
(1999), através dos mecanismos
de socialização, a escola contribui para a formação do cidadão
de maneira sutil e consistente. Os mecanismos de socialização são
entendidos como “os diferentes aspectos do currículo: o conteúdo,
a organização das tarefas escolares e o grau de participação dos
alunos nas decisões, a organização do espaço e do tempo/horário,
as formas de valorização – estratégias, critérios – a avaliação
(diagnóstica ou classificatória?), as recompensas, a motivação,
a competitividade, a colaboração, a participação dos alunos no
controle e normas de convivência e interação, o clima de relações
sociais (de individualismo e competitividade ou de colaboração e
solidariedade?). A análise de
todos esses fatores permite compreender o grau de alienação
e intercâmbio que existe no âmbito escolar, gerando nos alunos o
desenvolvimento de conhecimentos, de capacidades, de disposições e
padrões de conduta para resolver problemas de interação e intercâmbio
real e simbólico das relações sociais da aula e da escola” (BOZZETTO,
1999: 6).
Por
outro lado, tivemos sucesso em vários aspectos, principalmente no
que se refere à motivação de vários alunos com relação ao
estudo de Filosofia, o que foi sendo evidenciado na sua participação
nas discussões e, ao final das aulas, através de comentários. A
motivação da turma para a discussão de questões inerentes à sua
vida e à sua forma de relacionamento com os outros, foi um dos
momentos importantes das aulas. Aliamos a isso todo o esforço de
estudarmos a sociedade a partir das relações concretas que foram
se estabelecendo entre os alunos em sala de aula. A utilização de
músicas, poemas, figuras e textos diversos, contribuiu para
despertar o interesse pela Filosofia naqueles alunos que se
dispuseram a participar ativamente das aulas. A ousadia de construir
uma nova forma de poder em sala de aula, incentivando a participação
da turma na tomada de decisões que a afetavam diretamente, merece
ser destacada, principalmente pelo seu aspecto desafiador.
Consideramos que nosso propósito de inovar a prática de aulas em
Filosofia, rompendo com parte da concepção tradicional como esta
historicamente vem sendo realizada, contribuiu para ampliar a visão
da turma com relação a essa disciplina.
Analisando
o contexto que encontramos e nos referimos acima, na perspectiva de
sua superação, entendemos que a principal contribuição do nosso
trabalho foi a motivação dos alunos para o trabalho de reflexão
em grupo, enquanto turma, tendo em vista a construção do
conhecimento coletivo. Mesmo que tenha sido pouco, o impacto que
nossa proposta causou nos alunos, que tiveram reações, na maioria
das vezes contrárias (e, principalmente por isso), desafiou a turma
a participar de algo que muitas vezes parece tão difícil de ser
realizado em nossos tempos: o debate coletivo de idéias.
Mesmo
que algumas atividades tenham sido frustradas, essas não serviram
ao desânimo ou à acomodação. A constante exposição de alunos
à ideologia de dominação, principalmente através dos meios de
comunicação e o refluxo dos movimentos sociais e populares, aliado
aos históricos mecanismos de competição que são reproduzidos na
família, escola, trabalho, igreja e sociedade em geral, são, em
grande parte, responsáveis pelo contexto difícil que vivemos na
escola. Entretanto, é na ausência de propostas que algum projeto
inovador passa a ser mais valorizado; é na desesperança que
voltamos a construir esperança; na crise procuramos alternativas;
na indignação que sentimos pela aparente incapacidade é que nos
motivamos a não desistir.
Nesse
sentido, entendemos que nossa prática teve um significado especial
na vida dos alunos que puderam experimentar um novo jeito de estudar
em sala de aula e sentiram uma nova forma de trabalhar com
Filosofia. Acreditamos na possibilidade de aumentarmos os espaços
em que os jovens possam se sentir sujeitos de uma história
coletiva, visando a participação cada vez mais ativa nos diversos
locais em que são educados. A escola é apenas uma parte desse
processo, mas, mesmo assim, pode ser a principal incentivadora para
a cidadania, no momento em que assumir como prioridade a discussão
de todas as suas práticas e possibilitar a efetiva formação de
cidadãos através das experiências de educação coletiva. Apesar
de muitas dificuldades que enfrentamos, podemos transformar muitos
projetos em práticas coerentes com nossos referenciais teóricos e
respaldadas pelo interesse dos jovens em serem valorizados enquanto
sujeitos sociais.
6.
O desafio da contínua
reconstrução da proposta pedagógica
A
forma de trabalhar Filosofia com alunos de 8ª. Série que assumimos
no início de nossa atividade, com certeza, apresentou várias
contradições no decorrer de sua execução. O nosso planejamento
das aulas permanecia muito fechado em torno de alguns conteúdos que
estavam colocados no Plano de Curso que recebemos da escola e que
havia sido elaborado pela professora de Filosofia que nos antecedeu
no primeiro semestre letivo. Embora tivéssemos várias
contrariedades ao referido Plano de Curso, seguimos trabalhando, de
início, basicamente os temas propostos para a turma. Assim, ao
iniciarmos nossa primeira aula já havia uma proposta de aulas para
todo o semestre, que apresentamos aos alunos e esperávamos a
participação da turma para sua definição. Fazendo a autocrítica,
a partir da contradição que produzimos, concordamos com Doll Jr.
(1997: 184, 187, 188) em sua proposta de planejamento construtivo:
“Questões de procedimento, metodologia e valores não são
decididas no abstrato, longe das praticabilidades da vida, mas são
sempre decisões locais envolvendo os alunos, professores e costumes
e tradições locais (...) Desenvolver este novo papel é um desafio
que os professores e os programas de educação de professores
precisam enfrentar (...) Numa estrutura que reconhece a
auto-organização e a transformação, os objetivos, planos e propósitos
não surgem apenas antes mas também a partir da ação. Esta é uma
questão essencial de acordo com Dewey: os planos surgem da ação e
são modificados através da ação. Os dois são interativos, cada
um levando ao outro e dependendo do outro. Curricularmente, isso
significa que os planos de curso ou aula devem ser escritos de uma
maneira geral, livre, um tanto indeterminada. Na medida em que o
curso ou a aula progride, a especificidade se torna mais apropriada
e é trabalhada conjuntamente – entre professor, alunos, texto.
Este planejamento conjunto não só permite a flexibilidade –
utilizar o inesperado – como também permite que os planejadores
se compreendam e compreendam o seu assunto com um grau de
profundidade de outra forma não obtido (...) Planejar e executar são
atividades conjuntas, integradas, não atividades unilaterais, seqüenciais,
seriais”.
Ao
iniciarmos a primeira aula, com a proposta de revisão de conteúdos,
logo percebemos que as respostas dos alunos se baseavam na memorização
de conceitos que haviam sido repassados pela professora. Sentindo a
incoerência do método utilizado com os objetivos da disciplina de
Filosofia, procuramos inovar, utilizando dinâmicas e textos que
pudessem estimular a criatividade dos alunos em formas de interpretação,
argumentação e expressão das suas próprias idéias.
Inicialmente,
ficamos um pouco frustrados pela maneira como a turma se manifestava
em relação às nossas aulas que eram interpretadas como
brincadeiras e havia uma tendência de fuga ao que considerávamos
como essencial para nossas aulas: o debate organizado de idéias com
a participação ativa de todos os alunos. Em vários momentos não
tivemos a devida atenção dos alunos para o que estávamos
propondo. Por exemplo, quando apresentamos nossa sugestão de avaliação
para que fosse discutida pela turma, muitos ironizaram e
ridicularizaram essa atitude. Entendiam alguns que os alunos não
poderiam opinar em assuntos de responsabilidade do professor; outros
aproveitaram a ocasião para jogar papéis, gritar e aplaudir (com
clara intenção de desmoralizar a proposta). Conforme Doll Jr.
(1997: 184) “falar nesses termos – desenvolver autoridade e
controle em vez de impô-los – soa estranho aos nossos ouvidos
modernistas”.
Compreendemos
a importância dos alunos aprenderem a se organizar em sala de aula
e, ao mesmo tempo, várias orientações são necessárias por parte
do professor, visto que os alunos não estavam preparados para
debater e participar num grupo de estudo. Após uma revisão do
nosso planejamento, entendemos que havia condições objetivas em
sala de aula que precisavam ser discutidas antes de partirmos para
conteúdos. Então, partimos para a análise de várias atitudes dos
alunos em sala de aula, questionando o seu sentido para as
atividades em grupo. Porém, os alunos não queriam discutir suas próprias
ações e, novamente, se manifestaram contrariamente ao que havíamos
planejado.
Entendemos
que os alunos esperavam conteúdo do professor e não conseguiam
entender a possibilidade de que a reflexão sobre o comportamento da
turma poderia fazer parte de uma aula. Isso integra
uma compreensão de educação, onde o conteúdo da aula e as
relações interativas que ali acontecem são vistas como partes
isoladas, sem nenhuma correspondência. Por isso, o conteúdo é
priorizado (inclusive fragmentado em relação ao de outras
disciplinas), devendo ser transmitido para ser memorizado pelos
alunos. Nessa concepção, o conhecimento é encarado como algo
pronto, definitivo que o professor deve “dominar” e
“repassar”, ignorando as mediações que isso implica. Sendo
assim, os problemas decorrentes do método e as formas complicadoras
de sua aplicação como a desatenção, a revolta dos alunos e sua
constante impaciência são rotulados de “indisciplina”, devendo
ser tratados com prepotência e intimidação para que não se
repitam. É essa a interpretação que realizamos dessa situação
e, ao invés de simplesmente recorrermos ao que os próprios alunos
nos sugeriam, ou seja, punir os “indisciplinados” (o que, com
certeza, só viria a agravar os problemas), resolvemos encarar a
problemática, nos desafiando a construir soluções concretas que
começariam pela discussão do que estávamos vivenciando naquele
período. “Os problemas de ensino e aprendizagem precisam ser
tratados de uma perspectiva prática e não teórica; isto é, eles
precisam ser vistos não como parte de teorias concorrentes, mas em
termos de seu ‘estado de coisas’ local. Eles precisam ser
tratados de uma maneira ‘concreta e particular... ilimitadamente
suscetível às circunstâncias e, portanto, extremamente sujeita à
mudança inesperada” (DOLL JR., 1997: 178).
Diante
das diversas dificuldades que percebemos no trabalho com a turma,
resolvemos inovar nossa proposta: conciliar os conteúdos com tudo
aquilo que era considerado prejudicial aos nossos debates. Assim,
priorizamos reflexões acerca da ideologia, tendo as próprias opiniões
dos alunos como referência prática ao debate. Em outros momentos,
passamos a discutir a liberdade e a organização da sociedade,
relacionando os conceitos com as formas de comportamento dos alunos,
confrontando o posicionamento teórico com as atitudes concretas
vivenciadas em sala de aula.
Um
dos momentos de maior conflito, ao qual já fizemos referência
anteriormente, ocorreu em função da forma de avaliação proposta.
Propusemos vários trabalhos que seriam avaliados no decorrer de
cada bimestre e relacionados individualmente, tentando interpretar o
desenvolvimento de cada aluno com base nos seguintes critérios: a)
interesse em aprender (questionar, trabalhar); b) construção de
conhecimento na relação com o grupo; c) participação em todas as
atividades; d) avanço na capacidade de expressão e argumentação
(com clareza e coerência). Além disso, prevíamos a realização
de uma prova bimestral em caso de não terem sido entregues os
diversos trabalhos. Para a definição da nota, nos baseamos nos
critérios citados acima, considerando os trabalhos entregues e a
qualidade das respostas produzidas.
Entendemos
que grande parte da polêmica teve sua razão justificada na tendência
dos alunos competirem entre si nos trabalhos e provas realizados
individualmente, que ficou prejudicada em nossa forma de avaliação.
Consideramos que essa “tendência” também deveria ser objeto de
discussão e ocupamos algumas aulas tratando dessa característica
que parece estar inerente a muitos grupos sociais nosso tempo. No
entanto, nossa proposta quis romper drasticamente com a forma
anterior de avaliação, ou seja, a prova. Compreendemos, com nossa
prática, que em educação existem momentos de rupturas que vão
acontecendo gradativamente. Percebemos que, para certos casos (e a
avaliação é um deles), as rupturas revelam seu potencial de
transformação não pelo impacto que provocam, imediatamente, mas
pela sua constante presença nas diversas atividades. Assim, se toda
a escola assume um novo método de avaliação, que vai sendo
construído aos poucos, com a participação do maior número possível
de pessoas, acreditamos na possibilidade de superação dos métodos
tradicionais e das motivações a eles inerentes.
Tendo
em vista os conflitos e dificuldades que provocamos e enfrentamos,
compreendemos que todos eles foram importantes para nossas aulas,
pois geraram momentos interessantes de debate entre os alunos. Com
as diversas aulas em que tivemos a oportunidade de nos desafiar
enquanto educador e estimular a participação dos alunos em torno
da definição de nossas próprias aulas, podemos dizer que
aprendemos muito. A polêmica que geramos foi coerente com o método
que queríamos construir para enfrentar os costumeiros monólogos
inerentes às aulas tradicionais de Filosofia.
Com
um processo de constante reflexão da nossa prática e a necessidade
de adaptar nosso planejamento à realidade da turma, fazendo com
que, muitas vezes, o planejamento fosse reconstruído durante a própria
aula, desenvolvemos uma dinamicidade em nossa proposta pedagógica.
Acreditamos que isso só foi possível devido à preocupação que
mantínhamos com a participação dos alunos na construção de
nosso planejamento e a coerência do nosso método de trabalho com
aquilo que consideramos ser os objetivos da Filosofia: desenvolver a
capacidade de reflexão crítica nos sujeitos para possibilitar a
sua emancipação enquanto agentes livres e comprometidos com a
evolução da cultura humana, o progresso do conhecimento e a
transformação da sociedade.
por
ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI