Energia
e Água:
para
a sobrevivência da humanidade
Energia
- uma fonte de lucros?
Um
dos setores mais polêmicos da economia brasileira nesses últimos
anos é o de geração, distribuição
e consumo de energia. Economistas, administradores e homens de
negócios se esmeram nas análises e cálculos de custo/benefício
ou de rentabilidade de empreendimentos perfeitamente legítimos
no regime de mercado em que o objetivo central é o lucro no
prazo mais curto e com o mínimo de risco. Mas, seriam esses os
critérios de análise e avaliação que devem prevalecer nos
setores de energia e de água ?
Os
investimentos do setor público devem ser elaborados segundo
critérios de análise e avaliação que considerem, além do
retorno financeiro, o custo/oportunidade, ou seja, as
prioridades sociais e políticas alternativas da sociedade e do
poder público, em determinado contexto histórico.
Há
poucos anos, em conseqüência da escassez de chuvas e do baixo
nível dos reservatórios de água, sofremos uma crise de
energia com racionamento e, obviamente, um aumento das tarifas
para os consumidores.
A
matriz energética brasileira é baseada predominantemente na
geração de energia hidrelétrica, mais de 90% do total gerado
e consumido. A energia elétrica é considerada mais limpa e
barata por ser alimentada pelos rios e barragens construídas ao
longo de seu percurso para o mar. Entretanto, não podemos
ignorar os custos sociais e ambientais causados pela construção
de barragens. Centenas de milhares de pessoas, geralmente
pequenos lavradores e populações indígenas, acabam sendo
expulsos de suas terras. As supostas indenizações arrastam-se
por anos até serem pagas e nunca correspondem ao valor real das
terras desapropriadas. Freqüentemente, as árvores crescidas
nas terras inundadas pelos lagos artificiais não são cortadas
e retiradas em tempo, antes da inundação. Em conseqüência,
apodrecem nas águas e causam a emissão de gases tóxicos –
carbono e metano – responsáveis pelo aquecimento da
atmosfera, o tão comentado “efeito estufa”. É este o caso
das hidrelétricas construídas em plena floresta tropical como
Tucuruí no Pará e Samuel, em Roraima.
Calculam-se
as taxas de juros e de desconto e os lucros previsíveis de
investimentos em grandes obras hidrelétricas. Mas não se
menciona que Itaipu ultrapassou em três vezes e Tucuruí em
quatro vezes, os custos inicialmente orçados. No caso de Tucuruí,
a maior parte da energia elétrica gerada é consumida pelas
empresas de transformação da bauxita em alumínio
posteriormente exportado, energia cujo baixo preço representa
um subsídio às empresas produtoras e exportadoras. Após a
privatização das distribuidoras de energia adquiridas por
empresas estrangeiras, aumentaram as tarifas para os
consumidores garantindo lucros elevados de acordo com os
contratos assinados pelo governo federal àquela época.
Mais
grave ainda do ponto de vista da economia nacional, são os
reatores nucleares de Angra I e Angra II cuja construção
consumiu dezenas de bilhões de reais, embora gerem apenas 2% do
consumo nacional da energia produzida. Contudo, conforme
noticiou a Folha de S. Paulo, em 14/11/2004, e mais recentemente
em março de 2007, surgiram pressões em nível federal para
concluir a construção de Angra III, a um custo adicional
estimado em dez bilhões de reais. As três centrais nucleares
estão localizadas no litoral, numa área em cujo raio
encontram-se as maiores concentrações urbanas do país – Rio
de Janeiro e São Paulo – com mais de 30 milhões de
habitantes. Ademais, os reatores estão situados em terrenos
caracterizados por uma falha geológica, fato já conhecido
pelos índios Guaranis que lá viviam e que chamavam o local de
“Itaorna”, o que significa “pedra podre”. Além de um
gasto desmedido, as três centrais nucleares representam uma
ameaça permanente e inimaginável para as populações litorâneas
caso ocorra algo como o que aconteceu em Chernobyl ou Three
Miles Island.
Pequenos
desastres nucleares são bastante freqüentes, em decorrência
de vazamentos e a contaminação por centenas de reatores
espalhados pelo mundo. Mais sério, todavia, é o problema dos
resíduos ou do lixo nuclear para o qual não foi encontrada
ainda uma solução adequada. Enterrá-lo ou jogá-lo nas
profundezas do mar, mesmo acondicionado em barris de chumbo e
cimento não elimina o problema, apenas consegue postergá-lo e
empurrá-lo para as gerações futuras. Por isso, sociedades nas
quais prevalece a força da sociedade civil e da opinião pública
– Suécia, Alemanha, Espanha – resolveram desativar seus
reatores nucleares e embarcar nas
pesquisas e desenvolvimento de fontes energéticas
alternativas.
Até
aqui, tratamos de custo/benefício da energia nuclear, questionável
quando analisado em suas dimensões sociais, econômicas e
ambientais. Vejamos, então, os aspectos da análise custo / oportunidade, ou seja, outros investimentos possíveis
com os recursos destinados à geração da energia nuclear.
Afinal, o território brasileiro é aquinhoado com potenciais
fontes de energia mais limpas e seguras cujas tecnologias são
conhecidas e facilmente acessíveis.
Além
do álcool, a partir da cana de açúcar – etileno e metileno
adicionados à gasolina – dispomos de um imenso potencial de
bagaço de cana, de serragem da indústria madeireira, de casca
de arroz, de óleo de mamona, de babaçu e de dendê. O território
brasileiro, ensolarado praticamente o ano todo, pode ser
aproveitado para gerar energia solar e fotovoltaica,
particularmente apropriada para pequenas povoações espalhadas
no meio rural. Em algumas regiões do país, tanto no nordeste
quanto no sul, existem boas condições para instalações de
energia eólica.
Outra
fonte de energia de baixo custo e de pouco impacto ambiental
seriam as pequenas hidrelétricas de até 30MW as quais
inundariam áreas inferiores a 3 km², comparadas aos 2.430 km²
de Tucuruí e aos 1.350 km² de Itaipu.
A
discussão acima nos remete à questão fundamental das
prioridades da nação que deveriam se refletir nas decisões do
poder público.
Quais
são as maiores deficiências no atendimento das necessidades básicas
de dezenas de milhões de brasileiros carentes e marginalizados?
Examinando os planos e programas do governo, verifica-se uma
lamentável discrepância entre o discurso, sobretudo na época
pré-eleitoral e suas ações efetivas, uma vez instalado no
poder. Qualquer observador objetivo julgaria que as áreas
prioritárias de investimentos públicos devem se concentrar na
extensão e no aperfeiçoamento da educação universal de
qualidade e gratuita; de postos e centros de saúde que prestem
assistência a todos; de um vasto programa de construção
habitacional popular dotado de um sistema de saneamento e de
transporte público eficiente e uma boa infra-estrutura
rodo-ferroviária e fluvial alimentada por uma rede de energia
limpa e barata. Assim proporcionaria maior conforto e bem-estar
à população enquanto se minimizaria a poluição por emissões
tóxicas e desmatamento de áreas florestais, na Amazônia, no
Cerrado e na Mata Atlântica.
Os
oito anos de governo FHC e os quatro primeiros do governo Lula não
demonstraram preocupações mais sérias com a qualidade de vida
das populações carentes e excluídas. Quando mais de 1/3 da
população brasileira sobrevive na indigência, a proposta de
construção de Angra III; a compra de aviões de caça supersônicos
e as pressões para ressuscitar a indústria de armamentos
brasileira representam os custos de oportunidades perdidas no
caminho do desenvolvimento. Ao iludir-se com a conquista de posição
de uma grande potência, pleiteando um assento permanente no
Conselho de Segurança das Nações Unidas, o governo estará
perpetuando o secular subdesenvolvimento do país, mormente da
parcela da população mais desfavorecida.
Água
- um direito humano!
Vivemos
com a ilusão de uma oferta ilimitada de água no planeta. Nada
mais falso! A quantidade de água doce disponível não passa de
0,5% de todas as águas na Terra. O resto é água do mar ou
congelado nos pólos norte e sul. A renovação da água potável
ocorre somente com as chuvas, a razão de 40.000 a 50.000 quilômetros
cúbicos por ano. Devido à urbanização intensa, os
desmatamentos e a contaminação por atividades industriais,
mesmo esta pequena parcela de água potável está diminuindo,
causando a desertificação progressiva da superfície da terra.
Se as tendências atuais continuarem, as águas de todas as
bacias hidrográficas serão irremediavelmente degradadas e
perdidas para o consumo.
O
consumo global de água dobra a cada vinte anos, mais do que o
dobro da taxa de crescimento da população humana. De acordo
com as Nações Unidas, mais de um bilhão de pessoas carecem de
acesso a água potável. Se continuar o uso predatório e
irresponsável , por volta de 2025 a demanda de água potável
irá subir em 56% a mais da quantidade atualmente disponível.
Com
a intensificação da crise da água, governos no mundo todo,
sob a pressão das empresas transnacionais, advogam uma solução
radical: privatização e comercialização da água, alegando
que somente assim seria possível prover água para um mundo
sedento. Contudo, fica evidenciado que a venda da água não
atende às necessidades da população pobre e sedenta. Ao contrário,
água privatizada é fornecida aqueles que podem pagar, tais
como cidades e indivíduos ricos, ou indústrias água-intensivas
como agricultura e mineração.
A
pressão de transformar a água em commodity ocorre em um
contexto histórico onde os impactos sociais e econômicos da
escassez de água se transformam em fatores políticos
desestabilizadores, gerando conflitos ao redor do globo
terrestre. Por exemplo, a Malásia que controla metade da oferta
de água de Singapura, ameaçou de cortar o suprimento em 1997,
após críticas formuladas ao seu governo. No Oriente Médio, um
dos maiores conflitos entre Israel e os palestinos é devido não
somente à questão territorial mas também à escassez da água,
o que levou Israel a cogitar da importação do precioso líquido
da Turquia.
Na
África, as relações entre Botsuana e Namíbia ficaram
estremecidas por causa dos planos da Namíbia de construir um
aqueduto para desviar águas do rio Okavango, comum aos dois países.
Entretanto, aqueles que lucram com o uso e abuso da água
determinam o futuro de um dos recursos mais vitais da Terra. Um
punhado de empresas transnacionais apoiadas pelo Banco Mundial
assume de forma agressiva a administração de serviços de água
públicos nos países em desenvolvimento, elevando os preços
aos residentes locais e lucrando com a busca desesperada do
Terceiro Mundo de uma solução para a crise de água. Para as
empresas, a resposta é uma só: água deve ser tratada como
qualquer outro bem comerciável, com seus usos determinados
pelos princípios do mercado.
Ao
mesmo tempo, os governos cedem seu controle sobre os suprimentos
domésticos de água, participando de acordos comerciais tais
como a NAFTA – Associação de Livre Comércio da América do
Norte, e suas possíveis sucessoras – a ALCA e a OMC –
Organização Mundial de Comércio. Essas instituições de comércio
globais facilitam o acesso sem precedência para empresas
transnacionais, aos recursos hídricos dos países signatários.
Algumas
empresas já entraram na justiça para forçar os governos a
conceder acesso a recursos hídricos domésticos. Sum Bett, uma
empresa da Califórnia está processando o governo canadense,
baseada na da NAFTA, porque a Colômbia Britânica proibiu a
exportação de água, anos atrás. A empresa alega que as leis
da Colômbia Britânica violam vários direitos de investidores,
de acordo com o tratado da NAFTA, e exige US$ 10 bilhões em
indenizações por lucros cessantes.
Sob
a proteção desses acordos comerciais internacionais, as
empresas cobiçam o aproveitamento de enormes quantidades de água
potável, via desvios de cursos de água
ou por super-navios. Empresas desenvolvem tecnologias
pelas quais milhões de toneladas de água potável seriam
carregadas em enormes navios-tanques e transportadas pelos
oceanos para venda. Vendendo água a quem oferece mais tende a
exacerbar os piores impactos da crise mundial de água. Várias
instituições de pesquisa e ONGs ambientais têm alertado na última
década: se continuar o uso predatório de água, o resultado
será a devastação da Terra e o extermínio de seus
habitantes.
Está
em curso uma campanha em escala mundial, ainda que não
totalmente coordenada, para resistir à privatização e
mercantilização da água. Ademais, inúmeras iniciativas
surgem para opor-se à construção de novas mega-barragens e
para recuperar rios e margens prejudicados, enfrentando indústrias
que contaminam os sistemas aquáticos.
Uma
série de perguntas deve ser levantada e respondida por todos os
cidadãos e seus servidores e representantes nos órgãos públicos:
-
A
quem pertence a água?
-
Quem
pode apropriar-se dela?
-
É
lícito privatizá-la?
-
Em
nome de que direito as empresas transnacionais estão
comprando sistemas de recursos hídricos?
-
Esses
recursos podem ser comercializados como qualquer commodity
no mercado?
-
De
que leis necessitamos para proteger a água para o consumo
de todos?
-
Qual
deve ser o papel dos poderes públicos?
-
Os
países ou regiões ricos em recursos hídricos devem
compartir com os paises mais pobres?
-
A
quem cabe a responsabilidade de zelar pelo “sangue azul”
da natureza?
-
Como
envolver os cidadãos neste processo?
A
água é herança da terra e deve ser sempre preservada como bem
público e protegida por uma legislação forte, local, nacional
e internacional. O que está em jogo é a idéia que através de
instituições públicas identifiquemos um legado natural e
humano comum a ser preservado para as atuais e futuras gerações.
Além das instituições e órgãos nacionais e internacionais
também as comunidades locais devem assumir o papel de guardiões
dos recursos hídricos e estabelecer os princípios de seu uso
racional e eqüitativo.
Em
vez de permitir que este recurso vital se torne mais uma
mercadoria a ser vendida a quem mais oferece, postulamos que o
acesso à água para as necessidades básicas constitui um
direito humano inalienável. Cabe a cada geração zelar para
que a abundância e a qualidade da água não sejam diminuídas
em conseqüência de atividades predatórias e esforços devem
ser feitos para restaurar a saúde dos ecossistemas aquáticos e
aquíferos que já foram degradados.
Para
isto, precisamos reestruturar radicalmente nossa sociedade e o
estilo de vida a fim de reverter a depredação dos recursos hídricos
e aprender a viver com eles de forma a sustentar os seres vivos
e a natureza.
Nada
mais perigoso do que o abuso dos preciosos recursos hídricos do
mundo, apostando na tecnologia como resposta. Não haverá salvação
tecnológica para um planeta com escassez crônica de água.