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por
PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil


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Prometeu
acorrentado:
o
Brasil amarrado por sua própria vontade
Como
definir o Brasil?
O
Brasil é um país de muitas facetas, algumas mais vistosas do que
outras, dependendo da perspectiva adotada ou do grau de aproximação
que um observador isento – digamos um viajante estrangeiro ou um
“alienígena”, o mais possível objetivo e externo aos temas que
possamos aqui discutir – possa ter em relação a alguns dos seus
problemas mais evidentes. Por “problemas mais evidentes”, que são
as facetas diversas aludidas acima, eu quero basicamente dizer que o
Brasil não é um país pobre, ou desprovido de riquezas, mas ele é
certamente um país com muitos pobres, como um presidente-sociólogo
já observou certa vez. O Brasil tampouco é um país desprovido de
recursos humanos de qualidade ou de capacitação industrial e científica,
ainda que esses insumos e recursos valiosos para seu desenvolvimento
econômico e social estejam mal distribuídos, socialmente e
regionalmente.
O
Brasil é um país razoavelmente democrático, ainda que sua
democracia seja de baixa qualidade, tendo em vista os inúmeros
problemas de representação política, de corrupção
institucional, de mau funcionamento dos órgãos públicos. Ele é
também uma nação que aspira realizar valores positivos de
solidariedade social e de inclusão dos mais pobres – como
revelado pela educação gratuita em todos os níveis (ainda que
integrando progressivamente pouca gente), pela cobertura extensiva
da Previdência (mesmo sem contribuições prévias), pelo Sistema
Único de Saúde e pelo tratamento exemplar dado às vítimas da
Aids, por exemplo –, mesmo se os dados revelam inúmeros obstáculos
à realização efetiva da “solidariedade” proclamada. Enfim, o
Brasil é um país contraditório, como muitos observadores já
perceberam, e como a visão “alienígena” poderia confirmar.
Vejamos o que poderia ser dito desse Brasil contraditório.
Aproximações
sucessivas ao Brasil, a partir do espaço...
De
uma perspectiva totalmente “estratosférica”, isto é, visto há
milhares de quilômetros de distância, o Brasil aparece como uma
grande massa verde ou marrom escura ao observador do espaço,
revelando enormes recursos naturais num imenso território cobrindo
várias “latitudes” e “longitudes”. Chegando mais próximo,
digamos no espaço aéreo nacional, nosso visitante
“extra-terrestre” constataria que essa vasta massa de muitas
cores abrange áreas extremamente ricas em biodiversidade, territórios
ainda mais vastos deixados indevassados ou aparentemente intocados
pela mão do homem, grandes extensões cultivadas –
geometricamente delimitadas –, uma rede de comunicações
certamente insuficiente para cobrir essas vastidões parcialmente
habitadas, além de grandes e pequenas cidades nas quais sobressaem
edifícios vistosos, casas modestas e algumas “aglomerações”
indefiníveis.
Chegando
ainda mais perto, nosso “alienígena” descobriria, no interior,
grandes fazendas tecnologicamente bem dotadas ao lado de minifúndios
familiares e, mais além, assentamentos inviabilizados pelo
desconhecimento técnico e precariedade de meios de seus “proprietários”;
nas cidades, ele veria fábricas e escritórios modernos, edifícios
luxuosos de apartamentos familiares, ao lado de construções
bizarras, vulgarmente chamadas de “favelas”. Descendo nessa
altura, ele então poderia contemplar carros vistosos sendo
abordados nos semáforos por pessoas de aspectos variados, alguns
andrajosos, outros nem tanto, algumas crianças exploradas, outros
meliantes à procura de alguma oportunidade de “negócio” com a
propriedade alheia. Precisamente, o que o surpreenderia no Brasil,
seria a convivência contraditória da riqueza de muitos indivíduos,
escandalosamente ostensiva, com a mais abjeta pobreza de grande
parte da população, nas cidades e nos campos. Essa desigualdade é
aqui levada ao extremo, como em poucos países da atualidade, salvo
em alguns Estados “falidos” de certos continentes. O que
caracteriza o Brasil, exatamente, é a dupla existência de muita
riqueza, potencial e real, e de muita pobreza, material e
“espiritual”, ou seja, muitos indivíduos analfabetos funcionais
ou incapazes de compreender textos elementares ou de fazer operações
aritméticas simples.
Se
nosso visitante estrangeiro, a partir daí, penetrar nos escritórios
das fábricas, no seio de pequenas empresas familiares, nas salas de
aula das escolas públicas, nos corredores e gabinetes do Congresso,
no recesso de alguns funcionários públicos e responsáveis
governamentais, o que ele veria certamente reduziria em muito
qualquer visão otimista que ele pudesse ter acumulado a partir da
sua perspectiva “aérea”, com respeito à pujança da economia,
da enorme diversidade de recursos naturais, da modernidade das
fazendas agrícolas e da infra-estrutura urbana. Enfim, o quadro
favorável que ele teria desvendado de longe logo se inverteria para
um espetáculo pouco recomendável, feito de aspectos essencialmente
negativos da estrutura social do Brasil, de sua organização
governamental e das muitas dificuldades hoje interpostas no seu
caminho para o desenvolvimento econômico e social.
O
novo quadro, bem mais negativo, contemplaria: evasão e elisão
fiscais por parte das empresas e dos indivíduos; informalidade
completa em muitos empreendimentos familiares ou pessoais, aliás,
obrigatória, por obra de um Estado tributariamente voraz e insaciável;
negociatas e falcatruas generalizadas, a partir das licitações públicas
e da contratação viciada de gastos governamentais, em função,
precisamente, da centralização excessiva de serviços “públicos”
que poderiam ser prestados em bases de mercado; corrupção ativa
dentro dos aparelhos encarregados, paradoxalmente, da prevenção e
da repressão de atos ilícitos nos meios judiciários e policiais;
deterioração visível da qualidade do ensino em quase todos os níveis
das instituições públicas do setor; desalento generalizado na
população em virtude do baixo crescimento generalizado nas últimas
duas décadas, com poucas oportunidades criadas para os ingressantes
no mercado de trabalho; sentimento de desesperança que se reflete
nos números continuamente altos de candidatos à emigração a países
mais favoráveis ao trabalho honesto e dedicado.
Prometeu
na sua rocha, com o previsível abutre...
Numa
imagem alegórica, retomando a tradição dos mitos gregos,
poder-se-ia dizer que o Brasil se apresenta, hoje, como uma espécie
de Prometeu acorrentado, um gigante razoavelmente bem constituído,
de aparência saudável e inteligência atilada, mas acorrentado a
uma rocha por sólidos grilhões, tendo sido condenado a responder
pela sua impetuosidade, a ter o fígado bicado por um abutre voraz,
que o debilita continuamente, sem perspectiva de um fim a seus
tormentos. No papel do abutre devorador, creio que muitos
concordariam comigo em colocar uma identidade precisa nesse
personagem incontornável do cenário político-constitucional de
nossa época: ele se chama Estado e, no caso brasileiro, poderia
também assumir outras configurações “naturalistas”, como a
dos sanguessugas, esses invertebrados hematófagos, ou a dos
parasitas vegetais, que consomem a seiva dos corpos nos quais se
enredam. Não por acaso uma das diligências policiais que
envolveram políticos e “empresários” em um vasto esquema de
corrupção com dinheiro público na atualidade brasileira foi
batizada pela Polícia Federal de “Operação Sanguessuga”.
Esse
Prometeu acorrentado da modernidade brasileira é, infelizmente, uma
realidade presente no cotidiano da maior parte dos cidadãos que
precisam ganhar seus meios para uma vida decente e uma existência
digna exclusivamente pelo trabalho e que não são rentistas dos títulos
públicos nem funcionários privilegiados por regras que eles mesmos
criaram para transferir renda do conjunto dos cidadãos, via Estado
obviamente, para seus salários nababescos ou gratificações
escandalosas previstas em regulamentos incógnitos do resto da
população. O Brasil hoje é um país claramente sufocado em seu
crescimento econômico e em seu desenvolvimento social por um Estado
reconhecidamente disfuncional, excessivamente perdulário nos seus
gastos correntes e insuficientemente instrumental para fins de
investimento produtivo e gastos educacionais. O nível atingido
pelos gastos públicos o condena a figurar indefinidamente na faixa
de baixo crescimento e de dinamismo insuficiente para enfrentar os
desafios da modernidade globalizada que distingue grande parte do
mundo, hoje caracterizado por taxas de crescimento relativamente inéditas
para os padrões conhecidos da história econômica do capitalismo.
Com a unificação de mercados e os intensos fluxos de capitais e de
investimentos diretos, o mundo passou a confrontar diretamente países
e economias antes separados pelas barreiras comerciais e regulatórias.
Nesse cenário de velhas economias agora consolidadas na sociedade
do conhecimento e de novos emergentes voltados para os setores mais
dinâmicos dos intercâmbios internacionais – as tecnologias de
informação e de comunicação, os novos materiais compósitos, as
inovações da biotecnologia e da nanotecnologia que compõem o âmago
da quarta revolução industrial, atualmente em curso –, o Brasil
aparece como singularmente pouco preparado para enfrentar os
desafios da modernidade.
Eu
estaria exagerando muito pouco se dissesse que o principal fator a
travar o processo de desenvolvimento brasileiro é hoje constituído
pelo mesmo personagem que, num passado não muito distante, foi o
responsável por surtos de progresso e de impulsos industrializantes
que puderam colocar o país no caminho da modernidade tecnológica:
esse personagem se converteu no abutre estatal da atualidade e ele não
apenas consome forças vitais do Prometeu acorrentado, como também
inviabiliza seus movimentos pelos muitos grilhões tributários e
regulatórios que o deixam parado no mesmo lugar, vendo concorrentes
se distanciarem cada vez mais.
Um
diagnóstico da situação presente teria de partir de uma análise
realista das condições institucionais que são em grande medida
responsáveis pelo atual quadro de baixo crescimento econômico,
pela disseminação de comportamentos “desviantes” no setor
formal da economia, pela enorme informalidade existente nos mercados
de trabalho, pela corrupção generalizada em órgãos públicos e
pelo sentimento de desalento que se percebe nos meios empresariais e
entre os muitos jovens que preferem a segurança dos concursos públicos
ou tentar a vida em arriscadas operações de imigração ilegal.
Essas condições institucionais poderiam ser esclarecidas por meio
de uma radiografia da economia política da Constituição de 1988,
que certamente criou a maior parte das amarras hoje existentes na
economia. O quadro deveria ser completado pelo exame do meandro de
dispositivos infraconstitucionais que atuam como ventosas sobre o
corpo econômico da sociedade, seja na sua configuração
diretamente tributária, seja ainda pela imensa burocracia criada
para “vigiar e punir” os responsáveis por infrações fiscais
ou regulatórias, e que acabam criando, justamente, os incentivos
para o espetáculo de corrupção generalizada que se constata por
um exame perfunctório, de nível jornalístico, da atualidade
corrente. Não creio que este exame pessimista da realidade
brasileira atual seja desprovido de fundamentos sólidos.
Alguma
reforma em vista?
Qualquer
pessoa medianamente bem informada e provida de dados comparativos
com outros países e situações, pode constatar o atraso relativo
do Brasil e as enormes dificuldades que hoje confrontam todos
aqueles que decidem se iniciar como empresários ou como simples
assalariados de empresas normalmente constituídas. A rede de
regulamentos a serem observados, o peso desmesurado dos tributos,
taxas e contribuições, nos diversos níveis da federação e em
todos os setores da economia, e a carga de dificuldades de toda
sorte que enfrenta o cidadão comum na sua luta cotidiana – para não
mencionar o quadro de violência civil e a insegurança reinante nas
grandes metrópoles – constituem motivos para real desalento dos
cidadãos.
Paradoxalmente,
esses mesmos cidadãos não parecem ter se dado conta, ainda, do
peso do Estado em suas vidas e insistem em cobrar mais serviços e
prestações desse mesmo Estado, sem imaginar que aquilo que lhes é
concedido com uma mão é, quase no mesmo movimento, subtraído com
a outra, sob a forma de mais impostos e contribuições excessivas.
Muitos aspiram a cargos públicos, na política ou no funcionalismo,
pois esta parece ser a via da realização fácil na vida e dos
ganhos garantidos, sem as contrariedades da vida empresarial ou do
puro regime salarial. Quase todos esperam que o Estado resolva
problemas corriqueiros da vida em sociedade e todos invariavelmente
apelam para as autoridades em face de dificuldades locais ou comunitárias.
O
Brasil padece de centralismo excessivo e concebe o sistema democrático
apenas como um regime político, não como um sistema auto-regulado
de organização social que deveria, em princípio, começar pelo próprio
ordenamento da vida comunitária. O “abutre”, ou seja, o Estado
adquiriu poderes extraordinários, que o habilitam a ir buscar
recursos diretamente no bolso dos cidadãos e no caixa das empresas,
mediante um sistema de captação extensiva – e preventiva, em
muitos casos – que deixam todos e qualquer atividade à mercê do
sanguessuga institucional. O mais dramático é que proporções
crescentemente maiores desses recursos são canalizadas para os próprios
gastos correntes do Estado, não para atividades produtivas ou
investimentos de mais longa maturação, como podem ser as despesas
com educação e saúde.
Tendo
em vista a nítida imbricação dos regulamentos existentes, a selva
de dispositivos constitucionalizados, a solidez dos interesses
constituídos e dos privilégios legalizados, ademais da dificuldade
notória que consiste em reformar aspectos importantes da vida
nacional – sistema político, regime tributário, legislação
trabalhista, instituições educacionais e outros mais – parece
claro que será muito difícil ao “Prometeu brasileiro”
livrar-se do atual “abutre estatal”, inclusive porque o mais
importante, que seria a reforma das mentalidades, ainda precisa ser
feito. Não tenho nenhuma ilusão de que o Brasil empreenderá o
conjunto de reformas que seria necessário no horizonte previsível.
O mais provável é que ele continue a se arrastar lentamente em
direção da modernidade – uma vez que, como dizia Mário de
Andrade, “o progresso também é uma fatalidade” – e que seu
declínio não seja irresistível e catastrófico, apenas relativo e
tendencial. Ou seja, estamos progressivamente nos afastando dos países
mais dinâmicos e das economias mais empreendedoras. Não haverá um
colapso generalizado da sociedade e da economia como um todo –
tanto porque os elementos de modernidade e de espírito empreendedor
presentes na sociedade são suficientemente fortes para garantir
alguma adequação criativa aos desafios da globalização –, mas
os esforços desses fatores dinâmicos não serão suficientes para
fazer o Brasil galgar novos patamares de modernidade inclusiva e de
justiça social.
Em
outros termos, o “Prometeu” continuará acorrentado por muito
mais tempo, pelo menos até que a sociedade se convença de que
precisa se livrar do abutre explorador e libertar o personagem
principal dos grilhões que o prendem, ainda, à miséria e à ignorância,
mediante um esforço de auto-organização da sua vida cotidiana e
de liberação a mais completa possível das iniciativas
individuais. Conhecendo as limitações existentes no quadro
institucional brasileiro da atualidade, não tenho a menor ilusão
de que essa liberação ocorra no futuro previsível. Se ouso
resumir meu pensamento sobre a questão, eu diria simplesmente que o
Brasil não está condenado obrigatoriamente à derrocada no seu
esforço social-desenvolvimentista, mas ele exibe notórias
dificuldades para reformar-se a si mesmo. Continuaremos a progredir
lentamente, talvez muito lentamente para o ritmo atual da globalização.
A escolha é nossa...
por
PAULO
ROBERTO DE ALMEIDA
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