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por
RAYMUNDO DE LIMA
Formado em psicologia, mestre em Psicologia Escolar (UGF) e
Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP).
Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na
área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de
Maringá (UEM)
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Filhos
próximos-distantes
Na
década de 1970 os filhos se queixavam sobre a falta de disposição
dos pais para o diálogo. Hoje, os pais é que mendigam um mínimo
de diálogo com os filhos.
Com
o título “Filhos distantes” a revista Família Cristã
(dez/2006) traz um interessante artigo do psicólogo Luis Cláudio
Paiva de Souza. Segundo ele, a nova geração parece “preferir a
companhia dos colegas e amigos de sua ‘tribo’ a estar com seus
familiares, oferecendo a estes amigos muito mais lealdade e
cumplicidade do que as dedicadas à família”.
O
artigo me fez pensar o por que da resistência dos jovens de hoje
para os encontros familiares nas datas de Natal, Ano Novo, Páscoa,
aniversário dos avós, etc. Alguns jovens preferem ficar horas a
fio no computador ou jogando no play
station do que passar alguns minutos com sua família extensiva.
Convocados, eles parecem deslocados e até mesmo constrangidos, sem
saber como deve se dirigir aos tios ou o que conversar com os primos
que não os vê à algum tempo.
Os
pais ficam desconcertados com a falta de sociabilidade dos filhos.
Alguns fazem de conta que está tudo bem, que é assim mesmo, que é
uma fase, enfim, reforçam o auto-engano. Outros se ressentem por
estarem no final da lista de interesses de seus filhos adolescentes.
Pais permissivos – que não sabem regrar a conduta dos filhos –
e os pais negligentes – indiferentes, que não ligam para
eles – se conformam terem filhos fisicamente próximos, mas
distantes de um relacionamento autêntico no dia-a-dia. Não raro, há
aqueles pais que se resignam com filhos indiferentes, alheios, e sem
compromisso com os problemas familiares e sociais.
Os
pais mais decididos em reverter essa situação de opção pelo
distanciamento alienado dos filhos para além das datas, acima,
procuram conversar, tentando conscientizá-los sobre a
responsabilidade deles nos assuntos familiares. Assim, tentam fazê-los
ampliar sua sociabilidade, ainda que o preço seja se afastar, por
minutos, de seu mundo narcisista ou dos seus iguais de tribo.
Fazem-no com extremo cuidado como quem pretendem tocar um fio
desencapado pronto para reações agressivas, cenas de frustrações
e ressentimentos demorados. É desgastante, mas é preciso aprender
a educar.
Que
pai ou mãe não sente mal-estar vendo seus filhos se distanciando
deles e do ambiente familiar? Que pais não ficam preocupados de
serem preteridos pelos amigos dos filhos ou das telas do computador
ou da tv? Que pais não se ressentem de que são vistos pela nova
geração como meros provedores de recursos para os filhos atenderem
às suas necessidades prioritárias e sem limites de consumo e
lazer?
Algumas
causas
“Embora
tal distanciamento faça parte do processo da construção da
identidade dos adolescentes, o fenômeno de afastamento excessivo da
família desta geração pode estar sendo intensificado por outros
fatores”, observa o psicólogo. Quais seriam?
Os
brinquedos eletrônicos (games, celular, tv, Ipod) vêm se tornando
verdadeiros fetiches, despertando fascínio, interesse, status,
sensação de “eu posso” etc. Presentear os filhos com esses
brinquedos, geralmente caros, sem a contrapartida de combinar regras
de como usá-los, os pais se arriscam vê-los cada vez mais
distantes da ambiência própria da família.
Parece
que as novas amizades “líquidas” e “virtuais” são
prioridades entre os jovens a ponto de eles descartarem as formas
mais “sólidas” e “presenciais” de relacionamentos. A nova
linguagem dos relacionamentos “líquidos” e “instrumentais”
parece se impor sobre a linguagem dos relacionamentos mais
duradouros, “sólidos”
ou “consumatórios”. Atividades – como ler livros e conversar
sobre eles – que poderiam contribuir para diminuir a ignorância e
melhorar a comunicação social, dão lugar a conversas rasas sobre
joguinhos eletrônicos, celebridades do mundo artístico; geralmente
eles parecem recorrer mais as imagens e ações descritivas do que
as idéias. Entretanto,
se existe o hábito da leitura, podemos reconhecer um bom vocabulário
e a qualidade dos assuntos seriam menos rasos.
O
fascínio pelas telas parece bloquear a qualidade comunicativa dos
jovens. Suspeito que a baixa disposição de comunicação entre
filhos e pais de hoje deve-se a exposição excessiva aos jogos
eletrônicos, que tendem a excluir os pais desse ambiente virtual.
Além do mais, os joguinhos e as comunicações eletrônicas são
atividades tão intensamente envolventes que terminam substituindo
outras mais ligadas ao contato com a natureza. Crianças que
cotidianamente brincam ao ar livre parecem mais dispostas às
atividades lúdicas expressivas, com palavras, corpo e movimentos
investidos de alegria.
A
televisão parece ser outra importante causadora do distanciamento
entre filhos e pais. A tv até pode reunir a família em torno de um
programa, mas não desenvolve união. Não se trata de criticar o
aparelho televisão, como faziam a extrema esquerda, a extrema
direita e os religiosos conservadores de antigamente. Mas, sim, há
que ser criticada a programação televisiva que caminha na contramão
da educação do povo.
Reforça ainda mais a baixa educação que leva as pessoas
escolherem assistir uma programação ruim por falta de
alternativas. Sobretudo, as crianças que vivem em espaços
restritos não têm outra alternativa senão ver televisão, não
importa qual programação.
Infelizmente,
os jovens tendem a escolher uma programação televisiva com mais ação
e menos reflexão. Filmes e joguinhos, também. Ao contrário de uma
tendência “cabeça” dos jovens dos anos 1970, os jovens de hoje
parecem fugir dos filmes mais elaborados, fora da indústria
cultural e da onda marqueteira do lançamento. Na minha vivência,
vejo que os nossos jovens falam pelos cotovelos assuntos triviais,
mas são tímidos ou evasivos quando o assunto exige um conhecimento
noticiado e um pensamento mais elaborado.
Seria
diferente se eles acompanhassem noticiários, revistas (como “Fantástico”,
da TV Globo), entrevistas (como
“Roda-Viva, da TV Cultura-SP), documentários, filmes mais
elaborados, etc. Dá pena ver o grau de desinformação dos
adolescentes de hoje e a rendição ao ‘espírito de rebanho’.
Não mais me surpreendo com a incapacidade de eles fazerem
uma leitura sobre um acontecimento ou uma ficção. A escola é
responsável direta por essa falha na formação do jovem. Ela pensa
que estar formando um cidadão crítico, mas ainda não sabe em que
consiste ser crítico em nossa época. A indigência intelectual
também pode ser reconhecida naqueles que então entrando na
faculdade. Potencialmente, são presas fáceis de discursos ideológicos
travestidos de científicos.
Por
fim, o psicólogo acima observa que algumas aproximações afetivas
dos filhos costumam representar uma farsa teatral sedutora. Ou seja,
vem como “cantada” para os pais toda vez que eles querem um novo
tênis, ir a uma festa ou voltar mais tarde para casa. “Isto é,
estes adolescentes até podem demonstrar ‘afeto’, desde que se
ganhe algo em troca”, escreve. A causa dessa atitude parece diretamente
influenciada pelos valores materiais aprendidos no relacionamento
com os pais. Também é reflexo do próprio sistema capitalista, nas
quais as pessoas só têm valor pelo que possuem e aparentam e não
pelo que são e oferecem em termos de autênticos valores humanos.
Que
fazer?
A
primeira coisa a fazer é ter coragem de reconhecer que estamos
errando na nossa educação, por exemplo, dando-lhes brinquedos em
excesso ou deixando-os ficar jogando sem limite de tempo. Nada de
ser sovina e nem de proibir ou reprimir suas experimentações eletrônicas.
Mas é preciso regrar as atividades dos filhos. Educar é, subretudo,
regrar atividades no sentido
de civilizá-los. O contrário é deixá-los entregues aos
impulsos da natureza, no fundo, deixar reinar a barbárie do “tudo
pode” e do “vale tudo”. Por que não devemos cobrar do nosso
filho adolescente ficar mais tempo à mesa do almoço, ainda que
somente para escutar um resto de conversa, as conquistas, alegrias e
dificuldades dos membros da família? Por que as mães de hoje não
conseguem conversar com as filhas assuntos antigamente considerados
tabus? Os pais da década de 1970 não sabiam o que conversar com os
filhos rebeldes, mas, por que os pais de hoje, embora mais
preparados parecem mendigar um diálogo com os filhos?
Penso
que, em vez de os pais culparem somente “os de fora” (amigos,
“ficantes”, namorados, tv, lan house), que estariam distanciando
os filhos do convívio familiar, deveriam ter coragem de fazer
autocrítica e irem à luta para manter os vínculos afetivos e um
diálogo autêntico sobre tudo.
Afinal, “os
filhos copiam e reproduzem o que vêem e absorvem cotidianamente não
apenas fora como dentro da própria casa”, arremata o psicólogo.
por
RAYMUNDO DE LIMA
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