por
MARCELO
GRUMAN
Antropólogo, doutor
em Antropologia Social pelo PPGAS / MN / UFRJ, e atualmente é
Administrador Cultural na Fundação Nacional de Artes - FUNARTE
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“Ser
doutor no país dos bacharéis”:
o
papel da identidade étnica no processo de integração dos judeus
à sociedade brasileira (1900-1940)
Em
pouco mais de um século, entre os anos de 1840 e 1942,
desembarcaram no Brasil aproximadamente setenta e um mil judeus, o
que corresponde a 1,8% do total de imigrantes judeus fugidos da
Europa em busca de melhores oportunidades no Novo Mundo, na África
do Sul e na antiga Palestina (Rattner,1972). Com relação à
nacionalidade dos que entraram no Brasil entre 1925 e 1942,
observamos que os judeus poloneses somam o maior contingente,
seguidos dos alemães (concentrados entre 1933, ano da ascensão de
Adolf Hitler como chanceler alemão, e 1942), dos romenos, russos e
lituanos. A participação percentual dos imigrantes judeus no total
de imigrantes para o Brasil foi mais destacada nos anos de 1936 e
1939, somando 26,7% e 20,2%, respectivamente, inflada possivelmente
pela maior entrada de refugiados da Alemanha pressentindo a tragédia
que se anunciava[1].
O
Brasil acolheu, além dos originários de países europeus, judeus
emigrados da Ásia Menor nas duas primeiras décadas do século XX,
fugidos mais por conta da tensão política presente no Império
Turco-Otomano (Síria, Líbano, Grécia, Turquia), despedaçado após
a Primeira Guerra Mundial, do que por dificuldades financeiras,
embora a pobreza estivesse presente entre a comunidade judaica desta
área geográfica. O Brasil se transformou, nos anos 1920, num
importante pólo de atração de imigrantes depois que os EUA e a
Argentina estabeleceram sistemas de cotas por nacionalidade,
dificultando a entrada de refugiados judeus. Na década de 1950, um
outro grupo desembarcou por aqui, fugido do Egito, quando o então
presidente Nasser lançou uma campanha nacionalista de cunho xenófobo,
retirando a cidadania egípcia de sua população judaica.
Levando
em consideração os Censos do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) dos anos de 1940, 1950, 1960, 1980, 1991 e 2000,
observamos que a população judaica brasileira aumentou de cerca de
56 mil na década de 1940 para 86 mil no início do século XXI,
mais precisamente 86825 (vinte mil a mais do que o verificado na PME
de 1998)[2]. Deste total, apenas
509 indivíduos moram em zona rural, marcando o caráter
eminentemente urbano da imigração judaica para o Brasil.
A
inserção econômica dos judeus: a cidade e o mascate
Vindos,
em sua grande maioria, dos shtetl,
das pequenas cidades da Polônia e da Rússia, ou ainda das grandes
metrópoles cosmopolitas da Europa Central, os judeus estavam
acostumados com ambientes urbanos e viviam neles desde a Idade Média.
A concentração em grandes cidades – além de ter suas origens em
épocas remotas da história européia, quando durante séculos lhes
haviam sido vedados aquisição de terras e o cultivo das mesmas –
explica-se, também, pelas maiores facilidades de absorção e
integração, tanto do ponto de vista econômico quanto social, que
são oferecidas ao imigrante no ambiente urbano. Nas circunstâncias
específicas do surto urbano-industrial brasileiro, ocorrido após a
Segunda Guerra Mundial, este se concentrou quase que exclusivamente
nas duas maiores metrópoles do país, São Paulo e Rio de Janeiro,
e em mais algumas capitais estaduais, tais como Belo Horizonte,
Porto Alegre, Recife, Salvador e Curitiba. Foram estas cidades,
lideradas pelas duas primeiras, que ofereceram maiores oportunidades
educacionais e profissionais aos imigrantes “ávidos de reconstruírem
sua vida” (Rattner,1977:22) e conquistarem posições de prestígio
na sociedade adotiva.
A
inserção econômica típica dos imigrantes recém-chegados da
Europa Oriental foi na atividade de comércio prestamista a domicílio.
Essa ocupação era exercida tanto nas zonas de expansão da
atividade agrícola, onde o comércio tradicional não estava
estabelecido, quanto nas zonas urbanas recentes, ainda pouco
servidas, seguindo o exemplo imediatamente anterior e ocupando o vácuo
deixado pela imigração síria e libanesa que já se instalava em
pontos fixos de comércio e indústria ligeira (Grun,1999). Embora
alguns judeus tenham mascateado em meados do século XIX, a prática
começou em larga escala com os imigrantes sírio-libaneses que
descobriram que a abolição da escravatura havia criado uma expansão
dos mercados sem um crescimento paralelo do sistema de distribuição
de bens.
A
expansão industrial criou na nova classe média, relativamente
grande, o desejo de bens não disponíveis por conta do deficiente
sistema de distribuição (Lesser,1992). Sírios e libaneses
carregavam suas mercadorias em mulas através do interior de São
Paulo e do Paraná, enquanto os judeus fizeram o mesmo embora
estivessem concentrados em centros urbanos. A fase mais intensa de
imigração judaica, não só em São Paulo, mas no Brasil de um
modo geral, coincidiu com transformações profundas na estrutura
social e econômica do país que, através de um processo de
industrialização passou, nos últimos decênios do século XIX, de
uma sociedade rural-tradicionalista para uma urbano-industrial
(Rattner,1977). Este processo foi acompanhado de vários movimentos
migratórios internos que aceleraram o crescimento das cidades, lócus
judaico por excelência. Os imigrantes acabaram preenchendo os espaços
vazios na estrutura ocupacional brasileira tradicional.
As
atividades de mascateação tinham suas vantagens. Em primeiro
lugar, dispensavam qualquer habilidade específica ou soma
significativa de recursos. Começava-se carregando caixas e malas
dos mascates já treinados e mal se aprendiam as palavras e frases
suficientes para efetuar a venda. Como cerca de 35% de todos
os judeus que chegavam da Europa Oriental eram “sem profissão”
e sem qualquer habilidade comercial, tinham pouca escolha a não ser
tornarem-se mascates. À medida que o Brasil se tornava mais
urbanizado, o comércio também crescia, por isso, as oportunidades
de ascensão econômica permaneceram relativamente abertas.
O
termo utilizado pelos imigrantes judeus para a ocupação de mascate
era clienteltchik, palavra iídiche derivada de “cliente” para
designar o judeu que ganha a vida vendendo mercadorias à prestação,
de porta em porta, para diversos “clientes”. Geralmente, era
chamado pela vizinhança de “gringo da prestação” e,
sobretudo, de “judeu da prestação”. Lewin (1997) distingue o
mascate do clienteltchik
por dois fatores: a área de trabalho e a modalidade de pagamento. O
primeiro trabalha preferencialmente fora dos limites da cidade, ao
passo que o segundo trabalha nos limites da cidade, incluindo os subúrbios.
Quanto à modalidade de pagamento, o mascate vende,
predominantemente, à vista, enquanto o clienteltchik
o faz à prestação, derivando daí o tipo de mercadoria que
cada qual negocia. O mascate carrega uma mercadoria de rápido
retorno, mais barata porque à vista, enquanto o prestamista, por
conta do retorno a médio ou longo prazo de sua mercadoria, pratica
a “sucessividade da dívida do freguês” (Lewin.1997:83). Ou
seja, à medida que o freguês apresenta no seu cartão uma diminuição
substancial de sua dívida, o clientelchik
aplica-lhe nova venda mantendo constante a dívida através da
sucessividade de compras pelo freguês. Sírio-libaneses e judeus
parecem ter sido, então, antes clientelchiks
que mascates: eram os “turcos” e “russos” da prestação[3].
Muitos
imigrantes judeus tornaram-se donos de pequenas oficinas,
fabricantes de roupas, móveis, malhas e sapatos. Em meados dos anos
1930 observa-se no bairro paulista do Bom Retiro uma concentração
de firmas de vestuário, sobretudo fabricando e comercializando
roupas prontas: casacos, coletes, vestidos, camisas, meias, ternos,
chapéus, gravatas, pijamas etc. (Truzzi,2001). Por volta de meados
da década de 1940, por exemplo, os judeus quase que monopolizavam o
comércio.
Ao
ressaltar o esforço que a profissão de prestamista exigia, o
imigrante judeu, junto com outros grupos étnicos que aqui
desembarcaram (como os próprios sírio-libaneses e os alemães no
sul do Brasil e os italianos em São Paulo), se auto-atribuíam um
traço que os diferenciava da população autóctone: o valor dado
ao trabalho. A maioria dos brasileiros não passava de gente
acomodada, quase sempre em busca de um “encosto”, “um cargo público
se possível, valendo-se de conexões de parentes e amigos”
(Fausto,1997). A cidadania passa a ser definida em função do ethos
do trabalho presente entre os imigrantes. A existência de enclaves
étnicos, formados pelos imigrantes, prova que o seu papel na
sociedade brasileira não excluía o exercício da identidade étnica.
Etnicidade e cidadania formavam uma díade, conjugadas numa dupla
representação da identidade.
O
intelecto enquanto trunfo social: o sonho de ser “doutor”
O
alegado pendor dos judeus para a atividade intelectual foi objeto de
reflexão para diversos pensadores. Werner Sombart, em The
Jews and modern capitalism (1982), não descarta a hipótese da
capacidade intelectual do povo judeu vir de predisposições inatas,
raciais, concorrendo para o desenvolvimento da economia capitalista
moderna (tese que contradiz a teoria weberiana sobre a relação
entre a ética protestante e o surgimento do capitalismo moderno).
Tal desdobramento está longe de ser positivo. Ao “racialismo”
de Sombart contrapõe-se o “universalismo” de Sartre,
influenciado pelos ideais iluministas de sua terra natal. A tendência
ao racionalismo seria a paixão pelo Universal, um combate a concepções
particularistas que os transformam em seres à parte.
O
“amor bizantino aos livros” (Buarque de Holanda,1989) da
intelectualidade brasileira teria origem em tradições sefaraditas
(judeus oriundos da Península Ibérica e norte da África). Segundo
Gilberto Freyre, é possível atribuir “à influência israelita
muito do mercantilismo no caráter e nas tendências do português;
mas também é justo que lhes atribuamos o excesso oposto: o
bacharelismo. O legalismo. O misticismo jurídico. O próprio anel
no dedo, com rubi ou esmeralda, do bacharel ou do doutor brasileiro,
parece-nos reminiscência oriental, de sabor israelita”
(Freyre,1936:164). A fuga para a carreira intelectual seria uma
tentativa de fugir ao estigma de povo corrompido pela vida urbana,
daí que os cristãos-novos “vindos da usura, do comércio de
escravos e da agiotagem encontrassem nos títulos universitários de
bacharel, de mestre e de doutor a nota de prestígio social que
correspondesse às suas tendências e ideais sefardínicos”
(Freyre,op.cit:165).
A
visão do povo judeu como um povo de sábios e intelectuais era, e
continua sendo, de extrema funcionalidade se pensamos na necessidade
de lidar com o problema do anti-semitismo, ainda que a
auto-identificação não tivesse, como no caso dos imigrantes,
correspondência com as “condições de vida objetiva” da época.
Identificar-se como judeu passa a ser socialmente valorizado,
constituindo-se num referencial simbólico importante nas estratégias
de reprodução e ascensão social do grupo.
O
ethos intelectual pode ser considerado uma “tradição
inventada”. No caso da imigração judaica, o mito de origem
intelectual foi transmitido entre as gerações através de
investimentos afetivos constituintes da identidade, transformadas em
“propriedades sociais relevantes, capazes de explicar e predizer
comportamentos, entre os quais, a escolha do lócus de inserção econômica” (Grun,1997:134). Aceitando que
essa tradição é um efeito de práticas religiosas passadas
, ainda que seja difícil precisar o período de tempo em que
foi construída, percebemos um processo de secularização destas
mesmas práticas a partir de convenções e rotinas, como a valorização
da educação escolar e a formação universitária per
se (Sorj, 1997). É bem provável que grupos significativos de
intelectuais leigos judeus não saibam, ou mesmo nunca se
interessaram em saber, o porquê da valorização da educação por
parte de sua família ou da comunidade judaica como um todo, não
identificando neste ethos
uma característica particular do grupo.
A
ênfase dos judeus na educação acabou deixando muitos avós e pais
sem herdeiros para suas lojas. Os imigrantes projetaram nos filhos
(e estes, nos netos) aquilo que não conseguiram ser e fazer, ou
seja, ser um “doutor” no país dos bacharéis. A escolha pela
Medicina, Direito, Engenharia e Economia por parte dos filhos de
imigrantes e seus netos se deve, entre outros motivos, ao fato de
serem “profissões históricas” (Hughes,1971), ou seja, têm uma
identidade definida e um espaço reconhecido na sociedade. Eram as
de maior prestígio na sociedade urbano-industrial no período em
que prestaram o vestibular. Já nos anos 1940 o número de judeus
que entravam nas faculdades mais concorridas era significativo e
merecia notícias em periódicos comunitários.
A
mudança para a zona sul da cidade do Rio de Janeiro, para bairros
como o Catete, Flamengo e Copacabana refletia a melhoria nas condições
de vida dos imigrantes e seus descendentes. O padrão habitacional,
a localização e o valor da moradia, se configuram como índices
seguros do status social
de um grupo[4].
A vida social numa grande metrópole reflete, através do padrão
habitacional de sua população, a estrutura e os valores da
sociedade (Rattner,1977), havendo
uma identificação entre o local de residência e prestígio social
de tal forma acentuada que a simples mudança de bairro pode ser
interpretada como ascensão social.
Considerações
finais
O
padrão residencial e o diploma universitário refletiram, ao longo
das décadas, a incorporação dos imigrantes judeus e seus
descendentes, filhos e netos, às camadas médias da sociedade
brasileira e, parte deles, ao que poderíamos classificar de
“elite”. As sucessivas crises econômicas que o Brasil viveu e
vive são responsáveis pela perda de poder aquisitivo do grupo,
acompanhando as tendências mais gerais da sociedade brasileira, mas
é importante notar que, segundo os dados do Censo do IBGE relativos
ao ano de 2000, que considera o judaísmo uma religião, os judeus
apresentam os melhores resultados tanto no rendimento quanto na
escolaridade: 35,4% ganhavam mais de 20 salários mínimos e apenas
1,8% recebia até 1 salário mínimo; 99,6% eram alfabetizados e
49,7% tinham 15 anos ou mais de estudo.
Finalmente,
chamo a atenção para a dimensão política do processo de construção
da “judeidade” brasileira na medida em que a afirmação de uma
identidade socialmente valorizada, por parte dos imigrantes e seus
descendentes, é uma luta pelo poder de definir comportamentos e os
ganhos materiais e simbólicos daí decorrentes. Normas culturais,
valores, símbolos e mitos, como o ethos intelectual, são utilizados na solução de problemas
organizacionais, facilitando a luta por uma posição privilegiada
na estrutura social. O grupo passa a ser definido em termos de
interesse, enquanto um
“grupo de interesse” (Glazer & Moynihan,1975;Abner-Cohen,1969;1974).
No entanto, o caráter instrumental e pragmático desta abordagem não
dá conta da complexidade e heterogeneidade interna às comunidades
judaicas espalhadas pelo país. Na verdade, devemos interpretá-las
enquanto um fim em si mesmas. Numa sociedade complexa como a
brasileira, marcada pela heterogeneidade cultural, a identidade
judaica configura-se, não como sobrevivência do passado, segundo
os advogados do “cadinho de raças”, mas um dentre inúmeros
outros domínios simbólicos por onde o indivíduo circula. Ser
judeu, ou deixar de sê-lo, passa a ser uma escolha e não apenas
uma questão de sobrevivência.
por
MARCELO
GRUMAN
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Referências
bibliográficas
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