por ALBERT BRANCHADELL

Albert Branchadell (Barcelona, 1964), é doutor el Filologia Catalã pela Universidad Autônoma de Barcelona, e em Ciências Políticas pela Universidade Pompeu Fabra. Atualmente trabalha na Faculdade de Tradução e Interpretação da Universidade Autônoma de Barcelona. Seus últimos livros são Less Translated Languages -- Línguas Menos Traduzidas (John Benjamins, 2005), co-editado com Margaret West, e L’aventura del català A aventura do catalão (La Esfera de los Libros, 2006), uma história da língua catalã que põe ênfase no passado multi-lingüístico da Catalúnia. É fundador e presidente da Organização para o Multilingüismo e membro da Associação de Sociolingüistas de Língua Catalã. Além de artigos sobre sintaxe, sociolingüística e política lingüística para publicações acadêmicas, Albert Branchadell escreve artigos de opinião e resenhas jronalísticas na imprensa espanhola e catalã (El País, La Vanguardia, e El Periódico). Suas ligações com a América do Sul são diversas: é membro do comitê científico da revista Estudios Catalanes (Universidad Nacional del Litoral, Santa Fe, Argentina), e a organização que preside participou da campanha a favor da oficialização do guarani no Mercosul.

 

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O catalão ambivalente

[Tradução: Eva Paulino Bueno]

 

CatalunhaA língua catalã se estende por sete territórios divididos entre três estados europeus. A maior parte de seus falantes se encontra nas comunidades autônomas de Catalunha, Ilhas Baleares e Comunidade Valenciana, onde a língua recebe a denominação legal e popular de “valenciano,” e dentro da Espanha também é falada na chamada “Franja” de Aragão, que corresponde ao território da comunidade autônoma aragonesa adjacente à Catalunha, povoado desde a Idade Média por falantes de catalão. Fora da Espanha, o catalão também é falado na região francesa dos Pirineus Orientais, cuja capital é Perpinhan, um território que até 1659 fazia parte de Catalunha (de onde recebe a denominação popular de Catalunha Norte); em Andorra, um micro estado livre situado entre a França e a Espanha, e finalmente na cidade de Alghero, na ilha italiana de Cerdenha, que foi repovoado com falantes de catalão no século XIV, no contexto das lutas da monarquia catalã-aragonesa para consolidar seu domínio sobre a ilha. Uma característica comum a todos estes territórios é que o catalão compartilha território com uma língua mais poderosa, tanto em termos demográficos como políticos (o espanhol nas quatro comunidades autônomas mencionadas, o francês na região dos Pirineus Orientais, e o italiano em Alguero); isto também vale para Andorra, onde apesar de o catalão ser a única língua oficial, o espanhol é língua materna de uma parte muito importante da população, e como conseqüência, o espanhol tem uma forte presença na sociedade.

Qualquer tentativa de caracterizar o catalão deve ser sensível às diferentes realidades territoriais em que se encontra. Neste artigo vamos abordar duas questões: por um lado, baseando-nos em dados de pesquisas recentes, queremos apresentar a complexa realidade demo-lingüística do catalão, uma língua que exibe uma forte vitalidade na Catalunha ao mesmo tempo em que sofre um avançado processo de substituição em outros territórios do âmbito lingüístico; por outro, queremos apontar brevemente a grande dissonância entre a situação real do catalão na Catalunha e um discurso inequivocamente catastrofista que prevê o imediato desaparecimento do catalão às mãos do espanhol.

As situações do catalão

O catalão na Catalunha é um caso atípico entre as línguas regionais e minoritárias da Europa pela vitalidade que mantém e manteve inclusive em períodos históricos muito adversos como a ditadura do General Franco (1939-1975), durante a qual sofreu o efeito combinado da proibição pública (foi excluído dos meios de comunicação, da Administração e do sistema educativo, ficando relegado ao âmbito privado e, em todo caso, à esfera da criação literária) por um lado, e por outro lado, a chegada à Catalunha de um elevado número de falantes de castelhano procedentes de outros lugares da Espanha. Como diz expressivamente Bratt Paulston (1992: 56), “A Catalunha representa um caso de manutenção da língua além do que se poderia esperar.”

Nesta primeira secção do artigo queremos apresentar dados empíricos dos últimos 15 anos que ilustram esta vitalidade do catalão na Catalunha, que contrasta com situações menos favoráveis nas demais zonas do âmbito lingüístico.

Os dados que apresentaremos em seguida são a confirmação empírica das intuições dos “experts” internacionais que analisam o caso do catalão. Em 1991 o famoso sociolingüista Joshua Fishman publicou Reversing Language Shift, um estudo pormenorizado sobre a substituição lingüística e as possibilidades de retificá-la. Depois de apresentar nove casos considerados “problemáticos”, desde o gaélico irlandês até as línguas aborígines da Austrália, Fishman dedicou um capítulo a três “success stories” do empenho de retificar os processos de substituição, no qual, junto ao hebreu moderno (um caso certamente singular) e o francês em Quebec, se encontrava em catalão “na Espanha,” e mais concretamente na “Autonomous Catalan Community”. De acordo com Fishman, o catalão

Não está mais diminuindo em número de falantes ou em usos, e, de fato, há bons sinais de que está progredindo nas duas áreas.[1]

Este é o mesmo tipo de conclusão alcançado por Cchristina Bratt Paulston em sua consideração sobre o caso do catalão:

Claramente, o catalão está muito bem. Embora haja problemas [...] não há nenhuma indicação que contradiga a manutenção do catalão.[2]

Nossa revisão de dados pode começar com o estudo 2052 do Centro de Investigações Sociológicas, um organismo dependente do Governo espanhol que periodicamente se interessa pelo conhecimento e o uso do catalão/valenciano, galego e euskera nas chamadas “comunidades bilíngües da Espanha”. Os dados deste estudo (do ano 1993) permitiram que seu coordenador, Miguel Siguán, afirmasse que “há um pequeno, mas significativo deslizamento em direção ao catalão como língua principal”,  devido ao fato de que “um certo número dos que na atualidade se consideram falantes de catalão foram criados em famílias que tinham o castelhano como língua habitual”. Esta é a conclusão que extraiu Siguán dos dados que aparecem na tabela seguinte:[3]

 

 

Língua falada na infância

em casa

Língua principal na atualidade

Castelhano

38

30

Catalão

54

67

As duas

6

1

Outra língua

1

--

NS/NC

1

2

Fonte: Siguán (1994: 43, quadro 20a)

 

Cruzando a variável da língua principal na atualidade com a língua falada em casa durante a infância é possível observar o detalhe das mudanças produzidas: 5% dos entrevistados capazes de falar catalão que se consideram falantes do castelhano procediam de lares onde se falava habitualmente o catalão; por outro lado, a porcentagem dos entrevistados que se consideravam falantes de catalão e procediam de lares onde se falava habitualmente o castelhano chegava aos 13%.

Esta informação foi incorporada como prova da vitalidade do catalão no estudo Euromosaic sobre a produção e a reprodução dos grupos lingüísticos minoritários da União Européia: “Por volta de 10% das pessoas que atualmente sabem falar o catalão tiveram o espanhol como língua habitual em sua infância, mas adotaram o catalão como língua habitual no presente”. É oportuno indicar que neste estudo Euromosaic o catalão em Catalunha ficou a um ponto da máxima pontuação possível, ficando só atrás do alemão na Bélgica e do luxemburguês, e ligeiramente adiante do alemão na Itália (no Tirol do Sul). Neste estudo, a “reprodução” da língua se refere à sua transmissão intergeneracional, e à “produção” de sua aprendizagem por parte de pessoas que não a falavam anteriormente. O catalão em Catalunha obteve a pontuação máxima em seis de sete dimensões consideradas relevantes (família, cultura, prestígio, institucionalização, legitimação e ensino).

É necessário recordar que o ”pequeno deslizamento” identificado por Siguán afetava somente o catalão na Catalunha. Na mesma análise do estudo 2052 do CIS, Siguán assinalava que “na Galícia, em Beleares, Navarra e, acima de tudo, em Valência parece que está em andamento um retrocesso da língua da Comunidade”. Em todo caso, este “pequeno deslizamento,” do ano de 1993 pode ser confirmado cinco anos depois. Os dados do seguinte estudo, realizado em 1998, permitiram a Siguán afirmar novamente que “na Catalunha se observa uma pequena mudança em favor do catalão”.[4]

Tabela 2: Língua principal do lar na infância e língua principal dos indivíduos atualmente

 

Língua falada na infância em casa

Língua principal falada atualmente

Castelhano

54

43

Catalão

38

41

As duas

7

16

Outra língua

1

 

Fonte: Siguán (1999; 34; quadro 4.3.a)

 

A partir destes dados Siguán chegou à conclusão que “a transmissão generacional parece assegurar, pelo menos, a continuidade da proporção dos que têm o catalão como língua principal”, e manteve que na Catalunha se pode prognosticar um “certo crescimento” desta proporção nas próximas gerações.[5] Uma vez mais é importante recordar que estas conclusões são aplicáveis somente à Catalunha. De acordo com Siguán, na Galícia e nas Ilhas Baleares se observava “uma pequena mudança contra o galego e o catalão” (itálicos nossos), enquanto que nas restantes comunidades as diferenças das porcentagens não eram significativas.

O “pequeno deslizamento” a favor do catalão detectado por Siguán para o conjunto da Catalunha se dá também na área metropolitana de Barcelona, que é o território de Catalunha onde o catalão apresenta seus piores registros. Segundo os dados da Pesquisa da Região de Barcelona do ano 2000, na área metropolitana de Barcelona somente 29,8% dos entrevistados responderam que sua língua era o catalão, enquanto que 56,1% responderam que sua língua era o castelhano, e 13,5% se identificaram como bilíngües. Na chamada “primeira coroa” metropolitana, que compreende os municípios que rodeiam a cidade de Barcelona, somente 19,6% dos entrevistados responderam que sua língua era o catalão. Entretanto, inclusive nestas zonas a comparação entre a língua falada com a mãe/pai e a língua falada com os filhos resulta favorável ao catalão. Na comarca de Baix Llobregat (Baixo Llobregat), por exemplo, 23% dos entrevistados disseram que falavam em catalão com sua mãe/pai (e 74,5% em castelhano); na mesma comarca, 29,5% dos entrevistados disseram que falavam em catalão com seus filhos (64,3% em castelhano). [6]

As descobertas de Siguán nas pesquisas de 1993 e 1998, confirmadas no ano 2000 para o caso da área metropolitana de Barcelona, têm sua continuidade na chamada Encuesta de Usos Lingüísticos — Pesquisa de Usos Lingüísticos — um estudo feito entre os anos 2003 e 2004 em todos os territórios do âmbito lingüístico exceto a Comunidade Valenciana.[7] Logo de saída, a pesquisa referente à Catalunha oferece um resultado inequívoco: a porcentagem de pessoas entrevistadas que consideram que o catalão é sua própria língua (48,8%) ou sua língua habitual (50,1%) é claramente superior à porcentagem das que têm o catalão como primeira língua (40,4%). Por outro lado, a comparação entre a língua falada com a mãe/pai e a língua falada com os filhos chega a resultados muito parecidos aos apresentados anteriormente: se 41% das pessoas entrevistadas afirmam falar “somente catalão” com seus pais, a porcentagem das que afirmam falar “somente catalão” com os filhos chega a 49%. Este é o panorama que sem dúvida tinha Stephen A. Wurm, o editor do Atlas of the World’s Languages in Danger of Disappearance — Atlas das línguas mundiais em perigo de desaparecimento — da UNESCO (2001), quando escreveu que “O romance catalão na região leste da Espanha (e entrando no sul da França) considerado por alguns como potencialmente em perigo, agora está cada vez mais forte”. Com esta sentença, Wurm distinguia claramente o catalão do galego, do euskera, do asturiano e do aragonês, línguas da Espanha que estão sem dúvida “em perigo”.

A diferença em favor do catalão na comparação entre a primeira língua e a língua de identificação/língua habitual também se registra de maneira clara na Pesquisa referida a Andorra, um território obviamente não incluído nos estudos do Centro de Investigaciones Sociológicas espanhol, enquanto que nas Ilhas Baleares esta diferença é mais tênue. O caso da Franja de Aragão é um pouco estranho, na medida em que a porcentagem de pessoas que consideram o catalão como sua língua é muito inferior aos que o consideram como sua língua habitual (teríamos, portanto, falantes habituais de uma língua que não se identificam com ela). Nos outros territórios cobertos pela Pesquisa (Catalunha Norte e Alghero), a diferença que se registra é claramente desfavorável ao catalão. Neste panorama adverso se destaca o caso da Catalunha Norte, onde a porcentagem de pessoas entrevistadas que declaram ter o catalão como primeira língua já é em princípio extremamente baixo.

Tabela 3. Catalão como primeira língua, língua de identificação, e língua habitual

 

Primeira língua

Língua de identificação

Língua habitual

Andorra

31,4

42,3

43,8

Ilhas Baleares

42,9

45,6

45,6

Franja de Aragão

70,5

66,6

73,6

Catalunha Norte

6,2

n.d.

3,5

Alghero

22,4

14,6

13,9

Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da Encuesta de Usos Lingüísticos

 

No que diz respeito à comparação entre a língua falada com a mãe/pai e a língua falada com os filhos, Andorra segue o mesmo padrão que a Catalunha, e também parecem segui-lo as Ilhas Baleares, diferentemente do que sucedia nos estudos do Centro de Investigaciones Sociológicas revisados antes. A situação na Franja de Aragão é mais indefinida, enquanto que a Catalunha Norte e em Alguero mostram claramente o sintoma clássico da substituição lingüística.O caso extremo se encontra na Catalunha Norte: em um universo de 228,385 pessoas que têm descendência catalã, somente 819 falariam em catalão com seu filho mais velho.

Tabela 4: Catalão como língua falada com mãe, o pai, e o filho mais velho

 

Mãe

Pai

Filho

Andorra

31,5

31,4

47,1

Ilhas Baleares

42,9

43,1

48,8

Franja de Aragão

70,9

73,9

70,1

Catalunha Norte

5,9

4,3

0,4

Alghero

22,6

22,7

3,9

Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da Encuesta de Usos Lingüísticos

 

Em função dos dados aqui apresentados é possível classificar os territórios do âmbito lingüístico catalão em três grupos: em primeiro lugar, Catalunha e Andorra são os territórios em que se apresenta a melhor situação para a manutenção do catalão; em segundo lugar, as Baleares e a Franja de Aragão apresentam situações mais ambíguas, embora se deva destacar que é precisamente a Franja de Aragão o território em que o catalão parte das porcentagens mais altas tanto no uso como na adscripção lingüística; em terceiro lugar, Catalunha Norte e Alghero são os territórios em que aparecem de forma inequívoca os sintomas característicos de um processo de substituição lingüística em estado avançado. O caso da Comunidade Valenciana, que não foi coberto pela Estatística de Usos Lingüísticos, deveria ser situado no segundo grupo. De acordo com uma pesquisa paralela,[8] no contexto das relações familiares a proporção da população que fala ou falava exclusivamente ou de forma prioritária em catalão com sua mãe/pai (40%) é praticamente a mesma que fala o catalão com seus filhos (39%).

Não é da alçada deste artigo indagar as causas destas importantes diferences inter-territoriais que caracterizam a situação atual do catalão. Para Bratt Paulston a chave da surpreendente manutenção do catalão em Catalunha é o nacionalismo catalão. Esta autora tem uma teoria geral que pretende explicar a manutenção e a substituição lingüística nas minorias lingüísticas que se encontram incluídas em um estado-nação, como é o caso do catalão. De acordo com ela, “subordinate groups for whom the basic focus of social mobilization is ethnicity are likely to shift to the language of the dominant group [...], while groups whose social focus is a sense of nationalism are more likely to maintain the ethnic minority language” — “ os grupos subordinados para os quais o foco básico da mobilização social é a etnicidade provavelmente adotarão a linguagem do grupo dominante […] enquanto que grupos cujo foco social é um sentido de nacionalismo mais provavelmente manterão a língua étnica minoritária”. Aplicando-se este esquema ao par catalão-occitão, sua tese é que “a Catalunha representa um caso de nacionalismo e manutenção da língua enquanto que a Occitania é um caso de etnicidade e conseqüente mudança lingüística para o francês com a iminente morte da língua minoritária altamente provável”. Por acaso esta mesma teoria, com os matizes oportunos, serviria para o par catalão em Catalunha nos demais territórios. Em uma linha não necessariamente compatível com esta, a antropóloga norte americana Kathryn Woolard, outra das especialistas internacionais que estudou o caso do catalão, situa a clave no prestígio relativo da língua, que por sua vinculação com o poder econômico e político local (diferentemente do que acontece com tantas outras línguas minoritárias) é vista, ou pelo menos era vista assim quando Woolard realizou sua investigação, como um fator importante para a ascenção social.[9]

Os discursos sobre o catalão

Os dados relativamente positivos relacionados na secção anterior coexistem com um discurso sobre o futuro do catalão que é francamente pessimista. O impressionante deste discurso é que não se refere à situação do catalão nos territórios nos quais claramente a língua se encontra em um estado avançado de substituição lingüística (leia-se Catalunha Norte ou Alghero), mas sim a situação do catalão na Catalunha, quer dizer, o território (juntamente com Andorra) no qual os dados relativos à transmissão intergeneracional são mais favoráveis ao catalão.

O debate sobre “o futuro do catalão” é um debate que se repete, atiçado pelos que consideram que o catalão tem, se não os dias, pelo menos os anos contados. Neste debate, a primeira intervenção significativa foi o artigo “Quin futur hi ha per a la llengua catalana?” (“Que futuro há para a língua catalã?”), dos filólogos August Rafanell e Albert Rossich, publicado em 1990. Sem dar dados empíricos que apoiassem sua tese, estes dois professores traçavam um panorama “desolador” sobre a situação do catalão na Catalunha, caracterizado por seu retrocesso funcional diante da entrada do espanhol, e por sua degradação formal devido ao fenômeno da interferência lingüística. E estavam tão convencidos de seu diagnóstico que foram os primeiros a por uma data para a morte do catalão: “El procés d’extinció del català pot quedar sentenciat d’aquí a uns cinquanta anys, quan l’última generació que haurà tingut el catalá com llengua materna, clarament minoritari al conjunt del país, l’abandoni per adreçar-se als seus fills” (“O processo de extinção do catalão pode ser marcado para dentro de uns cinqüenta anos, quando a última geração que terá o catalão como língua materna, claramente minoritário dentro do conjunto do país, o abandone para dirigir-se a seus filhos”). Este artigo foi depois incluído no livro El futur de la llengua catalana (O futuro da língua catalã), no qual Rafanell e Rossich se uniram a Modest Prats para insistir na tese que a maior ameaça à vitalidade do catalão é a presença do espanhol em Catalunha e, acima de tudo, para reclamar um projeto político capaz de assegurar a “normalização” do catalão no conjunto de seu âmbito lingüístico.

A mudança de século viu ressurgir o debate, desta vez liderado por Joan Solà, outro eminente filólogo, baseado na publicação de sua monumental Gramàtica del català contemporani (Gramática do catalão contemporâneo) uma obra em três grossos volumes comparável às que foram publicadas nos últimos anos para o italiano (Grande gramática italiana di consultazione) e para o espanhol (Gramática descriptiva de la lengua española), mas não, certamente, para o português. No dia 26 de setembro de 2003, em uma entrevista na televisão autônoma de catalunha, Solà manteve que a língua vive uma situação “muito pior” do que tinha durante a ditadura franquista (tese que já tinha sido enunciada pelos autores de El futur de la llengua catalana) e anunciou sua morte imediata. Em um artigo publicado no diário Avui do dia 14 de novembro de 2003, Solà declarou que nos encontramos nos “momentos finais” do uso do catalão. Pouco depois, na apresentação de seu livro Ensenyar la llengua (Ensinar a língua), no dia 25 de março de 2004, afirmou que o catalão se encontra “em situação terminal”. E em uma mesa redonda sobre o futuro da língua celebrada no fim daquele mesmo ano ele manteve que a situação é de “extrema gravidade”, menosprezando completamente as pesquisas e estatísticas como as que apresentamos na secção anterior. Entre as soluções que propunha Solà para retificar uma situação apesar de tudo ainda retificável se encontrava a de não abdicar da língua em público: “usar el català, en principi, sempre, a tot arreu i amb tothom” (“usar o catalão, em princípio, sempre, em todas partes e com todo mundo”). A referência a este postulado é oportuna, porque a mudança de língua (do catalão ao espanhol) no uso lingüístico interpersonal constitui a principal ameaça para a sobrevivência da língua aos olhos do Institut d’Estudis Catalans (Instituto de Estudos Catalães), até agora a instituição acadêmica mais significativa que se alinhou publicamente com as teses catastrofista. O Institut d’Estudis Catalans, que seria o equivalente catalão à Academia Brasileira de Ciências, levou a público em 21 de outubro de 2004 uma declaração titulada “L’ús social de la llengua catalana” (“O uso social da língua catalã”). Segundo esta declaração, a mudança da língua “hegemônica” (leia-se “espanhol”) “constitueix un perill de primera magnitud que amenaça molt seriosamente la mateixa supervivencia del català” (“constitui um perigo de primeira magnitude que ameaça muito seriamente a própria sobrevivência do catalão”, e os que a assinam não duvidam que esta mudança gera um círculo vicioso: menos usoà menos aprendizagemà menos uso) “poderia constituir, si no s’hi posa remei a temps, una sentència de mort per al català” (“poderia constituir, se não se remedia a tempo, uma sentença de morte para o catalão”).

O debate sobre o futuro do catalão, longe de ter amainado nestes últimos tempos, se  aquece de novo. Enquanto escrevíamos este artigo apareceram duas declarações de opiniões contrárias. No livro, de título bem expressivo, El fantasma del futur del català, o socio lingüista Miquel Pueyo, atual secretário de Política Lingüística do governo autônomo de catalunha, advoga pelo abandono de debates “estéreis” sobre o futuro do catalão e, em seu lugar, desenvolver um novo discurso sobre o papel do catalão na sociedade (um discurso com futuro), que supere os fundamentos identitários tradicionais e se situe completamente no âmbito da coesão social e da sustentabilidade lingüística. Do lado oposto, a jornalista Patrícia Gabancho (una falante de catalão nascida em Buenos Aires, por certo), publica El preu de ser catalans (O preço de ser catalães), com um subtítulo não menos expressivo: “una cultura mil·lenària en vies d’extinció” (“Uma cultura milenária em vias de extinção”) onde ela retoma a tese de Rafanell e Rosich dos anos 90: “si res no canbia, els meu néts ja no parlaran en català amb els seus fills” (“se nada muda, meus netos já não falarão catalão com seus filhos”).

Não corresponde a este artigo indagar as causas desta dissonância. E nem corresponde a este artigo alinhar-se com um discurso ou com outro. Os dados empíricos mostram, certamente, que a situação do catalão na Catalunha é melhor que a situação do catalão em outros territórios de seu âmbito lingüístico, e em qualquer caso muito melhor que a situação de outras línguas na Espanha, como a aragonês, o asturiano, o galego e o euskera. Para não falar das línguas indígenas da América do Sul, das quais segundo Wurm sobrevivem 375, “many of which are threatened, and a good proportion of them are moribumd” – “muitas das quais estão ameaçadas, e uma boa proporção delas está moribunda”. Mas obviamente a situação do catalão está muito distante também da situação das línguas européias que se desenvolveram amparadas por um estado-nação. No discurso catastrofista, mais que uma análise empírica séria ou um prognóstico razoável do que acontecer’a no futuro, o que existe é a expressão de um certo Zeitgeist, por assim dizer-se, que não mede a distância entre o catalão e o arikapu (ou arikapú), uma língua do Brasil que Wurm considera “moribunda”, mas entre o catalão e o espanhol, o francês, o italiano e o português, que são tomadas como referência de uma “normalidade” talvez inalcançável.

 

[1] Fishman, Joshua (1991). Reversing Language Shift. Theoretical and Empirical Foundations of Assistance to Threatened Languages. Clevedon: Multilingual Matters, p. 232.

[2] Bratt Paulston, Christina (1992), Linguistic Minorities and Language Policies.” Em: Fase, Willem et al. (editors). Maintenance and Loss of Minority Languages. Amsterdam/Philadeplphia: John Benjamins, p. 58.

[3] Siguán, Miguel (1994). Conocimiento y uso de las lenguas en España (investigación sobre el conocimiento y uso de las lenguas cooficiales en las Comunidades Autónomas bilingües). Madrid: Centro de Investigaciones Sociológicas, p. 43-45.

[4] Siguán, Miguel (1999). Conocimiento y uso de las lenguas. Investigación sobre el conocimiento y uso de las lenguas cooficiales en las comunidades autónomas bilingües. Madrid: Centro de Investigaciones Sociológicas, p. 36. Os principias resultados deste estudo pode ser consultado na rede na página do Centro de Investigações Sociológicas (www.cis.es) Note-se que desta vez os dados se baseiam no conjunto de pessoas entrevistadas e não somente nas que sabem falar catalão.

[5] Siguán (1999: 82 e 84).

[6] Os resultados deste estudo podem ser consultados na página do Institut dÉstudis Regionals I Metropolitans de Barcelona (Instituto de Estudos Regionais e Metropolitanos de Barcelona) (www.iermb.uab.es).

[7] Os resultados deste estudo podem ser consultados na página da Secretaría de Política Lingüística do governo autônimo de catalunha (http://www6.gencat.net/llengcat/socio/coneix.htm).

[8] Enquesta sobre la situació social del valencià (Pesquisa sobre a situação social do valenciano), realizada em 2004 pela Acadèmia Valenciana de la Llengua (Academia Valenciana da Língua).

[9] Woolard, Kathryn (1989). Double Talk: Bilingualism and the Politics of  Ethnicity in Catalonia. Stanford: Stanford University Press. Uma versão deste livro, reduzida em alguns aspectos e ampliada em outros, apareceu também em catalão: Woolard, Kathryn (1992). Identitat i contacte de llengües a Barcelona. Barcelona: Edicions de la Magrana.

por ALBERT BRANCHADELL

 

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