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por
CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMASIO
Doutoranda
em Literatura na Sorbonne e em Filosofia na
Université de Marne-la-Vallée |
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Michel
Foucault e o cuidado de si
Na
primeira hora do curso do dia 20 de janeiro de 1982, Michel Foucault
evidencia a transformação pela qual o “cuidado de si” passou
desde Alcebíades, de Platão, até o início dos séculos I e II de
nossa era, caracterizada por ele como “uma verdadeira idade de
ouro na história do cuidado de si” (P. 79)
.
Segundo
o filósofo, esta transformação influenciou claramente as culturas
posteriores, sobretudo a moral sexual européia moderna, com o
regime de aphrodisia,
entendida como uma experiência greco-histórica dos prazeres, a
substância ética da moral antiga, diferente da experiência cristã
da carne e da experiência moderna da sexualidade.
Seu
objetivo era de destacar as relações subjetividade/verdade de uma
maneira mais geral, colocando-as na dimensão histórica e,
sobretudo, mostrar que, com a evolução, o cuidado de si tornou-se
um verdadeiro fenômeno cultural como princípio de toda conduta
racional, em toda forma de vida ativa que queria obedecer ao princípio
da racionalidade moral. Não se ignorando que ele sofreu uma série
de outras transformações no cristianismo primitivo, medieval, no
Renascimento e no século XVII.
O
autor considera que existem dois preceitos: o epimeleia heautou que
é o cuidado de si-mesmo, a preocupação consigo-mesmo, etc.; e a
prescrição délfica da gnôthi seauton – fórmula
fundadora da questão das relações entre sujeito e verdade – que
quer dizer conhece-te a ti mesmo;
que em certo número de textos platônicos se conjugam, como, por
exemplo, em Apologia a Sócrates. Em Alcebíades, no entanto,
o gnôthi seauton sempre teve uma espécie de subordinação
ao epimeleia heautou, como uma maneira de aplicação
concreta da regra geral de ocupar-se de si-mesmo.
Encontramos,
em Alcebíades, três condições que determinavam, ao mesmo tempo,
a razão de ser e a forma do cuidado de si: 1- aqueles que deveriam
se ocupar de si mesmos eram jovens destinados a exercer o poder; 2
– o objetivo era o bom exercício do poder; 3 – a forma
exclusiva onde ocupar-se de si é conhecer a si próprio.
Em
Platão, estas três condições, que Foucault chama, também, de
“determinações” ou “limitações”, desapareceram.
Primeiramente, os que deveriam ocupar-se de si não eram mais,
exclusivamente, jovens políticos, mas todos poderiam fazer isso,
sem importar-se com a idade ou o status.
Em seguida, não existia mais o único objetivo de bem governar os
outros, mas o cuidado tem o fim em si mesmo: em Alcebíades o objeto
do cuidado era o próprio cuidado, mas o fim era a cidade, mais
tarde, o “si” torna-se objeto e fim. A característica exclusiva
do cuidado de si se atenua e torna-se coextensivo à vida, em um
conjunto mais vasto, o que podemos chamar de conversão, epistrophê
– conhecer o verdadeiro, liberar-se – um movimento que pode nos
conduzir deste mundo para outro.
Foucault
separa os gêneros de expressão em quatro famílias: 1 – os atos
do conhecimento: cuidar-se de si, voltar seu olhar para si,
examinar-se a si próprio,...; 2 – a idéia de movimento: conversão
do olhar, vigilância necessária a si, “movimento global da existência
que é levada, convidada a girar, de alguma maneira, sobre ela mesma
e a se dirigir ou voltar-se para si.” (P. 82); 3 – o vocabulário
médico, jurídico e religioso: cuidar-se, sarar-se, amputar-se,
abrir seus próprios abscessos, reivindicar-se a si mesmo,
liberar-se, render-se culto, honrar-se,...; 4 – a relação de
controle: dar prazer a si mesmo, satisfazer-se, etc.
Com
Alcebíades, o momento de se ocupar de si mesmo era a idade da
passagem da adolescência à fase adulta, em que o moço deveria
passar do erótico ao político. Após Platão, o cuidado deveria
ser permanente. Mesmo antes do século I, Epicuro escreveu:
Quando
se é jovem, não se pode evitar de filosofar e, quando se é velho,
não se deve cansar de filosofar. Nunca é muito cedo ou muito tarde
para cuidar de sua alma. Aquele que diz que não é ainda, ou que não
é mais tempo de filosofar, parece àquele que diz que não é
ainda, ou não é mais tempo de atingir a felicidade. Deve-se, então,
filosofar quando se é jovem e quando se é velho, no segundo caso
(...) para rejuvenescer ao contato do bem, pelas lembranças dos
dias passados, e no primeiro caso (...) afim de ser, ainda que
jovem, tão firme quanto um velho diante do futuro. (P. 85)
Assim sendo, filosofar é cuidar de si e isto é uma
felicidade (encaixando-se na última família de expressões que
vimos acima) pois o objetivo é ser feliz na presença de si próprio.
A vida, sobretudo na velhice, torna-se mais feliz. Esta nova forma
é, para todos os jovens, uma preparação para ser velho e, para os
velhos, uma forma de revigorar-se com o bem.
Esta mudança faz do
cuidado de si um corretor, além de formador. A formação que se
seguiu mudou de forma: no lugar da formação profissional teve-se a
formação para que se suporte, adequadamente, os problemas da vida;
é um mecanismo de segurança. No final da adolescência (no caso de
Alcebíades) é necessária, preferencialmente, a formação, e na
idade adulta (em que, segundo Sêneca,
o mal está no interior do homem) é preciso a correção, a crítica.
Em seguimento, há uma
aproximação da medicina marcada, primeiramente, pelo regrupamento
conceitual entre a medicina e a filosofia, onde a paixão evolui
como uma doença até o vício; em seguida, pela prática de si
concebida como uma operação médica. Havendo três definições
para therapeuein:
Therapeuein
quer dizer, evidentemente, fazer um ato médico cuja função é
curar, cuidar, mas, therapeuein, também, é atividade do
servidor que obedece às ordens et que serve a seu mestre; enfim, therapeuein
é render culto. Ora, therapeuein heauton há de querer
dizer, ao mesmo tempo, cuidar-se, ser de si mesmo seu próprio
servidor, e render um culto a si mesmo. (P.95).
Segundo
Marco Aurélio,
citado por Foucault, este culto consiste em guardar-se puro de paixão.
A partir disso, tivemos a escola de filosofia como um dispensário
da alma que fez com que Epiteto dissesse: “Não se
deve, quando se sai da escola de filosofia, ter tido prazer, mas ter
sofrido.” (P. 96).
O
corpo, torna-se, também, objeto de preocupação; ocupar-se de sua
alma é ocupar-se de seu corpo. Tanto no “ocupar-se” como no
“preocupar-se” o fim deve ser a alma. Finalmente, tem-se o
conceito de velhice que deixa de ser somente o casal
sabedoria/fraqueza para ser definida como a recompensa de toda a
vida (diferentemente do cristianismo, onde a recompensa está além
da vida).
Pode-se
concluir que, depois de ter mostrado como o cuidado de si tornou-se
coextensivo à vida individual, ou seja, ao percurso da adolescência
até a idade adulta ou, ainda, ao laço entre a idade adulta e a
velhice, Foucault esclarece que, neste período da filosofia, ele não
tinha uma relação privilegiada com a medicina, sendo apenas um
começo onde seguir-se-ia uma intrincação psíquica e corporal que
seria, mais tarde, o centro do cuidado de si.
Com
relação à velhice, percebe-se que é necessário haver um momento
preciso para ocupar-se de si, a hora exata, a importância desse kairos
não é mais pedagógica,
que ocorre na passagem da adolescência para a vida adulta. Para a
tradição pitagórica,
esse tempo foi alargado da seguinte forma: os vinte primeiros anos
considerados como infância, dos vinte aos quarenta como adolescência,
dos quarenta aos sessenta como juventude e após os sessenta a
velhice. O kairos ocorreria, então, aos sessenta, onde já
se tem experiência; na idade da maturidade dos que têm por
objetivo a velhice, fazendo de todo o percurso da vida, uma preparação
para isso:
Por
conseqüência, se a velhice é bem isso – esse ponto desejável
-, é preciso compreender (primeira conseqüência) que a velhice não
deve ser, também, percebida como sendo uma fase na qual a vida se
encontra mediocrizada. A velhice deve ser considerada, ao contrário,
como um objetivo, e como um objetivo positivo da existência. É
preciso voltar-se para a velhice, não se deve resignar-se a ter que
afrontá-la um dia. É ela, com suas formas, que deve polarizar todo
o curso da vida. (P. 106).
Foucault
acabou, nestes cursos, por se desvencilhar do filósofo moderno não
espiritual para mostrar os traços de espiritualidade que seus
colegas da antiguidade apresentavam. Cuidar de si, de sua alma seria
a condição para o cuidado do próximo, o que se tornará, no início
da era cristã, uma obrigação de toda a existência.
por
CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMASIO
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