Quando
uma língua desaparece
No
ano passado, a imprensa americana deu a notícia de que alguns
conservadores apontaram mais uma entre as muitas razões para
não aceitar a passagem da nova lei de imigração que oferece
um plano para que os que estão ilegalmente no país possam
ter a oportunidade de se tornarem legais. Estão se referindo
ao livro Who Are We –
Quem Somos Nós, de Samuel Huntington (2004), segundo o
qual, já que a maioria dos ilegais são falantes de espanhol,
eles estão menos interessados em assimilação lingüística,
e que, portanto, esta língua representa um
“perigo” para a língua inglesa.
A
reação de outros cientistas sociais e lingüistas a esta
afirmação foi fazer pesquisas extensivas sobre a adaptação
dos imigrantes, e como esta adaptação se reflete em termos
lingüísticos. Rumbaut, Massey, e Bean, por exemplo,
conduziram uma extensiva pesquisa em Los Angeles, San Diego, e
no sul da Flórida, e chegaram à conclusão de que não só o
espanhol não representa nenhum perigo para o inglês, mas
que, na terceira geração, mesmo para os imigrantes de origem
mexicana (o maior grupo de falantes de espanhol, e o que
recebe constantes “influxos” do México), somente 5 por
cento conservam o espanhol. Para os imigrantes de outros países
latino americanos, a porcentagem é ainda menor. Mas, uma
revisão rápida da literatura a respeito do assunto mostra
que já em 2002 um grupo de pesquisadores havia estudado a
sobrevivência do espanhol nos Estados Unidos, e chegado à
mesma conclusão no trabalho “Only English by the third
generation? — Apenas inglês na terceira geração?”
O
que está acontecendo, então, com esta discussão sobre o
“cerco” ao inglês por parte dos conservadores americanos?
Que diferença faria para o país que alguém fale inglês, ou
espanhol, ou francês, ou qualquer língua, dentro do país?
O
problema, logicamente, vai para além da questão meramente
lingüística pelo simples fato de que uma questão lingüística,
por si só, envolve muitas outras, incluindo políticas, econômicas,
culturais, e mesmo psicológicas. Para uma nação, uma
comunidade, um grupo, a língua é a sua forma de se
representar junto ao mundo. Quando a língua é usada, ela
expressa toda uma maneira de ver, de sentir, de aprender.
Quando uma língua desaparece, com ela desaparece todo um
universo, porque o universo é, em parte, a maneira em que ele
é visto.
Mas
por que uma língua desaparece? Uma vez mais, a pesquisa lingüística
nos ajuda a entender os fatores que intervêm no processo.
David Beck e Yvonne Lam, da Universidade de Alberta, Canadá,
estudaram um fenômeno que acontece entre os camponeses que
vivem em duas aldeias no estado de Puebla, na localidade de
Sierra Norte, no México. Os resultados estão publicados no
artigo “Language Loss and linguistic suicide: A case study
from the Sierra Norte de Puebla, Mexico — Perda da língua e
suicídio lingüístico: o estudo do caso em Sierra Norte de
Puebla, México,” e os autores fazem uma distinção
interessante entre “perda de língua,” e “suicídio lingüístico.”
No
primeiro caso, o que ocorre é que os indivíduos mais jovens
de um grupo minoritário começam a utilizar a língua do
grupo dominante. Já o denominado “suicídio lingüístico”
ocorre quando os pais decidem não ensinar sua língua aos
filhos, para ajudá-los a fazer uma adaptação mais rápida
ao grupo dominante.
Se
tomarmos por um momento estas duas explicações de como uma língua
minoritária desaparece, e as aplicarmos, digamos, ao que
acontece com o espanhol no sul dos Estados Unidos, vemos que o
que aqui existe é uma combinação dos dois fenômenos.
Muitos
jovens sentem “vergonha” de falar espanhol em público, e
optam pelo inglês. Os pais, muitos dos quais têm que
trabalhar muitas horas para sustentar a família, acabam não
tendo tempo de facilitar aos filhos uma visão mais completa
da riqueza cultural dos seus países latino americanos de
origem.
Também, em muitos casos, os jovens não têm contato com a língua
espanhola escrita, e muitos jamais lêem um romance ou uma
poesia em espanhol. Ao serem circundados pelo inglês, e ao
sentirem que para fazerem parte da sociedade de sua idade têm
que se expressar em inglês, é compreensível que muitos
destes jovens acabam abandonando o espanhol.
Mas
também existe o lado dos pais. Até 1966 o Texas tinha uma
lei que proibia o uso de qualquer língua que não fosse o
inglês na escola primária. Muitas das pessoas originárias
(especialmente) do México, se lembram de terem sido punidas
durante a escola primária por falarem espanhol na escola. Com
esta experiência negativa associada à sua língua, não é
de se surpreender que, quando tiveram seus próprios filhos,
decidiram que iam falar com eles somente em inglês. Este é o
suicídio lingüístico: não é que a língua mesma se
suicide. Tal seria impossível, já que uma língua vive nos
falantes. Eu preferiria mudar este termo para “morte” de
uma língua. Os falantes que abandonam sua língua nativa estão
cometendo, eu creio, um suicídio cultural, enquanto matam a
sua língua quando não dão aos seus filhos a oportunidade de
aprendê-la.
Estes
dois fenômenos não se restringem aos falantes de espanhol.
Todos os imigrantes que vieram de países com língua não
inglesa passaram pela mesma situação. Uma possível exceção
teriam sido os cubanos que chegaram aos Estados Unidos depois
da revolução e Fidel Castro.
No
caso deles, houve um fator muito importante, e as conseqüências
lingüísticas e pedagógicas da sua presença nos Estados
Unidos ainda não foram completamente estudadas, porque
continuam em processo. Qual é e como se explica a diferença?
Inicialmente,
devemos lembrar que a grande maioria dos primeiros exilados de
Cuba consistia de pessoas de alto nível econômico e
educativo. Adicionalmente, a própria história de Cuba, na
sua luta para obter sua libertação da Espanha (o que só
aconteceu em 1898), criou um alto nível de patriotismo e de
orgulho pela língua e pela cultura. Ao chegar aos Estados
Unidos, aqueles primeiros exilados não admitiram que seus
filhos perdessem sua língua. Mesmo porque, convém lembrar,
Cuba fica muito perto dos Estados Unidos, e grande parte
destes exilados planejava voltar à ilha o mais rápido possível.
Os Estados Unidos — ou a Flórida, para ser mais preciso —
era somente um lugar de
onde eles voltariam.
Como
evitar que seus filhos fossem convertidos em falantes somente
de inglês? Muito simplesmente, a comunidade cubana propôs e
lutou para a instalação do que se chama hoje o “ensino bilíngüe”.
Desta maneira, aqueles pais abriram caminho para que seus
filhos aprendessem o inglês ao mesmo tempo em que continuaram
em contacto com sua língua materna, mesmo fora de casa.
Embora
a questão do ensino bilíngüe esteja longe de ser
completamente aceitada e aceitável, este esforço da
comunidade cubana pelo menos garantiu que se
“descriminalizasse” o espanhol. Já as demais línguas
simplesmente não contam com suficientes professores
capacitados no nível primário para garantir que os
estudantes sejam alfabetizados na sua língua do lar. O que
muitas comunidades fazem é oferecer cursos aos sábados em
igrejas, em centros comunitários e clubes.
Assim,
por exemplo, em San Antonio, no Texas, uma igreja budista tem
aulas de mandarin, uma igreja metodista tem aulas de thailandês,
uma sinagoga tem aulas de hebreu, e assim por diante. O que
estes grupos de pessoas estão tentando fazer é manter pelo
menos traços da língua do país de origem dos pais nos seus
filhos, com a esperança que eles continuem estudando,
falando, praticando, e se aprofundem na cultura também. Não
sei se em outras partes do país existem tais iniciativas
quanto ao espanhol, mas em San Antonio, talvez exatamente
porque a cidade se crê bastante hispana, não existe esta
preocupação em oferecer aulas. Existe outras atividades
culturais, como balé folclórico, festas especiais durante o
ano, e um centro comunitário chamado Esperanza, que se dedica
à comunidade hispânica. Quanto ao português, não há
nenhuma iniciativa formal em San Antonio, mas em Austin,
cidade a 80 milhas ao norte, e capital do estado, existem várias
atividades coordenadas pela Universidade do Texas em Austin.
E
no Brasil? Como está esta situação dos descendentes de
falantes de outras línguas?
Antigamente,
se dizia no Paraná que nós tínhamos uma cidade em que todos
só falavam japonês, Uraí. Jamais pude verificar a
veracidade de tal afirmação, mas imagino que, especialmente
com a presença constante de rádio e televisão, todos os
falantes de japonês já falam português. Como uma das razões
pelas quais os pais tentam conservar a língua de origem é o
percebido status do país de origem, e até a metade
dos anos 70 o Japão ainda era considerado um país pobre,
muitos pais de origem japonesa fizeram como os camponeses de
Sierra Norte, e não ensinaram o japonês para seus filhos.
Qual é a situação dos outros grupos de imigrantes no
Brasil? Os netos e bisnetos de alemães ainda sabem falar mais
que algumas palavras em alemão? Os descendentes dos sírios,
dos libaneses, e outros, ainda falam árabe? Não tenho
conhecimento de pesquisa lingüística aprofundada sobre o
assunto, mas imagino que, assim como os descendentes dos indígenas
acabam perdendo sua língua e só mantêm alguns traços da
cultura, o mesmo acontece com os descendentes dos imigrantes
europeus vindo de países de língua não portuguesa.
E
isto é ruim? Ou é bom? Como a nação é afetada pela existência
de várias línguas dentro de seu território? Ou, seguindo a
inspiração dos conservadores americanos, não seria preferível
mesmo que todos falassem só a língua nacional, pra evitar
problemas? Ou será que a existência de muitas línguas não
necessariamente afeta a unidade nacional ou a língua
nacional?
Logicamente,
estas são perguntas extremamente complicadas, e difíceis de
responder. A primeira consideração é que ninguém vive
tempo suficiente para ver mudanças lingüísticas tão
marcantes que redundem na perda total de uma língua ou em
mudanças tão radicais dentro dela que a transformem em
outra. Estas mudanças levam gerações, e, por isto, é muito
pouco o que um indivíduo, sozinho, pode fazer. Eu sou da
opinião que é uma grande perda quando um grupo deixa de
falar uma língua, porque todas as línguas são perfeitas, e
cada uma delas reflete não só uma gramática, um léxico,
mas uma maneira completamente sua de ver e representar o
mundo. Existe, além deste lado digamos mais espiritual e
cultural, um lado histórico no caso de todas as línguas (de
onde vieram, quais mudanças tiveram, como se adaptaram), e um
lado comercial, no caso das línguas das nações com as quais
o país tem relações de negócios, além de um lado de
preservação ecológica mesmo, no caso das línguas indígenas.
Um país como o Brasil ganharia muitíssimo se tivesse um
grande contingente de falantes das várias línguas européias
e asiáticas e do oriente médio, por exemplo. E teríamos ao
nosso alcance o conhecimento milenar dos indígenas, que mais
facilmente contribuiriam para o entendimento do ecossistema
das diferentes regiões do Brasil. Seria o caso de o Brasil
começar a fazer um esforço sistemático para a recuperação
e manutenção destas línguas, especialmente as indígenas,
que não têm sistema escrito. Tais iniciativas não são
novidade, e muitas vezes dependem da necessidade histórica de
um determinado momento histórico. Os Estados Unidos, por
exemplo, empregou os chamados “Navajo Code Talkers —
Faladores do código Navajo” durante a segunda guerra
mundial, para evitar que os nazistas decodificassem as
mensagens que eram mandadas para a frente de batalha.
E, especialmente depois de 2001, está tentando incentivar o
estudo de línguas que são consideradas “estratégicas”,
especialmente o árabe.
Seria um grande avanço para o mundo todo que todos os países
incentivassem o aprendizado de outras línguas para a paz. E a
melhor maneira de garantir que um país tenha contingentes de
pessoas fluentes em outras línguas é através da transmissão
generacional, de pais para filhos.
Mas
a pressão para que as pessoas descendentes de estrangeiros se
conformem à norma geral é muito grande. A questão dos
falantes das línguas indígenas é ainda mais dolorosa,
porque em muitos casos as comunidades perderam sua língua,
sua cultura, e se transformaram em cidadãos de segunda
categoria, perdidos num abismo em que o que eles representam
é homenageado através de fórmulas que eles não controlam,
enquanto que eles mesmos são espezinhados e maltratados.
E nem sequer têm um país soberano ao qual se referir para
que seus filhos e netos saibam de onde vieram.
Em
termos práticos, cada país perde em capital humano e
cultural cada vez que os netos de imigrantes perdem o contacto
com a língua dos antepassados. Como pode um país
assegurar-se que esta perda não ocorra? Primeiramente, os
dirigentes políticos de cada país precisam conscientizar-se
que falar mais que uma língua não diminui o patriotismo de
ninguém, e nem diminui a sua capacidade de expressar-se na língua
nacional. Pelo contrário: as pessoas que dominam bem duas ou
mais línguas nas três formas (ler, falar e escrever), têm
um vocabulário mais rico, e desenvolvem mais formas de
expressão nas duas línguas. Naturalmente, os dirigentes de
todos os países sabem muito bem disto, porque se tal não
fosse o caso, as escolas de línguas seriam proibidas. Mas o
problema é que as escolas de línguas são caras, e somente
os filhos das classes mais ricas (ou as pessoas
excepcionalmente talentosas para aprender línguas) acabarão
falando fluentemente outras línguas.
O
que os governos de todos os países precisam, eu acho, é de
certificar-se de um excelente ensino da língua nacional ao
lado de ofertas de ensino de várias outras línguas já na
escola primária, para que os jovens estudantes comecem, desde
cedo, a aprender. Também seria uma grande ajuda se o próprio
governo incentivasse os recém chegados a compartilharem a língua
e a cultura do seu país de origem com seus filhos, netos, e
com a comunidade onde vive. Embora estas medidas, em si só, não
possam garantir menos conflitos no mundo, eu creio que o
respeito por pessoas que falam outras línguas mais o
conhecimento de outras línguas, e um entendimento de outras
culturas, facilitariam em muito o diálogo entre pessoas e nações
diferentes.