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por
JOÃO FÁBIO
BERTONHA
Doutor
em História, Professor
do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá/PR
e Pesquisador do CNPq.
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Modelos
para o Brasil: Venezuela?
Nos
últimos anos, os números da economia venezuelana têm sido muito
bons. Em 2003, depois de uma greve geral da PDVSA (a companhia
petrolífera da Venezuela), o PIB do país caiu 7,7%, para crescer
espetaculares 17.9% no ano seguinte. Em 2005, este índice teria
chegado a 9,4% e a 10,3% em 2006. Estes números são discutíveis,
mas parece razoável acreditar que a economia venezuelana tem
crescido bastante nos últimos anos.
Só por este motivo, já valeria a pena incluir o caso
venezuelano nesta série.
Este
caso tem, contudo, uma especial importância pelo ser valor quase
que simbólico. Para uma parte substancial da esquerda
latino-americana, o presidente Hugo Chávez é uma espécie de ídolo,
o herói que luta contra o imperialismo ianque e implanta um novo
modelo econômico e social no continente. Para a direita, é a própria
encarnação de tudo o que de mais retrógrado existe na América
Latina, como populismo, intervenção estatal excessiva na economia,
etc. Até por esta importância de Chávez no imaginário
latino-americano atual (e nos debates a respeito da política econômica
mais conveniente), examinar o caso venezuelano se revela essencial.
Antes,
é fundamental fazer um pequeno histórico da economia do país.
Desde que a exploração de petróleo se tornou a base da economia
venezuelana, na metade do século XX, tudo gira em torno do óleo
negro, que representa a maior parte dos recursos fiscais e da renda
das exportações. Quando os preços deste estão em alta, como nos
anos 70, os indicadores econômicos melhoram e tudo parece ir bem.
Mesmo
nos períodos de alta dos preços, contudo, a bonança nunca foi
para todos. Enquanto as elites fretavam vôos charter para trazer uísque
escocês ao país ou lotavam as butiques de Miami, a maior parte da
população venezuelana vivia na informalidade e na pobreza. Claro
que o dinheiro do petróleo era tanto que algo sempre sobrava para
ela em forma de subsídios, etc, o que garantia aos pobres
venezuelanos uma situação mais confortável do que a dos seus
vizinhos brasileiros ou colombianos. Mas era uma situação
artificial, que só podia durar enquanto o dinheiro dos poços
jorrasse.
No
inicio dos anos 90, com a queda dos preços e o aumento da população,
a situação se revelou insustentável. Rapidamente, o déficit e a
dívida pública dispararam e a inflação subiu. O governo do
presidente Andrés Perez tentou aplicar o receituário neoliberal,
como era a praxe então em todo o continente, cortando subsídios,
privatizando, abrindo a economia, etc. O resultado foi uma série de
revoltas populares, manutenção apenas parcial das reformas e
instabilidade política, que culminou com a chegada de Chávez ao
poder em 1999.
Na
verdade, a questão central da vida social e política venezuelana
continua a ser, como tem sido há décadas, quem vai controlar os
bilhões que se depositam nas contas da PDVSA. Até Chávez, as
elites ficavam com a maior parte e deixavam migalhas aos pobres. Um
arranjo que, como visto, funcionou enquanto havia gente de menos e
dinheiro de mais e cujo colapso levou, entre outros motivos, à
instabilidade dos anos 90. Com Chávez, as elites continuam a lucrar
(ainda que isso não as faça adeptas do presidente), mas, via
Estado assistencial, parte substancial dessa riqueza chega às
massas tradicionalmente esquecidas.
Em
termos econômicos, na verdade, o chavismo não parece ser
nem um pouco original. O direito à propriedade privada ainda não
foi posto em questão, mas o Estado recuperou seu papel central na
economia, revertendo-se as poucas reformas do período liberal que
tinham sido efetivamente implantadas. Assim, o Estado e as estatais
dominam a economia venezuelana e a ortodoxia econômica foi
abandonada em favor de uma política bem mais heterodoxa, com
controle dos juros e dos preços, etc.
Em
essência, na verdade, o modelo chavista continua a ser movido,
literalmente, pelo petróleo, tanto que, por mais que ele solte
farpas contra George W. Bush ou o imperialismo norte-americano, os
navios-tanque continuam a descarregar o petróleo venezuelano na Flórida
e os dólares do imperialismo recheiam os seus cofres. Se o setor de
serviços ou o comércio venezuelanos estão numa boa fase, é
devido ao motor petrolífero e às importações e não ao
desenvolvimento da indústria ou do sistema produtivo como um todo.
Como
não dispomos de uma riqueza desse porte, seria inviável copiar o
modelo chavista. Tudo o que ele faz ou deixa de fazer depende desse
dinheiro fácil e, já que não temos uma commodity que
pudesse produzir o mesmo efeito multiplicador numa economia
substancialmente maior como a nossa, discutir o modelo chavista é,
aparentemente, perda de tempo. Mesmo que fosse desejável, não há
como reproduzir o “bolivarismo” no Brasil.
Digo
“aparentemente”, porque, potencialmente, podemos ter um
equivalente brasileiro ao petróleo venezuelano, seja a soja, o
etanol ou outro produto, e verificar os riscos disto a partir da
experiência do nosso vizinho do norte é, portanto, um exercício
que vale a pena.
Fica
muito claro, a partir da experiência dos grandes exportadores de
petróleo ou outro item semelhante, como a riqueza fácil pode ser
interessante em curto prazo, mas é danosa em longo. Quando os preços
deste produto estão em alta, não há nenhum estímulo para
reformar o Estado ou a economia. Além disso, a chuva de moeda forte
valoriza fortemente a moeda local e o setor industrial quebra frente
às importações. Já quando os preços caem (e os preços das
commodities, por definição, flutuam sempre), as contas do Estado
entram em colapso e a sociedade empobrece.
É
o que acontece na Venezuela hoje. O Estado venezuelano distribui
benesses ao povo, mas a capacidade produtiva continua pequena. Não
há realmente porque investir em produção, trabalho, educação (a
não ser aquela voltada à “revolução bolivariana”) ou ciência
quando o dinheiro fácil está disponível e todo mundo está
contente. Se (ou, mais provavelmente, quando) esta boa fase
terminar, os recursos obtidos terão sido consumidos e se estará no
mesmo lugar. Este é o grande dilema do modelo venezuelano e mais um
alerta para aqueles que, no Brasil, acreditam que devemos nos tornar
simplesmente produtores de etanol e ferro para o mundo.
Na
verdade, como é possível perceber através do estudo dos casos
chileno, argentino, brasileiro, venezuelano e outros mais (como o
peruano, o cubano e o boliviano), a tentação pelo dinheiro fácil
advindo da exploração e exportação de produtos naturais parece
ser uma constante na América Latina, seja no regime liberal, no
populista, no bolivariano ou no socialista. Café, nitratos, carne e
trigo no passado; cobre, petróleo, gás e etanol hoje, não
importa. A idéia parece ser sempre a de combinar trabalho barato
com recursos naturais abundantes para exportar, lucrar muito e
gastar o dinheiro em Paris ou Miami.
Como
já ressaltado em todos os artigos anteriores dessa série, ter
esses produtos para exportar é um grande trunfo brasileiro e
latino-americano num mundo carente em energia e matérias primas.
Recursos e divisas obtidos com eles podem muito bem dinamizar a
economia e servir para o seu desenvolvimento. Mas se optarmos pelo
mais fácil e ficarmos nisto, continuaremos no mesmo lugar de
sempre, ou seja, na periferia, o que não me parece desejável.
Pensar alternativas a este destino me parece uma obrigação, pelo
que, nos textos seguintes, tentarei procurar outros exemplos de
desenvolvimento, na Ásia e Europa, que escapem desse padrão, até
para termos elementos para ousar um pouco.
por
JOÃO FÁBIO
BERTONHA
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