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por
ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI
Professor do
Mestrado em Educação nas Ciências da UNIJUÍ - RS. Doutor em Ciências
Econômicas e Sociais pela Universidade de Osnabrück – Alemanha
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Desafios
da prática de ensino de Filosofia no Ensino Fundamental – Parte I
Os
desafios da atualidade exigem cada vez mais criatividade e
dinamicidade dos trabalhadores em educação, de forma que a reflexão
da prática educativa pode ser compreendida como princípio
edificador de mudanças. Nesse sentido, nos propomos a refletir
nossa experiência prática realizada com alunos de 8ª. Série do
Ensino Fundamental, em escola privada, na cidade de Santa Rosa –
RS. Ao invés de compreender a Filosofia como uma disciplina de
conteúdo e programa restrito, procuramos construir uma compreensão
nova para o exercício de sua prática. Entendemos que a Filosofia
pode cumprir um papel fundamental enquanto método de trabalho em
educação, no sentido de estabelecer um espaço de construção da
unidade entre os diversos campos do conhecimento existentes na
escola, desenvolvendo uma nova relação de aprendizagem com os
alunos, através de uma visão interdisciplinar e transdisciplinar
da realidade.
1.
A Filosofia como reflexão crítica da realidade.
Como
método de trabalho, a Filosofia pode desenvolver uma maior
capacidade de crítica do conhecimento, da escola, da sociedade e
das relações humanas através de momentos privilegiados de debate
em sala de aula. O contato com teorias contraditórias através de
leituras e interpretações propicia um “novo olhar” para o
mundo, entendendo que a “verdade” não é privilégio de um
indivíduo ou de um grupo social, mas que sua busca depende da
interlocução de sujeitos que se colocam na condição de
pesquisadores, conscientes de que não conquistarão o conhecimento
definitivamente, mas que, até por isso, estão dispostos a
continuar procurando através de muito estudo e debate.
Ao
tratarmos de educação, cidadania e construção de relações
solidárias e democráticas entre os alunos, estamos pressupondo um
conjunto de condições necessárias ao seu engajamento político e
social. A oportunidade de expressão das idéias, o desejo de
participar de debates, a busca da leitura como um prazer da vida e a
valorização do progresso intelectual são fundamentais para a
conquista de autonomia pelo ser humano. Só podemos compreender a
liberdade humana se essa for uma relação de sujeitos que agem de
forma autônoma. Sendo o conhecimento a base da ação livre, que
implica em responsabilidade, a nossa atenção, como educadores deve
estar voltada para os momentos concretos de atitudes livres dos
alunos. Assim, a motivação do grupo de alunos para a reflexão da
realidade e a tentativa de sua superação merece ser colocada como
o centro da ação educativa. Por isso, o ponto de partida é a prática
dos alunos e suas ações em sala de aula e na sociedade. A partir
da análise da prática, a Filosofia aparece como um elemento
inovador, porque permite o pensamento por contradição, que inicia
um conjunto de reflexões possíveis acerca da dimensão concreta
dos fatos e sua implicação com a utopia que coletivamente possamos
almejar.
A
construção de sujeitos que, no processo de discussão, possam se
assumir como históricos e que, por isso, têm uma contribuição a
dar ao mundo, foi a prioridade do nosso trabalho. O pensamento filosófico,
entretanto, se coloca no nível do dever-ser, não se limitando à
discussão de sua possível aplicabilidade em determinada realidade.
“O filósofo não vê apenas como é, mas como deveria ser. Julga
o valor da ação, sai em busca do significado dela. Filosofar é
dar sentido à experiência. (...) A Filosofia é a possibilidade da
transcendência humana, ou seja, a capacidade que só o homem tem de
superar a situação dada e não escolhida. Pela transcendência o
homem surge como ser de projeto, capaz de liberdade e de construir o
seu destino”. (ARANHA, 1993: 73, 75)
A
contradição entre o ser e o dever-ser possibilita um processo de
gradativa construção da consciência crítica e da utopia,
fortalecendo a participação ativa de alunos que se sentem
motivados a contribuir com a discussão. É um fato notório que no
momento do debate aparece a indisciplina ou desorganização da
discussão, com a maioria se manifestando ao mesmo tempo. No
entanto, esse também é um fato que merece ser discutido pela
Filosofia e a necessidade de sua superação novamente ocorre num
processo de contradição, para a transformação da atitude, em
direção ao que projetamos coletivamente, entre o grupo de alunos,
como ideal de dever-ser ao espaço de debate. “Enquanto o imaginário
reprodutor procura abafar o desejo de transformação, o imaginário
utópico procura criar esse desejo em nós. Pela invenção de uma
outra sociedade que não existe em lugar nenhum e em tempo nenhum, a
utopia nos ajuda a conhecer a realidade presente e a buscar sua
transformação. Em outras palavras, o imaginário reprodutor opera
com ilusões, enquanto a imaginação criadora e a imaginação utópica
operam com a invenção do novo e da mudança, graças ao
conhecimento crítico do presente”. (CHAUÍ, 1995: 136)
2.
O contexto da experiência prática
O
público alvo de nossa prática educativa são jovens, em sua
maioria, entre 13 e 14 anos. As características da turma não
diferem muito de grande parte da nova geração juvenil, que
apresenta expectativas e comportamentos sugestionados por uma
cultura centrada nos valores propagados pelos grandes meios de
comunicação social. Tendo em vista que a escola em que realizamos
a prática educativa possui um grande referencial na cidade e na
região, muitos alunos manifestam um sentimento de superioridade em
relação às demais escolas, até por sua condição econômica. As
famílias dos alunos, em sua maioria, possuem boas condições de
vida, oferecendo aos filhos o tempo e a estrutura necessária a um
bom aproveitamento escolar.
Ao
analisarmos a juventude como um todo, na qual os referidos alunos
podem ser incluídos, um conjunto de características merecem nossa
atenção para a realização de um trabalho crítico e reflexivo
com uma geração que se interessa ainda menos por isso, se
comparada a outras gerações. Sem dúvida, este foi um dos
principais desafios de nosso trabalho: criar o gosto pela discussão
e o interesse pelo conhecimento.
Para
a juventude atual o desemprego se apresenta como o principal
problema, e a faixa de maior exploração dos jovens está entre os
14 e 18 anos, período de muitas indecisões, carências e
interesses diversos. Essa ausência de perspectiva de poder
trabalhar coloca o jovem numa condição nova que, para toda a
humanidade, passa a exercer uma forte influência no modo de
perceber o sentido de sua vida. “Perdemos, com o desaparecimento
da importância biográfica do trabalho como elemento de realização,
uma espécie de capacidade cognitiva de distinguir entre realidade e
ficção. (...) Como conseqüência, a vida humana é muito mais uma
espécie de estilo existencial em que se imita aquilo que é
representado nos meios de comunicação. O resultado disso será,
novamente, a individualização das pessoas, que perdem a capacidade
e o próprio fundamento para poderem sentir-se sustentadas por
mundos da vida comuns”. (STEIN, 1993: 28-29)
Apesar
desse processo de individualização e crescente competição entre
os jovens, ocorre a formação de pequenos grupos que se reúnem em
função de interesses específicos e que passam a criar uma
linguagem característica e fechada. Ali, a presença de gírias é
constante e reforça a necessidade de criação de momentos de
encontro, seja por carência afetiva, bem como para afirmação dos
sujeitos que, não sabendo bem o que querem, precisam se identificar
entre si e com alguma coisa.
Esse
jovem é um sujeito que não quer ser rico, mas valoriza o
“ter”, para poder investir na moda. “Compra-se para ser mais
ou igual aos outros”. Cabe
nisto também a constatação de que vivemos um período de
massificação ou mundialização da cultura: os jovens de
diferentes origens e crenças vivem os mesmos desejos alienados que
os meios de comunicação, controlados a nível mundial, lhe
despertam. Para compreender melhor essas questões, buscamos a
contribuição de pesquisadores como Mário Osório Marques,
Gontardo Calligaris, Edgar Morin, David Harvey, René Armand
Dreifuss e Ernildo Stein.
Com
a rejeição às pequenas cidades, reforça-se a cultura de que o
bom sempre provém de fora. E, com o fenômeno de “imitação”
de estilos de vida, onde as referências estrangeiras passam a ser
colocadas como padrões a serem seguidos por aqueles que, sem esses,
se sentem excluídos, o consumismo se reafirma como uma forma de
dominação aos jovens. Parece que o velho cogito cartesiano do
“penso, logo existo” passa a ser adaptado para “consumo, logo
existo” e o status passa a ser colocado como o diferencial de
classes. Aliás, para Gontardo Calligaris o luxo já é um aspecto
constituinte do próprio ser moderno: “Os bens de luxo são a matéria
simbólica da modernidade, ou seja, exatamente o que decide nossa
organização social. (...) O luxo (do objeto de consumo até a
cultura e o saber) declara quem somos para os outros e para nós
mesmos. (...) A novidade moderna é que o acesso ao luxo (e não a
nascença) decide da classe e do lugar social de cada um”. (CALLIGARIS,
1997: 8)
Isso
se reproduz na escolha da profissão e, generalizando, na uniformização
do gosto em função do que é reconhecido pelos outros. “A
mundialização lida com a massificação e homogeneização
cultural, evidente no consumo de hamburgers, pizzas, sorvetes,
iogurtes, refrigerantes, cigarros, jeans, tênis, cartões, etc.
(...) A mundialização é, portanto, do âmbito societário, embora
no seu desdobramento condicione a economia e a política. Refere-se
a valores e referências, a produtos e métodos desejados e passíveis
de utilização, nos mais diversos países, sem ater-se à sua
origem nacional ou cultural (na maioria dos casos, simplesmente
desconhecendo-a), e transbordando ou atravessando culturas e estilos
existenciais e vivenciais”.
(DREIFUSS, 1996: 138-139)
Nesse
contexto, se reforça a cultura do investimento no imediato, pois é
necessário curtir o momento em que determinada coisa está em evidência
para se afirmar na sociedade enquanto sujeito. As metanarrativas ou
as grandes utopias de sociedade presentes nos jovens da geração
passada, agora são colocadas como findadas, marcando um período de
sobrevalorização do presente. “Lidamos com indivíduos que se
desconectam do seu passado e que não fazem nenhum tipo de vínculo
com o futuro. Vivem apenas os momentos da sua inserção num
determinado contexto que, por sua vez, parece inteiramente fluido,
transitório e efêmero”. (STEIN, 1993: 28). Harvey, citando
Lyotard, define esse contexto simplesmente como “incredulidade
diante das metanarrativas” (amplos esquemas interpretativos)
agregando a isso a evaporação de todo sentido de continuidade e
memória histórica. (HARVEY, 1992: 49-50) Em outra passagem,
citando Jameson, Harvey se refere a um novo processo de alienação
que ocorre em nossa época: “a alienação do sujeito é deslocada
pela fragmentação do sujeito” e isso se deve à redução da
experiência a “uma série de presentes puros e não relacionados
no tempo”. Idem: 57)
Quanto
ao modelo de líder, os jovens preferem o que “libera tudo”, a
negação do líder. Se os jovens da década de 1960 enfrentavam
muitos limites e, por isso, eram reprimidos, hoje os jovens, filhos
daqueles, não querem nenhum limite. Em contraposição ao
autoritarismo de épocas anteriores, o que aparece como marcante na
própria educação realizada pelos pais dos alunos é o ausentismo
(ausência de limites), o que parece reforçar a violência como
algo natural e aceitável entre os jovens. “Se por um lado, os laços
temporários trazem maior liberdade às relações, por outro, criam
o descomprometimento generalizado onde o senso de liberdade e
compromisso está cada vez mais desgastado e subjugado ao senso do
prazer imediato. Segundo Aldons Husler, o pão e o circo dos jovens
atuais são o hambúrguer e a TV. Esta postura anti-disciplina,
anti-compromisso, não se dá apenas nas microrrelações sociais
(namoro, família, amigos),
trata-se de
uma atitude social e política da juventude e da grande
maioria da
população do planeta. Os laços que prendem os indivíduos
são temporários e sem amarrações.
As causas são concretas e imediatas, mesmo que esta concretude seja
simbólica. O que conduz a todo um engajamento para salvar a vida de um jacaré, mas não
à luta por uma sociedade
onde pessoas e
jacarés não sejam mais caçados”. (GIEHL, 1997: 10-11)
Outro
elemento que aparece como fundamental é a crise das instituições,
que perdem credibilidade, seja pelas suas ações equivocadas, como
pela falta de participação das pessoas nestas, ou pela conjugação
das duas, que é o fato mais lógico nesta situação. Nesse
aspecto, se soma a escola como uma instituição desacreditada e os
alunos freqüentam as aulas por exigência de outros e não por uma
perspectiva própria, o que acarreta em muitos problemas de interação
em sala de aula.
Não
há um efetivo entendimento sobre o funcionamento da sociedade e nem
interesse nesse entendimento. Assim, a própria reflexão acerca da
realidade que conduz o comportamento dos jovens, fica inacessível,
porque remete a um preconceito em relação à política, e a
tentativa de pautar determinada análise do contexto é interrompida
pela discordância dos alunos com tal tipo de discussão.
Aparecem
ainda muito fortes: a sexualidade precoce e nela associada, o medo
das doenças sexualmente transmissíveis; a liberdade relativa da
mulher e sua ascensão política, também tendo reflexo nos jovens;
a prática de esportes e extrema valorização do corpo, inspirada
em modelos padronizados pelos meios de comunicação; o
comportamento eclético, misturado à emoção, num apelo à religião,
pelos próprios jovens; e a violência, tão estimulada em filmes,
brinquedos e outros símbolos que tornam os jovens bastante
agressivos.
A
presente análise já temos realizado com base em outros trabalhos
com jovens, no entanto, em nenhum dos outros espaços[1]
em que estivemos atuando as características acima descritas se
manifestaram tão explicitamente como no caso em análise. A cada
aula surgia um novo desafio que estava alicerçado em formas de
comportamento bastante ousadas, com uma intensa participação ativa
dos alunos em sala de aula. A inquietação, dificuldade de diálogo
e desinteresse dos alunos com o estudo pareciam formar uma base de
enorme resistência a aulas tradicionais. Isso, numa primeira análise,
colocava, no mínimo, a necessidade de constante inovação e
criatividade como ingredientes para a busca de motivação ao
interesse pelas aulas de Filosofia.
3.
A Filosofia e as relações interativas em sala de aula
A
possibilidade de discutir os mais diversos assuntos, com uma base crítica,
caracteriza a Filosofia como um espaço privilegiado de construção
de mudanças na forma de viver e se relacionar. Aliado a isso, o
grande incentivo da direção da escola e o apoio de alguns colegas
professores e diversos alunos ao nosso trabalho, manifestando uma
preocupação com o contexto e abrindo oportunidades para a inovação,
nos permitiu uma gradativa reflexão sobre nossa prática e sua relação
com a realidade da escola.
Podemos
afirmar que nos sentimos muito motivados a encarar as dificuldades
que apareceram no decorrer das aulas por acreditarmos no potencial
que a Filosofia possui para a transformação da realidade. A
novidade que fomos percebendo, no decorrer das atividades, era o
sentido da nossa reflexão com os alunos e sua relação com a forma
como as aulas aconteciam. Inicialmente, nos propusemos a discutir o
funcionamento do nosso trabalho, as avaliações, a forma de
manifestação de cada sujeito envolvido e o conteúdo da proposta
pedagógica. Para nossa surpresa, os
alunos não se manifestavam com relação ao que estávamos
propondo, entendendo que a tarefa de planejar as aulas era exclusiva
do professor. Quanto ao conteúdo, havia uma certa aceitação de
que esse deveria ser transmitido pelo professor e repetido pelos
alunos, uma prática comum para as aulas de Filosofia até então.
Consideramos
essa postura dos alunos como condicionada pela forma como a educação,
em geral, vem desempenhou um papel padronizador do conhecimento e de
suas formas de aprendizagem. Com a razão instrumental, a escola
moderna ocupa uma função social de controle do comportamento dos
alunos que, por sua vez, estão colocados numa situação de
passividade em relação ao saber. Entendemos que o posicionamento
de grande parte dos professores no sentido de se utilizarem da razão
instrumental como método e orientação básica para a promoção
da aprendizagem, deriva do processo de sua formação em que esses
foram inseridos por um longo período, pois como afirma Bozzetto:
“A formação de professores historicamente seguiu um modelo
normativo e técnico a partir da concepção de escola como
modeladora de comportamentos e transmissora de conhecimentos. (...)
Em conseqüência, o professor sempre foi visto como técnico
executor de rotinas, como planejador, agente isolado das decisões e
soluções de problemas, como transmissor de conhecimentos e modelo
de comportamento. Decorreu daí a concepção instrumental da
atividade profissional do magistério, tendo em vista o treinamento
do professor para resolver problemas pela aplicação de teorias e técnicas
manipuladoras, modeladoras e controladoras da vida humana e da
sociedade. (BOZZETTO, 1998: 53)
A
prática do planejamento das aulas, a forma de realizar a avaliação
e a atividade escolar como um todo, seguem, segundo a razão
instrumental, um rígido e sistemático método de orientação onde
se prioriza a obtenção de resultados que seguem os objetivos
propostos pelo professor. No nosso entender, essa histórica maneira
de organizar o trabalho escolar explica, em grande parte, o
comportamento indiferente dos alunos em relação a uma proposta
diferente com tentativa de envolvimento destes na definição do
processo de ensino-aprendizagem. Segundo Marques: “organiza-se o
ensino-aprendizagem sob a forma de programação sistemática e
minuciosa, orientada por objetivos precisos e quantificáveis, com
metas escalonadas e padrões de desempenho verificáveis. O método
se reduz a procedimentos táticos de sala de aula. Predominam testes
precisos (“objetivos”) na avaliação do desempenho
comportamental e na mensuração dos resultados da aprendizagem
cognitiva”. (MARQUES, 1993: 107)
Compreendemos,
então, que os estudantes estão condicionados à aceitação
passiva em conseqüência das práticas pedagógicas de seus
professores. Com o passar do tempo, enquanto fomos trabalhando
atividades que estimulavam o interesse dos alunos, como músicas
(com conteúdo filosófico), figuras que estimulavam o raciocínio e
reflexões que buscavam a construção de contradições oportunas
para posteriores debates, percebemos que predominava na turma uma
enorme alienação política, aliada a uma forte influência da
ideologia capitalista, que se manifestava constantemente.
Verificamos, também, que os valores traduzidos no discurso estavam
presentes no cotidiano da vida dos alunos, destacando a competição,
o egoísmo e a incapacidade de convivência cooperativa em grupo.
Diante
da constatação realizada no decorrer de várias aulas, começamos
a refletir o significado da ideologia e a sua presença disfarçada
nas atitudes da turma. Continuamos essa análise, estabelecendo a
relação da Filosofia com a vida concreta das pessoas e sua possível
interferência nas relações sociais. Com o objetivo de aumentar a
atenção dos alunos, buscamos a polemização constante das discussões
para estimular a participação de todos. Seguidamente utilizamos
textos em forma de metáforas, construímos interpretações,
comparações de escritos com outros e com a realidade, chamando a
atenção para vários fatos e atitudes de pessoas. Para
exemplificar, podemos citar aqui a relação que fizemos da alienação
e a realidade em que vivemos, através da reconstrução, por parte
dos alunos, do poema “Perguntas de um trabalhador que lê”, de
autoria de Bertolt Brecht (2000: 166), com base em acontecimentos da
nossa história. Nessa dinâmica foram produzidos muitos escritos, a
maioria tratando de fatos ocorridos na cidade de Santa Rosa. Para
exemplificar, transcrevemos a seguir uma parte do texto de uma
aluna, baseada no estilo do poema de Brecht: “Quem construiu o Centro Cívico de Santa Rosa? Nos registros oficiais
consta o nome de Antônio Carlos Borges. Quantos tijolos ele
carregou? Será que nenhum outro o ajudou? Onde estão os nomes dos
operários? Tantas perguntas, tantas questões”.
Essa é uma pequena demonstração do exercício crítico
desenvolvido por uma aluna da turma. Podemos perceber que o
entendimento da forma do poema de Brecht serviu de inspiração para
analisar diversas distorções que aparecem na vida cotidiana dos
alunos. Com esse método construímos trabalhos muito bons, que
mereceriam, inclusive, serem publicados.
Outro
exemplo foi o estudo de pontos de vista divergentes em relação à
conjuntura social, com textos de liberais e de socialistas,
produzindo um debate onde os alunos puderam se posicionar e perceber
a importância da contradição no pensamento humano. Nesse aspecto,
tivemos uma grande polêmica entre a turma, com uns defendendo
socialistas e outros se posicionando em favor de liberais. Com isso,
trabalhamos a dimensão da contradição no pensamento humano, as
divergências ideológicas e a importância dos diferentes pontos de
vista, na análise da atualidade. O debate entre os alunos foi
importante porque demonstrou a motivação que resulta da participação
comprometida das pessoas com as ideologias e a forte presença das
idéias políticas no imaginário social.
Podemos
citar ainda a utilização de músicas; o trabalho de análise de
filmes que tratavam a problemática da educação e a importância
da filosofia na educação; a atividade de vivência da exploração
capitalista e a sua dominação ideológica, através da simulação
do funcionamento de uma empresa; o estudo da bitolação que
determinadas imagens provocam nas pessoas e constroem o senso comum,
com a análise de figuras; enfim, a utilização de metáforas para
o entendimento do conceito de liberdade.
O
trabalho com músicas foi um sucesso e despertou a atenção de
praticamente todos os alunos. Isso propiciou um bom empenho dos
alunos que ficaram muito interessados em debater o conteúdos das músicas.
Com os filmes, tivemos algumas dificuldades, principalmente com a
sua interpretação. A experiência de simulação do funcionamento
de uma empresa capitalista aconteceu da seguinte maneira: a) definição
da empresa como fábrica de sapatos; b) constituição das chefias
(escolha dos mais críticos da turma para ocupar esses cargos, como
forma de cooptá-los e dominar o restante da turma) e contratação
de operários, com a definição das condições de trabalho e salário;
c) produção dos sapatos (de forma simbólica: cada operário
recebia uma folha de ofício que deveria ser rasgada em 5 pedaços,
como sendo 5 sapatos); d) discursos ideológicos, defendendo a
qualidade e a competitividade (participação das chefias); e)
entrega da produção; f) fechamento das contas e questionamento do
nível de satisfação dos operários; g) debate entre chefias e
operários; h) debate, em plenário, para análise da lógica
capitalista de acumulação de capital e exploração dos
trabalhadores; i) discussão sobre a alienação nas relações de
produção. Como atividade prática de reprodução da ideologia, a
referida simulação foi alvo de debate por várias aulas, numa
retomada articulada seqüencialmente com os conteúdos que vínhamos
estudando.
O
trabalho com as metáforas a que nos referimos acima, foi um
fechamento das diferentes discussões realizadas sobre a Filosofia e
a sua interpretação mostrou que a turma conseguiu construir reflexões
significativas sobre o significado do pensamento filosófico. Essa
relação das dinâmicas que desenvolvemos com os conteúdos da
Filosofia, permitiu a construção, a nível de cada sujeito, de um
conceito para essa disciplina que, no início dos trabalhos, era tão
dificilmente compreendida. Podemos afirmar, ainda, que as metáforas
foram geradoras de diálogo para a turma. “As metáforas são mais
úteis do que a lógica para gerar diálogo. As metáforas são
criativas; elas nos ajudam a ver o que não vemos. As metáforas são
abertas, heurísticas, geradoras de diálogo. A lógica é
definicional; ela nos ajuda a ver mais claramente aquilo que já
vemos. Ela tem por objetivo o fechamento, a exclusão. Nas palavras
de Serres, ‘ela mata’. Nós precisamos, é claro, tanto da
imaginação criativa quanto da definição lógica. Nós precisamos
de criação e fechamento. A vida é nascimento e morte; a
realidade, diz Witehead, também o é. É através da interação da
metáfora e da lógica que a vida é vivida, experienciada,
desenvolvida. Como professores, precisamos trazer esta interação
para as nossas construções de currículo. O modo narrativo requer
interpretação. Uma boa estória, uma grande estória, encoraja,
desafia o leitor a interpretar, a iniciar um diálogo com o texto.
Numa boa estória existe exatamente a quantidade suficiente de
indeterminância para incitar o leitor ao diálogo”. (DOLL JR.,
1997: 185)
Através
desse processo de discussão, fomos aliando o conteúdo proposto com
atividades que despertavam a atenção da turma e, gradativamente,
estabelecendo a relação do que vínhamos debatendo com a organização
dos alunos em sala de aula e seu comportamento. Num segundo momento,
a ênfase especial foi dada ao estudo das principais ideologias políticas
contemporâneas e estimulamos a defesa e acusação de propostas
vigentes para a sociedade. Ao mesmo tempo, fomos relacionando o que
os alunos defendiam como valores importantes para a sociedade como a
democracia, o respeito, a justiça e a solidariedade com as práticas
que vinham sendo adotadas em sala de aula. Podemos exemplificar
isso, nos referindo às contradições que surgiam da postura dos
alunos com relação aos seus colegas, interrompendo suas falas,
desmerecendo suas opiniões com piadas, criando apelidos contra sua
vontade, enfim, incentivando conflitos pessoais, ao mesmo tempo em
que continuavam fazendo discursos em favor de valores importantes ao
relacionamento entre as pessoas. Inclusive a sugestão que partiu de
alguns alunos de que o professor deveria assumir uma prática
autoritária em relação aos alunos (chegando a propor que o
professor deveria expulsar alunos da sala de aula para “impôr
respeito”), era evidentemente contraditória com o discurso da
turma. O fato de termos pautado uma reflexão crítica no sentido de
evidenciar a contradição que havia entre discursos e práticas em
sala de aula parece ter sido decisivo para iniciar discussões de
natureza mais filosófica com a turma.
O
texto continua na parte II, a ser publicada no próximo mês.
por
ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI
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