por
TATIANE
PACANARO TRINCA
Bacharel, Licenciada e Mestranda do
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Faculdade de
Filosofia e Ciências da UNESP, Campus de Marília.
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A
tirania da beleza:
reflexões
sobre a colonização do corpo na contemporaneidade
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Resumo:
Considerando
o fenômeno do culto ao corpo aprofundado na contemporaneidade
bem como o aumento da insatisfação dos indivíduos com a própria
aparência, o presente artigo buscou analisar alguns processos
socioeconômicos que, historicamente, contribuíram para a
formação de um amplo e lucrativo mercado direcionado aos
cuidados corporais e, nesse aspecto, realizou uma reflexão
acerca das novas formas de colonização do corpo presentes na
“cultura do consumo”. |
Historicamente
o corpo tem se mostrado de várias formas e em algumas conjunturas
ele tem sido fundamental para compreender e expressar as características
da organização societal a qual se insere. Assim, embora o corpo
humano seja constituído por elementos biológicos, ele é,
sobretudo, uma construção sócio-cultural, de tal modo que, em
qualquer sociedade, o corpo sempre estará submetido a um conjunto
de normas e práticas de interdição, fruição, controle etc.
As
modificações no corpo estiveram presentes em diferentes épocas e
civilizações. A ornamentação e as marcações utilizadas no neolítico,
as tatuagens e brincos dos povos maoris
(nativos da Nova Zelândia), o embranquecimento da pele na
antiguidade, o espartilho da era moderna, entre muitos outros,
serviram aos mais diversificados fins: para embelezar, para marcar
uma classe social, como meio de divindade, como modo de
pertencimento ou de exclusão a um grupo ou em relação ao mundo
natural etc.
Entretanto,
a partir dos desdobramentos do capitalismo e do processo de
secularização que se afirmam na Modernidade, ocorre a desvinculação
do homem com o mundo natural, inaugurando o princípio da percepção
da existência do indivíduo no interior de seu funcionamento
corporal; ainda assim, a valorização da dimensão corporal
coexistia e era secundária as utopias identificadas no início
desse período (SILVA, 2001).
No
século XIX, com o desenvolvimento e a expansão industrial
capitalista, se necessitou disciplinar o corpo do trabalhador
assalariado para este se tornar apto a acompanhar o ritmo da máquina
e, com isto, auferir maiores lucros aos proprietários dos meios de
produção. Por esses e outros aspectos, estabeleceu-se um
rompimento com os padrões considerados elegantes até então; ao
contrário de trabalhadores mais robustos, exigiu-se trabalhadores
magros, classificados como portadores de grande destreza e
habilidade.
Nesse
momento, se consolidava na medicina uma concepção de mundo que
instituiu, ao nível do saber e das práticas terapêuticas, uma
vinculação entre medicina e ciência (sobretudo das duas
principais correntes do pensamento científico da Modernidade: o
Racionalismo e o Empirismo), do qual a objetividade, o certo e o
indubitável na investigação do fenômeno enfeixavam o projeto
central. Deste modo, a medicina (aliada à ordem socioeconômica),
tomando o corpo como “objeto” homogêneo, atuou a partir das
determinações específicas de uma sociedade de classes e criou
tabelas de base para a definição dos valores da média da população
em peso, idade e nas aparências físicas pré-determinadas. Tais
tabelas estabeleciam os “pesos desejáveis” para os indivíduos
e foram derivadas do critério de utilidade do mundo do trabalho. (POLACK,
1971) .
Por
conseguinte, o rendimento necessário ao dispêndio da força de
trabalho acabou se tornando o parâmetro fundamental daquilo que se
denominou de normalidade. Segundo Silva (2001), a formulação das
tabelas de base, é um dos exemplos das determinações socioeconômicas
sobre o procedimento técnico-instrumental da medicina que ficam
obscurecidas pela cortina da neutralidade dos números e de
levantamentos empíricos extensivos. Ao se utilizar desses
procedimentos, transformou-se a saúde em um sinônimo da capacidade
objetivável de rendimento.
Após
a segunda metade do século XIX, a emergência da fotografia no
campo científico, decompondo e investigando os movimentos do corpo
animal e humano, contribuiu ainda mais para desenvolver uma concepção
do corpo que o compreendeu como uma máquina em ação. A medicina
fez do movimento corporal um símbolo efetivo de saúde, um modo
fundamental de expressão de qualidade de vida.
Assim,
a estrutura industrial e o discurso médico contribuíram para o
surgimento de uma consciência mecânica do corpo, indispensável ao
desenvolvimento do pensamento esportivo. Ao conceber o corpo menos
como uma entidade e mais como um processo, sobre o qual se podia
intervir para adequá-lo e agilizá-lo, abria-se, então, a
possibilidade para a remodelação e reconstrução do corpo. Mas
foi com o aprofundamento da “cultura do consumo”
que o corpo passou a ser explorado como objeto rentável.
A
disseminação dos esportes, o fenômeno da moda e o cinema, este último
favorecendo a criação de ídolos através de Hollywood,
ajustou a indústria de cosméticos à indústria cultural o que,
por sua vez, contribuiu decisivamente nesse processo de valorização
de ideais e padrões de beleza.
A
superprodução industrial de mercadorias sustentando o american way of life (estilo de vida americano) e aprofundando a “cultura do consumo” de massas se lançou, após
a segunda metade do século XX, ao mercado de bens e serviços
destinados à manutenção do corpo. Impérios industriais, com
atividades diversificadas, invadiram o mercado, produzindo aparelhos
de ginástica, suplementos nutricionais, vitaminas ou ainda
publicando revistas especializadas sobre boa forma, saúde, regimes
alimentares e cuidados corporais (COURTINE, 1995).
Todo
esse arsenal se vinculou à indústria do lazer e do turismo, da
alimentação e do conforto, formando, portanto, novas bases para
uma colonização do corpo. Se num primeiro momento recomendava-se a
dissimulação como meio de “sanar” os problemas físicos,
usando roupas e produtos adequados, buscando uma “camuflagem”,
após a “liberação do corpo” e da exposição do corpo nu,
essa dissimulação foi substituída pela ênfase em torno da
construção de uma beleza autêntica, sem dissimulações,
oferecidas pelas mais diversas intervenções cirúrgicas.
Conforme
explica Sant’Anna (2001), ao ideal do corpo máquina, produtor de
energia, peculiar às sociedades industriais, acrescentou-se a
imagem do corpo produtor de informações. Transformados em
equivalentes gerais de riqueza, células, órgãos, genes, embriões,
corpos humanos e não humanos começaram a gerar lucros elevados
servindo ao utilitarismo biotecnológico.
A
concepção de corpo atual está diretamente ligada ao
desenvolvimento da medicina que, deste o século XIX, atribuiu
conotações positivas à magreza, correlacionando o excesso de peso
a inúmeras doenças. No entanto, mercados como os da publicidade,
da estética, da moda são hoje os principais divulgadores de um
corpo ideal. Procura-se, assim, instituir uma excelência corporal,
que constitui o resultado do que deve ser atingido, ou do qual se
procura aproximar-se.
Cuidar
do corpo tendo em vista a melhor aparência vai se tornando,
gradativamente, uma necessidade para os indivíduos. Esta
necessidade de aperfeiçoar o corpo é seguida e estimulada pela
expansão de conhecimentos concernentes ao corpo nas áreas de estética,
alimentação, saúde e educação, além de técnicas e produtos
que lhes correspondem. Estrutura-se, dessa forma, um mercado das
aparências, representado por inúmeros profissionais especializados
em tratamentos de pele, cabelo, gordura, pêlos, unhas etc e
instrumentos de atuação que se encontra em livre desenvolvimento
(instrumentos e produtos para modelar e alisar os cabelos, aparelhos
de eletro-choque para fortalecer o abdômen, raio-laser para remover
pêlos, máquinas de bronzeamento, agulhas contra celulite, shakes
para emagrecer, entre muitos outros).
Desta
forma, as relações que o mercado estabelece com a expectativa de
corpo predominante são múltiplas, criando sempre demandas
corporais e novas exigências aos indivíduos. A ciência assim como
os meios de comunicação, por meio de sua suposta neutralidade e
objetividade, penetrou em todos os recantos da vida. Além da
poderosa tarefa de esquadrinhar e normatizar o corpo, oferecem os
mais diversos meios para sua fabricação.
De
acordo com a filósofa norte-americana Susan Bordo (1993), a
fantasia de construir um corpo perfeito, esteticamente belo, magro e
jovem é alimentada pelo capitalismo consumístico, pela ideologia
moderna do interesse por si que se cristalizou na cultura de massa
americana. Para a filósofa, o extremo dessa fantasia localiza-se na
ciência e na tecnologia ocidentais que, originariamente vinculadas
ao mau funcionamento, gerou uma indústria e uma ideologia
alimentada pela fantasia do remodelamento, transformação e correção;
uma ideologia do melhoramento e da mudança sem limites que
representa um desafio à historicidade, à moralidade e à própria
materialidade do corpo (BORDO, 1993). Diante disso, o eixo da
problemática da magreza, tão incentivada nos nossos dias e que
pode levar ao aumento da incidência de anorexia e de bulimia,
situa-se na cultura de consumo que domina grande parcela das
sociedades contemporâneas.
O
domínio sobre o desejo no interior dessa “cultura do consumo”
que o mercado institui está associado ao ideal cultivado da fabricação
de um ser perfeito. Dietas, exercícios físicos intensos e muita
disposição para sacrifícios e dores, são requisitos cobrados e
estimulados, por demonstrarem a capacidade de força de vontade, metáfora
cultural de uma expectativa normalizante de corpo e comportamento.
A
historiadora francesa Michelle Perrot (1992) considera que a
modelagem das aparências cria uma antropometria meticulosa
determinando medidas ideais, instrumento de tortura para aspirantes
do triunfo da norma.
“[...] A incorporação do ideal de elegância, gerador de
anorexia, forma de depressão feminina, é o sinal derradeiro da
armadilha das imagens. Daí a ansiedade crescente que as mulheres,
doravante constrangidas à beleza, nutrem relativamente à sua aparência”
(PERROT, 1992, p.178-179). Assim, o culto à magreza que se insere
dentro da ditadura da beleza, cria um projeto de existência,
gerando práticas disciplinares sustentadas pela construção que
associou e, ainda associa, a magreza à saúde e ao esteticamente
belo.
Nesse
sentido, a configuração de valores direcionados ao corpo nesta
sociedade merece um amplo debate, que resgate a possibilidade de
transformação social, para que se possa impedir que a aparência e
imagem corporal se sobreponham ao que, de fato, é o ser humano em
suas potencialidades e, através de práticas emancipatórias,
combater a tirania da beleza, a qual parece reproduzir “uma nova
versão de colonialismo” legitimada, até esse instante, por
grande parcela da sociedade.
Por
fim, a tarefa de investigar a supremacia do corpo-aparência na
sociedade contemporânea é inesgotável. É evidente que essa
problemática necessita de um aprofundamento em várias
perspectivas, contudo, neste espaço, apenas foi apontado, de forma
geral e sucinta, algumas reflexões que nos parecem relevantes em
relação ao presente fenômeno do culto ao corpo e do imperativo da
magreza que o acompanha.
por
TATIANE
PACANARO TRINCA
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