por
JULIANO TOSI Jornalista
e redator da Revista
Paisà
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Candeias
e a Boca:
notas
sobre o cinema subterrâneo
Ainda
hoje, ao se evocar o cinema de Ozualdo Candeias, a impressão é de
uma certa complacência: como se seu valor estivesse,
essencialmente, no fato de, vindo de onde veio, ter dirigido alguns
filmes. Num país onde a pobreza material é mais ou menos sinônimo
de ignorância, a formulação parecia fazer algum sentido. Não
contente, Candeias ia mais além: filmava seus pares. Mas ele não
fazia filmes como os que estava-se acostumado a assistir. Talvez aí
estivesse o ponto crucial: não fazia filmes sobre os pobres, mas entre eles, com eles.
Tudo
se passava, portanto, como se a intensidade e força de suas imagens
fossem as de uma pureza natural, pré-civilizatória. Durante algum
tempo, por exemplo, dizia-se que era um cineasta “primitivo”.
Noves fora o esnobismo e o paternalismo, no entanto, a tese não
ajudava em nada em descrever seu cinema. Ou antes: ajudava a
compreender na medida em que este trabalhava exatamente num sentido
contrário, afirmativo.
Sua
importância maior, convém lembrar, não está em ter sido
caminhoneiro, cafetão ou o que mais for, nem em simplesmente ter
construído uma obra; o vigor de seus filmes está em serem obras de
um cineasta raro, digno de figurar entre os maiores de qualquer
cinematografia. Felizmente, há hoje uma fortuna crítica bastante
interessante dedicada ao cinema de Ozualdo Candeias.
*
Havia
uma dificuldade natural em analisar filmes como A Margem ou Meu Nome É Tonho:
para além da novidade evidente que representavam, era um cinema
que, mais que qualquer outro, eliminava toda “narratividade
residual do tipo ‘realista-socialista’, de otimismo programático”,
nas palavras de Haroldo de Campos.
Por
outro lado, Candeias sempre foi de reduzir o significado de seus
filmes a – como dizia Jairo Ferreira – “um arroz-com-feijão
bem temperado”. Seus depoimentos e entrevistas parecem simples. Não
são. Em seus filmes, igualmente, as falas (a mensagem) são poucas
e secundárias. De certa maneira este foi mais um dado a contribuir
para a pecha equivocada. Mesmo um crítico como Bernardet alimentou
a idéia em um artigo recente: em resumo, dizia-se que o discurso do
cineasta não condizia com o vigor de seus filmes.
O
olhar de Candeias, em essência pouco afeito à verbalização, dá
às palavras novos significados, por vezes quase abstratos, mas
sempre belos para os que sabem ver com curiosidade e os olhos
livres: trata-se aqui de deformar o olhar, de produzir outra coisa,
de ver-mostrar de outra maneira.
Esta
exigência de um discurso verbal não seria uma forma de autoridade?
*
Quem
talvez melhor (embora indiretamente) tenha desmontado a tese de um
certo “primitivismo” é o crítico João Carlos Rodrigues, em
artigo sobre Aopção:
“por vezes pensamos estar assistindo a um documentário e não a
um sofisticadíssimo filme de ficção”. Em suma, estamos diante
de uma liberdade total de tratamento, que extrapola – e desafia
– todos modelos, todos preconceitos, todos critérios. Para
Candeias, se não há uma “linguagem” do cinema é antes porque
ele um fabrica cinema empírico (e não primitivo), fundado antes
sobre a experiência (e na experimentação) do que em conceitos. Em
seus filmes, os movimentos, as ações e personagens não apenas
mostram – eles são.
*
Claro,
ser pobre e sem o devido savoir
faire social não lhe facilitou as coisas. Assim, nos últimos
15 anos, ele foi um dos excluídos (como Tonacci, Rosemberg, Mojica
e muitos outros) do cinema produzido sob as leis de incentivo. E aos
poucos uma nuvem de fumaça se formou sobre seu nome. De modo que,
na história oficial, seus filmes ocupem no máximo uma nota de
rodapé. O Vigilante (1992
e inédito comercialmente), porém, é um dos filmes mais miseráveis
e, no entanto, cheios de vigor feitos por aqui desde muito tempo.
Falar em "poesia menos" é um caminho claro e bastante
rico para apreender seu cinema; afinal, como não admirar a alta
temperatura informacional deste cinema “pobre”?
*
Falar
em Ozualdo Candeias é, em grande parte, falar também da Boca do
Lixo. Ele foi – é a impressão que fica – de uma fidelidade
canina não apenas ao cinema, mas às pessoas e à própria região
entre a rua do Triunfo e Estação da Luz. De modo que, mais do que
um cenário local de trabalho, a Boca é uma espécie de eterno
retorno de seus filmes, ponto de partida (os curtas Uma Rua Chamada Triumpho, em duas versões, e Festa na Boca) e chegada (Aopção,
As Belas da Billings) do
cinema e da vida.
Candeias
foi provavelmente o locutor mais privilegiado da Boca. Primeiro,
porque circulava entre a quintessência do experimental (A Margem) ao mais comercial (Caçada
Sangrenta). Segundo, porque freqüentava igualmente diretores, técnicos,
atores, críticos, prostitutas, punguistas, comerciantes, etc., sem
muita distinção entre uns e outros. Mas sobretudo, porque mais do
que uma voz inteligente (como Ody Fraga e outros), Candeias era
aquele que como ninguém viveu e percebeu a Boca como fato novo no
cinema brasileiro, que deveria ser, digamos, documentado.
Era algo que ele compartilhava com o Jairo Ferreira, embora em outra
chave – vide a coluna deste no São Paulo Shimbun.
Com Uma Rua Chamada Triumpho,
Candeias consegue reunir expressão e meio social, isto é, a má
fama do local (a prostituição, a pobreza...) com outra má fama, a
do cinema brasileiro. Era o avesso do avesso do embrafilmismo.
*
A
Boca era naquele tempo uma resposta prática aos sabidos que armavam
a jogada industrial. Não era um estúdio, longe disso: não havia
nada de claustro ou coisa à parte do mundo; poucas vezes, no
entanto, viu-se local que abrigasse produção tão intensa e tão
diversificada. Sganzerla e Galante, Candeias e David Cardoso, João
Silvério Trevisan e Helena Ramos não apenas conviviam lado a lado,
como às vezes trabalhavam juntos. E este dado é, para dizer o mínimo,
notável.
Uma
das coisas mais interessantes que li do Bernardet dizia mais ou
menos o seguinte: o proletário no cinema brasileiro havia surgido
onde menos era esperado, atrás das câmeras.
Eram os técnicos e aspirantes a estrelas, até mesmo alguns
produtores e diretores que trabalhavam na Boca. Era uma gente
formada pela vida e pela prática – e, em parte, um tanto iludida
também, creio. Quer dizer, durante anos produziu-se um discurso
fundamental, mas cheio de falhas; de repente, meio sem ninguém
esperar, surgiu uma alternativa possível de cinema popular. Por
mais inconsistente que este cinema fosse por vezes (e muitas vezes o
era), que não fosse o cinema que “nós queríamos”, era um
cinema a ser defendido não apenas como dado social, mas talvez
sobretudo como dado estético.
Para
resumir: como já foi dito, a classe média tinha o psicanalista; as
classes baixas tinham a pornochanchada.
*
Uma
das coisas mais instigantes, entre muitas, sobre a Boca é a
curiosidade de muita gente que não viveu aquele tempo. Seja via
cinema popular ou, na falta de termo melhor, pornochanchada, vide o
sucesso das sessões na tv a cabo. Ou seja, via "cinema de
invenção", que salvo algumas exceções, antes era visto como
algo à parte.
Se
a decadência da Boca a partir dos anos 80 foi certamente uma das
maiores perdas do cinema brasileiro, por outro lado hoje talvez seja
possível dizer que, de alguma maneira, algo ficou.
*
O
primeiro filme de Candeias a que assisti foi Aopção ou As Rosas da Estrada: a sensação de estranhamento só
foi comparável a primeira visão de Três
Homens em Conflito, de Sergio Leone. Aliás, acho que não pode
haver dois filmes mais diferentes: o excesso e a "poesia
menos". Ou antes, não podem haver caminhos mais diversos para
chegar ao mesmo ponto: como não lembrar de Leone assistindo a Meu
Nome é Tonho?
Escrito
assim mesmo, com a intenção clara de usar o prefixo “a”
indicando uma “falta de” escolha, Aopção
é talvez o maior de seus filmes. Um filme quase inclassificável em
sua crueza, com sua narrativa difusa como nenhuma outra (ao fim e ao
cabo, no entanto, muito precisa) e momentos que beiram o insuportável
para em seguida revelarem-se de um vigor impressionante.
*
A
Margem tem uma
textura de realidade intensa e incomum (não que seja um cinema
estritamente realista), que podia ao mesmo tempo ter também um pé
em algo muito siderante, quase fantástico e místico. Através de
dois casais perdidos à margem do rio Tietê, a sub-urbe paulistana,
Candeias faz a redenção possível (isto é, na ordem da representação)
de um mundo miserável, de uma gente num eterno procurar a si mesmo.
Não era um cinema da fome, mas antes do disforme, de uma gente sem
lugar e encaixe no mundo. É um cinema que faz repensar a noção de
belo: as coisas são o que são, e ponto.
*
A
Herança
é Hamlet
(ou melhor, Omleto) revisto por Candeias e feito praticamente sem diálogos
(há, porém, um To
be or not to be antológico,
que faria Oswald de Andrade corar de inveja), isto é, reduzido a um
estado elementar de folha-de-parreira. Consta que o filme assim
ficou – sem falas e, em seu lugar, ruídos de animais – porque a
dublagem era muito cara (!). Nem por isso se trata de um filme
desprezível, pelo contrário: seria este o supra-sumo da simplificação
criadora de Candeias? O tema da reforma agrária mais do que se
insinua (Candeias disse uma vez que “livrou a cara do Hamlet”);
e como não ver, nessa tartamudez dos camponeses, a mesma “metáfora
lancinante” da falta de eloqüência um Vidas
Secas?
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