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por
ELAINE TAVARES
Jornalista
e pesquisadora no Observatório Latino-Americano, projeto da UFSC
que trabalha com a observação e análise das lutas sociais no
continente sul americano. Educadora popular e idealizadora da
Companhia dos Loucos, uma editora alternativa, de libertação da
palavra. |
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Camponeses
sem-terra de Santa Catarina vivem abril vermelho
É
como sempre é. As gentes, carregadas com suas tralhas, fogões,
cachorros, seguem em busca da terra, aquela que vai parir sob suas mãos.
A terra negada, usurpada, arrancada de quem quer trabalhar. São
sempre eles, os deserdados, os que não têm esperança alguma a não
ser esta, absurda, de que a luta coletiva e renhida, vai fazer
vingar o tempo novo. Assim tem sido na terra brasilis, nesse abril,
chamado de vermelho pelo Movimento dos Sem-Terra. O mesmo movimento
que andou quieto, esperando que o presidente, eleito para mudar,
mudasse. Só que ao invés de cumprir suas promessas com o povo,
Lula mudou foi de lado. Governa para o agro-busines, para os empresários, para os poderosos. Ao povo resta
o de sempre: a luta.
E
foi por isso que as gentes se mexeram em todo país. Em vários
Estados, o MST ocupou terras, sedes do Incra, prédios públicos, e
esse processo deve durar até o final do mês, na batalha por
reforma agrária. Em Santa Catarina, sul do Brasil, a ocupação foi
na cidade de Papanduva, no planalto norte, numa terra que hoje
pertence ao exército. Mais de 500 famílias rasgaram as cerca e
entraram na área que tem 10 mil hectares, servindo apenas para
manobras do exército ou para serem alugadas a fazendeiros da região.
Mas,
a ocupação, foi como sempre foi. Tão logo as famílias iniciaram
a montagem dos barracos, lá já estavam os representantes da
“ordem”, armas na mão, prontos para o confronto. Em poucas
horas, as famílias - e as centenas de apoiadores de outros
movimentos sociais - estavam cercadas por tanques de guerra do exército
brasileiro. Os olhos assombrados dos meninos e meninas nunca haviam
visto tamanha ostentação de força. E é bom que se saiba que são
escolados nessa coisa de enfrentar a ordem instituída. Ainda assim,
ficavam, encostados em suas bicicletas velhas, esperando, em paz.
Dentro do coração sabem bem que não são bandidos. São crianças
sem-terra, querendo um lugar para morar.
Mas,
ao exército, não bastou cercar o acampamento com os tanques.
Precisou passar a noite toda gerando tensão e terror. Pelos
alto-falantes soavam, em alto som, hinos patrióticos. Volta e meia,
um texto gravado dizia: “Vocês estão isolados! Vocês estão
cercados! Rendam-se!” E as gentes, acocoradas em volta da
fogueira, esperavam. Os meninos dormiam, apesar do barulhão. Só os
adultos vigiavam. Fora da área, lideranças do MST negociavam, com
políticos e gente de outros movimentos.
A
história da terra
Na
noite alta, premidos pelo medo, mas firmes na disposição de
resistir, as pessoas contavam histórias daquele lugar. Ali, bem
naquela terra, estava enterrado um homem, morto há muitos anos,
quando 40 famílias foram retiradas dali, violentamente, com a ajuda
do mesmo exército que agora os cercava. Uma história comprida que
começa em 1916. Naquele ano, Santa Catarina vivia o fim de um
grande conflito de terra, conhecido como Guerra do Contestado. Desde
o início do século, por conta da construção da estrada de ferro,
havia um número gigantesco de sem-terra, gente que havia sido
expulsa pela empresa estrangeira Railway Company. Essa empresa tinha
ganhado a margem de 30 quilômetros entre os trilhos e, com a ajuda
de outra empresa estrangeira, explorava madeira e jogava na rua os
camponeses pobres. Esses, sem-terra e sem nada, vagavam pelas
estradas, também sem rumo. Até que encontraram um ponto de coesão
na liderança de um monge chamado João Maria.
O
conflito foi batizado de “messiânico”, porque era amparado na fé
do povo, mas, na verdade, tinha como pano de fundo, estrutural, toda
essa história de expulsão dos pequenos camponeses das terras, que
ficaram nas mãos das empresas estrangeiras. Esse foi o caso das
terras ocupadas neste dia 15 de abril de 2007 pelas famílias
catarinenses. Elas foram exploradas por uma empresa estrangeira, a
Lumber, até 1960. E, nelas, por “concessão” da dita empresa,
viviam algumas famílias desde o final de 1916.
No
distante 1960, quando a empresa, já tendo esgotado a madeira das
terras, decidiu sair do país, e deixou a posse do lugar para o exército,
viviam na área 41 famílias. Também naqueles dias, elas sentiram o
peso do terror e das armas. Depois de uma vida ali, foram obrigadas
a sair. E não foi em paz. Houve confronto e uma pessoa morreu. Um
homem, que foi enterrado no terreno que havia sido seu. E era dele
que se falava na noite fria, enquanto os alto-falantes do exército
insistiam num texto que falava de Jesus e de justiça. “A noite
vai ser longa, pensem nos seus filhos. Eles não merecem isso”,
dizia a voz. As mulheres se entreolhavam, cúmplices: pois era
justamente pelos filhos que estavam ali. Na bruma causada pela
chuva, parecia se ver o velho fantasma do homem que ali lutou e ali
morreu. Ninguém iria desrespeitá-lo com a fuga.
A
saída
Segundo
o MST, essa terra usada pelo exército não tem se prestado só a
manobras do exército. Ela é seguidamente arrendada para
fazendeiros da região, o que se constitui uma irregularidade no
entender do movimento. Tanto que eles já estão com uma ação na
justiça para colocar tudo em pratos limpos. A ocupação aconteceu
ali justamente para chamar a atenção do governo sobre isso. A
proposta dos camponeses era de sair, desde que fosse agendada uma
reunião com o ministro da Justiça para discutir esse assunto do
uso das terras pelo agro-negócio, enquanto as famílias de
sem-terra seguem não tendo um lugar para reproduzir suas vidas.
Para
apertar a pressão, quando o dia amanheceu, a água, que vinha de
uma bica instalada no local, tinha sido cortada. A segunda-feira
passou em meio ao terror e a negociação. Dentro do acampamento,
sem permissão para sair, cercados pelos tanques e caminhões do exército,
estavam as famílias camponesas, estudantes, sindicalistas, enfim,
centenas de pessoas. Lá fora, seguiam as conversas. Mas, no fim do
dia, aparentemente, venceu o terror.
As famílias iniciaram o
processo de retirada, desmontando os barracos, recolhendo as
tralhas. Os milicos não permitiram a entrada dos caminhões e tudo
teve de ser levado no braço. A trilha de gente carregando coisas
seguiu pela estrada, ladeada por soldados, em mais uma tentativa de
humilhação.
Mas,
para quem está na luta desde sempre, essa foi só uma aparente
derrota. A ocupação cumprira seu objetivo: fazer com que o governo
voltasse os olhos para a área de Papanduva. As coisas vão ter de
mudar por ali, dizem as lideranças do MST. Passar pelos milicos, à
pé, com o barraco nas costas, não é humilhação para este povo
trabalhador que, de fato, constrói o país. Eles sabem que, sem
luta, os filhos da pobreza nunca vão conseguir nada. Tudo o que é
conquistado vem assim, porque eles se arriscam, porque se
comprometem, porque tomam direção, porque enfrentam a força.
Hoje, os soldados armados impõem a retirada. Mas, o que são eles
sem as armas? Que força têm? Já os camponeses têm a memória. A
coletiva memória das lutas de sempre. E essa é uma força que
ninguém pode menosprezar.
Não
foi à toa que quando os soldados voltaram ao quartel, àquela mesma
gente, no silêncio, na organização, barraco nas costas, ocupou
outra área no Estado. Porque esta luta só vai ter fim quando a
terra e a riqueza forem repartidas. A reforma agrária virá, ora se
não!...
por ELAINE TAVARES |
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