Os
novos rumos da esquerda italiana
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A
esquerda se rearticula
Não
basta saber narrar a história, é preciso saber contar o futuro.
Com esta frase de efeito, Piero Fassino concluía seu longo
discurso no 4º Congresso da Democratici di Sinistra (DS),
realizado em Florença em 19 de abril, partido que um dia foi o
Partido Comunista da Itália. Pouco antes, havia sido anunciada
a vitória da tese de Fassino, que contou com o voto de 75,6% do
total de 255 mil militantes da DS que participaram da consulta
partidária. Estava em jogo o fim da DS e sua fusão com a
Margherita, partido da ala católica progressista do país que,
embora tenha oficialmente seguido as orientações do Vaticano,
não raro votou a partir da pauta da esquerda italiana. No final
da mesma semana, Margherita realizou seu congresso em Roma, com
o mesmo objetivo de iniciar o processo de fusão, nascendo assim
o Partido Democrático (PD).
A
fusão não foi e não será uma tarefa simples e passará por
um longo período de processo constituinte, estimada por vários
dirigentes presentes no 4º Congresso como não inferior a oito
meses. A corrente liderada por Fabio Mussi, representante de 15%
dos delegados, contrária à fusão, anunciou nos dias que
antecederam este congresso que abandonariam a DS e tomariam um
caminho até aqui considerado totalmente incerto.
Não
é um caso simples de fusão. O 4º Congresso da DS esteve o
tempo todo revestido de grande simbologia e comoção entre os
1.550 delegados.
As
novidades começam com a insólita presença de Silvio
Berlusconi durante todo o primeiro dia do Congresso da DS.
Berlusconi é o líder da oposição, uma nítida oposição de
direita ao governo de centro-esquerda da Itália, liderado pela
DS, mas composto por uma coalizão (L´Unione) que envolve todo
espectro de partidos radicais (como o Partido Verde e a Refundação
Comunista) e reformistas (como DS e Margherita). Seria algo
similar à presença de Jorge Borhausen, durante mais de três
horas, num congresso nacional do PT. Berlusconi esteve sentado
na primeira fileira do congresso da DS, não foi hostilizado e,
ainda, recebeu uma menção no discurso de Fassino, que
agradeceu sua presença e disse que ela demonstrava que não
eram inimigos, mas adversários e que adversários se respeitam.
Muitos
delegados presentes afirmavam que esta decisão histórica
remonta à união dos socialistas italianos em 1966 que durou
apenas dois anos. Os mais experientes citaram Antonio Gramsci,
fundador do Partido Comunista Italiano, que pregava a aproximação
dos comunistas com os católicos na construção de um projeto e
discurso hegemônico na Itália. O fato é que se a direita está
unida ao redor de Berlusconi, agora a esquerda se recompõe: os
partidos radicais (Refundação Comunista e Partido Comunista)
anunciam sua fusão; as correntes socialistas fazem o mesmo e, a
partir de agora, DS e Margherita iniciam seu processo
constituinte para lançar, em 2008, a assembléia de fundação
do Partido Democrático.
A
criação do PD parece ser o lance mais ousado e inovador deste
processo de rearticulação da esquerda italiana. É uma aposta
no futuro, como dizia o slogan do 4º Congresso da DS, uma
aposta na articulação do projeto coletivista socialista com o
respeito à individualidade dos liberais progressistas.
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A
esquerda que sobreviveu?
No
discurso de Fassino, todas as senhas para a criação do PD
foram citadas, o que didaticamente facilitou a compreensão da
novidade que se anuncia. Do ponto de vista ideológico, duas
questões parecem fundamentar sua criação: a sobrevivência do
projeto de esquerda após a queda do Muro de Berlim e a renovação
da pauta e estrutura organizativa dos partidos, abertos à
juventude e à alternância de poder interna e, assim, legitimar
as estruturas partidárias como representação social.
Fassino
diz que o reformismo é a única esquerda que sobreviveu à
queda do Muro de Berlim, ao longo dos anos 90. Não deixa de ser
uma frase de efeito. Mas ela é acompanhada por uma extensa
pauta, que parece dar o tom desta inovação programática: a
busca da igualdade social, a sustentação da prosperidade, a
aproximação com o movimento ambientalista, a forte presença e
atração dos jovens, a defesa da segurança da nova família (monoparental,
com filhos adotados, com filhos oriundos de vários casamentos,
filhos de pais gays), o internacionalismo, a mundialização das
esquerdas (principalmente sua articulação na União Européia,
através do Partido Socialista Europeu, articulação de todos
socialistas democráticos do continente), o forte controle cidadão
e dos próprios militantes sobre os rumos do partido. Neste último
aspecto, se anuncia o voto secreto em todas decisões
congressuais do novo partido e o impedimento de dirigentes serem
reconduzidos aos seus cargos, garantindo a alternância e a
presença cada vez maior de dirigentes jovens, além da presença
das mulheres. A DS, hoje, possui uma grande parte de seus
dirigentes abaixo da faixa de 40 anos, algo impensável há dez
anos atrás.
Outra
novidade anunciada é a fusão das esquerdas, num processo não
muito comum na história deste espectro partidário. As
esquerdas, como é motivo de falas jocosas de quem não é de
esquerda, sempre se dividiu em correntes e frações. Os
dirigentes da DS sustentam que o mundo caminha, ao contrário,
para a bipolaridade. Não a bipolaridade excludente, violenta,
mas da alternância, da convivência e respeito democráticos.
Conversando
com os dirigentes da Juventude de Esquerda (DS) a aproximação
entre socialistas e liberais democráticos (esta é a denominação
mais empregada durante o 4º Congresso) ganha maior nitidez. Os
jovens, grupo social mais cobiçado pelos dirigentes da DS,
sugerem que a globalização instalou entre os jovens a
melancolia em virtude de um futuro incerto (25% dos italianos
entre 25 e 35 anos de idade ainda residem com seus pais, em
virtude da falta de oportunidades no mercado de trabalho) e a
busca de prazer imediato, pela diferenciação e senso estético
aguçado. A juventude se une a partir da identidade cultural
mas, principalmente, pela defesa da diferença, de nítido caráter
pessoal. Faz sentido para os jovens dirigentes da esquerda que a
pauta liberal se incorpore ao projeto socialista. Seria uma
mescla contemporânea, afirmam vários jovens presentes neste
Congresso. Por este motivo, a proposta de dar voz ao cidadão, a
partir de uma cota não determinada pelo partido, foi muito
ovacionada. Interagir com o cidadão comum (que alguns liberais
progressistas da Itália ainda denominam de cliente
em seu jornal Europa)
e criticar a burocracia partidária, que os jovens intitulam de
oligarquia, sugere uma tentativa de construção da competição
cooperativa, capaz de agregar mais pessoas. Sugere a
tentativa de diálogo com uma nova identidade cidadã, marcada
pela comunicação através do computador doméstico, pela relação
via internet, ao acesso instantâneo à informação, às tribos
sociais. A palavra de ordem do PD é a
construção de uma política difusa, radicada em todos territórios,
em rede, capaz de produzir cultura e agir no interior da
sociedade, sem se reduzir a um mero comitê eleitoral
(Artigo de Mario Rodriguez, publicado no jornal Europa,
em 19 de abril último, cujo título era Ceder
cota ao Cidadão). O que se falava pelos corredores do 4º
Congresso era a necessidade de se garantir a representatividade
partidária, via pluralidade intercultural da sociedade. Somente
assim, acreditavam os delegados presentes, será possível
reconstruir o sentimento de pertencimento social à uma
sociedade cada vez mais fragmentada e competitiva e desconfiada
dos partidos políticos.
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Nem
tudo são rosas
Já
se fala numa longa jornada. Não por outro motivo, a abertura do
4º Congresso da DS teve início com uma fala solo, em tom
teatral, de Caterina Cocchi, 22 anos, que saiu dos fundos do
auditório Nelson Mandela, passou pelas mesas dos delegados e se
postou à frente da tribuna. Relatou brevemente a recente história
dos jovens e da esquerda, falou da esperança na aliança
governista (a Unione) e na possibilidade de garantir seu desejo
no novo partido. E também não foi casual que Fassino tenha
terminado seu discurso conclamando à unidade das correntes
derrotadas na consulta pré-congressual. A unidade interna da DS
será tão delicada quanto a fusão da DS com Margherita.
O
prefeito de Bolonha, em carta aberta assinada por outros
prefeitos da DS, exigiu a garantia de um amplo processo de
discussão no que se intitula processo constituinte. Um processo
que envolva não filiados, cidadãos em toda Itália e italianos
não residentes em seu país. Esta preocupação com os
migrantes é cada vez maior, desde que se tornou possível, há
três anos, um italiano não residente na Itália concorrer e se
eleger senador ou deputado do Parlamento Italiano. São seis
cadeiras para o Senado e doze para a Câmara de Deputados que
hoje são preenchidas por representantes da comunidade italiana
do exterior. Talvez, a proposta mais globalizada da política
mundial até o momento. Esta possibilidade vem motivando a
organização de partidos e coalizões eleitorais italianos em
toda América Latina, onde deputados e senadores italianos foram
eleitos no Brasil, Argentina e Venezuela.
Os
discursos que se sucederam no segundo dia do Congresso da DS
foram desnudando as nuanças internas e as dificuldades dos próximos
dias.
Um
importante professor universitário iniciou sua fala dizendo que
ou o socialismo é radical, ou não existe. Destacou a luta histórica
dos sindicalistas europeus, a luta pela paz, finalizando a
necessidade de um autêntico programa reformista, que siga a
tradição socialista.
Logo
depois, um gay e uma lésbica discursaram, iniciando com o
sentimento que parecia reinante no Congresso: vivemos
um momento de grande desconforto, mas diremos sim ao PD, sim ao
respeito aos cidadãos, ao partido da sociedade inclusiva. Se
perdermos esta batalha, perderemos tudo. Lutamos pela inclusão
dos gays, lésbicas, bissexuais e transexuais. A direção paritária
não é apenas possível, mas necessária. Foram muito
aplaudidos, o que anunciava a forte expressão pela pluralidade
e pelo caráter laico da política pública, tema em questão e
debate na fusão de católicos e socialista (ex-comunistas).
O
autor da terceira tese (também derrotada pelos delegados),
Gavino Angius, deu forma ao apoio crítico que envolveu grande
parte dos delegados presentes. Propôs a reelaboração completa
do manifesto de constituição do novo partido. Sugeriu o
envolvimento de todo campo reformista socialista da Itália. A
aliança com católicos, afirmou, limita o campo cultural e político
do novo projeto. Foi muito aplaudido quando destacou a necessária
soberania do Estado, garantia da liberdade individual.
Este
foi um dos pontos destacados por Fabio Mussi, que fez o discurso
mais esperado do segundo dia. Mussi anunciou sua ruptura com o
processo de constituição do PD. Num discurso essencialmente
emocional, recuperou o eixo das teorias clássicas socialistas a
respeito da necessidade do Estado laico. Sustentou que o
catolicismo é um valor, mas não pode fundar um Estado moderno.
Com o PD, criaremos um problema na Europa: será a cisão da família
socialista européia. Em sua avaliação, o novo partido será
centrista e americano e não garantirá a Lei de Direito à
Convivência (DICO), que sustenta direitos ao casamento não
formalizado, a adoção e união entre gays, entre outros
direitos. E retornou ao foco das dúvidas presentes no
Congresso: o espírito
laico garante o espaço de todos. O Estado laico é a garantia
para a liberdade individual, é a garantia da liberdade da
cultura, da arte, da liberdade religiosa. Este é o único princípio,
não negociável, que garante a liberdade religiosa e evita os
conflitos entre convicções de fé. Criticou profundamente
o que denominou superpersonalização da política e desejou
sorte a todos delegados.
Antonio
Gramsci foi disputado por quase todos principais líderes que
discursaram. Gramsci da luta política como luta de idéias,
Gramsci da construção política sob hegemonia socialista,
Gramsci da renovação e criatividade marxista. O dirigente
comunista, preso pelo fascismo, foi utilizado como fundamento
para diversas posições no Congresso.
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Una
forza grande come il futuro o... il fantasmi socialisti
O
slogan do 4º Congresso da DS aludia a construção de uma
grande força política voltada para o futuro. No segundo dia
deste congresso, um importante jornal italiano estampava no seu
artigo principal que o socialismo teria se tornado um fantasma.
Um título irônico, porque fez lembrar o início do Manifesto
do Partido Comunista, escrito por Marx, embora a ironia fina do
texto de 1848 tenha se evaporado na página do jornal.
O
fato é que desde a queda do Muro de Berlim, a crise das
esquerdas (ou sua falência como projeto político real) foi
anunciada dezenas de vezes. Mas, ao contrário, as esquerdas
demonstram um incansável poder de renovação e reconstrução.
Os céticos dirão que se trata de tentativas desesperadas, de
fuga da crise. Mas tal argumento parece contestado pelas urnas
da América Latina e mesmo na Europa. O processo de preparação
do 4º Congresso da DS envolveu mais de 200 mil filiados em toda
a Itália e foi objeto de intensa procura e atenção da grande
imprensa local.
Não
é a direita que inova, a despeito de querer se firmar como não
conservadora. Mas não basta a inovação tecnológica para
mudar positivamente a vida social. É preciso ter um projeto de
humanidade, uma utopia e uma crença política coletiva. O
discurso das forças de direita parece continuar estacionado na
reação e não avança na proposição política. Na França
(onde esquerda e direita disputaram acirradamente as eleições
no final de semana em que ocorreu o 4º Congresso da DS), o
discurso das forças de direita tem na reação à imigração
seu trunfo eleitoral. Mas é a esquerda que apresenta
possibilidades reais de uma nova leitura da realidade e que propõe
se atualizar e construir alternativas de mudança e reconstrução
da utopia social ou da possibilidade humana.
A
DS se arrisca e avança numa direção até então inusitada
para a história das esquerdas. Arrisca-se para inovar e para
produzir seu aggiornamento.
Ao
se arriscar, pode estar apontando para uma nova concepção política.
De qualquer maneira, a polarização ideológica ganha nova
energia. A despeito das Cassandras que vaticinaram o fim da história.