por
ROSALVO
SCHÜTZ
Doutor em filosofia pela Universidade de
Kassel, Alemanha e pesquisador CAPES no Programa de Pós-Graduação
em Educação da Universidade Federal de Pelotas.
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Resenha:
VIEIRA,
Luiz Vicente, A democracia com pés de barro. Diagnóstico de uma
crise que mina as estruturas do Estado de Direito. Recife:
Editora Universitária da UFPE, 2006 (120p.).
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Estado
de Direito e Democracia:
uma
unidade impossível?
A
recente obra de Luiz V. Vieira “A democracia com pés de barro.
Diagnóstico de uma crise que mina as estruturas do Estado de
Direito” tem caráter inovador não apenas pelas reflexões inéditas,
mas também pelo fato de ser perpassada por uma postura metodológica
pouco cultivada entre nós: a crítica através da exposição. O
autor se propõe a expor a lógica imanente do Estado liberal de
Direito, ou seja, desvendar os elementos que este pressupõe para
afirmar-se como legítimo. A expressão “diagnóstico de uma
crise” revela que, a partir de um diagnóstico preciso, se abre a
possibilidade da crítica interna, sem a necessidade de apelar para
pressupostos ou moralismos externos.
Muito
além de um simples estudo de filosofia, esta obra revela profunda
atualidade porque tematiza a vida política latino-americana com uma
originalidade raramente vista nos meios intelectuais (tanto de
esquerda como de direita). O livro é, simultaneamente, uma “ducha
de água fria” naqueles que vêem no Estado de Direito a expressão
mais completa da democracia, e um “abrir de olhos” para aqueles
que, de tanto indignarem-se já caíram na resignação.
Utilizando-se do instrumentário teórico de Carl Schmitt, Rousseau
e outros, mostra que o sistema representativo moderno não se
coaduna com a democracia e que esta foi esvaziada de seus conteúdos
materiais no decorrer do processo histórico de consolidação do
Estado burguês de Direito. Na sociedade moderna a forma específica
de estruturar o espaço do Político corresponde e se complementa
com a sua base produtiva, produtora estrutural de injustiça. Ao
apontar para a diferença entre o significado do Político e do
Estado, entre “vontade geral” e “vontade de todos”, entre
Democracia e Estado de Direito, o autor abre uma nova perspectiva
para o agir político, não ficando mais preso aos pressupostos e
aparatos jurídicos pelos quais a democracia moderna foi domesticada
e instrumentalizada. Evidencia-se, assim, o quanto aquele agir político
apegado aos parâmetros reconhecidos por este sistema está, de
antemão, fadado a não interferir na base estrutural desta
realidade. A resignação e a impotência diante da realidade se
mostram, desta forma, como resultado de um diagnóstico equivocado e
insuficiente, incapaz de visualizar as possibilidades que esta
oferece.
Apontando
para novas formas do fazer político, nos quais a democracia passa a
ter um caráter mais substantivo e liberto das amarras formais do
Estado de Direito, como é o caso de Movimentos Sociais na América
Latina, o autor põe em evidência um potencial emancipatório que
emerge diante da crise de legitimidade das estruturas formais de
representação. Com estas teses, é diagnosticada a estrutura
falaciosa do pensamento que aponta para a moralidade individual como
origem dos problemas hodiernos. Segundo o autor, este tipo de
perspectiva inviabiliza a discussão em torno do bem comum e do agir
político num sentido mais amplo. Ao apontar para o Parlamento como
apenas um espaço de negociação de interesses privados e não a
expressão dos interesses públicos, em defesa dos quais este
geralmente se apresenta, o autor evita cair em uma ética do
discurso, como se fosse a chave de salvação para os problemas de
legitimidade política. Esta crise seria, antes, expressão da
progressiva falta de credibilidade do Estado de Direito como uma
determinada forma de expressão do Político, que urge ser superada.
Dito em termos hegelianos, antes seria um problema de eticidade do
que de moralidade.
Na
unidade constitutiva entre Estado Moderno e Sociedade Civil e, mais
especificamente, entre democracia parlamentar e economia
capitalista, o autor reconhece uma perigosa ameaça à Democracia.
Experiências de caráter autoritário, como o Nazismo ou o
Bolchevismo Stalinista, seriam decorrência de “crises agudas das
próprias democracias modernas”, que insistem em não pôr em
questão os seus fundamentos. Esta cegueira, diante do inexorável
relação entre o direito liberal e a vida material determinada pelo
capitalismo, é o que precisaria ser desobstruído, a fim de tornar
possível um agir político genuíno. Portanto, compreender o
fundamento e a função do sistema representativo moderno é tomado
como uma referência central pelo autor. Por isto, o próprio
conceito de representação é analisado logo no primeiro capítulo,
onde se evidencia a contradição deste com a democracia direta.
Como os representantes se dizem representantes do povo, também o
conceito de povo adquire uma importância estratégica na análise.
Fica claro que, na democracia moderna, não é a vontade geral do
povo que é representada, mas sim a soma de indivíduos e de
interesses particulares. Povo, enquanto unidade política, é
simplesmente ignorado dentro do horizonte liberal. Em vez de uma
referência substancial para o agir político, é tomada apenas a
igualdade formal diante da lei, onde o povo enquanto unidade originária
e com interesses públicos comuns, fica simplesmente excluído do
cenário das decisões políticas modernas. Impede-se, assim, uma
intervenção substantiva na base produtiva geradora de
desigualdade.
Outro
conceito chave é o de soberania, pois, através de sua tematização,
tornam-se claros os alcances da concepção política moderna. A análise
histórica e teórica deste conceito revela que ele passou por um
processo abstraidor, ou seja, um processo que progressivamente tirou
dos governos e povos a possibilidade do agir político autônomo e o
submeteu a regras e leis racionalizadas. Este processo é agravado
com a divisão dos poderes, baseado na crença mistificada de que o
resultado da concorrência entre poderes seria automaticamente o
melhor para a sociedade, independente do seu conteúdo. Recorrendo a
vários pensadores, como Locke, Hobbes, Montesquieu, Kelsen, Hayek,
Schmitt o autor mostra como o espaço político foi progressivamente
perdendo sua autonomia e sendo atrelado a uma ordem abstrata, cada
vez mais mancomunada com a “ordem espontânea do mercado” até
ser totalmente submetida a esta. A lei enquanto “norma geral e
abstrata” passa, assim, a ser uma das condições para a implantação
e manutenção da economia de mercado. A redução do caráter político,
presente em toda a comunidade humana, ao seu caráter estatal ou,
ainda mais especificamente, ao caráter partidário, tornou-se uma
necessidade para a manutenção do sistema. A discussão pública, a
publicidade e mesmo a separação dos poderes se revelam falaciosos
e enganadores quanto aos objetivos anunciados, uma vez que não é
resultado do equilíbrio do discurso público, mas de negociatas
reservadas de interesses privados. A crise de legitimidade,
portanto, não reside na deficiência moral dos integrantes dos
governos, mas nos pressupostos e na própria estrutura instituidora
do Estado moderno, expresso de modo exemplar na forma e função do
Parlamento.
Não
há moralização ou caridade individual, nem discurso ético que
possa por fim a esta crise de legitimidade. Sua superação exige
uma práxis social que ultrapasse os limites da legalidade
formalizada e de seu jogo político-institucional correspondente, a
fim de fundar uma nova forma de agir e de poder para re-estabelecer
o espaço político como autônomo e livre. É nesta perspectiva que
o autor, nos dois últimos capítulos, analisa experiências políticas
latino-americanas que poderiam estar apontando novas perspectivas
para o Político. Desta forma, a teoria exposta no livro mostra sua
força compreensiva, capaz de revelar potenciais emancipatórios do
interior da atual crise.
Um
dos limites do livro pode ser atribuído a uma tomada demasiadamente
apressada, pelo menos do ponto de vista do leitor, de conceitos
relativamente perigosos como, por exemplo, o de homogeneidade,
tomado de Carl Schmitt e pouco questionado. Como sabemos, este
conceito foi muito bem instrumentalizado pelo Nazismo, tendo a raça
como referência. O fato de o autor, mais para o final do livro,
passar a utilizar o conceito de unidade orgânica em vez de
homogeneidade, revela talvez que o autor se movimentou de forma
progressiva, numa perspectiva emancipatória e democrática, sem
cair na tentação iluminista de abstrair do substancial. Talvez o
autor tenha sido imunizado deste mal por diversas décadas de militância
e engajamento político e social.
Após
a leitura do livro, podem até permanecer questionamentos e
incertezas, próprios de um novo olhar sobre as coisas, mas não há
dúvida de que o diagnóstico feito encontra ressonância na
realidade e de que o “diagnóstico correto de qualquer patologia não
constitui nenhum perigo para o paciente, muito pelo contrário, é o
primeiro passo para a restauração de sua saúde” (VIEIRA: 2006,
106). As conseqüências político-pedagógicas deste diagnóstico,
em grande parte, precisam ainda ser elaboradas e construídas e,
certamente, hão de ter perspectivas bastante diversas de muitas
atualmente em voga.
por
ROSALVO
SCHÜTZ
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