por RENÉ E. GERTZ

Professor nos Departamentos de História da PUCRS e da UFRGS

 

Resenha:

Sílvio Correa e Juliana Bublitz. Terra de promissão: uma introdução à Eco-história da colonização do Rio Grande do Sul. Santa Cruz do Sul/Passo Fundo: UNISC/UPF, 2006

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Livro abre polêmica sobre conseqüências ambientais da colonização

 

Num congresso sobre história da imigração alemã, em 1984, em São Leopoldo-RS, o militante ecologista Benjamin David Barbiaro apresentou um trabalho em que fez graves acusações aos imigrantes alemães por agressões à natureza, no Rio Grande do Sul. Segundo ele, foram “responsáveis ativos na ação depredadora, pois foram eles que levaram a efeito, de forma prática, a agressão ao meio-ambiente natural”. “Tal agressão configurou-se através do desmatamento, caça de animais nativos, queimadas para a limpeza de terreno etc.”.

Quando, em 1996, Luís Augusto Fischer e eu estávamos montando o livro Nós, os teuto-gaúchos (Editora da UFRGS), queríamos que um dos textos da coletânea tratasse desse tema. Entrei em contato telefônico com José Lutzenberger, e ele me convidou para uma conversa. Quando lhe apresentei nossa proposta e fiz referência à avaliação de Barbiaro sobre a relação de imigrantes e descendentes com o meio-ambiente gaúcho, ele disse que essa visão lhe parecia um pouco simplista. Prontificou-se a colocar no papel sua visão sobre o assunto. Mas, infelizmente, depois de várias consultas para saber da conclusão do texto, a secretária de Lutz acabou informando que não adiantaria esperar, porque ela tinha certeza de que ele não conseguiria escrever, por falta de tempo.

Dez anos depois, dois jovens pesquisadores apresentam um pequeno, mas importante, livro sobre o tema – Sílvio Correa e Juliana Bublitz, ela jornalista e doutoranda na Universidade Federal do Rio de Janeiro, ele professor na UNISC, doutor pela Westfälische Wilhelms-Universität, Münster, Alemanha. No livro Terra de promissão: uma introdução à Eco-história da colonização do Rio Grande do Sul (Santa Cruz do Sul/Passo Fundo: UNISC/UPF, 2006), vão muito além da imigração alemã, analisando com seriedade e erudição o impacto de todas as correntes migratórias sobre o meio-ambiente gaúcho. Começam com o projeto jesuítico das Missões, passam pelos açorianos e chegam aos alemães, italianos, judeus, terminando com as “colônias mistas” do período republicano, no planalto gaúcho.

O livro levanta uma questão interessante. No mundo ocidental, civilização e cultura têm sido contrapostas à natureza. Segundo essa concepção, a presença daquelas se caracteriza justamente pelo domínio do homem sobre esta. Esse espírito teria dominado o projeto de colonização. Assim, mesmo que alguns intelectuais tenham, desde o começo, alertado para possíveis efeitos negativos da colonização sobre o meio-ambiente, outros teriam sido verdadeiros piromaníacos. Os autores citam, nesse sentido, o viajante alemão Oscar Canstatt – “tive ocasião de apreciar um belo espetáculo..., quando, exatamente defronte de minha janela, puseram fogo a um roçado na encosta”; ou o próprio Avé-Lallemant – “ali ressoa o machado na floresta, ali o fogo da lavoura corrói matas até então indômitas”.

Quando sobem para Caxias do Sul, os autores incluem novas variáveis em sua análise. Ficamos sabendo que os italianos investiram decididos contra passarinhos, ratos, gafanhotos e formigas. Mas ali a relação com a natureza não tinha apenas motivações econômicas, e sim também religiosas, pois o desflorestamento para o cultivo de uvas e de trigo visava a gerar dois produtos de profundo significado religioso: o pão e o vinho.

A responsabilidade dos cidadãos judeus da colônia de Quatro Irmãos, lá no norte do estado, pela alteração do meio-ambiente talvez não tenha sido tão grande quanto a da empresa colonizadora, a conhecida Jewish Colonization Association (a JCA ou ICA), com sua intensa exploração da madeira.

Já as “colônias mistas” do planalto reuniram parte das vantagens, mas, sobretudo, a maioria dos defeitos das experiências anteriores, em especial no trato com a natureza.

Uma ausência a ser assinalada é um capítulo sobre a história do movimento ecologista no Rio Grande do Sul. Se é inquestionável que a colonização trouxe alterações para o meio-ambiente gaúcho, também é verdade que a lista de sobrenomes dos “pais-fundadores” dos movimentos ecologistas mostra uma presença não desprezível de “colonos”. O livro cita, com largueza, Balduíno Rambo, mas não há uma análise crítica da atuação do cientista nesse campo. Da mesma forma, o livro de Isabel Gritti, citado na avaliação da Jewish Colonization Association, relata um episódio envolvendo aquele que costuma ser apresentado como patrono do movimento ecologista gaúcho, Henrique Luís Roessler, o qual, na qualidade de Delegado Florestal Regional, fez a seguinte declaração oficial sobre a atuação da empresa, em 1951, quando circulavam denúncias contra ela: “A ICA está perfeitamente enquadrada nos dispositivos do Código Florestal, estando as suas obrigações de reflorestamento em dia, conforme foi verificado pessoalmente pelo signatário deste”.

Balduíno Rambo, apesar de muitas vezes criticar os camponeses pelo trato com a natureza, foi um dos maiores entusiastas da “colônia”, levando Theo Kleine a escrever, justamente sob esta perspectiva, que “um homem desses só nasce a cada cem anos”. Uma análise mais detalhada do posicionamento dos intelectuais, posicionamento influenciado pelo contexto em que viviam, talvez lançaria uma luz menos negativa sobre os próprios “colonos”.

Apesar do rigor acadêmico, o livro é militante. Essa característica transparece quando os autores destacam que não tiveram financiamento para a execução de seu projeto, o qual foi concretizado “ao ritmo do ‘historiador do domingo’”, afirmação que sugere que não se trata de um produto da rotina acadêmica usual, mas do cumprimento de uma missão. O texto, com certeza, desencadeará intenso debate, em decorrência de vários pontos polêmicos. Na análise da história das “colônias mistas” do planalto, por exemplo, o historiador Sérgio da Costa Franco é criticado pelos seus elogios aos planos “ajuizados e fecundos” de colonização dos positivistas Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros.

O próprio autor destas linhas se candidata a entrar no debate, pois em 2004 publicou um pequeno texto em que sugeriu que Santa Rosa – talvez o projeto de “colonização mista” mais característico da política castilhista-borgista – fosse transformada em Capital do nosso estado, exatamente pelas qualidades político-culturais da região. Quase três anos depois, ninguém provou que a proposta não seja sensata. Claro, nessa avaliação, só entraram fatores socioeconômicos, políticos, religiosos e culturais. Não há como negar que o fator ecológico, apresentado pelos autores, também merece ser considerado.

O sociólogo nos ensinou que as Ciências da Cultura, como a História, gozam do dom da “eterna juventude”, e o livro de Sílvio Correa e de Juliana Bublitz traz abundante material que pode abrir um novo ciclo de debates em torno da História do Rio Grande do Sul.

por RENÉ E. GERTZ

 

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