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por
ANDRÉ TORTATO RAUEN
Doutorando em Política Científica e Tecnológica
(UNICAMP)
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Tecnologia
e (des)emprego:
breve
síntese do debate atual
Introdução
Apesar
da introdução no conjunto das economias desenvolvidas das novas
tecnologias de informação e comunicação (TIC`s) se verificou ao
longo dos últimos anos do século passado um incremento
significativo nas taxas de desemprego, especialmente na Europa
Continental. Traçar a correlação entre essas novas tecnologias e
o desemprego é tarefa extremamente complexa. Esta, não é,
portanto, uma relação direta, ela depende de fatores sociais e
institucionais, por isso, as economias nacionais respondem de forma
distinta às mudanças promovidas pelas recentes inovações tecnológicas.
Não obstante, as TIC`s promovem uma reestruturação das estratégias
industriais, conformando inclusive, o início de uma nova dinâmica
econômica.
A
problemática do emprego pós – 1970 do século XX, nos países
desenvolvidos pode ser sumariamente caracterizada pelos seguintes
fatos estilizados: (i) desemprego estrutural fortificando-se a cada
recessão; (ii) crescimento das formas atípicas de trabalho; (iii)
significativos investimentos no treinamento da força de trabalho e
(iv) exacerbação do desemprego de longo prazo e dos jovens.
Este
pequeno artigo tem por objetivo lançar alguma luz sobre o debate
que se estruturou em torno das relações existentes entre a mudança
técnica com a respectiva introdução de inovações e a geração
de postos de trabalho. A fim de tentar atingir este ambicioso
objetivo, sem absolutamente esgotar o assunto, dividiu-se as
principais contribuições sobre o tema em duas correntes de
autores. A primeira corrente apresentada considera o desemprego
atualmente existente, grosso modo, como sendo uma conseqüência de
um descompasso entre o ambiente institucional e os requerimentos e
demandas das tecnologias, esta visão é apresentada na primeira seção.
A segunda seção analisa, mesmo que rapidamente, as contribuições
de autores que vêem o atual processo de introdução de inovações
como responsável pelo fim do emprego formal. Por fim encerra-se o
artigo, com uma breve conclusão.
Tecnologia
e emprego: uma questão de ajustamento institucional
As
inovações tecnológicas desenvolvidas nas últimas décadas do século
XX foram fortes o bastante para promover mudanças qualitativas no
padrão de desenvolvimento das sociedades capitalistas. Para Freeman
(1995), não restam dúvidas quanto ao surgimento de um novo
paradigma técnico – econômico e o conseqüente início de um
novo Kondratiev. Mattoso (1995), chama este período, de
desenvolvimento e introdução de inovações, de terceira revolução
industrial.
Dois
são os processos a serem considerados no tocante a questão do
emprego e da tecnologia. O primeiro, é aquele que diz respeito ao
ajustamento das economias desenvolvidas ao novo paradigma tecnológico
e o segundo, ao ajustamento à nova realidade econômica de
mundialização do capital. Estes dois processos forjam o novo
paradigma técnico – econômico. Os diferentes cientistas sociais
que se dispõem a tratar do tema vêem estes processos de formas
distintas. Do ponto de vista do desemprego, há aqueles que
acreditam ser o mesmo um problema inerente à transição a um novo
padrão de produção. Por outro lado, tem-se os cientistas sociais
que pensam ser a introdução das novas tecnologias, o processo de
globalização e a reengenharia, o fim do emprego formal e o início
de uma era de precarização e informalização das relações
humanas.
Pettit
(1995) considera o desemprego conseqüência de um processo no qual
o descompasso tecnológico entre as tecnologias empregadas pelos
fornecedores e a aceitação das mesmas pelo mercado tem papel
fundamental. Pois, espera-se que as TIC`s possam aumentar a
produtividade e dinamizar a economia, gerando assim novos postos de
trabalho. Uma vez que, apenas nos modelos econométricos que
consideram “tudo mais constante” ganhos de produtividade
significam desemprego. A experiência do pós-guerra, contudo prova
o contrário. Ou seja, os elevados ganhos de produtividade do período
foram concomitantes à geração de empregos. Assim, acredita-se que
as mudanças tecnológicas promovidas pelas TIC`s e a introdução
das mesmas na economia gerem efeitos multiplicadores na economia.
Nesse contexto, a demanda pelas novas tecnologias tem sido muito
fraca se comparada com a oferta. Este descompasso é em certa medida
responsável pela estagnação econômica e pelo desemprego (Pettit,
1995).
Freeman
(1995) aborda a relação das novas tecnologias com o emprego de
forma distinta, mas que possui como resultado uma explicação muito
semelhante. Assim, o desemprego verificado nas últimas décadas do
século XX é resultado de um desencontro entre as novas tecnologias
e um obsoleto sistema social. Os países desenvolvidos, notadamente
a Europa, estão vivenciando um processo de ajustamento às novas
condições impostas pelas TIC`s. Este processo faz parte da
“destruição criadora” promovida pelas inovações tecnológicas.
O desemprego deve-se então, ao ajustamento dos agentes econômicos
a essa nova dinâmica. As TIC`s não geraram aumentos significativos
de produtividade e nem dinamizaram a economia, pois, é a difusão e
não a pura e simples introdução de inovações que garante que o
processo de “destruição criadora” seja iniciado. Dessa forma,
levará tempo, segundo Freeman (1995) e outros, para que os
investimentos nas novas tecnologias gerem ganhos de produtividade.
Contudo, verifica-se no atual momento, apenas uma exacerbação da
competição entre firmas. Nesta forma de abordar o problema,
torna-se latente a necessidade de pesados investimentos em novas
tecnologias e mudanças institucionais no sentido de criar um
ambiente social hospitaleiro ao novo paradigma técnico – econômico.
Entre elas a flexibilização da economia.
Castells
(apud Dupas, 1999),
acredita que as novas tecnologias não desempregam, pelo contrário
elas têm o poder de catalisar o progresso econômico e permitir a
criação de novos postos de trabalho. Para este autor o desemprego
é um problema europeu, fruto de políticas macroeconômicas
equivocadas.
No
processo de difusão destas novas tecnologias, o aprendizado por
tentativa e erro é fundamental para encontrar a forma de uso ideal
para estas tecnologias. O aprendizado é característica deste
momento de transição do paradigma tecnológico, no qual está se
processando a “destruição criadora”. Pettit (1995), apresenta
três explicações para a baixa produtividade do período: (i) as
firmas ainda não sabem empregar as TIC`s com eficiência; (ii) os
trabalhadores tem dificuldade em aprender a utilizar essas
tecnologias e (iii) existência de certo desencontro, quanto ao grau
de importância das novas tecnologias que é conferido pelos
fornecedores e pelo mercado.
Este
novo padrão produtivo, que tem início com a introdução das TIC`s
é chamado por Mattoso (1995) de terceira revolução industrial.
Pois, destrói a forma como se dava o desenvolvimento e recoloca
novos problemas cujas respostas ainda não foram encontradas. Daí a
dificuldade em dinamizar a economia e gerar novos postos de
trabalho.
Tecnologia
e (des)emprego: o fim do trabalho formal?
As
transformações produzidas pelas inovações tecnológicas no âmbito
das comunicações e dos transportes conformam uma nova realidade.
Uma realidade marcada pelas estratégias globais e pela segmentação
das cadeias produtivas. As decisões de investimento agora, nesse
novo contexto, consideram as especificidades das economias locais,
permitindo que as grandes corporações tenham um grau de mobilidade
nunca antes verificado. Como conseqüência, num primeiro momento,
as atividades mais simples foram deslocadas aos países periféricos
e num segundo estágio também atividades mais complexas. Estes
fatos aliados ao processo de ajustamento tecnológico corroboram
para uma piora significativa do nível de emprego verificado nos países
centrais do capitalismo. Apresentando uma abordagem qualitativamente
diferente, Rifkin (apud Dupas, 1999) e Chesnais (1996), mostram como as novas
tecnologias e a mundialização do capital possuem efeitos deletérios
sobre o nível de emprego formal.
Rifkin
(apud Dupas, 1999), afirma
que a automação junta com as novas técnicas de reengenharia
acabaram com o emprego. “Socialmente a tecnologia traria mais
desvantagem do que vantagens”. Para Dupas (1999), o número de
trabalhadores estáveis vem caindo gradativamente e tende a cair
ainda mais, como alternativa, o emprego informal e precário tem
crescido consideravelmente.
Como
conseqüência, grande parte dos desempregados tem se constituído
de jovens que ingressam no mercado de trabalho, forçando boa parte
dos recém formados a aceitar empregos em atividades que requerem um
nível de instrução inferior aos possuídos por estes mesmos
jovens.
De
acordo com Dupas (1999), a “tendência geral” será a menor criação
de postos de trabalho pelas grandes corporações uma vez que, a
automação e a informatização da gestão aliada aos processos de
seletividade de investimento, características da nova dinâmica, vão
gerar cada vez menos empregos por dólar investido. Assim três tendências
empíricas são verificadas na atual realidade: (i) geração cada
vez menor de empregos formais; (ii) flexibilização contínua da mão
– de – obra e (iii) exploração crescente do trabalho informal
nas atividades mais simples das cadeias produtivas.
Em
nome das estratégias empresariais que visam competitividade
internacional, o capital busca valorizar-se através do combate ao
trabalho organizado, tencionando com isto tornar o trabalhador cada
vez mais dispensável de seu processo de valorização. Esta é a
dinâmica verificada na “modernização conservadora” da década
de oitenta do século XX, na qual a inovação de processo e as técnicas
de reengenharia e automação possuíam destaque (Mattoso, 1995).
O
encolhimento dos Estados nacionais, forçado pela lógica da
mundialização do capital, termina por fechar este ciclo vicioso de
valorização do capital, no qual cada vez menos são criados novos
postos de trabalho no setor público, corroborando ainda mais para a
deterioração dos níveis de emprego formal nos países avançados.
Para
Chesnais (1996), o desemprego além de ser conseqüência da introdução
das novas tecnologias é atribuído também a mobilidade do capital
permitida por estas mesmas inovações tecnológicas, notadamente
nos transportes e nas comunicações. O padrão de acumulação
fordista é destruído e o nível alto e bem remunerado de emprego
desaparece, em seu lugar surge a marginalização e o desemprego
estrutural.
Para
Dupas (1999), no contexto da globalização, apenas o crescimento
econômico pode desencadear um processo no qual novos postos de
trabalho serão gerados.
“O
Estado contemporâneo não se sente mais responsável pelo pleno
emprego. As corporações transnacionais também não. Agora sem a
proteção do Estado, o homem volta a sentir com toda a força sua
dimensão do desamparo” (Dupas, 1999).
Conclusões
A
partir do exposto, conclui-se que a distinção fundamental entre os
dois grupos (se assim se pode classificar) diz respeito à
temporalidade do desemprego, ou em outras palavras, o que uns
consideram apenas conjuntural outros pensam ser estrutural.
Assim,
os autores que consideram ser a contemporaneidade marcada por um
processo de destruição criadora, acreditam que o desemprego
atualmente verificado está associado à certa incompatibilidade
entre as possibilidades das tecnologias da informação e comunicação
e a infra-estrutura institucional marcada pela rigidez.
Noutro
lado do espectro, tem-se um conjunto de pesquisadores que percebem
ser este o tempo em que o trabalho formalmente estabelecido
fragmenta-se, e em seu lugar surgem formas atípicas, porém não
definidas de trabalho. Mas cuja, tendência geral é de deterioração
do chamado mundo do trabalho.
por
ANDRÉ TORTATO RAUEN
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