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por
PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil

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Está
aumentando o número de idiotas no mundo?
Com
o perdão daqueles mais sensíveis à crueza da questão-título,
respondo diretamente à pergunta. E a resposta é, ao mesmo tempo:
sim e não! Explico um pouco melhor aqui abaixo.
Sim,
infelizmente pode-se constatar empiricamente – mas isto poderia
ser confirmado por alguma investigação “científica” – que
está aumentando, para cifras nunca antes registradas nos meios de
comunicação, o número de imbecis, idiotas ou simples energúmenos,
cujas opiniões, elucubrações ou meras manifestações de
“pensamento” conseguem ser captadas por esses meios de comunicação,
encontrando assim um eco mais amplo nos veículos impressos e
audiovisuais.
Por
outro lado, nunca foi tão volumosa a produção científica ou a
simples escolarização de massas antes excluídas do acesso à
educação (de qualquer nível e qualidade). Com isso, a cultura
científica se dissemina em meios antes entregues às mais variadas
influências “culturais”, desde o curandeirismo shamânico até
o fundamentalismo religioso pretendidamente “cientista”. Assim,
a humanidade “progride”, ainda que isto possa ser descrito como
sendo uma “fatalidade natural” do acúmulo do conhecimento científico
e que esse saber esteja em muito poucas mãos (e cérebros).
Com
esses dois processos se desenvolvendo simultaneamente, a resposta à
pergunta central é, portanto, dupla e contraditória: nunca foi tão
grande o número de pessoas partilhando de um mesmo conjunto de
explicações simplistas – e basicamente erradas, quando não
idiotas – sobre as complexidades do mundo e da vida, ao mesmo
tempo em que aumenta gradativamente o número daquelas capazes de
galgar as escarpas ásperas da ciência e de adotar explicações
racionais, a fortiori
racionalistas, para esses mesmos problemas. Uma coisa não exclui a
outra, portanto.
Como
sabem todos aqueles que lidam com sistemas educativos, quando se
amplia o acesso às instituições formais de ensino a uma clientela
a mais extensa possível, parte da qual era antes excluída desses
meios, é inevitável a queda de qualidade da educação formal, uma
vez que se está lidando com os mais despreparados e carentes de
toda e qualquer informação. Pessoas que antes eram “educadas”
nas superstições e crendices “normais” dos meios populares, na
baixa cultura dos estratos inferiores da sociedade, passam, de um
momento a outro, a dispor de maior acesso aos canais da
sociabilidade e aos meios de comunicação de massa, como revistas,
jornais e internet. Alguns até conseguem sucesso nos meios
profissionais e se tornam pessoas de renda elevada, detendo
capacidade de influir na tomada de decisão de empresas e de
governos, e de influenciar, portanto, uma maior número de indivíduos
à sua volta. Se essas pessoas conseguiram adquirir, através da
escola e dos livros, uma cultura superior, logicamente estruturada e
cientificamente embasada, tanto melhor: elas poderão disseminar uma
cultura superior àquela que tinham em seus meios de origem e
contribuir assim para a elevação espiritual da humanidade. Se, ao
contrário, elas passaram impunes pela educação formal e
conservaram – até aumentaram, por hipótese pessimista – as
mesmas superstições de origem, os mesmos preconceitos primários,
as mesmas explicações ingênuas que compõem o lote comum da
humanidade desde tempos imemoriais, então só podemos prever o
pior: o aumento das opiniões não-fundamentadas, e das respostas
equivocadas às questões mais complexas da vida e da sociedade.
Pode-se até prever a consolidação da ignorância num verdadeiro
“sindicato dos energúmenos”, cujos filiados crescem a olhos
vistos.
Isto
se aplica, por exemplo, aos obcecados pela astrologia e pelas
explicações “mágicas” sobre o “sucesso” na vida (no amor,
nas finanças, na longevidade) e, sobretudo, em relação ao
crescimento do fundamentalismo religioso e de variantes do
criacionismo, que só posso explicar como representando a imbecilização
congenital de pessoas até medianamente bem dotadas de acesso à
educação formal e a meios decentes de vida. De fato, estou cada
vez mais surpreendido com o crescimento dessas interpretações
literais sobre a origem do universo, da vida na Terra e da criação
dos homens e dos demais seres vivos, “explicações” que afetam
basicamente a história e a biologia (com todas as suas variantes na
geologia, na antropologia ou na arqueologia).
Sem
querer ofender ninguém em particular – mas possivelmente
ofendendo, mas não me desculpando por isso –, só posso atribuir
ao triunfo da ignorância o fato de que mais e mais pessoas resolvem
aderir a essas versões ingênuas, simplistas e profundamente
equivocadas sobre a origem da vida e seu desenvolvimento na face da
Terra. Essas mesmas pessoas, obviamente, recusam a teoria da evolução
e suas conseqüências práticas, sendo portanto totalmente ineptas
para qualquer tipo de carreira científica, pelo menos nas áreas de
biologia, de geologia e de outras ciências naturais (para não
falar da torturada e tortuosa história da humanidade).
Sem
pretender chamar ninguém em particular de idiota – mas
possivelmente chamando, e não me desculpando por isso –,
surpreende-me, sim, que tantas pessoas resolvam aderir a uma visão
do mundo terrivelmente comprometedora de suas chances futuras de
progresso numa cultura superior e em carreiras científicas que
poderiam contribuir para o seu próprio bem-estar individual e para
uma qualidade de vida melhor para toda a humanidade (eventualmente
para si próprias, se elas por acaso se encontrassem em uma situação
de emergência que requeresse o mínimo de conhecimento
especializado, geralmente de tipo científico).
É
evidente que, em todas as épocas históricas e em todas as
sociedades, a cultura científica sempre foi algo extremamente
restrito e profundamente elitista, tocando em poucos membros da
comunidade. Com a ampliação e a extensão das instituições
escolares, essa cultura se estende progressivamente a um maior número
de pessoas, mas seu estabelecimento e desenvolvimento dependem, em
última instância, do próprio esforço individual e do empenho
pessoal na absorção e compreensão de complexos problemas técnicos
que passam então a se disseminar em escala ampliada. Essa cultura
científica sempre estará em competição com a cultura ingênua,
com as explicações simplistas e desrrazoadas ou até com a ignorância
mais completa – que, aliás, não se peja de aparecer –,
travestida em “conhecimento popular”, ou em senso comum.
A
razão disso é simples: independentemente do seu meio social de
nascimento, do nível de renda e do background
familiar, as pessoas nascem igualmente dotadas, ou seja, com algumas
habilidades inatas e uma mesma ignorância cultural fundamental. A
cultura e a educação serão nelas “instaladas” à medida de
sua exposição a fontes superiores de cultura e de educação, ou
então elas conservarão as mesas “ferramentas” de saber dos
seus meios de origem ou daqueles meios a que foram expostos no curso
da vida. É muito duro adquirir uma cultura científica e uma
explicação “superior” sobre a vida, uma vez que isto requer
estudo constante, leituras aplicadas, raciocínio não-elementar e
alguma “transpiração” na busca de instrumentos explicativos de
realidades complexas, em todo caso não-óbvias.
Em
outros termos, conformando-se às tendências inatas à preguiça e
à acomodação, na ausência de perigos ou de estímulos externos
à criatividade e à inovação, a maior parte da humanidade
adapta-se ao puro senso comum e às explicações elementares, que são
obviamente rudimentares, quando não preconceituosas ou francamente
equivocadas. Apenas uma pequena parte da humanidade é levada – ou
é obrigada – a responder a desafios externos ou à sua própria
curiosidade intelectual (que também é inata, mas requer algo mais
do que simples ações reativas a estímulos ambientais). Resulta
disso a divisão tradicional entre a cultura científica e a cultura
popular, já examinada na obra de epistemologistas e de
historiadores da ciência, não cabendo aqui qualquer relativismo
cultural ou manifestação de “correção política” quanto às
virtudes pretensamente igualitárias ou dotadas de alguma
“genialidade natural” da segunda em relação à primeira.
Este
me parece ser o “molde sociológico” através do qual seria possível
analisar a “emergência” e a “disseminação” de explicações
equivocadas, francamente deletérias e (por que não dizer?)
totalmente idiotas sobre o mundo real, que resultam dessas crenças
“criacionistas” ou anti-evolucionistas que, a exemplo dos EUA,
também tendem a se propagar no Brasil a um ritmo impressionante.
Para onde quer que se olhe, a constatação parece ser a mesma: mais
e mais pessoas, incapazes de se alçar a uma cultura superior –
que chamamos de científica –, se deleitam, quando não se
comprazem com explicações religiosas simplistas ou com meras
superstições. O que é pior: dotadas de acesso aos meios de
comunicação – hoje em dia, qualquer um tem acesso à internet, e
muito cachorro de madame possui webpage –, essas pessoas passam a
expor sem maiores restrições sua profunda ignorância, seus
preconceitos tradicionais, seus equívocos de senso comum
transmitidos desde o berço a um número incontável – e
propriamente incontrolável – de outras pessoas.
Como
a exploração da credulidade alheia tornou-se, igualmente, uma prática
comum em nossos tempos mercantilistas, sobretudo em algumas
vertentes da “indústria religiosa” – que baseia sua ação na
“teologia da prosperidade”, antes de mais nada, a prosperidade
individual dos próprios “ministros” da nova religião –, é
evidente que a imbecilidade humana, como explicitado no título
deste ensaio, tenha tendência a aumentar. Torna-se inevitável o
triunfo de alguns imbecis – nem por isso menos aptos a extrair
renda de pessoas ignorantes e ingênuas – que não sofrem nenhum
constrangimento em estender o mais possível sua ignorância
enciclopédica em todas as longitudes e latitudes abertas ao seu
pouco engenho e baixa arte. Trata-se de um aumento relativo e também
absoluto, ou seja: mais e mais pessoas, dotadas de “cultura ingênua”,
são mobilizadas pelos espertalhões de plantão, nem todos imbecis
ou idiotas; longe disso, pois alguns fazem disso uma profissão
altamente lucrativa.
Por
outro lado, é normal que grande parte da humanidade, agora provista
de meios de subsistência relativamente satisfatórios, sobreviva e
prospere fisicamente (obviamente graças aos progressos da ciência,
que alguns tão alegremente ignoram). Agora são indivíduos
arrancados de um estado de letargia intelectual para uma situação
de exercício ativo de banalidades de senso comum, quando não de
imbecilidades coletivas facilmente disseminadas pelo acesso
irrestrito aos meios modernos de comunicação. É o triunfo das
nulidades, como queria um sábio brasileiro, é a vitória da ignorância
de modo amplo, uma vez que os meios técnicos não distinguem entre
a boa e a má “cultura”, entre a verdade e a falsidade, entre a
racionalidade e o ilogismo mais absoluto.
Na
outra ponta, nunca foi tão grande o conhecimento acumulado pela espécie
humana sobre sua própria existência e o meio que a cerca. Como a
ciência e o conhecimento são cumulativos e, em princípio, não
“extinguíveis” – salvo catástrofes humanas e naturais muito
amplas –, a única previsão possível nesse terreno é a expansão
e aperfeiçoamento do saber científico, em benefício do conjunto
da humanidade, mesmo os mais imbecis. Ou seja, mesmo aqueles
fundamentalmente estúpidos a ponto de recusar uma explicação
científica para a origem de seus males eventuais, podem ter suas
vidas salvas pelos progressos da medicina e assim, num exercício de
“darwinismo involuntário”, continuar a disseminar impunemente a
sua ignorância e seus preconceitos à sua volta ou a uma geração
de idiotas mais à frente. Um exemplo: aqueles que recusam a
transfusão de sangue podem ser salvos por injunção legal ou pela
mudança temporária de religião – alguns não idiotas a esse
ponto –, a tempo de permitir a operação médica e sobrevivência.
(Alguns darwinistas radicais talvez não estejam de acordo com essa
sobrevivência dos ineptos, mas a perspectiva humanitária comanda
que façamos todo o possível para salvar nossos semelhantes.).
Em
resumo: a ciência e a racionalidade progridem a olhos vistos, e
elas tornam a vida de todos melhor e mais longa. Elas sempre serão
restritas a um número relativamente pequeno de seres humanos, em
todo caso até que a educação de qualidade e o espírito de
pesquisa se tornem mais amplamente disponíveis nas sociedades. A
ignorância e o preconceito recuam no conjunto, mas eles continuarão
a ser muito comuns, na medida em que também constituem características
tradicionais – eu não diria inatas por respeito ao gênero humano
– das sociedades.
Concluindo:
a imbecilidade humana tem, sim, aumentado, pela força dos números,
mas ela comanda cada vez menos os destinos da raça humana, graças
aos progressos da ciência. Ou estarei errado?
por
PAULO
ROBERTO DE ALMEIDA
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