por
SIMONE
MARIA HÜNING
&
NEUZA MARIA DE FÁTIMA
GUARESCHI
Psicóloga, Mestre
em Psicologia Social
pela PUCRS. Doutoranda em Psicologia pela PUCRS/CNPq.
Professora e
pesquisadora do programa de Pós-graduação em Psicologia
da PUCRS. Coordenadora do grupo de pesquisa Estudos Culturais e
Modos de Subjetivação
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Psicologia,
ciência e as relações de poder
“Quais
tipos de saber vocês querem desqualificar no momento em que vocês
dizem ser esse saber uma ciência? Qual sujeito falante, qual
sujeito discorrente, qual sujeito de experiência e de saber vocês
querem minimizar quando dizem: ‘eu, que faço esse discurso,
faço um discurso científico e sou cientista’?”
(FOUCAULT,
1999: 15).
Diferentes
abordagens em psicologia – para além de diferentes referenciais
epistemológicos ou das diferentes explicações sobre a
subjetividade e o comportamento humano que nos oferecem – refletem
diferentes ênfases em questões de poder, liberdade e
responsabilidade e, portanto, diferentes valores sobre
responsabilidade ética e política da psicologia. Da mesma forma,
as várias maneiras pelas quais a psicologia produz suas teorias,
seus sujeitos e objetos, sua rede de conhecimentos, encadeiam-se em
distintos projetos políticos. Seria, no entanto, ingênuo afirmar
que a produção de conhecimentos dá-se em uma redoma à parte de
outras produções discurivas concorrentes. E é exatamente a
articulação entre política e saberes que nos leva a um dos pontos
centrais do trabalho do filósofo Michel Foucault, qual seja, a
estreira relação entre saber e poder. Discutir essas relações e
possíveis formas de resistências e desafios introduzidos no campo
da psicologia pelo pensamento foucaultiano, será o foco deste
ensaio.
Foucault
empreendeu uma análise de como a constituição de relações de
poder produz campos de saber, assim como, reciprocamente, saberes
engendram relações de poder. O corpo foi um destes pontos de
convergência do investimento dessas relações de poder/saber, que
marcou o surgimento do indivíduo como figura singular: alvo de
investimento do poder disciplinar ao mesmo tempo em que foi se
constituindo como objeto de formas específicas de saber (FOUCAULT,
1990). A análise foucaultiana indicou as condições políticas de
emergência dos saberes das ciências humanas a partir de práticas
disciplinares em espaços como o hospital, a escola e a prisão, que
não se constituíram apenas como espaços de cura, educação,
correção ou punição, mas serviram de locus
para “produção, acúmulo e transmissão do saber” (Id.: XXII),
coincidindo, assim, o exercício e formação de saberes e poderes
com a constituição de disciplinas científicas.
Ao
voltar sua análise ao poder de instituição de verdades de
discursos científicos e, como forma de combate aos efeitos
totalizantes destes discursos, Foucault propôs a genealogia,
“acoplamento dos conhecimentos eruditos e das memórias locais”
(FOUCAULT, 1999: 13), para a elaboração de uma crítica local a
partir de saberes não legitimados contra discursos globalizantes.
Segundo Foucault, a genealogia constitui-se em uma “tática de
intervenção” sobre os discursos da ciência, frente ao que ele
chamou de crise nas disciplinas do conhecimento, que não apenas
coloca em jogo os limites e incertezas do campo de conhecimento, mas
“interroga as relações entre as estruturas econômicas e políticas
de nossa sociedade e o conhecimento, não em seus conteúdos falsos
e verdadeiros, mas em suas funções de poder-saber” (1990: 118).
A
contribuição do pensamento foucaultiano para a psicologia, como
discutimos em outro trabalho (HÜNING e GUARESCHI, 2005), reside em
parte na desacomodação que esta perspectiva pode provocar nas
configurações tradicionais da psicologia e talvez a mudança
central seja a desnaturalização das próprias teorias psicológicas.
Esse processo de desnaturalização conecta-se à proposta genealógica
ao evidenciar o caráter histórico e contigencial do conhecimento,
ao questionar e problematizar saberes e “verdades” sobre os
quais se alicerça a ciência psicológica ao mesmo tempo em que
passa a reconhecer a provisoriedade de seus saberes e a legitimidade
dos saberes dominados. Este útimo aspecto merece atenção, pois
indica uma ruptura com os modelos de saber constituídos nos moldes
de uma epistemologia clássica, ou mesmo em relação a muitas das
chamadas vertentes críticas de produção do conhecimento.
No
primeiro caso, da epistemologia clássica, a drástica separação
entre os saberes científicos e não-científicos manifesta uma
hierarquização de saberes e modos de conhecer. Ou seja, cada forma
de conhecimento teria uma posição hierárquica diferenciada, dada
por sua referência epistemológica mais ou menos sólida (SILVEIRA
e HÜNING, no prelo). Aqui evidencia-se a desqualificação de
quaisquer formas de saber que não correspondam aos critérios de
validação dos tribunais epistemológicos da ciência e a
necessidade de distinção entre os saberes científicos (legítimos)
e o senso comum (dificilmente reconhecido como uma forma de saber).
Os saberes são destituídos exatamente pelo confronto com os
saberes legitimados, oficiais.
No
segundo caso – que podemos identificar em muitas das chamadas posições
críticas na ciência –, em nome de um compromisso de crítica
social, vemos os “cientistas” ocuparem a posição de
porta-vozes, ou melhor, de “tradudores” destes saberes dominados
em uma linguagem científica. Neste caso, o reconhecimento e/ou a
legitimação destes saberes se dá pela sua introdução nas instâncias
“oficiais”, feita por agentes legitimados que demandam
representar interesses de pessoas que não “podem” falar por si
mesmas. Para ser ouvido, o saber dominado precisa ser inscrito nas
normas e rituais acadêmicos.
Como
alternativa, as produções genealógicas, enquanto análises provisórias,
podem produzir efeitos transformadores e este é o desafio que
enfrentamos hoje ao trazer os estudos foucaultianos para o campo da
psicologia social. Assumir este desafio corresponde à manifestação
de um potencial de resistência aos saberes e à produção acadêmica
unificadora, uma postura de abertura para o que Foucault chamou de
“saberes sujeitados”. Essa transformação requer inicialmente a
descentralização da figura do teórico, do acadêmico, do
especialista como único representante de um saber sobre o outro,
para uma postura de ação em uma rede permeável ao outro. E aqui
situa-se um compromisso político da psicologia, qual seja,
trabalhar na construção destas redes de diálogos, assumir uma
posição de escuta destes saberes não-legitimados. Ir ao encontro
dos discursos desqualificados, mas não para colonizá-los ou
reinscrevê-los nos códigos da ciência unificada. Trata-se de
reconhecer que há saberes fora da esfera oficial da ciência,
saberes constituídos em práticas políticas cotidianas, no exercício
da vida, que desafiam a ordem de saber oficial, ou seja, desafiam
toda uma rede de poderes políticos que se constituem atrelados a
estes saberes.
Um
dos compromissos da psicologia desde essa perspectiva seria,
portanto, a contestação, o confrontamento dos discursos instituídos
pela própria ciência psicólogica, que universalizam e massificam.
Esse confrontamento dá-se em parte justamente pela escuta dos
saberes dominados, minando o discurso oficial pela tomada de um
posicionamento político junto àqueles que usualmente reivindicamos
representar. Subverte-se, assim, a lógica de representação pelo
reconhecimento da existência dos saberes locais – também exercício
de poder – de pessoas que podem falar por si próprias, em outras
palavras, pelo estabelecimento de relações mais horizontais.
Trata-se de uma atitude de “humildade” que inscreve a psicologia
e os demais saberes em uma rede de forças, onde todos os pontos
podem ser não apenas expressão de relações de poder, mas também
problematizadores e questionadores destas relações.
Esta
atitude de “humildade” requer, inicialmente, a consideração de
que a ciência, os discursos legitimados, não se constituem como
tais apenas por sua consistência epistemológica, mas também por
interesses políticos e econômicos que transversalizam sua produção.
O que interessa à genealogia não é a hierarquização
dos saberes dentro de um sistema de rigor científico, mas o
reconhecimento da existência de saberes constituídos por
diferentes relações de poder. Alguns legitimam-se por rituais acadêmicos
de referências epistemológicas, outros legitimam-se pela tradição
e pelo exercício da vida em si mesmo. Ambos estão embebidos em
lutas políticas. O objetivo não é negar as especificidades e
diferenças destes sistemas de saberes, mas enfatizar que esta
diferença não se pauta em um maior valor de verdade dado a priori
pela condição de ser científico.
O que se põe em análise são os efeitos
de verdade e as formas de poder que aí se exercem. Em última instância,
isso significa pensar no saber como algo da ordem da multiplicidade
e não da totalidade.
De
fato, a ciência, que tantas vezes se ergue para fazer acusações e
alertas em relação à “periculosidade” de saberes não-científicos,
também com freqüência se isenta de uma reflexão sobre seus
efeitos e responsabilidades. Entrincheirada pela própria condição
de “ser científico”, se atribui uma posição intocável e
privilegiada na medida em que deduz que o científico justifica-se
em si mesmo.
Nesse
enfrentamento, o legado foucaultiano continua interrogando a
psicologia e demanda que esta interrogue a si mesma. Convoca a
psicologia a sair da trincheira construída pelas fronteiras científicas
e disciplinares e refletir sobre as formas de saber e poder que
engendra. Convoca a analisar o quanto os discursos da psicologia
sobre a subjetividade humana permitem que as pessoas elas mesmas
pensem, falem, vivam, constituam suas subjetividades atreladas a
outras redes discursivas que a psicologia deslegitima. Convoca, por
fim, a questionar quais os efeitos dos discursos totalizantes da
psicologia na vida cotidiana, atentando para aquilo e aqueles que
faz falar a calar ao enunciar-se como ciência.
por
SIMONE
MARIA HÜNING
&
NEUZA MARIA DE FÁTIMA
GUARESCHI
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