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por
CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMASIO
Doutoranda
em Literatura na Sorbonne e em Filosofia na
Université de Marne-la-Vallée |
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Era
uma vez um NA T6D
A
poeira vermelha ainda assustava os que ali chegavam, muita mata,
pouco calçamento, paralelepípedos, calor abafado, típico da região
norte e noroeste do estado. Euforia pela comemoração dos dez anos
da cidade, as crianças querendo doces, os adultos entusiasmados,
mas todos, sem exceção, aguardavam a estrela da festa, aquela que
faria os olhos resplandecerem ao contemplá-la. A tão esperada
Esquadrilha da Fumaça.
“Maringá,
Maringá”. Podia-se ouvir nas rádios, freqüentemente, a belíssima
voz de Joubert de Carvalho entoando a canção que inspirou o nome
da pequena cidade. Sim, até então pequena, mas muitíssimo
promissora.
Na
Praça Raposo Tavares, três mastros impunham orgulhosos as
bandeiras do Brasil, do Paraná e de Maringá. Era lá que estava o
povo: os visitantes e os neo-pés-vermelhos. Seria lá o palco da
inesperada tragédia que transformaria a festa em tristeza, em
espanto, que ficaria guardada na memória de alguns pioneiros e
perdida na história da jovem cidade.
Poucas
informações atravessariam os anos, seriam guardados alguns
testemunhos, como o que tento reproduzir aqui, a palavra que se
perde no vento não resiste às intempéries do tempo, o que se
escreve perdura um pouco mais. Porém, neste caso, foi-se perdendo,
também. Juntei migalhas de dados, no entanto, o que devo relatar é
mais o que a lembrança (e sabemos que esta é falha) pôde
recuperar na descrição de quem presenciou, viu ou ouviu.
Estamos
em 10 de maio de 1957, manhã solene, autoridades presentes
festejando a data. Por volta das 9h45 os esperados aviões dominaram
o céu azul da bela aniversariante. O sol brilhava naquela
sexta-feira. Os olhares admirados dirigiram-se para cima, uma invasão
de contentamento apoderava-se da população.
Tudo
era novidade, o Esquadrão de Demonstração Aérea debutou no início
dos anos 50, com um grupo de instrutores da antiga Escola da Aeronáutica,
em Campos dos Afonsos, no estado do Rio de Janeiro, liderado pelo
Tenente Domenech, que, nos horários
livres, divertia-se praticando manobras e acrobacias. Sua primeira
apresentação em púbico, ainda sem a fumaça,
foi no dia 14 de maio de 1952, que passou, alguns anos depois, a ser
comemorado como Dia da Esquadrilha da Fumaça.
Pouco
mais de cinco anos de experiência, o novo e o belo faziam a
adrenalina subir nos expectadores que se deliciavam com a habilidade
mostrada pelos dois ocupantes de cada um dos cinco North American
T6D, quando, de repente, às 10 horas, um deles sobrevoou abaixo do
que deveria, atingindo um dos mastros que tinham por única função
ostentar os “símbolos da amada terra”. Desespero, gritos, pais
escondendo os olhares curiosos das crianças, adultos querendo
enxergar, pessoas passando mal, o medo reinando, o final da festa, o
final de duas vidas diante dos olhos dos maringaenses, os poucos repórteres
tentando se aproximar, a polícia apartando. O espetáculo mudou de
rumo. Piloto e co-piloto lembrados, anonimamente, pelos que estavam
lá.
Não
mais que 15 minutos de apresentação para deliciarem os olhos da
população. Por ausência de maiores fontes, deixamos a desejar
nesta descrição sem podermos nos aprofundar em tão importante
acontecimento. Contudo, sabemos que assim passou-se o dia do décimo
aniversário de Maringá, a memória traidora ficou para poucos, mas
algumas coisas de concreto, também, como uma hélice furtada em
meio ao tumultuo, banhada em sangue, lavada com compaixão e
guardada, secretamente, até os dias hodiernos, com respeito, em uma
casa da cidade canção. Uma simples lembrança que hoje, cinqüenta
anos depois, fala, por si mesma, da história da “linda flor, a
mais gentil, do norte do Paraná”.
Fonte:
www.highway.com.br/users/valladares
por
CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMASIO
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