por CLAYTON MENDONÇA
CUNHA FILHO
Bacharel
em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Ceará e
integrante do Observatório das Nacionalidades/UFC. Este artigo é
fruto de pesquisa desenvolvida com bolsa PiBiC/CNPq 2004/2005 e
PiBiC/UFC 2005/2006, sob coordenação da Prof. Bernadete Beserra,
Departamento de Fundamentos da Educação, Universidade Federal do
Ceará. |
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A
esperança-desiludida e a desilusão-esperançosa: os governos de
Lula e Evo Morales e o movimento popular
Introdução
Ao
consenso neoliberal por que passou a América do Sul nas décadas de
80 e 90 após as redemocratizações, vêm seguindo-se ventos políticos
que têm levado líderes identificados com o campo da Esquerda ao
comando dos países da região. São exemplos dessa tendência as
eleições de Hugo Chávez na Venezuela (1998), Lula no Brasil e Lúcio
Gutiérrez no Equador (2002), Néstor Kirchner na Argentina (2003),
Tabaré Vásquez no Uruguai (2004) e, mais recentemente, Evo Morales
na Bolívia (2005) e Rafael Correa no Equador (2006). Entretanto,
saudadas muitas vezes como acontecimentos de proporções históricas,
os avanços concretos do ponto de vista do que poderia ser
considerado um governo de esquerda variam em cada um dos casos
analisados, tendo até mesmo um deles (o equatoriano Gutiérrez)
sido forçado a renunciar pelas mesmas massas que o haviam apoiado e
eleito, tamanha a decepção popular com as políticas por ele
adotadas. Conforme observa Paul Cooney (2006), “o problema atual
na América Latina é que muitos dos políticos eleitos por suas
populações, que esperavam uma alternativa à abordagem neoliberal,
continuaram as mesmas políticas”.
O
objetivo deste artigo é focar-se nos casos brasileiro e boliviano.
O primeiro, tem na presidência o ex-metalúrgico e líder sindical,
fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), Luís Inácio Lula da
Silva, recentemente reeleito para seu segundo mandato. O segundo,
tem como presidente o indígena e líder camponês Evo Morales Ayma,
do partido Movimiento al
Socialismo (MAS), cujo mandato recentemente completou um ano. A
escolha destes casos específicos, dentre outros tantos possíveis,
é arbitrária como qualquer recorte metodológico, mas justifica-se
a nossos olhos pelo contraste de extremos que os dois representam
dentro do continente sul-americano: um é o país mais rico e
desenvolvido dentro do subdesenvolvimento que nos é peculiar e um
dos primeiros representantes desse processo de esquerdização
relativa; o outro, o mais pobre e atrasado de todo o atraso
continental e um dos mais recentes exemplos do processo em questão.
Além de representarem, de acordo com nossa análise, exemplos
relativamente claros do que não foi um governo tão de esquerda e
do que poderá efetivamente vir a constituir-se como um.
Pretendemos
analisar, do ponto de vista do campo político da Esquerda, o que
representou a experiência brasileira no primeiro mandato de Lula e
o que se poderá esperar da experiência boliviana a partir das ações
até aqui implementadas, e que papel desempenharam (ou desempenharão),
nos dois casos, os movimentos populares dos respectivos países.
Para isso, procederemos a uma breve caracterização dos dois
governos em questão do ponto de vista do que significaram e
significam enquanto projetos políticos de esquerda, e em seguida
apresentaremos nossas considerações e conclusões finais.
O
Governo Lula: A esperança venceu o medo?
A
vitória eleitoral de Lula no Brasil em 2002 foi saudada por boa
parte da esquerda sul-americana, e mesmo mundial, como um evento de
grandes proporções no panorama político mundial. No Brasil,
especificamente, o anúncio oficial da vitória lulista foi seguido
de grande comemoração popular nas ruas das principais cidades do
país, em um verdadeiro carnaval fora de época, comparável à
conquista de uma Copa do Mundo pela seleção.
O
início de seu mandato confundia-se, para muitos, com o prenúncio
de uma nova era, capaz de finalmente levar o Brasil a desenvolver
suas potencialidades e solucionar seus graves problemas sociais.
Lula fora alçado definitivamente à condição de celebridade
nacional; distribuía autógrafos e posava para fotos com populares
que freqüentemente o paravam nas ruas. Líderes diversos, de
movimentos sociais idem, transbordavam confiança em dias melhores
para o povo brasileiro. Importantes intelectuais de esquerda
enalteciam o caráter revolucionário da eleição do ex-líder
sindical. O clima de euforia no III Fórum Social Mundial, realizado
em janeiro de 2003 em Porto Alegre, era notório. Poucos ousavam,
neste primeiro momento, duvidar do potencial transformador dos novos
tempos, mesmo que importantes sinalizações do caráter conservador
no novo governo já tivessem sido emitidas durante a própria
campanha eleitoral e, posteriormente, durante a montagem do novo
ministério.
Hoje,
a situação é diferente. Lula mantém bons níveis de popularidade
e foi recentemente reeleito para segundo mandato, mas já não dá
tantos autógrafos e eventualmente ouve vaias e presencia protestos
nos eventos a que comparece. Conta ainda com o apoio dedicado de
parte da intelectualidade esquerdista, mas já muitos lulistas de
primeira hora, alguns que inclusive ocuparam cargos no governo, o
criticam abertamente.
Importantes quadros do Partido dos Trabalhadores deixaram o partido
ou dele foram expulsos e buscam qualificar-se como oposição pela
esquerda. E o apoio dos movimentos sociais já não é mais tão
automático, como mostra a decisão de não declarar apoio formal à
campanha a reeleição de Lula tomada pelos movimentos agrupados na
Coordenação de Movimentos Sociais (CMS) em plenária durante o II
Fórum Social Brasileiro.
Mesmo
entre os intelectuais que ainda defendem o Governo Lula,
praticamente todos o fazem a partir da comparação com o governo
anterior (ruim com Lula, pior sem ele) ou enaltecendo justamente
seus traços mais conservadores, como a condução da política
macroeconômica (por exemplo, BAÍA & COUTO, 2006). Pouquíssimos
são os que conseguem fazer uma defesa consistente do governo a
partir de suas realizações e do significado das mesmas para um
projeto de esquerda. E não é difícil entender o por quê. Como
defender dentro do campo da esquerda, por exemplo, a Reforma da
Previdência de Lula, socialmente regressiva e alardeada pelo próprio
como a realização de algo tentado, e não conseguido, por FHC?
(MACHADO, 2004). Como afirma João Machado (2004),
já
está bastante clara a orientação geral seguida pelo governo
Lula. Sua política macroeconômica é explicitamente neoliberal,
e ele tem encaminhado reformas (de fato, contra-reformas)
neoliberais (a reforma da Previdência, a lei de falências, o
projeto das parcerias público-privadas). Tem, ainda, anunciado
projetos, cujos contornos já se anunciam, que têm o mesmo caráter
(os projetos das reformas sindical, trabalhista, universitária).
É certo que, em algumas áreas, ele tem implementado algumas políticas
de características diferentes. Mas as políticas neoliberais
predominam amplamente e condicionam o conjunto do governo, marcam
toda sua atuação.
E
não é apenas por questões macroeconômicas que se pode questionar
o significado político do governo Lula. Afinal,
O
estatuto de um povo, diante da história, não se resume ao que
ele é em um dado momento. Define-se mais pelo que ele quer ser.
Por seu horizonte de expectativas. Pois isso é que o coloca em
movimento. É aí – e não na política econômica – que está
o x da questão, quando avaliamos Lula e o PT. (...) Por deseducar
o povo, por desprepará-lo para construir o futuro – e não,
basicamente, pelo nível da taxa de juros –, é que Lula e o PT
são nocivos. Quando forem derrotados – neste ano ou daqui a
quatro anos, não importa –, (...) não teremos nem um povo mais
consciente, nem quadros mais preparados para prosseguir a luta,
nem uma juventude mais mobilizada, nem instituições republicanas
mais avançadas (BENJAMIN, 2006).
Lula
adotou desde o início um discurso desmobilizador, cheio de metáforas
vazias (“Transatlântico não dá cavalo de pau”, “O bebê só
nasce depois nove meses”, entre outras) em que pregava que era
preciso confiar no governo e ter paciência, que as mudanças
eventualmente viriam, mesmo que temporariamente fossem necessários
“remédios amargos para curar o doente”. Além disso,
“tentando explicar as diferenças entre as posições de seu
governo e as posições anteriores do PT, Lula disse a seguinte pérola:
‘Quando a gente é de oposição pode fazer bravata, porque você
não vai ter que executar nada’” (MACHADO, 2004).
E
a adoção desse discurso desmobilizador torna-se ainda mais grave
(como admitiu até mesmo o ex-ministro José Dirceu, em entrevista
à revista Caros Amigos de janeiro de 2006) quando se sabe que a vitória
lulista deu-se em um contexto eleitoral caracterizado muito mais
pela rejeição do governo anterior que pela aprovação de um outro
projeto hegemônico, caracterizou-se pelo que Chico de Oliveira
chama de “um caleidoscópio de protestos, promessas,
possibilidades, frustrações, insegurança, falta de horizontes
(...), uma soma negativa, como na álgebra, onde menos com menos dá
mais” (2003). Não havia, como mostra Oliveira, esse novo projeto
hegemônico alternativo, mas sim uma certa oposição difusa ao
neoliberalismo. Mas com o imenso capital político de que dispunha o
presidente logo após as eleições, teria sido possível iniciar a
construção dessa nova hegemonia, estivesse ele disposto a
enfrentar concretamente as elites que hoje denuncia vagamente. Em
vez disso, optou pelo caminho da conciliação, da aliança a
qualquer preço com os partidos conservadores de sempre em troca de
uma frágil maioria no Congresso, que desfigurou completamente o
histórico projeto transformador da esquerda brasileira.
O Governo Evo
Morales: ¡Ahora es cuando!
Na
vizinha Bolívia, em dezembro de 2005, ganhou as eleições o líder
indígena-camponês Evo Morales, do partido Movimiento
Al Socialismo (MAS). A semelhança do Brasil, sua vitória
trouxe grande euforia e esperança popular e sua cerimônia de posse
igualmente parecia um carnaval fora de época. Mas fundamentalmente,
param por aí as semelhanças.
Diferentemente
do caso brasileiro, Evo foi eleito em um contexto altamente
politizado, de ascenso das mobilizações de massa e rejeição mais
concreta ao neoliberalismo que a vivida no Brasil. A Bolívia vem de
uma instabilidade política crônica, que já derrubou dois
presidentes e impediu a posse de outros dois,
desde pelo menos a chamada “Guerra do Gás” de 2003, com freqüentes
mobilizações como piquetes, fechamento de rodovias e greves. Para
além da rejeição ao modelo neoliberal, alguns pontos básicos
para um projeto alternativo encontravam-se já, quando das eleições,
relativamente hegemônicos dentro da sociedade civil boliviana, como
a nacionalização de recursos naturais como os hidrocarbonetos
(principal riqueza boliviana) e a convocação de uma Assembléia
Nacional Constituinte.
Do
mesmo modo, também o programa de governo apresentado por Morales
durante a campanha foi bem menos ambíguo que o de Lula, bem como
seu comportamento após o anúncio da vitória e nos primeiros dias
após a posse. O perfil de seu ministério foi bem mais condizente
com o que se esperaria de um presidente de esquerda se comparado ao
de Lula
e suas primeiras medidas, também, bem mais corajosas e coerentes.
Evo anunciou logo de início um corte nos salários dele e de seu
ministério e a proposta (aprovada) de redução dos vencimentos
também de deputados e senadores, num gesto que se não pode ser
propriamente classificado como de esquerda, tem um simbolismo muito
mais positivo que o aumento concedido logo no primeiro mês de
governo Lula aos congressistas brasileiros, bastante superior ao que
viria a ser dado ao salário mínimo alguns meses depois.
E
agora, cumpridos pouco mais de um ano de seu mandato, Evo pode
certamente apresentar maiores avanços sociais, do ponto de vista de
um programa de esquerda, e pontos cumpridos de seu programa
eleitoral que o presidente brasileiro ao fim de seu primeiro mandato,
mesmo com todas as dificuldades enfrentadas e já esperadas no
processo, que vão da pressa voluntarista de setores da
ultra-esquerda às fortes resistências conservadoras internas e
externas. A bem-sucedida nacionalização dos hidrocarbonetos, o início
de um amplo programa de reforma agrária e a convocação da Assembléia
Nacional Constituinte, são exemplos do ritmo acelerado em que vem
se dando a implementação do progressista plano de governo do MAS,
sintetizado em 10 pontos e publicado no jornal La Nueva República (edição número 12, de 28 de janeiro a 02 de
fevereiro).
Esquerda,
que esquerda?
Claro
está que a definição objetiva do que é ser um governo de
esquerda, se nunca foi fácil, tornou-se ainda mais difícil após a
queda dos regimes comunistas e a capitulação das
social-democracias européias. Alguns parâmetros, porém, seguem válidos
e conforme sugere James Petras (2006),
uma
política de esquerda (...) inclui 1. Decréscimo das
desigualdades sociais; 2. Incremento das condições sociais de
existência; 3. Priorização da propriedade pública e nacional
em detrimento da propriedade privada e internacional; 4. Priorização
dos impostos progressivos (rendas / empresariais) em detrimento
dos regressivos (ICMS, consumo etc.); 5. Prioridades orçamentárias
que favoreçam os principais gastos sociais e investimentos públicos
no trabalho em lugar de subsídios aos exploradores e do pagamento
da dívida externa; 6. Promoção e proteção da propriedade
nacional das matérias-primas em detrimento da exploração
internacional; 7. Diversificação da produção para valorizar
produtos com valor agregado em oposição à venda de matérias-primas
brutas; 8. Subordinação da produção-para-a-exportação ao
desenvolvimento do mercado interno; 9. Participação e poder
popular nos processos decisórios em oposição às decisões de cúpula
feitas através dos altos negócios, da banca internacional (FMI)
e das elites políticas; 10. Consulta aos movimentos de massas na
seleção de ministros-chave em lugar de acordos de cúpula com as
elites dos negócios nacionais e internacionais; 11. Adoção de
uma política externa antiimperialista: contra o apoio aos acordos
de livre-mercado, às bases militares, às guerras imperiais e às
invasões militares; 12. Revogação de privatizações
prejudiciais e oposição à sua ampliação e consolidação; 13.
Aumento do salário mínimo contra o excesso de pagamentos da dívida
e 14. Promoção de uma legislação trabalhista que facilite a
organização sindical; Educação e Saúde públicas, gratuitas e
universais.
E
sob esses critérios de análise, fica claro que a experiência
brasileira dos últimos quase quatro anos não representou grandes
avanços em direção a algo que pudesse ser classificado como um
projeto político de esquerda. Reeleito para um segundo mandato,
Lula entrega a si mesmo um país com os mesmos graves problemas de
desigualdade social, com a economia voltada principalmente para a
exportação de produtos primários (notadamente commodities
do agronegócio), um orçamento estrangulado pelo pagamento da dívida
pública e com um povo e os movimentos sociais possivelmente ainda
menos organizados e mobilizados que há quatro anos atrás. É certo
que durante o segundo turno da campanha eleitoral, pressionado pelo
crescimento eleitoral de um opositor claramente de direita, Lula
voltou-se para um discurso mais à esquerda, de defesa das estatais
brasileiras e críticas ao projeto neoliberal implementado no país
nos anos 1990, mas a manutenção das mesmas alianças políticas e
o teor de algumas declarações do presidente reeleito
logo após a campanha mantêm as dúvidas sobre a efetiva implementação
de um programa mais progressista no segundo mandato.
Por
outro lado, Evo Morales, ainda em começo de governo, sinaliza com a
reversão das privatizações que grassaram na Bolívia dos últimos
anos, um maior controle do país
sobre seus recursos naturais e a reversão das prioridades orçamentárias
em direção a um maior gasto social em busca da diminuição da
pobreza e das desigualdades sociais bolivianas, além da já
mencionada convocação da Constituinte, que promete refundar o
Estado boliviano sob bases mais democráticas e culturalmente
plurais, finalmente reconhecendo a importância dos secularmente
marginalizados povos indígenas locais, mesmo enfrentando a forte
oposição e tentativas de sabotagem pela elite branca das províncias
de Santa Cruz de la Sierra, Tarija, Beni e Pando. Fatos suficientes
para que se possa considerar o governo Evo Morales (ou pelo menos o
governo Evo até aqui) como de esquerda.
O
papel dos movimentos sociais: o porquê de tantas diferenças?
Diante
de tantas diferenças no que poderia parecer o desenrolar de um
mesmo processo, cabe perguntar o que poderia causá-las. Antes de
tudo, é preciso reconhecer que independente de qualquer coisa, as
diferenças e peculiaridades históricas de cada país tornam impossível
que os resultados pudessem ser iguais. Ainda assim, o questionamento
é pertinente.
Conforme
já citado anteriormente, a eleição de Lula no Brasil se deu em um
cenário social de relativa tranqüilidade, num momento de descenso
dos movimentos populares de massa e em que inexistia na sociedade um
projeto alternativo hegemônico para além do descontentamento
difuso para com o governo FHC e o neoliberalismo que ele
representara. Na Bolívia, ao contrário, Evo se elege como culminação
de um período de fortes convulsões sociais e de ascenso dos
movimentos populares, com a renúncia sucessiva de presidentes
eleitos e a convocação de eleições antecipadas. Além disso,
como também já foi mencionado, encontravam-se já hegemônicos na
sociedade civil boliviana elementos suficientes para a consolidação
de um projeto alternativo ao neoliberalismo, amplamente rejeitado
como modelo político-econômico pela maior parte da população.
Tal
diferença de conjuntura entre os dois casos pode não ser a única
chave explicativa, mas fornece pistas significativas. É notório
que o processo de migração do PT da esquerda rumo ao centro político
já vinha de bem antes e encontrava-se em estágio bastante avançado
quando da eleição de Lula, e portanto não se podem creditar as opções
políticas adotadas pelo governo somente à ausência de mobilizações
populares de peso, mas é certo que houvesse ele sido confrontado
com uma conjuntura semelhante à boliviana, muitas dessas opções
teriam representado um suicídio político certo e rápido.
Do
mesmo modo, até que ponto a presença desse movimento popular
mobilizado constitui a causa efetiva do posicionamento mais à
esquerda de Evo Morales na Bolívia, e não uma predisposição
anterior e pessoal do próprio presidente, também é discutível.
Mas caso Evo houvesse optado por seguir o exemplo de seu colega
brasileiro, privilegiando a montagem de uma base parlamentar
composta por partidos conservadores e da pactuação com as elites
nacionais mesmo em troca do sacrifício de boa parte de suas
bandeiras históricas, é possível que seu governo já houvesse
sido derrubado ou estivesse em vias de sê-lo, tão fortes seriam os
protestos populares como bem o sabem seus antecessores. É plausível
especular que seu destino não fosse muito diferente do de seu
colega equatoriano Gutiérrez, forçado a renunciar em 2005 com
pouco mais de dois anos de mandato pelo mesmo povo que o havia
elegido, lição que o novo presidente do Equador Rafael Correa,
assim como Evo, parece ter aprendido bem.
Assim,
se não se pode afirmar que os movimentos sociais constituem no
continente uma força capaz de gerar nos governos projetos políticos
positivos, têm sim se constituído de certa forma numa espécie de
barreira, limites até onde podem ir (ou deixar de ir) os governos
locais. Dessa forma, em países onde os movimentos populares
encontram-se desmobilizados, como o Brasil, os líderes políticos
(presidente incluído) têm tido uma margem de manobra para
implementar políticas conservadoras imensamente superior ao
experimentado por seus colegas do chamado “arco indígena” (Bolívia,
Peru e Equador), por exemplo, onde não apenas o povo encontra-se em
um estágio de muito maior mobilização social, como também conta
com um esboço de projeto nacional alternativo já cristalizado no
imaginário popular.
De
forma análoga, mas inversa, quando da primeira vitória eleitoral
de Hugo Chávez na Venezuela de 1998, tampouco estavam mobilizados
os movimentos sociais, mas graças à vontade política pessoal de
Chávez começaram a avançar projetos de esquerda, que logo começaram
a enfrentar radical oposição das elites nacionais. A falta de
mobilização popular aí se converteu em um limite ao avanço
progressista do governo, que só pôde ser superada graças ao esforço
pedagógico de educação das massas para seus direitos políticos e
à mobilização posterior das mesmas, cuja participação foi
fundamental na reversão do golpe de Estado de abril de 2001.
Dessa
forma, as razões para a inflexão conservadora de Lula e do PT no
Brasil devem ser buscadas no processo histórico e político vivido
por eles antes das eleições de 2002 (ver MACHADO, 2004 e RICCI,
2005), mas as razões para a extrema facilidade com que essa orientação
política de Lula e seu partido se traduziram em um governo
conservador podem ser buscadas na fragilidade do movimento popular
organizado brasileiro e na sua baixa inserção na sociedade civil
como um todo. E a ousadia e radicalidade com que vem se apresentando
o presidente boliviano Evo Morales, para além de seus méritos
pessoais, também podem ser buscadas na radicalização em que se
encontram os movimentos de massa bolivianos e na imensa inserção
social que possuem em seu país, o que tem forçado seu presidente a
apresentar resultados concretos no tempo mais curto possível, sob
pena de nem mesmo concluir seu mandato.
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