Aventura
na catedral Nossa Senhora da Glória
No
livro La construcción de las catedrales medievales, o
pesquisador Percy Watson diz que os trabalhadores nestas
construções eram muito orgulhosos e zelosos dos detalhes da
profissão. Watson inclusive diz que existe uma canção folclórica
francesa que conta a história de um cavalheiro que foi morto
a pauladas pelos pedreiros da catedral, porque os estava
espionando, fingindo falar com eles enquanto aprendia seus
segredos.
Felizmente,
nada assim aconteceu na construção da nossa catedral Nossa
Senhora da Glória em Maringá. O que nós que morávamos em
Maringá na época sabíamos, é que ia sendo construída,
vagarosa mas constante a nossa catedral, ficando cada vez mais
alta, ultrapassando o prédio humilde da antiga catedral, que
um dia foi derrubado.
Quem
tirou fotos destas fases da catedral? Todas as que existem
disponíveis para o público são fotos “oficiais”. Isto não
quer dizer que nós não estávamos orgulhosos com a gradativa
subida do prédio. Simplesmente, naqueles tempos quase ninguém
tinha uma máquina fotográfica em casa, e mesmo os que
tinham, sabiam que o filme era caríssimo, e a revelação
ainda mais cara. Para a maioria de nós que vivíamos em
Maringá durante a construção, o que temos é a imagem
mental.
E
há muitas imagens mentais, nem todas visuais. É possível
que cada um de nós se lembra de algo específico, acontecido
ao redor do prédio, à sua sombra, do seu lado, e mesmo
dentro. Outros têm lembranças em que a catedral aparece
quase como uma pessoa amiga que esteve com eles durante a infância
e a juventude. E não é para menos: a história da catedral
Nossa Senhora da Glória está indelevelmente conectada com a
história dos primeiros anos da cidade de Maringá. O primeiro
bispo, Don Jaime Luiz Coelho, chegou à cidade em 24 de março
de 1957. E ele chegou com planos: em pouco mais de um ano,
precisamente em 15 de agosto de 1958, se lançava a pedra
fundamental da nova catedral. Quantas pessoas que assistiram a
este acontecimento ainda estão vivas, e morando em Maringá?
Talvez não muitas. Mas muitas são as que estiveram presentes
nos 14 anos que levou a construção para ser terminada, e,
embora já estivesse sendo usada anos antes, ela foi
inaugurada oficialmente em 3 de maio de 1981.
Em
comparação com as catedrais góticas da Europa, ou mesmo com
a Sagrada Família de Barcelona, que está em construção
desde as primeiras décadas do século XX, 14 anos não é um
tempo muito grande. De fato, é bem pouco, mas pode parecer
muito mais quando lembramos que Maringá, afinal, passou de
uma pequena cidade de umas quantas mil pessoas nos anos
sessenta para uma metrópole regional nos anos noventa.
Alguns
de nós que conhecemos Maringá desde o tempo em que a única
via pública asfaltada era a avenida Brasil, em que o único
edifício com elevador era o Três Marias, achamos que a
cidade cresceu rápido demais. Uns reclamam que sentem saudade
de quando havia carroças nas ruas, inclusive aquelas
charretes que carregavam as prostitutas coloridas e
sorridentes, ouro na boca, e grandes decotes nos vestidos
estampados. Também já ouvi de pessoas que dizem que sentem
falta do tempo em que a catedral estava em construção.
Logicamente,
este é o preço de viver num lugar em que tudo aconteceu e
acontece tão rápido. Mas, a não ser pela ausência do
antigo prédio da estação ferroviária (que só foi destruído
pela sanha burra de alguém que não entende nada de preservação
do patrimônio histórico), o centro de Maringá ainda tem um
crescimento orgânico dentro do plano inicial da cidade. E é
dentro deste plano que se destaca a catedral, com suas linhas
arrojadas, saídas da inspiração de Dom Jaime e do lápis do
arquiteto José augusto Bellucci.
Como
até nos leigos em arquitetura podemos ver, nossa catedral tem
alguma coisa em comum com os edifícios de Brasília. Mas para
nós, estudantes do antigo colégio Gastão Vidigal,
localizado logo atrás da catedral até os finais dos anos
sessenta, que importava com que outros edifícios ela se
parecia? Aliás, nós nem sequer sabíamos direito como eram
os planos do arquiteto. As meninas que estudávamos no horário
da tarde, sabíamos que muitos dos operários assoviavam para
nós quando passávamos por ali. Sabíamos que na frente da
catedral estava o Hotel Bandeirantes, onde só gente muito
rica se hospedava. E sabíamos que logo ali estava a praça,
onde nos encontrávamos com amigos e colegas depois da aula. Já
dizíamos: “me encontre na frente da catedral a tal hora”.
Mesmo antes dela existir como tal, já era nossa catedral. Não
nos importava que fosse terminada. Era a nossa catedral.
Houve
um tempo, por volta de 1972, quando a construção pegou
ritmo. Nesta ocasião, eu trabalhava como repórter na Folha
do Norte do Paraná. Um dia meu chefe, o Antônio Augusto
de Assis, me chamou no seu escritório e me perguntou se eu
tinha medo de alturas. Como qualquer jovem de 19 anos, eu não
tinha medo de nada, e assim me pronunciei. O Assis me
perguntou se eu queria ir visitar a catedral, e escrever sobre
ela. E quem resistiria a tal desafio?
Em
meia hora, eu e o fotógrafo estávamos nos pés da catedral,
conversando com o mestre de obras, que nos deixou subir no
elevador externo, até o ponto em que a cruz ia ser colocada,
naquele dia. Subindo por aqueles andaimes, de repente eu
percebi a altura do prédio. Não deu tempo de ficar com medo:
logo chegamos ao topo, e eu conversei com alguns operários
que estavam terminando a base para a cruz. Eles foram muito
gentis comigo, disseram que estavam muito contentes porque
hoje iam ajudar a colocar a cruz. Eu perguntei se queriam
dizer alguma coisa ao povo de Maringá (naquele tempo a gente
perguntava estas coisas), e só um operário mais idoso me
disse que estavam agradecidos da minha visita, e esperava que
eu me casasse na catedral um dia. Todos rimos, e eu me
despedi, e eles agradeceram minha visita.
De
volta no jornal, já recuperada do medo, escrevi sobre a
experiência. Hoje, lamento não ter sabido o nome daqueles
operários que construíram nossa catedral. Aqui fica minha
homenagem e o meu obrigado por terem sido tão cavalheiros num
momento tão memorável. E, lembrando a história dos
pedreiros da idade média, meu agradecimento vai por eles não
terem se vingado da minha ousadia naquele dia, quando a cruz
foi trazida por helicópteros. Hoje, cada vez que vou a Maringá,
eu olho a catedral e me lembro daquele dia, assim como dos
muitos outros em que este edifício foi parte importante da
minha própria história.