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por
JOÃO FÁBIO BERTONHA
Doutor em História, Professor
do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá/PR
e Pesquisador do CNPq.
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Modelos
para o Brasil: Argentina?
No
artigo anterior, analisei brevemente a economia chilena. Esta é,
como observado então, a “menina dos olhos” para os autores que
poderíamos chamar de liberais ou neo-liberais, não só no Brasil,
mas em boa parte da América Latina. Se invertermos os pólos, o
mesmo qualificativo poderia ser atribuído à Argentina pós-2003,
ou seja, na presidência Kirchner. Efetivamente, para as pessoas
mais à esquerda, a experiência argentina depois de 2003 é vista
como um grande sucesso, uma prova de que seguir o receituário dito
liberal não apenas é desnecessário para o crescimento econômico,
como quase um obstáculo a ser eliminado.
O
argumento mais consistente nesse sentido é simplesmente o numérico.
Enquanto o Brasil, cumpridor de todos os seus contratos e
compromissos, cresceu não mais que uns 2 a 3%, na média entre 2003
e hoje, o crescimento argentino estaria em níveis chineses. Depois
de uma queda de 4,4% em 2001 e uma desastrosa, de 11%, em 2002, os números
se recuperaram, com efeito, rapidamente, girando em torno de 8 a 9%
ao ano desde então.
Outros
números argentinos também são muito positivos. O resultado
nominal das contas públicas argentinas têm ficado no azul nos últimos
anos, as exportações explodiram, etc. Em termos sociais, com o
crescimento elevado, milhões saíram da pobreza, voltando a
consumir e fazendo a economia girar.
Esses
números impressionam e parecem indicar que seguir um pensamento
econômico mais heterodoxo é muito mais válido do que o cânone
liberal. Assim, valeria a pena fixar um valor mínimo para o câmbio,
abandonar metas de inflação, reestatizar setores como saneamento e
energia, tentar conter a inflação via congelamento de preços e
segurando reajustes de tarifas públicas, aquecer a demanda via
aumentos e abonos salariais, etc.
A primeira pergunta,
claro, é saber se isto é verdade. Afinal, qual a causa do
crescimento acelerado da economia argentina nos últimos anos? Em
parte, é uma recuperação natural depois da queda brutal de 1999
até 2002. Mas esta já parece ter se esgotado e o país continua a
crescer. Portanto, outras explicações são necessárias.
Para
os economistas que defendem a experiência argentina, Kirchner teria
simplesmente feito o correto. Ao manter o peso desvalorizado tanto
por artifícios legais como pela criação de impostos sobre a
exportação (que, de resto, fornecem importantes recursos fiscais
ao Estado), ele teria permitido a recuperação da produção e da
demanda internas. O calote da dívida pública, além, disso, teria
permitido que ela fosse reduzida de 130% do PIB em 2002 para 50,7%
em 2006, o que foi fundamental para reduzir juros e melhorar as
contas do Estado. A heterodoxia teria funcionado.
Já
para os críticos da economia argentina atual, o calote da dívida pública
não poderia explicar a situação. Afinal, ele teria permitido uma
economia de juros de cerca de 1,7% do PIB ao ano desde 2003, um
valor importante, mas insuficiente para manter a economia aquecida.
A chave do crescimento estaria justamente no modelo liberal dos anos
anteriores.
Seguindo
esta maneira de pensar, as reformas (do Estado, da Previdência,
trabalhistas, etc.) efetivadas nos anos 90, de cunho liberal, teriam
fornecido os fundamentos para o crescimento atual, o qual teria sido
bloqueado pelo modelo do câmbio fixo. Este, por si só, seria
positivo, mas só funcionaria bem em momentos de liquidez externa,
pelo que falhou. Quando o câmbio fixo foi eliminado, de qualquer
forma, e a base das reformas liberais foi mantida, o crescimento era
quase que inevitável.
Sem
querer retomar a discussão sobre o modelo liberal argentino dos
anos 90, o que já fiz em outros momentos, é no mínimo espantoso
ver algumas pessoas que tanto defenderam – e lucraram – com o
mesmo afirmar, depois do desastre a que ele levou o país, que sua
essência era positiva e que só precisava de meras correções de
rota para funcionar.
Não
obstante, é provável que eles tenham razão em alguns pontos. O
sistema previdenciário implantado nos anos 90 (misto) tem uma série
de problemas, tanto que, agora, está havendo, na Argentina, uma
reavaliação do mesmo. Mesmo assim, é mais fácil para uma
economia funcionar com 4 a 5% do PIB de déficit previdenciário,
como é na Argentina, do que com 8%, e crescendo, como é no Brasil.
O Estado argentino também é menor e isso também traz vantagens na
condução na economia, ao menos até certo ponto.
Mas
é difícil acreditar que apenas estas reformas tivessem colocado a
economia argentina nos trilhos, mesmo com o fim da paridade do peso
com o dólar. Afinal, o que sufocava a economia argentina não era
apenas o câmbio, mas também a dívida e o peso dos juros.
Sem o calote, que fez a conta dos juros cair de 3,8 para 1,7%
do PIB, e outras medidas heterodoxas (como controle do câmbio e
impostos sobre exportações), parece improvável que as reformas
previdenciárias ou trabalhistas fossem capazes, por si só, de
fazer a Argentina crescer como ela cresce hoje.
Em
resumo, o modelo argentino combina uma ou outra vantagem herdada da
era do neo-liberalismo com uma dose altíssima de heterodoxia. Ele
comprova, a princípio, que vários mitos disseminados nesta era não
são verdadeiros: um calote não é o fim do mundo, capitais
internacionais são atraídos mais pela perspectiva de lucro do que
pela garantia contra confiscos (o que pode ser comprovado pelo
retorno, atualmente, de boa parte dos capitais argentinos que
estavam fora do país e uma discreta retomada da entrada do capital
internacional), etc.
Verifica-se,
também, que o controle do câmbio (mesmo sem ser completo) e uma ação
efetiva do Estado na defesa do crescimento estão longe de ser
coisas ultrapassadas e que não produzem resultados. Por fim, fica
clara a importância do mercado interno em qualquer processo de
crescimento.
O
modelo argentino, contudo, traz riscos imensos. A longo prazo, o
risco é que uma economia protegida, sem se beneficiar da concorrência
internacional, se torne ineficiente. A curto, a grande questão é a
inflação. Ela ainda não é uma ameaça, mas já começa a
incomodar, tanto que o governo Kirchner tenta controles de preços e
maquiagem de índices. Não espanta, na verdade, que ela esteja ameaçando
voltar. Com a economia em crescimento acelerado, a demanda por
produtos e serviços só tende a crescer, o que demandaria, para
evitar problemas nos preços, investimentos maciços, tanto privados
como estatais.
Os
investimentos privados, internos e externos, contudo, ainda não são
suficientes para atender isto, dada a desconfiança dos empresários
multinacionais e algum descontentamento dos nacionais frente aos
controles de preços. A meu ver, os investimentos acabarão por se
concretizar, pois há perspectivas de lucro, mas eles podem
realmente ficar aquém do necessário. Como resultado óbvio,
haveria problemas de infra-estrutura (como já há sinais em termos
de transporte aéreo, energia e outros) e inflação, o que poderia
abalar o modelo. Afinal, se a heterodoxia funcionasse sempre, as
experiências de vários governos latino-americanos dos anos 70 ou
80 poderiam muito bem estar vivas até hoje, o que não é o caso.
De
qualquer forma, mesmo imaginando que o modelo argentino possa
continuar dando certo ainda por bastante tempo, não creio que seja
adequado copiá-lo no Brasil. Isso porquê, lá no fundo, o
crescimento argentino atual, mesmo levando-se em conta outros
fatores, veio de dois fatos centrais: um calote que retirou um dos
maiores pesos do Estado argentino e uma desvalorização cambial que
mudou todo o panorama da sua economia. Sem este calote e sem essa
desvalorização, a Argentina nem estaria sendo considerada nesta série
de artigos sobre crescimento econômico.
Reproduzir
isto no Brasil seria loucura. Uma desvalorização cambial
descontrolada seria extremamente difícil de conduzir e traria
resultados desastrosos, como o passado já demonstrou. O preço do
calote argentino (que recordemos, não foi uma decisão tomada por
seus líderes, mas simples implosão do modelo anterior), por sua
vez, foram anos de crise econômica devastadora e instabilidade política.
Não haveria sentido em acreditar que seria bom, para nós,
sofrermos alguns anos para então encontrar o paraíso.
Depois,
o próprio perfil das dívidas torna o caso brasileiro mais
complexo. Parte substancial da dívida argentina era externa e,
apesar de o calote ter arruinado dezenas de milhares de poupadores
italianos ou espanhóis, o argentino médio foi relativamente pouco
afetado. O mesmo não ocorreria no Brasil, onde os detentores da dívida
pública são empresas e indivíduos nacionais. O que viria de um
calote seria um colapso geral e não o prenúncio de um bom momento.
Assim, se não podemos reproduzir os pontos fundadores do modelo
argentino atual, não vale a pena pensar em segui-lo. Pontualmente,
há algo a aprender (como na questão do câmbio), mas, como um
todo, ele não seria adequado para o país.
Mas
o motivo central pelo qual não deveríamos copiar o modelo
argentino são as suas implicações em longo prazo. Não há nenhum
sinal, na Argentina de hoje, de uma mudança estrutural do papel do
país na economia global. Quase todas as exportações argentinas,
hoje, são de petróleo e derivados e de produtos agropecuários. Há
escasso investimento em ciência e tecnologia e, apesar do sistema
educacional argentino estar quilômetros a frente do nosso, está
muito aquém do necessário para que a Argentina seja uma nova Coréia.
Além disso, a sociedade e os empresários parecem pouco
estimulados a empreender e a inovar.
Enfim,
parece haver um conformismo de que o papel argentino na economia
mundial é simplesmente o de fornecer matérias primas e alimentos.
Essa combinação de heterodoxia e ênfase na exportação dos
recursos naturais pode até dar certo e pode ser até que, através
dela, os argentinos voltem ao padrão de vida que tinham em décadas
anteriores. Mas é, novamente, um modelo para levar o país para o século
XIX e não para o XXI e, como indicado no artigo anterior, não
serviria para o Brasil e seus 200 milhões de habitantes.
No
fim, é curioso como, seja num modelo mais liberal como o do Chile,
seja num heterodoxo como o argentino, a perspectiva de inserção da
América Latina não se altere. Desde o século XVI somos
fornecedores de matérias primas e alimentos para o mundo e parece
que vamos continuar a ser só isto. Será que somos realmente
incapazes de imaginar alternativas capazes de promover um
desenvolvimento mais consistente e mais adaptado ao mundo moderno?
Nunca abandonaremos a perspectiva colonial?
por
JOÃO FÁBIO BERTONHA
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