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por
ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI
Professor do
Mestrado em Educação nas Ciências da UNIJUÍ - RS. Doutor em Ciências
Econômicas e Sociais pela Universidade de Osnabrück – Alemanha
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Refletindo
sobre a prática de ensino de Filosofia no Ensino Médio: uma experiência
no ensinar a pensar
O
presente texto é resultado de uma experiência de regência de
classe com a disciplina de Filosofia em Escola de Ensino Médio, na
cidade de Santa Rosa, Estado do Rio Grande do Sul. Na época, um
conjunto de questões estava emergente e, como não tínhamos referências
de uma prática já existente, que fosse coerente com as nossas
expectativas, na qual pudéssemos basear nossa ação, fomos
desafiados a construir uma proposta que pudesse ser adequada à
realidade local. Durante a elaboração da proposta de ensino,
optamos em integrar os alunos em nossas atividades de planejamento e
sistematização, motivando o grupo envolvido para a elaboração teórica,
considerando a construção de propostas para a educação um
desafio para a própria disciplina de Filosofia.
Sem dúvida, isso parecia muito difícil
num contexto da educação, no qual a interação entre professores
e alunos constitui um problema atual. Se, para realizar uma aula
tradicional, na qual os conteúdos, a metodologia e a forma de
avaliação são apresentados pelo professor, os alunos reagem com
indiferença ao estudo, certamente essa abertura à possibilidade de
envolvimento do grupo de alunos, acostumado a receber informações
prontas, a participar na elaboração da proposta de uma disciplina
escolar, seria um grande desafio. Ao mesmo tempo, compreendíamos
essa iniciativa como um elemento importante para a motivação do
grupo de alunos, visto que, se o trabalho desenvolvido partisse da
construção coletiva, haveria um maior comprometimento com a
disciplina e, em conseqüência, um melhor desenvolvimento das
atividades.
1.
A contradição entre a expectativa inicial e a prática educativa
Uma
das primeiras constatações importantes da nossa atividade
educativa foi a identificação do contexto social, político, econômico
e cultural, no qual se insere a juventude de nossa época. A implicância
das transformações da sociedade com a vida das pessoas é um
aspecto fundamental para a prática pedagógica. Assim, a definição
de alguns eixos básicos de atividades possíveis para o trabalho
levaram em conta a sua adequação à realidade dos educandos. Por
outro lado, diante da preocupação com a motivação do grupo
envolvido, havia um cuidado especial com a metodologia a ser
utilizada. Levando em consideração a rejeição dos alunos aos métodos
tradicionais de ensino, trabalhamos filosofia,
com base em uma metodologia que caracterizamos de “debate
construtivo de problemas”.
No
entanto, desde o primeiro contato com a turma de alunos, logo
percebemos que existe uma lacuna entre o que nos propusemos a
realizar (antes do envolvimento com o grupo) e a situação concreta
em que nos encontrávamos. Essa experiência foi fundamental para a
elaboração da proposta de trabalho, visto que, após as primeiras
aulas, surgiram idéias bem diferentes acerca do que poderia ser
realizado. Podemos afirmar, diante disto, que a atividade educativa
carece de uma constante reflexão crítica para que possa ser, de
fato, um processo coerente com nossa postura de educador. Se não
nos propusermos a refletir diante da prática realizada, corremos o
risco de cair num ativismo, o que reforça a cultura do improviso, tão
presente na cultura brasileira e, muitas vezes, prejudicial a um
efetivo trabalho que almeje a obtenção de resultados positivos
diante de problemas.
Com
a perspectiva de estarmos propondo um processo educativo em
constante construção, desde a primeira aula apresentamos nossa
proposta ao grupo para que fosse discutida, criticada e adequada ao
interesse coletivo. Além da metodologia que procurava evitar, na
medida do possível, atividades expositivas do professor diante dos
alunos, a principal novidade da proposta que apresentamos foi a
forma de avaliação. Considerando o poder do professor em
determinar a classificação dos alunos através de notas, nos
atrevemos a alterar esta histórica concepção de avaliação.
Propusemos a discussão da avaliação com o grupo, tentando
estabelecer critérios coletivos que pudessem criar uma maior
responsabilidade dos alunos com a disciplina em curso. Prevíamos a
abolição da prova bimestral e apresentávamos a sugestão de
realizar diversos trabalhos escritos que pudessem revelar o
crescimento do grupo e de cada indivíduo no decorrer das aulas.
No
entanto, desde as primeiras aulas, verificamos que os alunos não
estavam preparados para a nova forma de trabalho apresentada. A
inibição da maioria com a comunicação foi um problema sério a
ser enfrentado. Se estávamos prevendo um processo de debates e
discussões em grupo, os alunos esperavam um professor que viesse
expor conteúdos que, posteriormente, seriam exigidos em forma de
prova. Como os alunos devem ter passado grande parte de sua vida
escolar com a prática tradicional de educação, baseada em
metodologias expositivas, muitos demonstravam intimidações em se
pronunciar publicamente, permanecendo, a maior parte do tempo, em
silêncio. Alguns, ao contrário, se manifestavam seguidamente e
chegavam a impedir a manifestação dos outros. Assim, constatamos a
enorme distância entre o que estávamos dispostos a trabalhar e a
realidade dos alunos. Assim, a proposta foi apenas apresentada, não
havendo uma efetiva discussão a seu respeito, durante as primeiras
aulas.
Entretanto,
não desistimos da nossa forma de trabalhar. Entendíamos que seria
necessário motivar os alunos para a participação. Isso
representou uma grande mudança em nossa concepção de trabalho
inicial. A necessidade de estimular os alunos para o debate, nos
motivou a reelaborar as atividades após cada aula, desenvolvendo
reflexões sobre o que realizamos e o que precisávamos modificar ou
melhorar. Quando iniciamos as reflexões críticas das aulas
percebemos uma contradição importante em nossa proposta. Se estávamos
dispostos a construir nossas aulas com os alunos, porque havíamos
planejado as atividades para todas as aulas antes de entrar em
contato com a turma? E por que estávamos tão preocupados com os
conteúdos, se nossa principal meta era a motivação para o
pensamento filosófico? Concluímos, nesse momento, que o
fundamental do trabalho era construir atividades a partir de cada
aula, de cada comportamento que se manifestava, buscando
uma participação cada vez maior dos alunos na construção
das atividades.
2.
A democracia em sala de aula e o risco do basismo
Geralmente
quando nos referimos à democracia participativa em sala de aula
somos taxados de basistas. O que queremos dizer, aqui, com a expressão
basismo, é a tendência de considerarmos como verdadeiro tudo o que
emerge da base, do povo. Ou seja, a extrema valorização do saber
popular, ou mesmo, o reforço ao senso comum. Como, na maioria das
vezes, o professor se coloca na condição de quem sabe e impõe aos
alunos uma situação de aprendizagem em função do que procura
transmitir, esta afirmação segue uma lógica histórica. Sabemos
dos inúmeros problemas que a educação autoritária provocou nas
pessoas e os seus reflexos estão presentes no comportamento em
geral. Entretanto, a simples caracterização de basismo a qualquer
alteração na estrutura de poder, nos parece uma tentativa de
impedir uma novidade para a qual muitos não estão preparados.
Manifestamos
nossa contrariedade ao basismo e, principalmente na filosofia,
consideramos a necessidade de estarmos constantemente atentos a
nossas práticas educativas para não reforçarmos o senso comum.
Aliás, uma das maiores contribuições da filosofia é oferecer
condições para que as pessoas possam se libertar dos preconceitos,
da mera aparência e construir um conhecimento mais racional acerca
da realidade e do próprio ser humano. Essa problemática precisa
ser considerada num processo de construção do conhecimento em sala
de aula, pois condiciona o debate em torno da postura do professor e
da sua importância na atividade educativa.
Sentimos
uma tendência ao basismo no decorrer de nosso trabalho, visto que,
constantemente, buscávamos a adequação da nossa prática às
expectativas do grupo participante. Podemos afirmar que os
constantes momentos de reflexão sobre a nossa prática é que
possibilitaram o afastamento dessa “dependência ao desejo do
grupo”. Se apenas continuássemos o trabalho sem uma constante
avaliação, provavelmente estaríamos realizando as atividades em
função de si próprias. Em outras palavras, corremos o risco de
conceber as atividades como um fim em si mesmas e não como meios da
prática educativa. Realizar atividades educativas sem um objetivo,
uma análise do contexto e a posterior adequação à situação
concreta, levando em conta o que queremos, não permite a inovação,
mas apenas reforça o que o aluno já pensa, contribuindo para a
absolutização de idéias preconceituosas.
Consideramos
que nossa tentativa de estabelecer uma nova relação entre
professor e alunos, através do debate construtivo de problemas, foi
um passo decisivo para a construção de uma postura filosófica com
o grupo envolvido. A percepção de que a filosofia é algo que pode
ser acessível e que deve estar presente nas mais diversas situações
da vida humana, colocou o grupo de alunos numa nova perspectiva de
estudos. Se não tivéssemos buscado o envolvimento ativo dos
participantes com as diferentes atividades propostas, o nosso
trabalho não teria sentido enquanto experiência, pois o que os
alunos realizam na escola geralmente não lhes parece ter relação
com a sua vida cotidiana. Assim, ao invés de caírmos num ativismo
e posterior basismo (e vice-versa), o que buscávamos, enquanto
metodologia, era o planejamento participativo, levando em conta a
participação de cada aluno na definição do nosso trabalho, mas
sem absolutizar o consenso em torno do que parece mais simples. O
debate com os alunos teve, na gradativa problematização da prática,
a referência principal do seu próprio planejamento. A nossa
orientação maior foi a constante avaliação que realizamos,
acompanhando o progresso da turma com base nos seguintes critérios:
a) interesse em aprender (questionar, trabalhar); b) construção de
conhecimento na relação com o grupo; c) participação em todas as
atividades; d) avanço na capacidade de expressão e argumentação
(com clareza e coerência).
No
que tange às regras de disciplina e funcionamento dos trabalhos,
essas foram definidas pelo grupo de alunos que, além de as
elaborarem, foram responsáveis pela sua concretização e seu
cumprimento. Também, nesse aspecto, foram obtidos bons resultados,
revelando que, se os próprios alunos aprovam as normas que regerão
seu comportamento individual e as relações coletivas, há
uma maior responsabilidade e atenção no seu cumprimento,
melhorando os aspectos referentes à disciplina do grupo em sala de
aula.
3.
A avaliação participativa: uma idéia democrática num contexto de
condicionamentos
Com
certeza, o elemento que mais frustrou nossa expectativa foi a avaliação.
Como proposta, havíamos apresentado a possibilidade de abolição
da prova bimestral individual para classificação dos alunos por
notas, propondo a conferência de uma mesma nota para todos em função
dos resultados do grupo. Com isso, buscávamos evitar a histórica
contribuição da escola para a reprodução de mecanismos de
competição entre as pessoas, o que acentua a cultura de opressão
na sociedade. Coerente com nossa concepção de construção do
conhecimento, a referida proposta baseava-se na evolução
progressiva do grupo diante dos conteúdos trabalhados. Se a avaliação
tivesse como referência a turma de alunos e não os indivíduos,
estaríamos reforçando a solidariedade, propondo aos que melhor
entenderam as atividades a ajuda aos que tiveram maiores
dificuldades. Nessa proposta, levamos em conta a necessidade que a
turma teria de melhorar o aproveitamento de todos os alunos. A nota
de cada um, por sua vez, seria conferida a partir da média do grupo
que seria única. Logicamente, se todos no grupo melhorassem, a nota
individual aumentaria e de nada adiantaria competir, pois só
haveria uma melhor nota se os de menor rendimento pudessem ter a oportunidade de crescimento em cooperação com os demais.
A
proposta foi apreciada pelo grupo e somente alguns deram seu
parecer. A maioria dos participantes considerou ótima a idéia,
mas, praticamente, não ocorreram críticas nem complementações.
Isso nos pareceu um
pouco estranho no início, mas depois conseguimos entender que, se
os alunos nunca haviam participado de uma proposta desse tipo,
dificilmente poderiam propor ou criticar, já que não tinham
elementos para isso. Nesse sentido, continuamos propondo e
construindo atividades com a turma e percebemos que, cada vez mais,
estávamos melhorando a participação em sala de aula. Trabalhamos
com textos em forma de metáforas, slides, interpretação de músicas,
construção de análises da sociedade e muitos debates. A cada
encontro encaminhávamos um trabalho escrito a ser entregue até a
aula seguinte. A previsão era de uma avaliação para cada trabalho
produzido, de maneira que pudéssemos acompanhar o progresso
individual e coletivo do grupo. Porém, nesse aspecto em específico,
fomos confrontados com um problema grave: a maioria da turma não
entregava seus trabalhos, pois não realizavam tarefas fora do horário
escolar. Insistimos muito, avaliamos muitas vezes isso, mas não
conseguimos resolver o problema.
Diante
dessa recusa dos alunos em realizarem trabalhos fora do horário
escolar, fomos obrigados a romper com a proposta inicial de avaliação.
Muitos alunos afirmavam que a culpa era de quem não entregava os
trabalhos e queriam continuar com o método inicialmente proposto.
No entanto, estava evidente o fato de que, mesmo desejando que a
avaliação fosse coletiva, os alunos que se manifestavam também não
haviam entregue seus respectivos trabalhos e, a forma proposta para
a avaliação, só vinha a prejudicar o conjunto dos alunos que
teriam uma média de notas muito ruim se fossem considerados os
trabalhos não entregues até aquele momento. Em função disso, o
grupo concordou com a avaliação individual, reconhecendo que não
estavam acostumados a realizar trabalhos escolares, se esses não
valessem uma nota individual.
Constatamos
que é muito difícil construir
uma nova metodologia num contexto em que os alunos não estão
efetivamente preparados para a mudança. Durante a experiência em
curso, ficamos imaginando que seria possível trabalhar a forma de
avaliação proposta se, a partir das séries iniciais e durante o
transcurso do Ensino Fundamental, já se tivesse avançado mais com
essa prática nas escolas. Infelizmente, no pouco tempo que tivemos
para trabalhar, muitas das expectativas que tínhamos ficaram para
ser concretizadas no futuro. A mudança no comportamento de alunos não
é tão simples como prevíamos. Verificamos que, mesmo afirmando
querer mudar, havia um conjunto de fatores que conduzia os alunos à
acomodação diante do que propunham.
Não
se pode pretender mudar a educação somente através de uma
disciplina e em reduzido tempo de trabalho. Verificamos que o método
proposto precisa ser assumido como uma opção da escola como um
todo, começando a desenvolver com um mesmo grupo, desde as séries
iniciais, práticas que conduzam à auto-organização da turma,
sendo o professor uma referência básica para a assessoria do
processo, para o encaminhamento de atividades e para a coordenação
dos debates, a fim de que se possa atingir, da melhor forma, os
objetivos propostos. Pensamos que essa experiência revela a
necessidade de uma prática interdisciplinar na escola, para que os
diversos professores, das mais diferentes áreas, possam adotar uma
forma comum de avaliação, em discussão com todas as turmas de
alunos da escola. A disciplina de Filosofia pode dar uma contribuição
significativa na construção dessa proposta, pela sua capacidade de
reflexão crítica sobre a realidade e pela postura de desafiar as
pessoas para a construção de novas alternativas, coerentes com
objetivos de transformação da realidade existente.
Em
contrapartida, verificamos, também, que poderíamos ter dedicado um
maior tempo à discussão da avaliação e da própria proposta de
trabalho com os alunos. Entendemos que ainda ficamos muito
“atrelados” aos conteúdos e à idéia de que seria preciso,
necessariamente, concluir tudo o que planejamos. Se tivéssemos nos
preocupado mais com a forma de trabalhar e menos com os conteúdos,
certamente teríamos obtido melhores resultados no que se refere à
avaliação participativa. Compreendemos que estamos, ainda, muito
influenciados pela forma tradicional de educar e os resultados
negativos, geralmente, são atribuídos aos alunos. Os professores
também foram alunos e manifestam uma cultura de dominação em suas
concepções de trabalho. Precisamos nos atrever a aprender junto
com os alunos e refletir criticamente nossas atitudes, para que as
mesmas sejam cada vez
mais coerentes com nossas utopias, a ponto de traduzirmos em cada prática
educativa realizada um pouco do projeto de ser humano que queremos
construir para o futuro.
4.
O trabalho planejado a partir de temas geradores
No
início da nossa experiência de prática pedagógica, nos
apressamos em definir conteúdos que considerávamos fundamentais
para a turma. Chegamos a realizar várias elaborações procurando
adequar, da melhor forma possível, os temas fundamentais da
disciplina de Filosofia a serem abordados. Mas, ao entrarmos em
contato com os alunos, percebemos que novas preocupações estavam
sendo despertadas e entramos em conflito com a nossa proposta
inicial. Com o decorrer das aulas e os planejamentos que havíamos
realizado, constatamos que ainda estávamos trabalhando o mesmo
conteúdo e, junto a este, outros temas, como a exploração, a ética
e a política já haviam sido enfocados. Isso se justificava no
contexto em que as discussões vinham ocorrendo, visto que vários
assuntos estavam interligados ao enfocarmos a problemática social.
Numa
primeira análise, poderíamos afirmar que estávamos trabalhando
sem planejamento. Isso se tivermos uma compreensão de planejamento
como sendo algo estático, como um padrão a ser seguido. Quando os
alunos começaram a se envolver com a discussão dos temas
propostos, verificamos que estávamos diante de um momento muito
rico para um diálogo que poderia ser progressivamente construído e
que tivesse relação com a vida de cada um dos alunos. Para
provocar uma maior desinibição, provocamos os alunos a falarem de
si mesmos e apontarem num questionário suas maiores expectativas e
o que consideravam como entraves para a sua realização. Assim,
tivemos um diagnóstico da turma em relação às suas motivações
diante da filosofia e da própria escola.
Entendemos
que isso foi fundamental para a construção das aulas seguintes e
que não poderíamos seguir todos aqueles conteúdos apresentados
enquanto plano de ensino. Naquele momento estávamos discutindo a
ideologia e a alienação. Ainda tínhamos proposto vários outros
conteúdos como liberdade, ética, política, etc. Mas, percebemos
que enquanto discutíamos sobre a alienação, outros temas já
estavam presentes e que poderíamos discutí-los num mesmo momento,
tendo em vista um enfoque de acordo com os objetivos do trabalho.
Assim, começamos discutindo que o fato dos alunos estudarem apenas
para ter notas era uma forma de alienação. Da mesma forma, o
trabalho expositivo do professor, deixando os alunos passivos. Nesse
sentido, iniciamos com questões que estão cotidianamente colocadas
na vida dos alunos uma ampla discussão e, com o decorrer das aulas,
progredimos tanto que chegamos a abordar o sentido da existência
humana e a liberdade, temas fundamentais da filosofia. Com certeza,
se tivéssemos iniciado o trabalho com a discussão da liberdade,
dificilmente teríamos progredido de tal forma. Inclusive, não
chegamos a discutir especificamente o que é filosofia. Entretanto,
ao final dos trabalhos, os alunos perceberam que o que estávamos
realizando era o exercício da reflexão filosófica.
Assim, todos tiveram facilidade em expressar seu conceito de
filosofia. Surgiram muitos conceitos diferentes, o que foi muito
interessante, com cada aluno expressando suas próprias idéias e,
no conjunto, a turma identificava um sentido comum no tema proposto.
Durante o trabalho, percebemos que a alienação era o tema que mais
havia sido colocado em pauta. Sem a preocupação de querer esgotar
o tema, mas unindo debates, textos ilustrativos, slides, entrevistas
e breves exposições conseguimos trabalhar um conjunto de questões
inerentes à filosofia. Podemos dizer, então, que a alienação foi
o tema gerador, em torno do qual outras discussões eram iniciadas e
conciliadas.
5.
Algumas considerações finais
Muitas
das preocupações levantadas no início de uma experiência
educativa continuam presentes, mesmo após a sua conclusão. Na
disciplina de Filosofia trabalhamos intensamente com a subjetividade
dos alunos e a objetividade das ciências dificilmente pôde ser
pautada enquanto experiência, visto que as reflexões filosóficas
não se propõem a meramente responder questões. A preocupação da
filosofia está centrada no aprender a pensar criticamente e, para
isso, se propõe a questionar, perguntar e problematizar. Para
despertar o interesse pela filosofia nos alunos entendemos que a
metodologia utilizada foi um fator decisivo para obtermos sucesso. A
preocupação com o desenvolvimento de aulas atrativas é
fundamental a um público constituído majoritariamente por
adolescentes, mas isso não se refere simplesmente ao uso de
recursos didáticos. É muito importante a motivação do professor
para que a discussão possa ser mais intensificada e conduzida, de
fato, a um nível filosófico. Ainda, quanto ao professor, é necessária
a sua identificação com a turma. Em outras palavras, poderíamos
dizer que é necessário “tornar-se um integrante do grupo” ou
“ser visto como um deles”. Por isso, entendemos que a postura do
professor em relação a cada aluno e à turma, é, em boa parte,
determinante num processo de construção do conhecimento. A confiança
da turma no professor contribui para a explicitação de muitos
problemas no relacionamento e a predisposição em manter um
ambiente de motivação para o estudo e o debate crítico.
por
ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI
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