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por
ALEXANDER MARTINS VIANNA
Mestre em História Social e Doutorando pelo
PPGHIS-UFRJ
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A
sacralização do corpo político e a retórica de ameaça em “Ricardo
III”
“Dedico
este artigo à sexta turma de formandos de História da FEUDUC em
2007 e ao honrado amigo Ricardo Pereira Cabral”
Ao
analisar a recorrência da tópica do “mundo às avessas”
na literatura espanhola do século XVII, Maravall (1997: 251-279) a
associou a um sentimento geral de desconforto e insegurança em relação
à instabilidade e mutabilidade das coisas no mundo. No entanto,
como ele mesmo notou, a força temática de tal tópica está no
fato de que supõe que haja um mundo direito.
Portanto, há na tópica do “mundo às avessas”
uma moral de acomodação cara a uma sociedade ainda marcada por
estruturas patrimoniais-estamentais de poder: indaga-se sobre as
qualidades negativas do ser humano – o seu egoísmo, a sua
malignidade ou a sua depravação – para que, expondo-as extremosamente
e problematicamente,
possa-se ratificar a necessidade de dominá-las, contê-las e
dirigi-las. Por isso, não é apenas em tratados morais e religiosos
dos séculos XVI e XVII que se encontram frases contra a agressiva,
perversa e paradoxal condição do homem, mas também naquelas obras
que descrevem os modos de instalar-se e comportar-se no mundo, quais
sejam: novelas exemplares, poesias, tratados de etiqueta, miscelâneas
de aforismos e textos teatrais.
Na
peça “Ricardo III” (SIMS, 1597), é possível destacar o modo como a temática
moralizante de que a “traição
nunca prospera” é associada a elementos bíblicos do mito de
Herodes e Jesus, ao demoníaco dramático maquiavélico, a
caracteres políticos e sociais de Antigo Regime, à temática do
“non sense” das
guerras civis – metaforizadas como inconseqüente autofagia do
corpo político devido ao egoísmo de suas partes componentes –, e
como tudo isso cria justamente as condições narrativas para a
figuração do Conde de Richmond (futuro Henrique VII) como novo
messias a selar todas as feridas do corpo político e a inaugurar
uma nova era de paz, de estabilidade institucional e de prosperidade
do corpo político.
Nesse
sentido, é digno de nota o modo engenhoso como o personagem Ricardo
III é configurado na teleologia da peça: (1) ele é o portador de
uma astúcia sorrateira e possui uma grande capacidade de manipulação
das aparências, tirando disso efeitos destrutivos e injustos para
as ordens pública e doméstica, ou seja, o oposto do que sugerem os
tratados morais, políticos e de etiqueta dos séculos XVI e XVII;
(2) com cupidez e concupiscência, ele explora egoistamente a coerência
funcional das instituições, as facções no interior da nobreza e
os valores cortesãos, inventando periodicamente ameaças e difamações
que justifiquem a sua preeminência política na Casa Ducal de York
e a concentração do poder régio em suas mãos.
Todavia,
há algo mais a ser considerado que decorre de tal constatação: na
confrontação tipológica entre Ricardo (Desgraça
Demoníaca) e o Conde de Richmond (Graça
Divina), evidencia-se a idéia de que não haveria um apetite
natural no homem para o bem e para a vida social, ou seja, que o
desejo de ordem pública nasce da experiência extrema e destrutiva
do egoísmo dos interesses particulares. É justamente para proteger
estes que a ordem pública é divinamente infundida na vontade
humana como mecanismo de contenção e vigília em relação aos
riscos de egoísmo das unidades domésticas de poder. Tudo isso tão
somente evidencia o próprio paradoxo ético-religioso do corpo
político reformado: a necessidade da ameaça
(o mal) para que todos
percebam o valor divino da ordem
pública e das regras sociais (o bem).
(THOMAS, 1991: 381-387).
Ao
ser figurada numa relação implicativa com a graça divina, a ordem
pública representada pelo advento dramático de Richmond demanda a
manutenção da autoridade patriarcal dentro de cada unidade doméstica
de poder. Deste modo, nos termos de uma compreensão do Estado como
inscrito sociologicamente e culturalmente no Antigo Regime europeu,
cada unidade doméstica de poder continua sendo um fator central
para a configuração da harmonia do corpo político.(VIANNA, 2006a)
Por antonomásia, o “sono”, a “ausência” ou a “suspensão”
da autoridade patriarcal produz punitivamente um monstro: Ricardo
III.(MOULTON: 1996: 251-268) Portanto, o sentido literário da
exposição ritual e punitiva das mais diversas tendências agônicas
de ação e liberdade exterior é afirmar, ao final, o triunfo de um
princípio estabilizador de autoridade.
Ora,
esta mesma forma de expor as forças agônicas para ritualmente contê-las
e puni-las foi percebido por Curt Breight (1990: 1-28) quando se
debruçou nos textos oficiais ingleses que divulgavam, durante os
governos elizabetano e jacobita, os casos debelados de conspiração
contra a figura régia. Ele desenvolveu tal estudo com o objetivo de
constituir um contexto interpretativo específico para o tema da
traição e da sacralização da autoridade política de Próspero
na peça “A Tempestade”. No entanto, o seu estudo associa uma série de
elementos igualmente úteis para a interpretação da peça “Ricardo III”.
Curt
Breight percebeu que, entre 1581 e 1610, houve na Inglaterra uma
centralidade do tema da traição nos discursos oficiais do governo.
Embora as execuções por traição tivessem sido maiores na década
de 1530 do que durante o reinado de Elizabeth e dos primeiros anos
do reinado de James I, a quantidade de execuções por traição é
menos importante do que a regularidade dos discursos oficiais sobre
casos de traição, pois, em ritmo quase anual, houve paradas de
condução de “conspiradores diabólicos” para o cadafalso, freqüentemente
seguidas ou precedidas pela encenação de disputas retóricas entre
os “apologistas do regime” e seus “oponentes”.(BREIGHT,
1990: 1-4).
Em
“Ricardo III”, observamos tal disputa retórica na cena em que o
Duque de Clarence é “julgado” na Torre por dois assassinos anônimos,
havendo a derrota, obviamente, do acusado; e também observamos na
cena de reunião sobre a malograda coroação de Eduardo V, em que
William Hastings é arrolado exatamente como um “conspirador diabólico”.
Assim, a caracterização cênica de Ricardo III dá ao
“leitor/audiência” a oportunidade de observar o limite entre
ficção e realidade nos discursos oficiais de traição e, deste
modo, desmistifica as várias estratégias oficiais de poder que
poderiam estar contidas nas acusações de traição. Em sua
pesquisa, para demonstrar esta recorrência temática nos textos
oficiais ingleses, Curt Breight cita, por exemplo, o que considera
ser a duvidosa biografia do Dr. William Parry, executado em 1584/85.
Quando é narrado o fracasso dos intentos de William Parry, a figura
régia é deliberadamente envolta num círculo divino de proteção:
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“...thou
diddest confesse, that thou haddest prepared two Scottish
Daggers, fit for such a purpose: and those being disposed away
by thee, thou diddest say that an other would serve thy turne.
And with all, Parry, diddest thou not also confesse before us
howe wonderfully thou wert appauled and perplexed upon a
suddaine at the presence of her Maiestie at Hampton Court this
last sommer, sayng that thou diddest thinke thou then sawest
in her, the very likenes & image of King Henry the seventh?
And that therewith, and upon some speech used by her Maiestie,
thou diddest turne about and weepe bitterly to thy self? And
yet diddest call to mynde that thy vowes were in heaven, thy
letters and promises on earth, and that therefore thou diddest
say with thy selfe, that there was no remedy but to do it?”
[“A
true and plaine declaration of the terrible treasons,
practised by William Parry the traitor against the Queenes
Maiestie...containing a short collection of his birth,
education and course of life...”(n.d., probably 1585,
pp.2-3)] (Apud BREIGHT, 1990: 12)
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“...tu
confessas que armaste com adagas dois assassinos escoceses
adequados para tal propósito e, sendo estes enviados por ti,
tu disseste a um outro que deveria tomar o teu lugar. E
contudo, Parry, tu não confessas, perante nós, o quanto
surpreendentemente ficaste maravilhado e perplexo de súbito
na presença de sua Majestade na Corte de Hampton neste último
verão, dizendo que pensaste ter visto nela a própria imagem
e semelhança do Rei Henrique VII? E além disso, por causa de
algum pronunciamento feito por sua Majestade, tu foste
comovido e choraste amarguradamente? E mesmo consciente que
teus votos estão no céu, tuas cartas e promessas na terra,
tu então disseste para ti mesmo que não havia outro remédio
a não ser cumprir tal propósito?”
[“Uma
verdadeira e completa confissão da terrível traição
praticada por William Parry, o traidor, contra a Regina
Majestade...contendo uma curta coleção de seu nascimento,
educação e percurso de vida...”(s.d., provavelmente 1585,
pp.2-3)]
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Breight
(1990: 5-8) chama também atenção para o fato de que uma recorrência
retórico-temática dos casos judicialmente documentados de “traição”
é que os traidores são apresentados em número de três. Em “Ricardo
III”, aqueles que são arrolados de “traição diabólica”
contra Ricardo são, ao final, três (rainha Elizabeth, Lady Shore e
William Hastings), embora os efeitos da punição tenham recaído cenicamente
apenas sobre o Lorde Camarista.
Um
outro relato com a mesma perspectiva retórico-temática do “caso
Parry” foi aquele sobre “Mestre Alexander Ruthven”, acusado de
tramar o assassinato de James, em 1600, com seu irmão John Ruthven,
3º Conde de Gowry, quando ainda figurava como rei da Escócia.
Segundo o relato, o rei foi protegido do assassinato pelo poder de
sua Majestade Régia e de seu engenho discursivo: o traidor segurava uma adaga contra o seu coração...
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“...having
such crueltie in his looke, and standing so irrevenrently
covered with his Hat on, which forme rygorous behaviour, could
prognosticat nothing to his maiestie, but present extremitie.
But at his maiesties perswasive language, he appeared to be
somewhat amazed, and uncovering his head againe, swore and
protested that his maiestie life should be safe, if he would
behave himselfe quietly, without making noyes or crying”
[RUTHVEN,
J.. The Early of Gowrie conspiracie against the Kings Maiestie
of Scotland... London: Valentine Simmes, 1600] (Apud BREIGHT,
1990: 13)
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“...tendo
tanta crueldade em seu rosto e mantendo-se tão
irreverentemente em pé e coberto com seu Chapéu – o que
figura um comportamento descortês – que não se poderia
prognosticar nada à sua majestade a não ser uma presente
calamidade. Mas devido à persuasiva linguagem de sua
majestade, ele parecia de algum modo pasmado e, descobrindo
sua cabeça novamente, jurou e insistiu que a vida de sua
majestade estaria salva se ficasse em silêncio, sem fazer
barulho ou gritar”
[RUTHVEN,
J.. O Antecedente da conspiração Gowry contra a Régia
Majestade da Escócia... Londres: Valentine Simmes, 1600]
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Nesses
termos, tal como no caso descrito sobre Elizabeth, o caráter divino
da persona principesca e o
talento retórico de James são apresentados como fatores que
explicam o fato de ter saído incólume da “Conspiração Gowry”.
Em “Ricardo III”, quando Ricardo encomenda o assassinato de seu irmão
Clarence, os dois assassinos são advertidos para não se deixarem
enredar pela retórica de Clarence que, efetivamente, toca a consciência
de um dos assassinos, que hesita perante o duque. No caso do
assassinato dos seus sobrinhos (filhos de Eduardo IV), Ricardo III
tem a ajuda de Tyrrel, que encomenda um par de assassinos. Estes são
abalados emocionalmente diante do fato de assassinarem duas “perfeições
da natureza”.
No
relato da “Conspiração Gowry”, os oficiais escoceses de James
foram miraculosamente hábeis para descobrirem um terceiro
conspirador oito anos mais tarde, sendo executado não porque tenha
participado da tentativa de assassinato, mas por não ter denunciado
o que sabia sobre o conluio. Neste aspecto, o relato é muito
semelhante ao “caso de William Parry”, que se arrepende do
conluio contra a vida de Elizabeth, não participa diretamente do
ato (pois põe um terceiro assassino para tomar o seu lugar) e, por
fim, é arrolado no processo justamente por não ter denunciado o
que sabia.
Considerando
as duas situações centrais de traição e assassinato em “Ricardo
III”, deve-se notar que ocorrem em momentos da trama
politicamente distintos: quando há o assassinato de Clarence,
Ricardo não é ainda rei e, portanto, poderia potencialmente ser
arrolado como traidor, formando exatamente um triunvirato de
traidores; quando há o assassinato dos sobrinhos, o agora rei
Ricardo III – mesmo desfigurando a sua posição de lex
animata em tirania – não poderia ser arrolado como traidor,
mas, de qualquer modo, é configurado um novo triunvirato (Tyrrel,
Dighton e Forrest) de conspiradores contra a perfeição da
dignidade principesca latente nos inocentes confinados na Torre. Na
trama de assassinato dos sobrinhos, a posição de Ricardo é a
mesma de William Parry, mas, diferentemente deste, não demonstra
remorso – afinal, não se pode esperar isso de um demônio. O
remorso é reservado aos assassinos que são dramaticamente
humanos.
Portanto,
dentre várias possibilidades de análise, há esta de historicizar
a retórica da traição em “Ricardo III” à luz dos discursos oficiais sobre conspiração
contemporâneos às primeiras edições da peça. Uma confrontação
entre as cenas das orações de Richmond e Ricardo aos soldados,
pouco antes da batalha final entre ambos, demonstra justamente o
modo como Ricardo cria um clima de paranóia de ameaça como motivação
bélica para seus servidores, enquanto Richmond é figurado como a
encarnação perfeita da virtude cristã da dignidade régia,
expondo os efeitos destrutivos e autofágicos da tirania de Ricardo
para o reino, assim como a relação implicativa entre tirania e
faccionismo político:
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Oração
de Richmond aos soldados:
His
oration to his souldiers.
More
then I haue said, louing countriemen,
The
leasure and inforcement of the time,
Forbids
to dwell vpon, yet remember this,
God,
and our good cause, fight vpon our side,
The
praiers of holy Saints and wronged soules,
Like
high reard bulwarkes, stand before our faces,
Richard,
except those whome we fight against,
Had
rather haue vs winne, then him they follow:
For,
what is he they follow? truelie gentlemen,
A
bloudie tirant, and a homicide.
One
raisd in bloud, and one in bloud established,
One
that made meanes to come by what he hath,
And
slaughtered those, that were the meanes to helpe him.
A
base foule stone, made precious by the soile,
Of
Englands chaire, where he is falsely set,
One
that hath euer bene Gods enemie.
Then
if you fight against Gods enemie,
God
will in iustice, ward you as his souldiers,
If
you doe sweate to put a tyrant downe,
You
sleepe in peace, the tyrant being slaine,
If
you doe fight against your countries foes,
Your
countries fat, shall paie your paines the hire.
If
you doe fight in safegard of your wiues,
Your
wiues shall welcome home the conquerors.
If
you doe free your children from the sword,
Your
childrens children quits it in your age:
Then
in the name of God and all these rightes,
Aduaunce
your standards, drawe your willing swordes,
For
me, the raunsome of my bold attempt,
Shall
be this could corps on the earths cold face :
But
if I thriue, the gaine of my attempt,
The
least of you, shall share his part thereof.
Sound
drummes and trumpets boldlie, and cheerefullie,
God,
and Saint George, Richmond, and victorie.
(SIMS,
1597: pp.90-91)
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Sua
Oração a seus soldados
Por
mais que eu tivesse o que dizer, compatriotas amados,
a
urgência e a necessidade do tempo
proíbem
que nos estendamos. Então, lembrem disso:
Deus
e a nossa boa causa lutam do nosso lado.
As
preces das almas ofendidas e Santos sagrados,
como
altos e fortes suportes, levantam-se perante nossas faces.
Aqueles
contra os quais lutamos, com exceção de Ricardo,
gostariam
de nos ver vencer, em vez daquele a quem seguem.
Pois
o que é aquele que eles seguem?
Sinceramente,
cavalheiros,
um
tirano sanguinário, e um homicida,
elevado
pelo sangue e pelo sangue mantido,
que
usou todos os meios para alcançar o que tem
e
assassinou aqueles que o ajudaram nisso.
Um
cascalho transformado em preciosa pedra
pelo
esplendor do trono da Inglaterra,
onde
erradamente está sentado.
Alguém
que sempre tem sido de Deus o inimigo!...
Então,
se vossas mercês lutarem contra o inimigo de Deus,
Deus,
justamente, premiará vossas mercês como seus soldados.
Se
vossas mercês suarem para derrubar um tirano,
estando
ele morto, vossas mercês dormirão em paz.
Se
vossas mercês lutarem contra os inimigos de vossas terras,
elas
prosperarão, recompensando vossos sofrimentos.
Se
vossas mercês lutarem para protegerem vossas esposas,
elas
bem vos receberão como conquistadores.
Se
vossas mercês livrarem vossos filhos da espada,
os
filhos de vossos filhos em vossa velhice retribuirão.
Então,
em nome de Deus e de todos estes direitos,
avancem
vossos estandartes,
desembainhem
ardentes vossas espadas.
Para
mim, o pagamento de minha ação ousada
será
este corpo frio na face fria da terra.
Mas
se eu vencer, o mais humilde de vossas mercês
então
terá a sua parte no ganho de minha ação.
Soem
os tambores e as trombetas, corajosa e alegremente!
Deus
e São Jorge, Richmond e vitória!
|
De
modo convencional, Richmond tenta legitimar, perante os seus
aliados, uma ação contra Ricardo, distinguindo-o, retoricamente,
da dignidade régia e da proteção divina, pois Deus estaria do
“lado de Richmond” e, portanto, disso somente poderia advir a
vitória, a segurança, a prosperidade e a posteridade para todos.
Ricardo é o avesso de
tudo isso: como afirma Richmond, trata-se de um tirano “elevado
pelo sangue e pelo sangue mantido”, que se valeu de todos os meios
para alcançar seus fins (particulares), que não soube tornar os
seus êxitos políticos em benefícios efetivos para seus súditos
e, contrário às leis da natureza, mostrou-se capaz de assassinar
os seus próprios aliados e parentes, sem que houvesse qualquer
justificativa que envolvesse o interesse público.
Nesse
sentido, Ricardo III representa tanto o avesso
do ideal humanista de vir-virtutis quanto a deformação
demoníaca – em seus efeitos práticos destrutivos à manutenção
da ordem pública e à estabilidade institucional – da
moral do parecer contida
na noção de ‘virtù’ de Maquiavel. Nesses termos, Ricardo
mostra-se tão completamente perverso que é incapaz de ser
agradecido com aqueles que o ajudaram em seu projeto de poder. Logo,
a sua autoridade é frágil porque transformou o temor deferente e a
esperança de graça/justiça na autoridade régia em ódio,
ressentimento, desconfiança excessiva e em ameaça à honra e ao
patrimônio, ou seja, os exatos elementos que o próprio Ricardo,
retoricamente, projeta nos inimigos quando faz a sua “oração aos
soldados”:
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o
gentlemen euery man vnto his charge,
Let
not our babling dreames affright our soules:
Conscience
is but a word that cowards vse,
Deuisd
at first to keepe the strong in awe,
Our
strong armes be our conscience swords, our law.
March
on, ioine brauelie, let vs to it pell mell,
If
not to heauen then hand in hand to hell.
His
Oration to his army.
What
shal I saie more then I haue inferd?
Remember
whom you are to cope withall,
A
sort of vagabonds, rascols and runawaies,
A
scum of Brittains and base lacky pesants,
Whom
their orecloied country vomits forth,
To
desperate aduentures and assurd destruction,
You
sleeping safe they bring to you vnrest,
You
hauing lands and blest with beauteous wifes,
They
would restraine the one, distaine the other,
And
who doth lead them but a paltrey fellow,?
Long
kept in Brittaine at our mothers cost,
A
milkesopt, one that neuer in his life
Felt
so much colde as ouer shooes in snow:
Lets
whip these stragglers ore the seas againe,
Lash
hence these ouerweening rags of France,
These
famisht beggers wearie of their liues,
Who
but for dreaming on this fond exploit,
For
want of means poore rats had hangd themselues,
If
we be conquered, let men conquer vs,
And
not these bastard Brittains whom our fathers
And
in record left them the heires of shame.
Shall
these enioy our lands, lie with our wiues?
Rauish
our daughters, harke I heare their drum,
Fight
gentlemen of England, fight bold yeomen,
Draw
archers draw your arrowes to the head,
Spur
your proud horses hard, and ride in bloud,
Amaze
the welkin with your broken staues,[...]
(SIMS,
1597: pp.92-93)
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Andem,
cavalheiros, cada homem em seu posto!
Não
deixem nossos sonhos pueris abalarem nossos ânimos.
Consciência
é apenas uma palavra de uso dos covardes,
inicialmente
inventada para manter o forte em temor respeitoso.
Que
nossos braços fortes sejam nossa consciência,
e
que nossas espadas sejam nossa lei!
Marchem
juntos e bravamente, rápidos e desembestados,
se
não para o céu, então, de déu em déu, para o inferno.
Sua
Oração a seu exército
O
que tenho eu a dizer a mais do que já disse?
Lembrem
quem vossas mercês confrontarão:
Um
bando de vagabundos, malandros e desocupados;
uma
escória de bretães, e camponeses sem eira nem beira,
impulsionados,
como vômitos, de sua terra devastada
para
aventuras desesperadas e destruição verdadeira.
Se
vossas mercês dormem seguros, eles trazem distúrbios.
Se
vossas mercês possuem terras
e
são abençoados com esposas belas,
eles
reduzem uma e maculam a outra.
E
quem os lidera? Apenas um homem insignificante,
por
muito tempo mantido, às custas de nossas mães, na Bretanha.
Um
afeminado que nunca sentiu em sua vida
o
frio intenso dos sapatos cobertos pela neve.
Vamos
açoitar estes vagabundos para o além-mar de novo,
enxotar
daqui estes insolentes maltrapilhos da França,
estes
famélicos mendigos cansados de suas vidas
que,
devido à carência de meios,
por
apenas sonharem nesta absurda façanha,
pobres
ratos, deixaram-se apanhar!
Se
formos conquistados, que sejam homens a conquistar-nos
e
não estes bretães bastardos, a quem nossos pais
bateram,
esmurraram e surraram em sua própria terra
e
deixaram para eles, em lembrança, os herdeiros da vergonha.
Devem
estes desfrutarem de nossas terras,
deitarem
com nossas esposas, violarem nossas filhas?...
Escutem!...
Eu ouvi o seu tambor...
Lutem,
cavalheiros da Inglaterra! Lutem, bravos da guarda!
Atirem,
arqueiros, atirem suas flechas na cabeça!
Esporeiem
firme vossos orgulhosos cavalos e galopem no sangue!
Pasmem
o céu com o estalar de vossas lanças![...]
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Explorado
retoricamente para caracterizar o personagem Ricardo, o “demoníaco
maquiavélico” (SKINNER, 2000: 578) presente nas falas de Richmond
e do próprio Ricardo completa o significado ambíguo da expressão
“elevado pelo sangue e pelo sangue mantido”: é pelo
“sangue” (assassinato de parentes e aliados) que Ricardo
conseguiu travestir-se da dignidade régia, mas isso apenas é possível
porque é pelo “sangue” (seqüência da herança dinástica) que
ele pôde assumir a Coroa. No entanto, no ponto relativo à herança
dinástica, a situação de Ricardo é semelhante àquela de
Richmond.
Lembrar
isso atenua o potencial subversivo da fala de Richmond,
principalmente se considerarmos que, ao final do século XVI, já
estava bastante difundido o debate teológico-político (católico e
puritano) a respeito do dever de se resistir a um “tirano diabólico”.(Idem:
347-616) Ora, na peça “Ricardo
III”, como Richmond é mais um potencial herdeiro do trono
inglês, não é o “povo” ou o “reino” em si mesmo que se
levanta contra um “tirano diabólico”, mas alguém
dinasticamente legítimo que, caridosamente, lembra que aqueles que
estão do lado do “cascalho” moral (que fora elevado à “pedra
preciosa” pela dignidade régia) gostariam de ver a causa dinástica
de Richmond vencer, pois a sua fidelidade seria menos ao rei
Ricardo do que à dignidade de Rei.
Do
ponto de vista histórico, tal distinção jurídica foi
implementada por Henrique VII em 1495: “De
Facto Act” demonstrava claramente a construção legal da
impessoalidade do poder monárquico e, portanto, a abstração jurídica
e prática da idéia de Estado. Era intenção deste decreto
eliminar todas as conseqüências potencialmente desagradáveis
originadas das guerras civis. Para tanto, reconheceu que nenhum súdito
“deveria perder ou ser confiscado de alguma coisa por realizar o seu
verdadeiro dever e serviço de obediência” ao aderir a um ou
outro anti-rei durante a Guerra das Duas Rosas (1455-1485).(KANTOROWICZ,
1998: 225) Esta solução legal era uma forma de pacificar as
clivagens políticas advindas da guerra civil ao deixar
juridicamente claro que a fidelitas deveria ser
medida, antes de tudo, pela submissão à autoridade da dignidade institucional régia, independentemente de sua
corporalidade física e transitória num rei ou dinastia.
Na
peça “Ricardo III”,
o mesmo tom de potencial conciliação e perdão para aqueles que
estiveram do “lado” de Ricardo demonstra, na verdade, que
Richmond não enxerga os “aliados” de Ricardo como traidores da
dignidade régia, pois o único traidor
(“inimigo de Deus”)
dos atributos régios seria o próprio Ricardo, por ter dado à
Coroa efeitos práticos que ameaçavam a deferência em relação à
autoridade patriarcal e que em nada contribuíram para a construção
de segurança e prosperidade para todos os súditos. Nesse sentido,
é bastante eloqüente que a fala de Ricardo seja cuidadosamente
configurada na peça para enfatizar que não se deve esperar de sua
ação nada que conduza ao fim do faccionismo político.
Ora,
ao casar-se com Elizabeth de York, o fictício Richmond (entronizado
como Henrique VII pelas mãos de Lorde Stanley) justamente põe fim
ao mecanismo de “apetite e fuga” da guerra civil, demonstrando
que cada grande casa do reino deveria ver-se como (e portar-se como
parte de) uma Commonwealth.
(KEMP, 1996: 451-460) Como sinédoque da desfiguração corporal da Commonwealth,
Ricardo é a face extrema do mecanismo feérico da guerra civil: sem
qualquer constrangimento moral, afirma que, para o guerreiro não
ser afeminado, é necessário abandonar qualquer firula de consciência
em relação aos “inimigos” e fazer valer a espada
(força) como lei.
Ao
incitar seus soldados à luta, Ricardo pinta um cenário diabólico
de ameaça aberta por parte de uma “ralé insolente” liderada
por um “afeminado” que jamais teria experimentado como ele,
Ricardo, os sacrifícios e privações dos campos de batalha. Ora,
seguindo a sua lógica, se o cenário é diabólico, o mal deveria
ser combatido com o mal. Eis a “moral infernal” ou o
“maquiavelismo demoníaco” que permitiria a seus soldados, tal
como seu rei, abandonarem uma “afeminante” e “pueril” consciência
na confrontação com os “inimigos”.
O
cenário de desolação e ameaça pintado retoricamente pelo
personagem dramático Ricardo pouco deixa a dever à conjuntura de
revoltas populares e pestes que assolavam o interior britânico nas
décadas de 1580 e 1590. Por isso, embora seja com intenções egoístas
e diabólicas que Ricardo suscite seus soldados a abandonarem a consciência (e, portanto, qualquer senso humano de
limite para as vilanias) e defenderem
feericamente os seus patrimônios e honras familiares, é factível
imaginar que o “leitor/audiência” da peça sentir-se-ia, em
alguma medida, familiarizado com aquilo que ele descrevia. Daí, é
importante salientar alguns pontos relativos à materialidade
textual da edição de 1597 de “Ricardo III”, já que interferem diretamente em sua legibilidade.
Quando
as edições hodiernas da peça “Ricardo
III” se defrontaram com o tratamento pátrio reservado a
Richmond e seus aliados na “oração aos soldados” de Ricardo,
tenderam a “corrigi-lo”. Com isso, Richmond e seus seguidores são
tratados como “bretães...maltrapilhos da França”. Este é o
tratamento histórico e geográfico correto, pois alude à região
francesa de Bretagne
(i.e., Britanny em inglês contemporâneo), que fora área de passagem e
base estratégica dos conflitos entre as monarquias inglesa e
francesa durante a Guerra dos Cem Anos (1337-1453). Este é o
“passado” do qual se gaba Ricardo III ao se referir às façanhas
de “our fathers”.
Assim, na perspectiva de Ricardo, um “passado de guerras
externas” foi sucedido por um “presente de guerras internas”
(a Guerra das Duas Rosas, 1455-1485).
No
entanto, considerando a edição de 1597, tendo a pensar que há um
proposital deslocamento semântico-fonética do adjetivo pátrio “Brittains”
para se referir indistintamente a Britain (Inglaterra) e Bretagne
(França). Ora, as edições contemporâneas da peça, por tentarem
“corrigir” o adjetivo pátrio “Brittains”
para “Bretons”(Oxford) ou “Bretagnes”
(Gramercy), e por manterem a forma francesa Bretagne
(Oxford e Gramercy) para se referirem ao território, diminuem
justamente a ambigüidade de referente geográfico e, assim,
eliminam o deslocamento semântico-fonética de “bretães/França”
para “britânicos/Inglaterra” presente na edição de 1597 da peça.
Nesse sentido, se comparado ao leitor hodierno, penso que seria
muito mais evidente para um leitor britânico de finais do século
XVI associar a imagem dos “maltrapilhos da França” aos próprios
ingleses que, afinal, estavam mergulhados nos efeitos destrutivos
(materiais e morais) de guerras externas (contra Espanha e a Sé
Romana) e internas (cujo epicentro eram os problemas da colonização
inglesa na Irlanda).
Assim,
levando-se em conta o clima político de finais do século XVI, a
forma como são explorados na peça os temas da traição e da
autofagia do corpo político por guerras interdinásticas e conluios
intradinásticos acaba por desmistificar para a “audiência/leitor”
os mecanismos da autoridade política, à medida que o próprio
Ricardo III, como demoníaco vilão dramático, expõe cruamente o
quanto é fácil explorar a retórica da traição e da ameaça ao
corpo político em projetos pessoais de poder. No entanto, uma vez
demonstrado o paroxismo do mal, a teleologia dramática devolve ao
“leitor/audiência” a segurança e a deferência à autoridade,
desde que bem encarnada (ou encarnada pelo bem), ao operar com a
tese moral de que a “traição nunca prospera”.
Por
isso mesmo, não se deve perder de vista o lado direito
daquilo que Ricardo é o avesso:
ao ser Ricardo figurado como vilão demoníaco e traiçoeiro, a sua
derrota/morte torna-se, tal como é sugerida na chamada editorial de
1597 (VIANNA, 2006b), “mais do que merecida” e, por antonomásia,
faz do advento do Conde de Richmond a promessa messiânica de uma
nova era – o triunfo de “Cristo” sobre a morte (i.e., sobre a
destruição e o mal do/no corpo político). Nesse sentido, a figuração
diabólica de Ricardo III pode ser entendida como uma sinédoque
hiperbólica das forças destrutivas da guerra civil que, em alguma
medida, afetaram o humor de todos os membros do corpo político. No
entanto, através da nova
aliança representada pelo advento de Richmond-Christus, todos (personagens dentro da peça e fora da peça) são,
ao final, purificados de seus males passados,
embora não estejam livres dos mesmos males no futuro e no presente.
Eis o grande aviso teológico-político que acredito que a peça
termina por veicular para um leitor de 1597.
por
ALEXANDER MARTINS VIANNA
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Referências
Bibliográficas:
VIANNA,
Alexander Martins. “Shakespeare”
entre atos Editoriais: A Propósito de uma Crítica a Roger Chartier.
História, Imagem e Narrativa, n.3. Rio de Janeiro: PPGHC-UFRJ,
2006b.
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