por ALEXANDER MARTINS VIANNA

Mestre em História Social e Doutorando pelo PPGHIS-UFRJ

 

 

A sacralização do corpo político e a retórica de ameaça em “Ricardo III

 

“Dedico este artigo à sexta turma de formandos de História da FEUDUC em 2007 e ao honrado amigo Ricardo Pereira Cabral”

 

Ao analisar a recorrência da tópica do “mundo às avessas” na literatura espanhola do século XVII, Maravall (1997: 251-279) a associou a um sentimento geral de desconforto e insegurança em relação à instabilidade e mutabilidade das coisas no mundo. No entanto, como ele mesmo notou, a força temática de tal tópica está no fato de que supõe que haja um mundo direito. Portanto, há na tópica do “mundo às avessas” uma moral de acomodação cara a uma sociedade ainda marcada por estruturas patrimoniais-estamentais de poder: indaga-se sobre as qualidades negativas do ser humano – o seu egoísmo, a sua malignidade ou a sua depravação – para que, expondo-as extremosamente e problematicamente, possa-se ratificar a necessidade de dominá-las, contê-las e dirigi-las. Por isso, não é apenas em tratados morais e religiosos dos séculos XVI e XVII que se encontram frases contra a agressiva, perversa e paradoxal condição do homem, mas também naquelas obras que descrevem os modos de instalar-se e comportar-se no mundo, quais sejam: novelas exemplares, poesias, tratados de etiqueta, miscelâneas de aforismos e textos teatrais.

Na peça “Ricardo III” (SIMS, 1597), é possível destacar o modo como a temática moralizante de que a “traição nunca prospera” é associada a elementos bíblicos do mito de Herodes e Jesus, ao demoníaco dramático maquiavélico, a caracteres políticos e sociais de Antigo Regime, à temática do “non sense” das guerras civis – metaforizadas como inconseqüente autofagia do corpo político devido ao egoísmo de suas partes componentes –, e como tudo isso cria justamente as condições narrativas para a figuração do Conde de Richmond (futuro Henrique VII) como novo messias a selar todas as feridas do corpo político e a inaugurar uma nova era de paz, de estabilidade institucional e de prosperidade do corpo político.

Nesse sentido, é digno de nota o modo engenhoso como o personagem Ricardo III é configurado na teleologia da peça: (1) ele é o portador de uma astúcia sorrateira e possui uma grande capacidade de manipulação das aparências, tirando disso efeitos destrutivos e injustos para as ordens pública e doméstica, ou seja, o oposto do que sugerem os tratados morais, políticos e de etiqueta dos séculos XVI e XVII; (2) com cupidez e concupiscência, ele explora egoistamente a coerência funcional das instituições, as facções no interior da nobreza e os valores cortesãos, inventando periodicamente ameaças e difamações que justifiquem a sua preeminência política na Casa Ducal de York e a concentração do poder régio em suas mãos.

Todavia, há algo mais a ser considerado que decorre de tal constatação: na confrontação tipológica entre Ricardo (Desgraça Demoníaca) e o Conde de Richmond (Graça Divina), evidencia-se a idéia de que não haveria um apetite natural no homem para o bem e para a vida social, ou seja, que o desejo de ordem pública nasce da experiência extrema e destrutiva do egoísmo dos interesses particulares. É justamente para proteger estes que a ordem pública é divinamente infundida na vontade humana como mecanismo de contenção e vigília em relação aos riscos de egoísmo das unidades domésticas de poder. Tudo isso tão somente evidencia o próprio paradoxo ético-religioso do corpo político reformado: a necessidade da ameaça (o mal) para que todos percebam o valor divino da ordem pública e das regras sociais (o bem). (THOMAS, 1991: 381-387).

Ao ser figurada numa relação implicativa com a graça divina, a ordem pública representada pelo advento dramático de Richmond demanda a manutenção da autoridade patriarcal dentro de cada unidade doméstica de poder. Deste modo, nos termos de uma compreensão do Estado como inscrito sociologicamente e culturalmente no Antigo Regime europeu, cada unidade doméstica de poder continua sendo um fator central para a configuração da harmonia do corpo político.(VIANNA, 2006a) Por antonomásia, o “sono”, a “ausência” ou a “suspensão” da autoridade patriarcal produz punitivamente um monstro: Ricardo III.(MOULTON: 1996: 251-268) Portanto, o sentido literário da exposição ritual e punitiva das mais diversas tendências agônicas de ação e liberdade exterior é afirmar, ao final, o triunfo de um princípio estabilizador de autoridade.

Ora, esta mesma forma de expor as forças agônicas para ritualmente contê-las e puni-las foi percebido por Curt Breight (1990: 1-28) quando se debruçou nos textos oficiais ingleses que divulgavam, durante os governos elizabetano e jacobita, os casos debelados de conspiração contra a figura régia. Ele desenvolveu tal estudo com o objetivo de constituir um contexto interpretativo específico para o tema da traição e da sacralização da autoridade política de Próspero na peça “A Tempestade”. No entanto, o seu estudo associa uma série de elementos igualmente úteis para a interpretação da peça “Ricardo III”.

Curt Breight percebeu que, entre 1581 e 1610, houve na Inglaterra uma centralidade do tema da traição nos discursos oficiais do governo. Embora as execuções por traição tivessem sido maiores na década de 1530 do que durante o reinado de Elizabeth e dos primeiros anos do reinado de James I, a quantidade de execuções por traição é menos importante do que a regularidade dos discursos oficiais sobre casos de traição, pois, em ritmo quase anual, houve paradas de condução de “conspiradores diabólicos” para o cadafalso, freqüentemente seguidas ou precedidas pela encenação de disputas retóricas entre os “apologistas do regime” e seus “oponentes”.(BREIGHT, 1990: 1-4).

Em “Ricardo III”, observamos tal disputa retórica na cena em que o Duque de Clarence é “julgado” na Torre por dois assassinos anônimos, havendo a derrota, obviamente, do acusado; e também observamos na cena de reunião sobre a malograda coroação de Eduardo V, em que William Hastings é arrolado exatamente como um “conspirador diabólico”. Assim, a caracterização cênica de Ricardo III dá ao “leitor/audiência” a oportunidade de observar o limite entre ficção e realidade nos discursos oficiais de traição e, deste modo, desmistifica as várias estratégias oficiais de poder que poderiam estar contidas nas acusações de traição. Em sua pesquisa, para demonstrar esta recorrência temática nos textos oficiais ingleses, Curt Breight cita, por exemplo, o que considera ser a duvidosa biografia do Dr. William Parry, executado em 1584/85. Quando é narrado o fracasso dos intentos de William Parry, a figura régia é deliberadamente envolta num círculo divino de proteção:

“...thou diddest confesse, that thou haddest prepared two Scottish Daggers, fit for such a purpose: and those being disposed away by thee, thou diddest say that an other would serve thy turne. And with all, Parry, diddest thou not also confesse before us howe wonderfully thou wert appauled and perplexed upon a suddaine at the presence of her Maiestie at Hampton Court this last sommer, sayng that thou diddest thinke thou then sawest in her, the very likenes & image of King Henry the seventh? And that therewith, and upon some speech used by her Maiestie, thou diddest turne about and weepe bitterly to thy self? And yet diddest call to mynde that thy vowes were in heaven, thy letters and promises on earth, and that therefore thou diddest say with thy selfe, that there was no remedy but to do it?”

[“A true and plaine declaration of the terrible treasons, practised by William Parry the traitor against the Queenes Maiestie...containing a short collection of his birth, education and course of life...”(n.d., probably 1585, pp.2-3)] (Apud BREIGHT, 1990: 12)

“...tu confessas que armaste com adagas dois assassinos escoceses adequados para tal propósito e, sendo estes enviados por ti, tu disseste a um outro que deveria tomar o teu lugar. E contudo, Parry, tu não confessas, perante nós, o quanto surpreendentemente ficaste maravilhado e perplexo de súbito na presença de sua Majestade na Corte de Hampton neste último verão, dizendo que pensaste ter visto nela a própria imagem e semelhança do Rei Henrique VII? E além disso, por causa de algum pronunciamento feito por sua Majestade, tu foste comovido e choraste amarguradamente? E mesmo consciente que teus votos estão no céu, tuas cartas e promessas na terra, tu então disseste para ti mesmo que não havia outro remédio a não ser cumprir tal propósito?”

[“Uma verdadeira e completa confissão da terrível traição praticada por William Parry, o traidor, contra a Regina Majestade...contendo uma curta coleção de seu nascimento, educação e percurso de vida...”(s.d., provavelmente 1585, pp.2-3)]

Breight (1990: 5-8) chama também atenção para o fato de que uma recorrência retórico-temática dos casos judicialmente documentados de “traição” é que os traidores são apresentados em número de três. Em “Ricardo III”, aqueles que são arrolados de “traição diabólica” contra Ricardo são, ao final, três (rainha Elizabeth, Lady Shore e William Hastings), embora os efeitos da punição tenham recaído cenicamente apenas sobre o Lorde Camarista.

Um outro relato com a mesma perspectiva retórico-temática do “caso Parry” foi aquele sobre “Mestre Alexander Ruthven”, acusado de tramar o assassinato de James, em 1600, com seu irmão John Ruthven, 3º Conde de Gowry, quando ainda figurava como rei da Escócia. Segundo o relato, o rei foi protegido do assassinato pelo poder de sua Majestade Régia e de seu engenho discursivo: o traidor segurava uma adaga contra o seu coração...

“...having such crueltie in his looke, and standing so irrevenrently covered with his Hat on, which forme rygorous behaviour, could prognosticat nothing to his maiestie, but present extremitie. But at his maiesties perswasive language, he appeared to be somewhat amazed, and uncovering his head againe, swore and protested that his maiestie life should be safe, if he would behave himselfe quietly, without making noyes or crying”

[RUTHVEN, J.. The Early of Gowrie conspiracie against the Kings Maiestie of Scotland... London: Valentine Simmes, 1600] (Apud BREIGHT, 1990: 13)

“...tendo tanta crueldade em seu rosto e mantendo-se tão irreverentemente em pé e coberto com seu Chapéu – o que figura um comportamento descortês – que não se poderia prognosticar nada à sua majestade a não ser uma presente calamidade. Mas devido à persuasiva linguagem de sua majestade, ele parecia de algum modo pasmado e, descobrindo sua cabeça novamente, jurou e insistiu que a vida de sua majestade estaria salva se ficasse em silêncio, sem fazer barulho ou gritar”

[RUTHVEN, J.. O Antecedente da conspiração Gowry contra a Régia Majestade da Escócia... Londres: Valentine Simmes, 1600]

 

Nesses termos, tal como no caso descrito sobre Elizabeth, o caráter divino da persona principesca e o talento retórico de James são apresentados como fatores que explicam o fato de ter saído incólume da “Conspiração Gowry”. Em “Ricardo III”, quando Ricardo encomenda o assassinato de seu irmão Clarence, os dois assassinos são advertidos para não se deixarem enredar pela retórica de Clarence que, efetivamente, toca a consciência de um dos assassinos, que hesita perante o duque. No caso do assassinato dos seus sobrinhos (filhos de Eduardo IV), Ricardo III tem a ajuda de Tyrrel, que encomenda um par de assassinos. Estes são abalados emocionalmente diante do fato de assassinarem duas “perfeições da natureza”.

No relato da “Conspiração Gowry”, os oficiais escoceses de James foram miraculosamente hábeis para descobrirem um terceiro conspirador oito anos mais tarde, sendo executado não porque tenha participado da tentativa de assassinato, mas por não ter denunciado o que sabia sobre o conluio. Neste aspecto, o relato é muito semelhante ao “caso de William Parry”, que se arrepende do conluio contra a vida de Elizabeth, não participa diretamente do ato (pois põe um terceiro assassino para tomar o seu lugar) e, por fim, é arrolado no processo justamente por não ter denunciado o que sabia.

Considerando as duas situações centrais de traição e assassinato em “Ricardo III”, deve-se notar que ocorrem em momentos da trama politicamente distintos: quando há o assassinato de Clarence, Ricardo não é ainda rei e, portanto, poderia potencialmente ser arrolado como traidor, formando exatamente um triunvirato de traidores; quando há o assassinato dos sobrinhos, o agora rei Ricardo III – mesmo desfigurando a sua posição de lex animata em tirania – não poderia ser arrolado como traidor, mas, de qualquer modo, é configurado um novo triunvirato (Tyrrel, Dighton e Forrest) de conspiradores contra a perfeição da dignidade principesca latente nos inocentes confinados na Torre. Na trama de assassinato dos sobrinhos, a posição de Ricardo é a mesma de William Parry, mas, diferentemente deste, não demonstra remorso – afinal, não se pode esperar isso de um demônio. O remorso é reservado aos assassinos que são dramaticamente humanos.

Portanto, dentre várias possibilidades de análise, há esta de historicizar a retórica da traição em “Ricardo III” à luz dos discursos oficiais sobre conspiração contemporâneos às primeiras edições da peça. Uma confrontação entre as cenas das orações de Richmond e Ricardo aos soldados, pouco antes da batalha final entre ambos, demonstra justamente o modo como Ricardo cria um clima de paranóia de ameaça como motivação bélica para seus servidores, enquanto Richmond é figurado como a encarnação perfeita da virtude cristã da dignidade régia, expondo os efeitos destrutivos e autofágicos da tirania de Ricardo para o reino, assim como a relação implicativa entre tirania e faccionismo político:

Oração de Richmond aos soldados:

 

His oration to his souldiers.

More then I haue said, louing countriemen,

The leasure and inforcement of the time,

Forbids to dwell vpon, yet remember this,

God, and our good cause, fight vpon our side,

The praiers of holy Saints and wronged soules,

Like high reard bulwarkes, stand before our faces,

Richard, except those whome we fight against,

Had rather haue vs winne, then him they follow:

For, what is he they follow? truelie gentlemen,

A bloudie tirant, and a homicide.

One raisd in bloud, and one in bloud established,

One that made meanes to come by what he hath,

And slaughtered those, that were the meanes to helpe him.

A base foule stone, made precious by the soile,

Of Englands chaire, where he is falsely set,

One that hath euer bene Gods enemie.

Then if you fight against Gods enemie,

God will in iustice, ward you as his souldiers,

If you doe sweate to put a tyrant downe,

You sleepe in peace, the tyrant being slaine,

If you doe fight against your countries foes,

Your countries fat, shall paie your paines the hire.

If you doe fight in safegard of your wiues,

Your wiues shall welcome home the conquerors.

If you doe free your children from the sword,

Your childrens children quits it in your age:

Then in the name of God and all these rightes,

Aduaunce your standards, drawe your willing swordes,

For me, the raunsome of my bold attempt,

Shall be this could corps on the earths cold face :

But if I thriue, the gaine of my attempt,

The least of you, shall share his part thereof.

Sound drummes and trumpets boldlie, and cheerefullie,

God, and Saint George, Richmond, and victorie.

(SIMS, 1597: pp.90-91)

Sua Oração a seus soldados

Por mais que eu tivesse o que dizer, compatriotas amados,

a urgência e a necessidade do tempo

proíbem que nos estendamos. Então, lembrem disso:

Deus e a nossa boa causa lutam do nosso lado.

As preces das almas ofendidas e Santos sagrados,

como altos e fortes suportes, levantam-se perante nossas faces.

Aqueles contra os quais lutamos, com exceção de Ricardo,

gostariam de nos ver vencer, em vez daquele a quem seguem.

Pois o que é aquele que eles seguem?

Sinceramente, cavalheiros,

um tirano sanguinário, e um homicida,

elevado pelo sangue e pelo sangue mantido,

que usou todos os meios para alcançar o que tem

e assassinou aqueles que o ajudaram nisso.

Um cascalho transformado em preciosa pedra

pelo esplendor do trono da Inglaterra,

onde erradamente está sentado.

Alguém que sempre tem sido de Deus o inimigo!...

Então, se vossas mercês lutarem contra o inimigo de Deus,

Deus, justamente, premiará vossas mercês como seus soldados.

Se vossas mercês suarem para derrubar um tirano,

estando ele morto, vossas mercês dormirão em paz.

Se vossas mercês lutarem contra os inimigos de vossas terras,

elas prosperarão, recompensando vossos sofrimentos.

Se vossas mercês lutarem para protegerem vossas esposas,

elas bem vos receberão como conquistadores.

Se vossas mercês livrarem vossos filhos da espada,

os filhos de vossos filhos em vossa velhice retribuirão.

Então, em nome de Deus e de todos estes direitos,

avancem vossos estandartes,

desembainhem ardentes vossas espadas.

Para mim, o pagamento de minha ação ousada

será este corpo frio na face fria da terra.

Mas se eu vencer, o mais humilde de vossas mercês

então terá a sua parte no ganho de minha ação.

Soem os tambores e as trombetas, corajosa e alegremente!

Deus e São Jorge, Richmond e vitória!

 

De modo convencional, Richmond tenta legitimar, perante os seus aliados, uma ação contra Ricardo, distinguindo-o, retoricamente, da dignidade régia e da proteção divina, pois Deus estaria do “lado de Richmond” e, portanto, disso somente poderia advir a vitória, a segurança, a prosperidade e a posteridade para todos. Ricardo é o avesso de tudo isso: como afirma Richmond, trata-se de um tirano “elevado pelo sangue e pelo sangue mantido”, que se valeu de todos os meios para alcançar seus fins (particulares), que não soube tornar os seus êxitos políticos em benefícios efetivos para seus súditos e, contrário às leis da natureza, mostrou-se capaz de assassinar os seus próprios aliados e parentes, sem que houvesse qualquer justificativa que envolvesse o interesse público.

Nesse sentido, Ricardo III representa tanto o avesso do ideal humanista de vir-virtutis quanto a deformação demoníaca – em seus efeitos práticos destrutivos à manutenção da ordem pública e à estabilidade institucional – da moral do parecer contida na noção de ‘virtù’ de Maquiavel. Nesses termos, Ricardo mostra-se tão completamente perverso que é incapaz de ser agradecido com aqueles que o ajudaram em seu projeto de poder. Logo, a sua autoridade é frágil porque transformou o temor deferente e a esperança de graça/justiça na autoridade régia em ódio, ressentimento, desconfiança excessiva e em ameaça à honra e ao patrimônio, ou seja, os exatos elementos que o próprio Ricardo, retoricamente, projeta nos inimigos quando faz a sua “oração aos soldados”:

o gentlemen euery man vnto his charge,

Let not our babling dreames affright our soules:

Conscience is but a word that cowards vse,

Deuisd at first to keepe the strong in awe,

Our strong armes be our conscience swords, our law.

March on, ioine brauelie, let vs to it pell mell,

If not to heauen then hand in hand to hell.

His Oration to his army.

What shal I saie more then I haue inferd?

Remember whom you are to cope withall,

A sort of vagabonds, rascols and runawaies,

A scum of Brittains and base lacky pesants,

Whom their orecloied country vomits forth,

To desperate aduentures and assurd destruction,

You sleeping safe they bring to you vnrest,

You hauing lands and blest with beauteous wifes,

They would restraine the one, distaine the other,

And who doth lead them but a paltrey fellow,?

Long kept in Brittaine at our mothers cost,

A milkesopt, one that neuer in his life

Felt so much colde as ouer shooes in snow:

Lets whip these stragglers ore the seas againe,

Lash hence these ouerweening rags of France,

These famisht beggers wearie of their liues,

Who but for dreaming on this fond exploit,

For want of means poore rats had hangd themselues,

If we be conquered, let men conquer vs,

And not these bastard Brittains whom our fathers

Haue in their own land beaten bobd and thumpt,

And in record left them the heires of shame.

Shall these enioy our lands, lie with our wiues?

Rauish our daughters, harke I heare their drum,

Fight gentlemen of England, fight bold yeomen,

Draw archers draw your arrowes to the head,

Spur your proud horses hard, and ride in bloud,

Amaze the welkin with your broken staues,[...]

(SIMS, 1597: pp.92-93)

Andem, cavalheiros, cada homem em seu posto!

Não deixem nossos sonhos pueris abalarem nossos ânimos.

Consciência é apenas uma palavra de uso dos covardes,

inicialmente inventada para manter o forte em temor respeitoso.

Que nossos braços fortes sejam nossa consciência,

e que nossas espadas sejam nossa lei!

Marchem juntos e bravamente, rápidos e desembestados,

se não para o céu, então, de déu em déu, para o inferno.

Sua Oração a seu exército

O que tenho eu a dizer a mais do que já disse?

Lembrem quem vossas mercês confrontarão:

Um bando de vagabundos, malandros e desocupados;

uma escória de bretães, e camponeses sem eira nem beira,

impulsionados, como vômitos, de sua terra devastada

para aventuras desesperadas e destruição verdadeira.

Se vossas mercês dormem seguros, eles trazem distúrbios.

Se vossas mercês possuem terras

e são abençoados com esposas belas,

eles reduzem uma e maculam a outra.

E quem os lidera? Apenas um homem insignificante,

por muito tempo mantido, às custas de nossas mães, na Bretanha.

Um afeminado que nunca sentiu em sua vida

o frio intenso dos sapatos cobertos pela neve.

Vamos açoitar estes vagabundos para o além-mar de novo,

enxotar daqui estes insolentes maltrapilhos da França,

estes famélicos mendigos cansados de suas vidas

que, devido à carência de meios,

por apenas sonharem nesta absurda façanha,

pobres ratos, deixaram-se apanhar!

Se formos conquistados, que sejam homens a conquistar-nos

e não estes bretães bastardos, a quem nossos pais

bateram, esmurraram e surraram em sua própria terra

e deixaram para eles, em lembrança, os herdeiros da vergonha.

Devem estes desfrutarem de nossas terras,

deitarem com nossas esposas, violarem nossas filhas?...

Escutem!... Eu ouvi o seu tambor...

Lutem, cavalheiros da Inglaterra! Lutem, bravos da guarda!

Atirem, arqueiros, atirem suas flechas na cabeça!

Esporeiem firme vossos orgulhosos cavalos e galopem no sangue!

Pasmem o céu com o estalar de vossas lanças![...]

 

Explorado retoricamente para caracterizar o personagem Ricardo, o “demoníaco maquiavélico” (SKINNER, 2000: 578) presente nas falas de Richmond e do próprio Ricardo completa o significado ambíguo da expressão “elevado pelo sangue e pelo sangue mantido”: é pelo “sangue” (assassinato de parentes e aliados) que Ricardo conseguiu travestir-se da dignidade régia, mas isso apenas é possível porque é pelo “sangue” (seqüência da herança dinástica) que ele pôde assumir a Coroa. No entanto, no ponto relativo à herança dinástica, a situação de Ricardo é semelhante àquela de Richmond.

Lembrar isso atenua o potencial subversivo da fala de Richmond, principalmente se considerarmos que, ao final do século XVI, já estava bastante difundido o debate teológico-político (católico e puritano) a respeito do dever de se resistir a um “tirano diabólico”.(Idem: 347-616) Ora, na peça “Ricardo III”, como Richmond é mais um potencial herdeiro do trono inglês, não é o “povo” ou o “reino” em si mesmo que se levanta contra um “tirano diabólico”, mas alguém dinasticamente legítimo que, caridosamente, lembra que aqueles que estão do lado do “cascalho” moral (que fora elevado à “pedra preciosa” pela dignidade régia) gostariam de ver a causa dinástica de Richmond vencer, pois a sua fidelidade seria menos ao rei Ricardo do que à dignidade de Rei.

Do ponto de vista histórico, tal distinção jurídica foi implementada por Henrique VII em 1495: “De Facto Act” demonstrava claramente a construção legal da impessoalidade do poder monárquico e, portanto, a abstração jurídica e prática da idéia de Estado. Era intenção deste decreto eliminar todas as conseqüências potencialmente desagradáveis originadas das guerras civis. Para tanto, reconheceu que nenhum súdito “deveria perder ou ser confiscado de alguma coisa por realizar o seu verdadeiro dever e serviço de obediência” ao aderir a um ou outro anti-rei durante a Guerra das Duas Rosas (1455-1485).(KANTOROWICZ, 1998: 225) Esta solução legal era uma forma de pacificar as clivagens políticas advindas da guerra civil ao deixar juridicamente claro que a fidelitas deveria ser medida, antes de tudo, pela submissão à autoridade da dignidade institucional régia, independentemente de sua corporalidade física e transitória num rei ou dinastia.

Na peça “Ricardo III”, o mesmo tom de potencial conciliação e perdão para aqueles que estiveram do “lado” de Ricardo demonstra, na verdade, que Richmond não enxerga os “aliados” de Ricardo como traidores da dignidade régia, pois o único traidor (“inimigo de Deus”) dos atributos régios seria o próprio Ricardo, por ter dado à Coroa efeitos práticos que ameaçavam a deferência em relação à autoridade patriarcal e que em nada contribuíram para a construção de segurança e prosperidade para todos os súditos. Nesse sentido, é bastante eloqüente que a fala de Ricardo seja cuidadosamente configurada na peça para enfatizar que não se deve esperar de sua ação nada que conduza ao fim do faccionismo político.

Ora, ao casar-se com Elizabeth de York, o fictício Richmond (entronizado como Henrique VII pelas mãos de Lorde Stanley) justamente põe fim ao mecanismo de “apetite e fuga” da guerra civil, demonstrando que cada grande casa do reino deveria ver-se como (e portar-se como parte de) uma Commonwealth. (KEMP, 1996: 451-460) Como sinédoque da desfiguração corporal da Commonwealth, Ricardo é a face extrema do mecanismo feérico da guerra civil: sem qualquer constrangimento moral, afirma que, para o guerreiro não ser afeminado, é necessário abandonar qualquer firula de consciência em relação aos “inimigos” e fazer valer a espada (força) como lei.

Ao incitar seus soldados à luta, Ricardo pinta um cenário diabólico de ameaça aberta por parte de uma “ralé insolente” liderada por um “afeminado” que jamais teria experimentado como ele, Ricardo, os sacrifícios e privações dos campos de batalha. Ora, seguindo a sua lógica, se o cenário é diabólico, o mal deveria ser combatido com o mal. Eis a “moral infernal” ou o “maquiavelismo demoníaco” que permitiria a seus soldados, tal como seu rei, abandonarem uma “afeminante” e “pueril” consciência na confrontação com os “inimigos”.

O cenário de desolação e ameaça pintado retoricamente pelo personagem dramático Ricardo pouco deixa a dever à conjuntura de revoltas populares e pestes que assolavam o interior britânico nas décadas de 1580 e 1590. Por isso, embora seja com intenções egoístas e diabólicas que Ricardo suscite seus soldados a abandonarem a consciência (e, portanto, qualquer senso humano de limite para as vilanias) e defenderem feericamente os seus patrimônios e honras familiares, é factível imaginar que o “leitor/audiência” da peça sentir-se-ia, em alguma medida, familiarizado com aquilo que ele descrevia. Daí, é importante salientar alguns pontos relativos à materialidade textual da edição de 1597 de “Ricardo III”, já que interferem diretamente em sua legibilidade.

Quando as edições hodiernas da peça “Ricardo III” se defrontaram com o tratamento pátrio reservado a Richmond e seus aliados na “oração aos soldados” de Ricardo, tenderam a “corrigi-lo”. Com isso, Richmond e seus seguidores são tratados como “bretães...maltrapilhos da França”. Este é o tratamento histórico e geográfico correto, pois alude à região francesa de Bretagne (i.e., Britanny em inglês contemporâneo), que fora área de passagem e base estratégica dos conflitos entre as monarquias inglesa e francesa durante a Guerra dos Cem Anos (1337-1453). Este é o “passado” do qual se gaba Ricardo III ao se referir às façanhas de “our fathers”. Assim, na perspectiva de Ricardo, um “passado de guerras externas” foi sucedido por um “presente de guerras internas” (a Guerra das Duas Rosas, 1455-1485).

No entanto, considerando a edição de 1597, tendo a pensar que há um proposital deslocamento semântico-fonética do adjetivo pátrio “Brittains” para se referir indistintamente a Britain (Inglaterra) e Bretagne (França). Ora, as edições contemporâneas da peça, por tentarem “corrigir” o adjetivo pátrio “Brittains” para “Bretons”(Oxford) ou “Bretagnes” (Gramercy), e por manterem a forma francesa Bretagne (Oxford e Gramercy) para se referirem ao território, diminuem justamente a ambigüidade de referente geográfico e, assim, eliminam o deslocamento semântico-fonética de “bretães/França” para “britânicos/Inglaterra” presente na edição de 1597 da peça. Nesse sentido, se comparado ao leitor hodierno, penso que seria muito mais evidente para um leitor britânico de finais do século XVI associar a imagem dos “maltrapilhos da França” aos próprios ingleses que, afinal, estavam mergulhados nos efeitos destrutivos (materiais e morais) de guerras externas (contra Espanha e a Sé Romana) e internas (cujo epicentro eram os problemas da colonização inglesa na Irlanda).

Assim, levando-se em conta o clima político de finais do século XVI, a forma como são explorados na peça os temas da traição e da autofagia do corpo político por guerras interdinásticas e conluios intradinásticos acaba por desmistificar para a “audiência/leitor” os mecanismos da autoridade política, à medida que o próprio Ricardo III, como demoníaco vilão dramático, expõe cruamente o quanto é fácil explorar a retórica da traição e da ameaça ao corpo político em projetos pessoais de poder. No entanto, uma vez demonstrado o paroxismo do mal, a teleologia dramática devolve ao “leitor/audiência” a segurança e a deferência à autoridade, desde que bem encarnada (ou encarnada pelo bem), ao operar com a tese moral de que a “traição nunca prospera”.

Por isso mesmo, não se deve perder de vista o lado direito daquilo que Ricardo é o avesso: ao ser Ricardo figurado como vilão demoníaco e traiçoeiro, a sua derrota/morte torna-se, tal como é sugerida na chamada editorial de 1597 (VIANNA, 2006b), “mais do que merecida” e, por antonomásia, faz do advento do Conde de Richmond a promessa messiânica de uma nova era – o triunfo de “Cristo” sobre a morte (i.e., sobre a destruição e o mal do/no corpo político). Nesse sentido, a figuração diabólica de Ricardo III pode ser entendida como uma sinédoque hiperbólica das forças destrutivas da guerra civil que, em alguma medida, afetaram o humor de todos os membros do corpo político. No entanto, através da nova aliança representada pelo advento de Richmond-Christus, todos (personagens dentro da peça e fora da peça) são, ao final, purificados de seus males passados, embora não estejam livres dos mesmos males no futuro e no presente.  Eis o grande aviso teológico-político que acredito que a peça termina por veicular para um leitor de 1597.  

 

por ALEXANDER MARTINS VIANNA

 

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Referências Bibliográficas:

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COLLEY, Scott. Richard III and Herod. Shakespeare Quartely, volume 37, 1986(4):pp.451-458

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