Maria
Beatriz Chini Eifert. Marcas da escravidão nas fazendas
pastoris de soledade (1867-1887). Passo
Fundo: EdiUPF, 2006. (Coleção Malungo, v. 12).
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A
escravidão nas fazendas pastoris de Soledade, no norte do RS
Apesar
da função germinal que a fazenda pastoril desempenhou na origem e
no desenvolvimento da formação social sulina, além de alguns
estudos monográficos, não dispomos de sequer uma história geral
da estância no Rio Grande, ao contrário do Uruguai e da Argentina,
onde abundam valiosos trabalhos sobre o tema.
Destaque-se que Guilhermino César, último grande expoente da
historiografia tradicional sul-rio-grandense, esboçou uma primeira
leitura da estância, de sua origem aos dias atuais, sem, porém,
jamais concluir o trabalho, publicado postumamente em 2005 – A
origem da economia gaúcha: o boi e o poder.
Esse
paradoxo manteve-se apesar da abundância da documentação, da
qualidade de estudiosos ligados ou não ao mundo pastoril, das
periodizações e paradigmas interpretativos construídos pela
historiografia platense sobre a questão. Por motivos ideológicos,
a história da fazenda no Rio Grande do Sul parece ter sido vista
como uma espécie de caixa de Pandora, a ser mantida sempre cerrada.
Como no Uruguai e na Argentina, os mitos da democracia pastoril e da
produção sem trabalho são também bases constitutivas das explicações
apologéticas do passado sulino. O Rio Grande divide com aquelas
regiões a apologia das virtudes democráticas das imensas
propriedades, da reprodução natural dos rebanhos, da ocupação
pelo colonizador de territórios sem donos, de civilização
assentada na destemidez e nobreza de trabalhador visceralmente
livre, o gaúcho.
Entretanto,
ao contrário dos pampas platenses – à exceção, até os anos
1850, dos departamentos setentrionais do Uruguai –, o Rio Grande
constituiu região de economia e de sociedade fortemente apoiadas no
trabalhador escravizado.
É realidade longamente negada ou minimizada pelos intelectuais orgânicos,
inicialmente, da sociedade liberal-pastoril e, a seguir,
positivista-industrial, apesar de todos os levantamentos
populacionais dos séculos 18 e 19 registrarem o volume e, até
mesmo, a expansão absoluta da mão-de-obra escravizada no Rio
Grande do Sul, além mesmo do fim do tráfico transatlântico de
cativos, em 1850-1852.
Uma
produção escravista rio-grandense que envolveu de forma
significativa, ainda que não exclusiva, a própria economia
pastoril regional, como lembraram, explicitamente, em 1978, eruditos
estudiosos ligados ao Instituto Histórico Geográfico Rio-Grandense,
durante polêmica com o historiador Décio Freitas, precisamente
sobre essa questão, sem, porém, jamais terem se aprofundado no
estudo do status do cativo na criação animal, o que
permitira iniciar a elucidação orgânica de questão de importância
germinal para a compreensão do passado rio-grandense.
Gaúcho
– o paradigma rio-grandense
De
forma geral, mesmo quando a historiografia sulina reconheceu alguma
importância ao trabalho escravizado no Rio Grande do Sul, esforçou-se
em reafirmar a fazenda pastoril, ou, ao menos, as práticas pastoris
propriamente ditas, como esferas de intervenção exclusivas do
trabalhador livre, ou seja, do gaúcho, descendente sobretudo de
charruas e guaranis. A população escravizada registrada nas
fazendas trabalharia exclusivamente nas atividades não pastoris domésticas
e mais pesadas – horta, transporte, construção etc. –,
atividades nas quais, nos fatos, ocupava-se sistematicamente.
A
elucidação das razões da utilização do cativo caro,
considerando-se a baixa rentabilidade da fazenda pastoril, no
contexto da existência de gaúchos hábeis no trato das coisas do
campo, constituía, igualmente, dificuldade metodológica na solução
dessa verdadeira “charada historiográfica”. A superação dessa
contradição aparente exigia compreensão da organização pastoril
que superasse a constatação da disponibilidade reputada de
mão-de-obra livre e identificasse as razões histórico-estruturais
do caráter subordinado do mercado de trabalho livre no Sul, ao
igual de que no resto do Brasil.
Até
os últimos tempos da escravidão, os campos sulinos não foram
plenamente apropriados e cercados e o gaúcho detinha, em parte, os
instrumentos – cavalos, arreios etc. – para produzir furtiva ou
semifurtivamente seus meios de subsistência, o que dificultava sua
metamorfose plena em peão, ou seja, em trabalhador pastoril
assalariado obrigado pela necessidade econômica a vender sua força
de trabalho a preço vil. Nessas condições históricas, o trabalho
coato ou semicoato impunha-se como uma importante relação de
trabalho na produção pastoril rio-grandense, ainda que não
assumisse o caráter quase exclusivo, como em outras atividades
produtivas mercantis – charqueadas, monocultura exportadora etc.
A
própria fantasia apologética sobre as condições de existência
singularmente positivas do gaúcho, identificado de fato ao
fazendeiro, dificultava a compreensão da incapacidade dessa
categoria social de reproduzir-se vigorosamente, criando população
excedente capaz de substituir abundantemente a mão-de-obra
escravizada, quando subsistissem as condições necessárias para
tal. Nos fatos, o padrão de existência do gaúcho-peão
rio-grandense no século 19 e começos do século 20 exige estudos
como o desenvolvido por Laudelino Medeiros para os anos 1960.
Novos
estudos
Nos
últimos anos, alguns autores começam a abordar, direta ou
indiretamente, o status do trabalhador escravizado na produção
pastoril, ainda que, em alguns casos, com base em ótica empirista
que produz valiosa informação sem avançar na elucidação das
determinações essenciais da produção pastoril e de suas relações
com as demais esferas produtivas e sociais da antiga formação
social sulina. Esses valiosos trabalhos centram-se sobretudo nos
municípios do Meridião rio-grandense, desde sempre coração da
economia pastoril bovina sulina.
À
exclusão de alguns trabalhos da historiografia municipal,
referentes à pós-Abolição, praticamente não tínhamos informações
sobre a história da estância no norte do Rio Grande Sul, de
singular importância historiográfica, ainda que prática social
mais pobre e mais recente em relação à atividade congênere do
Meridião. A primeira abordagem orgânica dessa realidade foi
empreendida, em meados dos anos 1970, por Paulo Zarth, pioneiro na
ênfase, numa ótica sistemática, da importância da escravidão na
produção pastoril nessa região e no Rio Grande do Sul.
De
expansão econômico-demográfica mais tardia, sem sediar nenhuma
universidade federal, o norte do Rio Grande constituía região com
presença frágil nas representações historiográficas do passado
e, conseqüentemente, do presente. A fundação em 1998-1999, em
Passo Fundo, do primeiro Programa de Pós-Graduação em História
fora da região metropolitana de Porto Alegre permitiu que o norte
sulino passasse a ser objeto de análises históricas sistemáticas.
Tive
o privilégio de dirigir duas importantes dissertações, uma sobre
a fazenda e a outra propriedade latifundiária no norte do Rio
Grande do Sul, no PPGH - Universidade de Passo Fundo. Em 2002, o
arquiteto Nery da Silva apresentou àquele programa
levantamento-interpretação histórico-arquitetônico de fazendas
localizadas ao longo do antigo Caminho Novo da Vacaria, publicado a
seguir na forma de livro. Em 2006, Helen Ortiz
concluiu detalhada elucidação do processo de expansão da
propriedade latifundiária no município de Soledade, após a Lei de
Terras, de 1850-1854, ainda inédita.
A
mão de obra escravizada
Também
natural de Soledade como Nery da Silva e Helen Ortiz, Maria Beatriz
Chini Eifert defendeu, em 2006, dissertação sob o título Marcas
da escravidão nas fazendas pastoris de soledade (1867-1887), que
tive igualmente o prazer de orientar e agora a satisfação de
apresentar, na forma de livro, sob o mesmo título, como 13º volume
da coleção Malungo. Participaram da banca examinadora os
professores Fernando Camargo, da Universidade de Passo Fundo, e
Solimar Oliveira Lima, da Universidade Federal do Piauí, autor de
importante estudo sobre a escravidão nas fazendas públicas
piauienses.
Marcas
da escravidão nas fazendas pastoris de Soledade [1867-1883] constitui
texto ágil, de fácil e agradável leitura, o que registra o punho
de autora graduada em Letras e atuante por longos anos nessa área.
O cuidadoso e preciso arrolamento, análise e apresentação das
fontes estudadas de Maria Beatriz Chini Eifert assinalam, por sua
vez, o igual domínio das técnicas da produção historiográfica,
demarcando o ingresso pleno da autora nas filas dos historiadores
rio-grandenses.
A
partir de inventários, processos-crime, cartas de alforria etc.,
guardados sobretudo no Arquivo do Fórum de Soledade, Maria Beatriz
propõe-se em seu trabalho descrever realidades internas essenciais
da mão-de-obra escravizada nas fazendas do antigo distrito de
Botucaraí – Soledade –, nos anos 1867-1883, na perspectiva de
contribuir ao necessário conhecimento desse importante palco da
produção pastoril no Rio Grande nas últimas décadas da escravidão.
Na
primeira parte do trabalho, a autora apresenta sinteticamente o cenário
geral do seu estudo, destacando o povoamento, os fazendeiros, a
produção pastoril, a economia ervateira regional etc. No segundo
capítulo, aborda as fazendas estudadas, sobretudo no relativo à mão-de-obra
escravizada nelas presente – quantidade, gênero, preço, profissão,
relação com os bens móveis e imóveis etc. A construção-apresentação
de múltiplas tabelas, sintéticos descritivos da realidade
estudada, constitui valiosa contribuição à historiografia.
Cativos
campeiros
Na
terceira e última parte, a partir do estudo de documentação
judicial, sobretudo referente a pedidos de libertação, Maria
Beatriz aborda singularmente o grande personagem de sua investigação,
o trabalhador-trabalhadora escravizado, até então estudado como
categoria social sintética, para que possa ser visto como
protagonista individual de sua dura existência, na procura de
construção totalizante do cenário social estudado.
Marcas
da escravidão reafirma dados gerais de outros estudos, como o
caráter social e político dominante dos estancieiros na região,
seguidos pelos comerciantes, fato registrado no domínio da
representação política municipal. Maria Beatriz enfatiza,
igualmente, o caráter relativamente pobre dessa economia, em relação
às grandes plantações mercantis e ao próprio Meridião
rio-grandense. Ressalta a pobreza das moradias, mobiliário,
apetrechos domésticos e produtivos, evidenciada nos próprios
inventários dos mais ricos proprietários, e o alto valor na época
dos cativos em relação aos outros bens, móveis e imóveis.
A
autora registra a média de 5,4 cativos por propriedade inventariada
e o relativo equilíbrio sexual, corroborando dados obtidos para
outras regiões. Ao destacar o grande número de filhos dos
inventariados, quase igual aos dos cativos, assinala a necessidade
de se apreenderem os dados sobre a população cativa no contexto da
população livre moradora das fazendas, já que a documentação
tradicionalmente estudada registra com dificuldade os trabalhadores
livres – mensalistas, diaristas, agregados etc. – presentes
nessas unidades produtivas.
Outro
importante dado destacado pela autora é o caráter jovem da população
escravizada – dos 113 cativos arrolados nos inventários, 44
tinham de zero a quinze anos. Estudos em desenvolvimento certamente
nos revelarão detalhes da expansão demográfica na população
escravizada das fazendas pastoris permitida pelas características
dessa produção. A documentação computada pela autora não
permitiu determinar se a população estudada encontrava-se
envolvida pelo tráfico interprovincial rio-grandense em direção
ao Centro-Sul, muito ativo durante os anos 1870, segundo Robert
Conrad.
Realidade
sui-generis
A
leitura de Marcas da escravidão sugere-nos que, na investigação
das unidades pastoris, não podemos saltar das descrições líricas
do passado para o desconhecimento cabal da diversidade relativa das
condições de vida dos trabalhadores dessas explorações em relação
aos das unidades agrícolas ou manufatureiras escravistas
exportadoras, diferenciação surgida das determinações das condições
médias de existência pelas diversas condições materiais de produção.
O
caráter precoce da delimitação de profissão a crianças
escravizadas, desde os quatro anos, no caso de um menino arrolado
como “campeiro”; a prática dos escravistas de presentearem as
filhas com cativas quando se casavam; a importância e precocidade
relativa da ação abolicionista na região, com destaque ao juiz
sergipano Melchisedeck Mathusalém Cardoso, que certamente merece
investigação biográfica, são alguns dos diversos aspectos desse
universo ressaltado pela investigação.
Em
maio de 2006, Leandro Daronco apresentou dissertação ao PPGH da
Universidade de Passo Fundo referente ao trabalho e à resistência
no noroeste do Rio Grande do Sul, que demarcou importantes aspectos
das tensas relações sociais entre trabalhadores escravizados e
escravizadores.
Maria Beatriz registra com destaque o martírio de Catarina, jovem
de apenas vinte anos, nas mãos de seus proprietários, surrada e
queimada barbaramente. Com marcas de relhadas cicatrizadas e
supuradas, Catarina procurou a proteção da Justiça, rejeitada por
ser “cativa má”, já que fugira três ou quatro vezes dos
algozes. Realidade que, sem dizer tudo, diz muito sobre páginas do
passado dessa região do Rio Grande do Sul que permaneciam, como
lembra pertinentemente a autora, apenas registradas em documentos em
acelerada decomposição e nas suas tristes seqüelas sociais
atuais.
por MARIO MAESTRI