NORDER,
Luiz A. C. Políticas de
Assentamento e Localidade: os desafios da reconstituição do
trabalho rural no Brasil. Wageningen Universiteit, 2004.
Assentamentos
rurais: contribuições teóricas para investigação nas Ciências
Sociais
Este
livro é resultado da análise das principais características históricas
da formação agrária brasileira, e das pesquisas de campo
realizadas no Assentamento Fazenda Reunidas, em Promissão, Estado
de São Paulo.
Luiz
Antônio Cabello Norder é doutor em Ciências Sociais pela
Wageningen Universiteit – Holanda -, professor e pesquisador do
Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de
Londrina - UEL.
Muitas
são as contribuições sobre a realidade dos assentamentos rurais
no país. A história da conquista da terra e relações
estabelecidas após a formação dos assentamentos são temas de inúmeros
trabalhos científicos. A pesquisa em assentamentos rurais não é
nenhuma novidade, bem como seus referenciais teóricos e metodológicos.
Podem
ser destacadas duas extremidades analíticas. De um lado, as
abordagens que referem-se aos assentamentos com uma “ilha” em
que as relações sociais são estabelecidas em torno de uma
organização particular, articulada pelas trajetórias individuais
num mesmo espaço de sociabilidade. Do outro, tem-se o oposto a essa
perspectiva, análises da realidade dos assentamentos rurais de
acordo com teorias generalizantes, que dimensionam a realidade através
do processo de integração e reprodução da totalidade social.
Não
é intenção adentrar nas especificidades teóricas dessas análises,
mas apenas exemplificar dois paradigmas de investigação que
concorrem entre si desde os primórdios das ciências sociais.
Reconstituir
as “condições históricas de implementação dos assentamentos
rurais” não é uma tarefa fácil, principalmente quando
analisadas por outro prisma. A perspectiva adotada pelo autor
apreende a realidade como um fluxo de influências, uma “via de mão
dupla”, em que ocorrem reordenações através das instâncias
“macro e micro”, “social e territorial”, “global e
local”. “(...) a diversidade e heterogeneidade das condições históricas de
implementação dos assentamentos, em conjunção com outros
fatores, reafirmam a importância da análise histórica de cada
situação local específica e sua relação com o contexto
nacional” (2004: 74).
A
análise do desenvolvimento rural foi construída em bases teórico-metodológicas
que possibilitam reflexões sobre a mudança social em contextos
locais a partir de relações de construção/desconstrução das múltiplas
influências estruturais. As inovações conceituais presentes no
trabalho são reflexo da relação estabelecida entre “condicionantes
estruturais e as formas de ação social” (2004: 01).
Utilizando referências conceituais, organizadas pela sociologia
rural européia, o autor estabelece um diálogo contínuo com os
princípios fundamentais da matriz teórica giddensiana.
Antony
Giddens (1989) sistematizou um arcabouço teórico que busca superar
a grande dicotomia da teoria social (relação indivíduo e
sociedade). Em “A Constituição
da Sociedade”, Giddens afirma que o conceito de sociedade
sempre foi construído, essencialmente, por seu caráter coercitivo,
sendo elemento definidor dos “fenômenos sociais”. A coerção
era vista como a base da sociologia estrutural, a qual não tinha
espaço para atuação dos agentes individuais (ação social). “Rejeitando esse ponto de vista, tentarei esclarecer a asserção de
que as propriedades estruturais dos sistemas sociais são
simultaneamente facilitadoras e coercitivas (...)” (GIDDENS,
1989: 133).
A
teoria da estruturação permite compreender o papel dos agentes no
processo “interação” com outros indivíduos e com as influências
estruturais. Para Giddens os agentes (indivíduos) são reflexivos,
dotados de capacidade cognitiva (são teóricos e pensam a realidade
em que estão inseridos); a ação social é interpretada dentro do
fluxo da conduta intencional. Em síntese, os agentes possuem
conhecimento de suas ações (cotidiano) no processo de interação
com os outros agentes e com a estrutura social. A dualidade da
estrutura (coerção/facilitação) permite compreender os espaços
para o agente reflexivo construir/desconstruir a influência de
elementos macro-sociais. Um conceito fundamental para Giddens é o
de “agência”. “Agência” (agency)
nada mais é que a reflexividade do agente individual,
potencializadora das possibilidades de transformação e/ou reprodução
da estrutura social. Na interação entre “agência” e
“estrutura” (proporcionada pela dualidade coerção/facilitação)
que são realizados rearranjos sociais que atribuem particularidades
a determinados “sistemas sociais” ou cenários, enquanto
atividades localizadas de agentes humanos reproduzidas no tempo e
espaço.
A
teoria giddensiana é a base fundamental para a construção metodológica
do autor. A partir da teoria
da estruturação é possível compreender os significados das
mudanças, resistências e rupturas nos assentamentos rurais. As múltiplas
influências “coercitivas” externas à localidade passam pelos
“agentes reflexivos” que as reordenam de acordo com seu contexto
particular, construindo, num processo de interação social, novos
cenários localizados no tempo e no espaço. “Na
interação, negociação e confrontação entre vários projetos
sociais são estabelecidas disputas políticas e implementação
estratégias para criar certas relações sociais (...)”
(2004: 02).
Os
papéis do Estado e do mercado são analisados a partir de suas
articulações com o contexto global. As políticas públicas e as
diretrizes impostas pelo circuito mercantil, conformam uma estrutura
macro-econômica (global) que atua de maneira devastadora sobre os
assentamentos rurais. A globalização impõe práticas voltadas
para produção e comercialização incompatíveis com essas
realidades locais. Eis o grande eixo metodológico do trabalho: a relação entre globalização e localidade. “Uma observação das interfaces entre globalização e localidade
permite uma análise de desenvolvimento rural como o resultado de
uma complexa rede de relações entre atores sociais, nas quais a
localidade é pouco de uma ativa desconstrução-reconstrução de
programas governamentais e interesses econômicos do capital
industrial e agroindustrial. Na localidade são exercidas relevantes
interações sociais e políticas que conduzem à criação de
determinados espaços de manobra, inclusive como parte das relações
de poder e resistência que caracterizam a produção agropecuária
e as relações de mercado” (2004: 101-102).
Essa
passagem é notória para perceber a influência marcante da teoria
da estruturação. Na dualidade coerção-facilitação da estrutura
social são construídos, através da interação com agentes
reflexivos, os chamados “espaços de manobra”. A partir deles são definidos as estratégias
“endógenas” de produção/reprodução nos assentamentos rurais
num processo “desconstrução-reconstrução” dos elementos da
matriz “exógena” imposta pelas influências globalizantes.
Nas
articulações entre globalização e localidade, os assentamentos são
analisados, em sua organização interna, a partir de paradigmas de
produção endógeno e exógeno. O paradigma exógeno está relacionado com políticas
governamentais de crédito e assistência técnica e,
principalmente, com o papel do mercado em apropriar-se da produção
através das modernas técnicas agrícolas e articulação com a indústria
a montante e a jusante. A agricultura capitalista busca integrar os
produtos agrícolas ao circuito mercantil por meio da venda de
insumos e máquinas, e processamento da produção nas agroindústrias.
Para atender a esses requisitos o agricultor deve produzir culturas
comercializáveis em larga escala, com grande dependência técnica
e pouca utilização de mão-de-obra. Esses são os princípios da
agricultura capitalista moderna.
O
paradigma endógeno comporta as práticas construídas na localidade
a partir de cenários particulares. Em contextos específicos (espaços
de manobra), os agricultores elaboram estratégias de
desenvolvimento vinculadas, essencialmente, aos recursos disponíveis.
A criatividade e inovação são requisitos fundamentais para
reduzir ao máximo a dependência externa da produção agrícola.
Nesse sentido, a agricultura torna-se mais integrada ao ecossistema
e, passa a utilizar melhor a mão-de-obra disponível. O foco
principal da produção, nesse paradigma, concentra-se nas estratégias
voltadas para a segurança alimentar (subsistência), diferente do
modelo exógeno, intrinsecamente articulado com o mercado.
O
referencial paradigmático é muito importante para atender a grande
diversidade de experiências nos assentamentos rurais e analisar
empiricamente as aproximações com os modelos de desenvolvimento
rural. Através de todas essas ferramentas conceituais, o autor
analisa a realidade do Assentamento Fazenda Reunidas, no município
de Promissão, em São Paulo. Os papéis do Estado, do mercado e do
MST são investigados enquanto elementos não locais inseridos na
realidade do assentamento, sendo reordenados/reconstruídos a partir
das práticas na localidade.
Não
é exagero afirmar que as contribuições presentes no trabalho de
Luiz Norder são referências para as pesquisas em assentamentos
rurais. A partir dessa base teórico-metodológica, podem ser
realizadas investigações com extremo rigor científico e coerência
em contextos empíricos.
por
JULIANO
LUIS BORGES