PESSACH
– Tempo de nossa Liberdade
A
saída do Egito, há mais de 3200 anos atrás, assinala o nascimento
do povo de Israel que rompeu o jugo de escravidão e conquistou sua
liberdade, feito comemorado na noite de Pessach, com a leitura da
Hagada; Pela primeira vez na História da humanidade, os escravos se
levantaram contra seus opressores. Mas, quais foram os fugitivos –
fundadores do povo? A Bíblia fala de 70 pessoas da tribo de Jacó
que vieram instalar-se no Egito, quando a seca e a fome assolaram a
terra de Canaã. Vieram para ficar por pouco tempo, mas a estadia
prolongou-se por 400 anos. Quando saíram à meia noite, com a lua
cheia do mês de Nissan, sempre segundo a Bíblia, eram 600.000, mas
não somente os descendentes diretos do patriarca Jacó. Uma massa
de escravos de outras origens e etnias – a Bíblia fala de “Érev
Rav”, uma grande mistura – juntou-se aos hebreus na travessia do
mar e na conquista da terra de Canaã, o que contradiz as teorias
sobre a “raça judia”, divulgadas no século XIX por Gobineau e
Chamberlain e, no século XX, serviram de pretexto para as perseguições
nazistas e o Holocausto. No pós-guerra, a UNESCO patrocinou vários
estudos científicos que concluíram que o conceito de raça não
encontrava amparo nas evidências empíricas trazidas à luz por
antropólogos, etnógrafos e biólogos. A descoberta mais recente do
DNA não alterou os fatos da miscigenação ininterrupta dos povos,
em conseqüência de migrações, guerras, conquistas e sucessivas
ondas de aculturação e assimilação.
Qual
é o significado histórico da saída do Egito? O levante dos
escravos indubitavelmente legitimou as lutas posteriores e atuais
contra a opressão e pelos Direitos Humanos. Mais de mil anos
depois, Spártaco liderou a revolta dos escravos na Roma imperial e,
novamente, mais de mil anos se passaram até as lutas dos camponeses
na França, Alemanha e outros países europeus, brutalmente
reprimidas pelos senhores feudais e o clero, inclusive o reformador
Martin Lutero. Na Idade Moderna, os novos escravos do sistema
industrial foram massacrados quando ousaram reivindicar condições
de trabalho e salários mais decentes. Uma visão superficial, típica
dos conservadores de todas as épocas, concluirá que as lutas foram
em vão, nada teria mudado. Na realidade, elas forçaram as elites a
conceder reformas e direitos econômicos, sociais e políticos em
escala e profundidade inéditas na História.
Se
nós rejubilamos e entoamos cantos de louvor ao passado, não
podemos deixar de manifestar nossa tristeza e revolta pela situação
degradante vivida por centenas de milhões de pessoas, no presente.
Por
outro lado, a Hagada – o relato ritual da saída do Egito – nos
ensina que não devemos desanimar e cumpre-nos encarar o futuro com
esperança. Por isso, ela nos ensina que “em todas as gerações,
devemos considerar como se fossemos nós os libertados do Egito, ou
seja, devemos construir pontes para assegurar a travessia do mar de
todos os seres humanos.
O
relato do êxodo do Egito encerra várias mensagens de profundo
conteúdo humanístico:
Conta
o Midrash que na hora da travessia do Mar Vermelho e do desastre das
tropas egípcias que se afogaram na perseguição aos hebreus, os
anjos romperam em gritos de júbilo. Então, o Eterno mandou-os
calar-se com as seguintes palavras: “minhas criaturas se afogam no
mar e vocês entoam cantos!” Uma lição válida para os dias de
hoje quando, apesar de conflitos sangrentos que se espalham pelo
globo nunca devemos esquecer o valor e o respeito que devemos a cada
vida humana.
Cumpre,
também, recordar o Levante do Gueto de Varsóvia, na Páscoa de
1943, quando uns punhados de jovens, cercados e dizimados pelas
tropas nazistas, com precárias armas enfrentaram a máquina de
guerra nazista. Sua luta e resistência durante algumas semanas,
enquanto as tropas aliadas e a resistência polonesa permaneceram
passivas, deixaram uma mensagem eterna para todos que lutaram e
continuam a lutar contra a opressão, enquanto existirem guetos e
genocídios, pelo mundo afora.
A
terceira mensagem de Pessach nos remete à visão, várias vezes
repetidas durante a leitura da Hagada, da redenção, da aproximação
da era de justiça e paz, com a vinda do Messias.
A
visão escatológica da redenção e salvação aparece no canto que
relata os momentos milagrosos na história do povo de Israel (“Vaiehi
bahatzi halaila”), todos ocorridos à meia noite, e que termina
com a estrofe “aproxima-se o dia que não é dia nem noite. A era
messiânica é recordada na Hagada quando fala do profeta Elias que,
segundo a tradição, visita as casas, onde se prepara na mesa um
copo cheio de vinho para acolhe-lo. Lembramos, também, as palavras
de Maimonides: “acredito com toda minha fé na vinda do Messias,
mesmo que ele demore”.
Nas
orações de Pessach é lido também o “Shir Hashirim”, o cântico
dos cânticos cuja autoria é atribuída ao rei Salomão. Durante
gerações, os estudiosos estranharam a inclusão desta poesia na
liturgia e polemizaram sobre seu possível significado. Manès
Sperber, em seu livro “E a sarça virou cinzas” relata as memórias
de um militante revolucionário perseguido pelos nazistas e
stalinistas, entre as duas grandes guerras, na Europa Central. Em
sua infância estudara no Heder, a escola religiosa. E eis, que ele
lembra o velho rabino, de barba branca gotejando por acabar de sair
do banho ritual, contando aos meninos o verdadeiro significado do
canto. A moça que erra pelas ruas da cidade indagando aos guardas
sobre o paradeiro de seu bem-amado, não é outra do que o povo de
Israel à procura de Deus. Os guardas que dela caçoam e a
maltratam, são os povos do mundo pelos quais Israel errou durante o
longo período da Diáspora e que não conhecem os mistérios dos
caminhos divinos. A longa noite de escuridão e trevas é o período
do exílio, no fim do qual surgirá a redenção, como um raio de
luz que rompe as trevas.
Jean
Paul Sartre ensinou que os seres humanos nascem para serem livres.
Mas, liberdade significa também responsabilidade. Somos responsáveis
pelo que fazemos e pelo que deixamos de fazer a fim de assegurar a
liberdade de todos, indistintamente da religião, cor, genro, idade,
posição social ou profissional. Quem melhor formulou o problema do
“outro” foi Martin Buber em seu livro “EU e TU”, no qual
postula a impossibilidade de se alcançar a plenitude da existência
enquanto ao “outro” for negada a condição de sujeito e
parceiro da História, em vez de trata-lo como mero objeto.
No
encerramento da cerimônia, entoa-se o último canto, aparentemente
introduzido para manter as crianças acordadas até o fim, pois são
elas que cantam e recitam as desventuras de nosso mundo. É o canto
do “Had Gadia” – um carneirinho que meu pai comprou por duas
moedas e que foi mordido pelo gato, que foi mordido pelo cão,
punido com a vara que foi queimada, e o fogo foi extinto pela água,
bebida pelo boi, abatido pelo açougueiro, castigado pelo anjo da
morte, que, finalmente, foi recolhido pelo Eterno, senhor do
universo, assim restabelecendo-se a justiça no mundo.
A
Hagada relata as dez pragas que acometeram o Egito o que no leva a
refletir sobre as pragas que hoje envenenam a nossa existência: a
poluição das águas, a contaminação irrecuperável dos solos e
dos lençóis freáticos e a intoxicação permanente do ar que
respiramos que constituem em seu conjunto uma ameaça real e
crescente de extinção da espécie humana, mesmo sem um inverno
nuclear.
Esta
reflexão nos leva a questionar o destino e o significado da vida,
lembrando as palavras de Albert Einstein que “Deus não joga dados
com o universo”. Outro cientista destacado, Amílcar O. Herrera
que foi diretor do Instituto Bariloche, afirmou com base em
pesquisas geológicas e astronômicas, que o universo não poderia
ser criação do acaso. O sentido da criação e da própria existência
humana estaria na missão e na busca permanente para difundir a
inteligência através do cosmos. Assim, apreendemos o sentido mais
profundo da injunção da Hagadá. “Em todas as gerações
cumpre-nos relatar acerca da saída do Egito e da busca da liberdade
e discutir seu significado, a fim de assumirmos plenamente a nossa
missão de indivíduos atuantes e responsáveis”. Reafirmamos as
raízes de nossa identidade cultural e, proclamando nossa fé na
vinda de uma era de paz e entendimento entre os povos, procuramos
construir os elos entre as gerações, em busca de um futuro melhor.
Reflexões às vésperas da celebração do Seder de Pessach