Pequeno
manual prático da decadência (recomendável em caráter
preventivo...)
O
conceito de decadência está histórica e usualmente associado às
imagens – e também às realidades – de declínio econômico, de
disfuncionalidade política, de regressão social, de queda relativa
nos padrões de vida, de desordem institucional, de involução
moral, quando não ao caos gerador de conflitos exacerbados e possível
elemento-motor (“gatilho”) do colapso de toda uma sociedade. No
plano histórico, é costume citar os precedentes dos impérios
romano, bizantino, chinês, otomano ou britânico como exemplos
ilustrativos de decadência – processos que, por vezes, se
arrastaram durante décadas, quando não séculos –, levando essas
sociedades a fases de crise sistêmica ou de estagnação total,
precipitando-as em “colapsos” mais ou menos prolongados e ao seu
desaparecimento ou, até, à dominação por povos mais dinâmicos e
empreendedores, alguns deles, aliás, suplantando os exemplos
citados que tinham brilhado em épocas anteriores. Numa perspectiva
recente, costuma-se citar a Grã-Bretanha contemporânea, isto é, pós-imperial
e pós-Segunda Guerra, e até mesmo a Argentina pós-1930 como
exemplos reais e acabados de processos lentos e agônicos de decadência
econômica, pelo menos durante algumas décadas. Exemplos eloqüentes
de decadência certamente não faltam nos livros de história.
No
entanto, não é essa a percepção que possam ter tido as
sociedades referidas em relação ao seu próprio itinerário histórico,
isto é, os povos e protagonistas contemporâneos dos processos
gerais descritos sumariamente acima. Muitas vezes, o declínio econômico
e a decadência política se dão em meio a extraordinários surtos
de vigor artístico e de fervor intelectual, com intensos debates e
mobilização social perpassando todas as categorias e classes da
sociedade em questão. O estado de “regressão” nem é percebido
como tal, uma vez que: a economia consegue ainda produzir em condições
quase “normais”; as trocas materiais e os intercâmbios
intelectuais se fazem ainda pelos canais habituais; os indicadores
objetivos de padrões de vida continuam a apresentar traços de
“progresso” – ainda que de recuo relativo na perspectiva
internacional ou regional – e que a sociedade ainda não soçobrou
na “anomia” e na “desorganização”, a que são normalmente
associados essas noções de decadência ou de declínio.
O
fato é que a decadência pode ter elementos difusos de todos esses
processos citados acima, mas pode não ser percebida como tal pelos
próprios integrantes da sociedade em questão. O sentimento geral
dos cidadãos pode ser, simplesmente, de um certo malaise,
de um mal-estar vago e indefinido, partilhado por diferentes
estratos sociais e percebido como tal por intelectuais, mas
raramente expresso de forma direta e cabal nos discursos das
autoridades ou traduzidos nas propostas de ação por candidatos
alternativos ao poder político. “Entra-se” em decadência
muitas vezes sem o saber, como aquele personagem de Molière que
fazia prosa involuntariamente.
Proponho-me,
neste curto ensaio analítico, traçar os elementos principais de
uma pequena radiografia da decadência, de maneira a subsidiar,
talvez, diagnósticos mais precisos de situações concretas que
possam preocupar os leitores eventuais deste “manual” de
identificação dos sinais precursores de uma decadência anunciada
(não necessariamente percebida). Assim, pode-se saber que um país,
ou uma sociedade, está em decadência quando:
-
O
sentimento de mal-estar se torna generalizado na sociedade,
ainda que possa ser difuso.
-
Os
avanços econômicos são lentos, ou menores, em relação a
outros povos e sociedades.
-
Os
progressos sociais são igualmente lentos ou repartidos de
maneira desigual.
-
A
lei passa a não ser mais respeitada pelos cidadãos ou pelos próprios
agentes públicos.
-
As
elites se tornam autocentradas, focadas exclusivamente no seu
benefício próprio.
-
A
corrupção é disseminada nos diversos canais de intermediação
dos intercâmbios sociais.
-
Há
uma desafeição pelas causas nacionais, com ascensão de
corporatismos e particularismos.
-
A
cultura da integração na corrente nacional é substituída por
reivindicações exclusivistas.
-
A
geração corrente não se preocupa com a seguinte, nos planos
fiscal, ambiental ou outros.
-
Ocorre
a degradação moral ou ética nos costumes, a despeito mesmo de
“avanços” materiais.
Algumas
considerações rápidas sobre cada um dos elementos listados,
sumariamente, acima são necessárias, se quisermos que este
“minitratado” da decadência possa ser efetivamente utilizado
como uma espécie de manual para sua prevenção ou para a eventual
correção de curso. Serei, tanto quanto possível, conciso, sem
ater-me a exemplos conhecidos em processos concretos, mais ou menos
identificados pelo leitor ocasional.
1.
Malaise generalizado e
difuso na sociedade.
Na
verdade, o mal-estar que costuma atingir sociedades e povos em decadência
efetiva é mais um resultado dos próprios processos de “involução”
já em curso, do que um sinal precursor desse itinerário
“regressista”. De fato, o sentimento de incerteza quanto ao
futuro costuma perpassar de maneira difusa os diferentes estratos
sociais mobilizados nas atividades correntes da sociedade em questão.
A literatura consegue captar, antes mesmo de diagnósticos “sociológicos”,
essa sensação de desconforto em relação aos padrões vigentes,
que é também vista e interpretada nas artes em geral, por meio de
peças e demonstrações de “ruptura” em relação às normas
sociais comumente aceitas e “consumidas” pelos estratos sociais
incluídos nas transações correntes. O sentimento de fin
d’une époque, ou de esgotamento de um “ciclo”, é
geralmente percebido pelos espíritos mais argutos, mas o
desconforto com o “estado reinante” das coisas se dissemina de
modo generalizado em camadas mais amplas da sociedade. Ocorre uma
desafeição em relação à cultura predominante, mas não se
consegue propor ou viabilizar padrões ou modelos alternativos que
sejam eficientes ou implementáveis. Os custos da transição para
“algo mais racional” são considerados por todos como muito
elevados, em vista dos pactos vigentes, e a sociedade se acomoda na
resignação e no déjà vu.
2.
Avanços econômicos lentos, em perspectiva comparada.
A
decadência não significa, necessariamente, retrocesso econômico
absoluto ou mesmo uma deterioração das condições prevalecentes
no plano da organização social da produção. Ao contrário, podem
até ocorrer avanços tecnológicos, progressos científicos e
melhoras nos padrões vigentes de produção, tendo em vista
capacidades técnicas e habilidades gerenciais já acumuladas pela
sociedade. Uma sociedade pode avançar, em suas próprias realizações,
e mesmo assim ser ultrapassada relativamente por outras, mais dinâmicas,
empreendedoras e inovadoras. O declínio relativo é geralmente o
resultado de uma queda nos índices de produtividade, a perda
progressiva de competitividade, um recuo nos espaços anteriormente
ocupados no âmbito internacional e um lento movimento para escalões
inferiores em rankings
setoriais de classificação de países.
Os
processos de divergência entre os povos e sociedades resultam,
geralmente, de longas fases de crescimento (ou falta de), mais do
que de altas taxas ocasionais de expansão do produto. O
desenvolvimento pode ocorrer pari-passu a baixas taxas –
mas sustentadas – de crescimento econômico, sendo que expansões
rápidas podem ser contrarrestadas por surtos inflacionários ou
crises sistêmicas que produzem perdas do produto social e erosão
do poder de compra da moeda nacional. O elemento propulsor do
processo de desenvolvimento são os ganhos de produtividade, que
produzem, no registro histórico, os fenômenos de convergência ou
de divergência entre os povos e economias nacionais. As sociedades
humanas progrediram muito lentamente durante os milhares de anos de
revolução agrícola neolítica e civilizacional-urbana, para
conhecer, dois séculos e meio de rápidos progressos nos
indicadores de bem-estar a partir da primeira e da segunda revolução
industrial. A partir desta, os progressos se tornaram contínuos,
autogerados e induzidos pelo próprio avanço científico-tecnológico
anterior, configurando aquilo que, em termos marxistas, poderia ser
chamado de “modo inventivo de produção”. Este foi, antes de
qualquer outra, uma peculiaridade das sociedades ditas
“ocidentais”, mas tende a se disseminar ao conjunto do planeta,
com o término dos obstáculos políticos ao processo de globalização.
Nem
todas as sociedades conseguem replicar ou reproduzir, mesmo por
mimetismo, o padrão de progresso tecnológico do Ocidente
desenvolvido. Mas todas elas se encontram, hoje, medianamente
dotadas de condições mínimas para fazê-lo, a partir dos
progressos dos meios de comunicação e de difusão dos
conhecimentos científicos (amplamente disponíveis nos veículos
existentes, à diferença do know-how
e da tecnologia proprietária, estes bem mais restritos). O fato de
uma sociedade recuar economicamente, ainda que de modo relativo,
pode ser explicado, tão simplesmente, por sua incapacidade em dotar
os seus cidadãos dos requisitos mínimos de ensino formal e de
educação elementar, suscetíveis de os converterem em
“absorvedores” do saber técnico já disponível universalmente
nos canais abertos de difusão de conhecimento. Não se trata aqui,
necessariamente, de padrões de ensino pós-graduado ou
especializado, mas basicamente da existência de ensino fundamental
de boa qualidade para o conjunto dos cidadãos.
3.
Distribuição desigual dos lentos progressos sociais alcançados.
Comportamentos
“rentistas”, isto é, apropriação de bens públicos por grupos
organizados que têm acesso aos canais oficiais de distribuição de
recursos, geram um desestímulo à inovação e à produção pelos
agentes econômicos privados. Isso pode ocorrer, e geralmente
ocorre, no caso da disponibilidade de abundantes recursos naturais
– terras, minérios, commodities
primárias – que passam a ser explorados por via de algum tipo de
organização estatal, mesmo indireta. Fala-se da “maldição do
petróleo”, por exemplo, como um caso típico de ganhos fáceis
apropriados de maneira desigual por elites que se organizam para
“redistribuir” esses recursos abundantes, o que desvia a atenção
dos agentes privados de investimentos em atividades alternativas:
toda a atenção passa a ser focada na “captura” da renda disponível
na economia nacional.
Mesmo
na ausência de uma fonte abundante de recursos naturais,
comportamentos rentistas podem disseminar entre os estratos
dominantes – ou dirigentes – na sociedade, se a regulação
institucional é feita mais por via estatal do que por meio da própria
sociedade. O Estado sempre constituiu um poderoso meio de
redistribuição da riqueza social para os grupos que o controlam e
manipulam em seu favor. Não há aqui nenhuma prevenção a
priori contra o Estado, uma vez que ele é necessário mesmo
para criar o laissez-faire,
ou seja, lutar contra os trusts e cartéis, assegurar a competição,
garantir o cumprimento dos contratos e, de forma geral, defender os
direitos de propriedade. Ocorre, porém, que o Estado é também um
forte indutor de redistributivismo regressivo, isto é, o
recolhimento compulsório de recursos de todos os cidadãos,
produtores e consumidores, e o seu “redirecionamento” segundo
critérios políticos determinados.
Em
todos os casos de declínio conhecidos, o Estado serviu precisamente
para esse tipo de redistribuição perversa dos recursos públicos,
gerando o fenômeno conhecido pelos economistas como “crowding-out”,
isto é, a captura da poupança privada pelo próprio Estado e pelos
rentistas profissionais e sua apropriação pelo próprio Estado (e
seus amigos), o que provoca deseconomias de escala e erosão do
investimento produtivo. Os grupos politicamente mais bem articulados
conseguem acesso aos planejadores e legisladores do orçamento público,
deixando ao relento os setores menos organizados. Isso geralmente
implica em concentração de renda e ausência de um mercado interno
dinâmico. Os exemplos de declínio e de estagnação coincidem,
justamente, com o que Veblen chamaria de “consumo conspícuo”
das elites, em total indiferença em relação ao conjunto dos cidadãos.
Não
se pense, por fim, que tudo se faz em benefício do “grande
capital monopolista” e em detrimento da “classe trabalhadora”.
Sindicatos são máquinas organizadas para criar escassez de mão-de-obra
e para produzir desemprego, atuando em perfeita sincronia – nem
sempre funcional, é verdade – com os sindicatos de patrões, com
vistas a extorquir recursos do resto da sociedade desorganizada.
Viceja, nos casos típicos de declínio econômico prolongado, uma
espécie de “pacto perverso”, pelo qual ambos sindicatos entram
em conluio – algumas vezes de forma involuntária ou até
inconsciente – em favor de seus ganhos respectivos, repassando os
custos para o resto da sociedade. A desigualdade distributiva nem
sempre é “aristocrática”...
4.
Não acatamento da lei pelos cidadãos e pelos próprios agentes públicos.
A
decadência, como já afirmado, nem sempre se traduz em pobreza
material, ao contrário, pois sociedades decadentes são,
igualmente, sistemas de relativa abundância, pelo menos para os
privilegiados. Mas, a decadência verdadeira sempre implica em miséria
moral, a começar por um sistemático, no começo sutil, depois
disseminado, desrespeito à lei e às boas normas de convivência.
Uma sociedade não começa a decair com o aumento da delinqüência
comum e com a expansão da criminalidade de baixa extração, mas
justamente com o desprezo pela lei por parte dos poderosos e dos próprios
encarregados de manter a ordem. Sociedades patrimonialistas são
naturalmente mais propensas a esse tipo de corrupção moral, como
evidenciado na trajetória do império otomano, mas nem mesmo
sistemas “tecnocráticos” estão imunes a esse tipo de evolução
involutiva, se é possível este tipo de trajetória. O império
chinês, com seu imenso corpo de mandarins bem treinados, talvez
tenha conhecido itinerário semelhante, antes mesmo de o país ser
invadido e humilhado pelos imperialistas ocidentais (e depois
japoneses).
O
desrespeito à lei, ou mesmo a contravenção pura e simples por
parte dos poderosos, constituem o traço mais visível do declínio
moral de uma sociedade. Quando as suas elites, em especial o seu
corpo dirigente, recorrem a expedientes escusos, quando não a práticas
claramente criminosas, para extrair benefícios para si, pode-se
constatar que a sociedade caminha célere para a sua decadência. Não
se deve, porém, confundir, artifícios ilegais, ou no limite da
legalidade, empregados por algumas elites econômicas – como caixa
dois, elisão ou evasão fiscal ou ainda pagamentos por fora –
como representando necessariamente sinônimo de decadência. O setor
produtivo pode ser especialmente competitivo e gerencialmente capaz,
apenas que penalizado por um Estado voraz, por dirigentes políticos
de comportamento predatório, sendo levado a utilizar-se do recurso
a esse tipo de expediente como uma forma de “defesa
patrimonial”. É, aliás, o que fazem a maioria dos cidadãos que
buscam evadir o fisco, uma vez que adquiriram a consciência de que
os impostos pagos diretamente e os tributos recolhidos indiretamente
não retornam proporcionalmente sob a forma de serviços públicos.
A
ilegalidade se dissemina paulatinamente na sociedade e se converte
em uma "segunda natureza” do cidadão comum e do empresário:
ninguém se “arrisca” a ser totalmente honesto, uma vez que isto
representaria a inviabilidade do seu negócio ou a “extração
compulsória” seria demais onerosa no plano das rendas
individuais. Pouco a pouco, a corrupção e a contravenção se
instalam em todos os poros da sociedade e ela, sem perceber, caminha
rapidamente para o que chamamos de decadência.
5.
Elites distantes da sociedade e focadas no seu benefício próprio.
Esta
é uma outra manifestação do mesmo comportamento descrito acima,
apenas que os meios são absolutamente legais, ainda que ilegítimos,
e redundam quase sempre nos mesmos efeitos já referenciados no
rentismo perverso e no redistributivismo desigual. Responsáveis políticos
se ocupam não tanto de legislar para a sociedade, mas em causa própria.
Os meios passam a absorver uma proporção crescente dos recursos
voltados para determinados fins. Isto geralmente se dá no setor
legislativo, mas pode perfeitamente ocorrer nos meios judiciários
e, igualmente, em corporações de ofício que se organizam
burocraticamente no âmbito do poder executivo. A representação
política deixa de constituir um mandato conferido pela sociedade
para o desempenho das funções que lhe são próprias para
converter-se em um fim em si mesmo.
Esses
traços de comportamento não são exclusivos da representação política,
embora eles sempre se reproduzam no estamento político. Elites
rentistas, de modo geral, desenvolvem essa indiferença em relação
à sociedade, cuja simbologia mais famosa – ainda que
provavelmente equivocada – é historicamente representada pela
frase de Maria Antonieta sobre os brioches que o povo deveria comer,
no lugar do pão comum. Elites aristocráticas do ancien Régime, na França e na Rússia czarista, foram em grande
medida responsáveis pela desafeição do povo em relação às suas
elites, contribuindo para a derrocada dos respectivos regimes políticos
ao se operar um claro divórcio entre suas concepções do mundo. O apartheid social, mais até no plano mental do que no âmbito
material, costuma ser construído por minorias ativas, nem todas
elas privilegiadas, mas sempre elitistas em relação à massa da
sociedade.
Por
vezes, uma elite “subversiva” se apossa do poder e passa a
exibir os mesmos traços de comportamento que o das elites antes
privilegiadas, numa típica reprodução da fábula contida em Animal
Farm, segundo a qual “todos são iguais, mas alguns são mais
iguais do que outros”.
6.
Corrupção disseminada nas transações sociais de maneira geral.
O
cimento mais poderoso em todas as sociedades organizadas é a
confiança: não só na palavra dada, no plano individual, mas também
na moeda, na observância da lei em caráter impessoal, no
cumprimento dos contratos e, sobretudo, na certeza da punição em
caso de ações “desviantes”. O que mantém o poder de compra de
uma moeda, por exemplo, não é tanto a força absoluta de uma
economia, mas a confiança de que seu valor de face não será
abalado por atos arbitrários das autoridades emissoras, medidas
intervencionistas que afetem sua liquidez ou alguma ameaça de
confisco, mesmo indireto.
A
incerteza jurídica – por vezes trazida pelos próprios juízes,
que não se contentam em interpretar a lei, preferindo criá-la, ou
colocá-la a serviço de alguma causa “social” – está na
origem do desrespeito aos contratos e, portanto, no aumento dos
custos de transação. Setores da sociedade passam a desenvolver
formas próprias, geralmente informais, de intercâmbio, que podem
englobar um volume crescente de atividades. Sociedades decadentes são,
geralmente, sociedades nas quais a informalidade recobre grande
parte da população economicamente ativa e uma fração
significativa do produto social. Um Estado “extrator” pode também
ser o responsável direto pela “expulsão” do mercado formal de
agentes econômicos privados que não encontram nenhuma vantagem em
se colocar à margem da legalidade, mas que não conseguem se
enquadrar nas regras existentes. Na verdade um cipoal de
regulamentos estabelecido justamente para vigiar o cumprimento de
uma legislação barroca no plano regulatório.
A
sociedade como um todo passa a se acostumar com a modalidade
informal de se completarem as transações e, ao fim e ao cabo, os
intercâmbios legais passam a cobrir uma fração cada vez menor do
conjunto das trocas sociais. A sociedade de “desconfiança”
afeta a todos os participantes do mercado, gerando graus crescentes
de anomia e de deterioração dos costumes básicos. A sociedade em
questão está “pronta” para aprofundar seu processo de decadência.
7.
Avanço dos corporatismos e particularismos, em detrimento das
“causas nacionais”.
A
fragmentação da representação política e social nos diversos
corpos constitutivos da sociedade cria uma colcha de retalhos de difícil
administração institucional. Para que grandes reformas estruturais
se façam – e toda sociedade requer, periodicamente, adaptação
às novas condições ambientais externas e às suas próprias
transformações internas, demográficas e outras –, as diferentes
partes da sociedade precisam estabelecer um pacto de convivência,
no qual todos cedem um pouco para que as mudanças possam ser
implementadas. A perseguição de objetivos particularistas por
grupos sociais organizados, geralmente com vistas a se alcançar
metas setoriais e exclusivas, inviabiliza qualquer “projeto
nacional” digno desse nome (ainda que essa figura seja antes um
mito do que uma realidade, pois “projetos” bem executados
geralmente resultam da ação decisiva de uma pequena elite de
“iluminados”, quando não de um líder carismático atuando como
estadista).
O
fato é que os processos de decadência também são caracterizados
pela existência de “projetos fragmentários”, condizentes com o
perfil já fortemente sindicalizado dessa sociedade. Não é incomum
a representação política passar da dominância de próceres
cosmopolitas, da elite, mas dotados de uma visão do mundo não
provinciana, para “delegados de categoria”, eleitos por um grupo
de interesse restrito (de caráter sindical, setorial ou religioso).
O processo legislativo se divide então em uma miríade de demandas
particularistas, que esquartejam o orçamento nacional e transformam
o planejamento público em uma assemblagem de partes heteróclitas.
Congela-se a possibilidade de atuar nas grandes causas, pois o
mercado político converte-se num bazar de compra e venda de
projetos setoriais e fragmentários. Um indicador fiável dessa tendência
é dada por meio de consulta a um calendário-agenda: a sociedade
estará tão mais próxima da decadência quanto mais dias do ano são
dedicados a homenagear categorias profissionais...
8.
Grupos sociais particulares pretendem distinguir-se do conjunto da
sociedade.
A
chamada “identidade nacional” – um conceito difuso e freqüentemente
mal interpretado – constitui um dos traços mais conspícuos da
psicologia de massas. Uma sociedade dinâmica ostenta um forte
sentimento de inclusividade e de identificação com os símbolos
nacionais, sejam eles realidades históricas tangíveis, sejam eles
simples mitos criados para fortalecer o processo de Nation building. Em qualquer hipótese, o sentimento de
pertencimento – status
de appartenance ou membership – a um corpo social ou humano relativamente homogêneo
é um poderoso cimento da identidade nacional, o que não impede,
obviamente, particularidades regionais, traços étnicos ou
especificidades culturais próprias a sociedades complexas,
racialmente diversas e dotadas de origens “multinacionais”. O
ideal de toda sociedade integrada e orgulhosa de sê-lo é,
justamente, conseguir passar do estágio simplesmente
“multinacional” para o de “sociedade multirracial”, o que
deveria ser o objetivo de toda comunidade inclusiva, uma vez que tal
característica destrói as próprias bases de qualquer manifestação
de racismo ou apartheid.
A
desafeição em relação à fusão dos particularismos raciais ou
culturais no mainstream
social e humano nacional enfraquece a noção de identidade nacional
e reforça a noção artificial de aparteísmo. Este tipo de divisor
precisa ser construído politicamente, uma vez que se adota como
suposto básico a unidade fundamental do gênero humano. A divisão
é, geralmente, obra de ativistas e militantes de uma causa que se
julga legítima, cujas raízes encontram fundamentação histórica
em opressões seculares, que se pretende transplantar para o
presente, como forma de preservar antigas particularidades raciais,
lingüísticas ou religiosas, que já estavam prontas a se fundir no
poderoso molde nacional. A conformação política de uma cultura
distinta da nacional reforça manifestações de racismo ao contrário,
pois que as propostas são geralmente feitas para eliminar supostos
focos de “racismo”. O apartheid também pode ser construído por
minorias...
9.
Irresponsabilidade intergeracional, nos terrenos fiscal ou
ambiental, entre outros.
O
desejo de preservar o status
quo, ou a inconsciência quanto à constante necessidade de
ajustes e adaptações às condições “ambientais”, nacionais
ou internacionais, sempre cambiantes, fazem com que gerações do
presente eventualmente atuem de maneira irresponsável em relação
àquelas que as sucederão. Historicamente, o problema sempre esteve
associado à depredação do meio ambiente e à extinção de espécies
animais, alterando o equilíbrio natural e ameaçando a
sustentabilidade de sistemas econômicos inteiros.
Contemporaneamente, a questão tende a se revestir de características
econômicas bem marcadas, tendo a ver com a trajetória avassaladora
do Estado moderno e sua voracidade fiscal, não em benefício próprio,
obviamente, uma vez que o Estado é uma entidade impessoal, mas em
favor de grupos ou categorias dispondo de condições de acesso e de
manipulação dos mecanismos de intervenção pública.
Nos
casos mais graves, o conjunto da sociedade pode atuar de maneira
irresponsável, ao sustentar escolhas que representam uma clara
preferência pelo bem-estar presente, em detrimento do amanhã. Seja
nos esquemas de previdência social, seja nas instituições
educacionais, ou ainda em matéria de déficits orçamentários e dívida
pública, opções erradas e a visão imediatista dos responsáveis
políticos, sustentados pela inconsciência da maioria, criam
pesadas hipotecas de médio e longo prazo que deverão, em algum
momento, ser resgatadas pelos sucessores, aqui entendidos como o
conjunto da sociedade de uma ou duas gerações mais à frente. O
declínio pode até não ser visível no próprio momento das decisões,
mas o que se está fazendo, na verdade, é “contratar” a decadência
futura.
10.
Degradação ética e moral, independentemente de “progressos” técnicos.
Edward
Gibbon, em seu justamente celebrado História
do Declínio e Queda do Império Romano, tende a ver a decadência
de Roma como o resultado da perda de “valores cívicos” por
parte dos cidadãos do império, a começar pelos patrícios, que
delegaram aos bárbaros tarefas que eles deveriam ter assumido
diretamente. Ele também atacou a influência do cristianismo, como
possível fator de afastamento do antigo espírito marcial e
guerreiro, que tinha feito, no início, o sucesso da república e do
império. Seja como for, a perda de objetivos claros quanto ao
futuro, certa resignação em face das dificuldades do presente e a
busca de prazeres imediatos em lugar da frugalidade produtiva e
empreendedora podem ser sinais precursores da decadência.
Curiosamente,
nenhum dos exemplos históricos tidos como ilustrativos ou emblemáticos
desse tipo de processo pode ser considerado um insucesso absoluto na
cultura ou nas artes. O vigor da produção cultural continua a todo
vapor no momento mesmo em que essas sociedades passam a enfrentar
problemas na economia e na inovação. Não há um elemento singular
ou único que “anuncie” a decadência, mas um conjunto de
comportamentos sociais e de reações que indica forte deterioração
da solidariedade social e uma crescente anomia em relação aos
valores básicos da sociedade. A falta de confiança nas instituições
políticas e a forte desconfiança das motivações de outros grupos
sociais fazem com que líderes e liderados não mais se sintam
comprometidos com o mesmo conjunto de valores, passando a ocorrer
manifestações de introversão e de egoísmo que logo superam a
identificação com a pátria e a nação.
Em
síntese, existe um “espírito” de decadência quando os setores
produtivos, em especial os empresários mais politicamente ativos,
se mostram resignados ante a presença avassaladora do Estado, que
lhes tolhe os movimentos, impõe regras e lhes retira a substância
da atividade econômica, que é o lucro e os excedentes para
investir. Existe decadência quando os intelectuais e os universitários,
de uma forma geral, se conformam ante o culto à ignorância exibido
por certos grupos sociais ou líderes supostamente carismáticos ou
“salvacionistas”. Existe decadência quando autoridades
nacionais, a começar pelos encarregados da preservação da ordem
jurídica e institucional, deixam de lado suas obrigações
profissionais para cuidar de prosaicos interesses pessoais, pecuniários
antes de tudo. Existe decadência quando o cidadão comum não vê
qualquer motivo para preservar o patrimônio coletivo, demonstrando
total inconsciência quanto ao dever de respeitar a herança das
gerações precedentes e a necessidade de repassar às que seguirão
a sua própria um ambiente melhor do que aquele recebido dos
ancestrais.
Em
suma, os sinais materiais, ou externos, da decadência nem sempre são
os que contam na avaliação dos “progressos” dessa inacreditável
marcha para trás na jornada das sociedades. A insensatez quanto aos
rumos da história também se manifesta, antes de tudo, por uma pura
e simples inconsciência. Manuais práticos de decadência podem ser
um preventivo útil na inversão da trajetória. Basta saber consultá-los...
por
PAULO
ROBERTO DE ALMEIDA