II
- O
marxismo-leninismo: entre
a negação
e a afirmação da tradição stalinista
No
início de 1991, o IX Pleno do Comitê Central decidiu antecipar o 8º
Congresso do partido.
Os ventos do Leste traspassaram as muralhas da ortodoxia
marxista-leninista e colocaram o partido diante da necessidade de
debater os problemas relativos ao socialismo e às perspectivas da
luta revolucionária no Brasil e no mundo.
Simultaneamente
à convocação desse congresso, o CC apresentou suas teses para o
debate. A primeira tese, dedicada exclusivamente à questão do
socialismo, representava um esforço de sistematização e síntese
da evolução do marxismo-leninismo e das experiências socialistas.
A segunda enfocou o caráter do capitalismo, através da análise da
situação internacional e nacional diante da decadência da URSS e
da crise dos países socialistas. A última reafirmou a concepção
marxista-leninista de partido, o centralismo democrático, o princípio
de direção única etc.
As
páginas da Tribuna de Debates – editada quinzenalmente –
foram uma demonstração objetiva da riqueza do debate político-ideológico
desse período. Discutiu-se abertamente, e com espírito autocrítico,
temas e questões até então intocáveis e inquestionáveis.
Houve,
por exemplo, a autocrítica do culto à personalidade e a proposta
de ruptura com a tradição stalinista. Isto ficou evidente com o
paralelo traçado por Martins entre o PCUS sob o domínio de Stalin
e o PC do B:
“E
se fomos tão cegos é porque o stalinismo estava também dentro
de nós. Nunca criamos, é verdade, uma oligarquia econômica.
Mas reproduzimos a maior parte das atitudes ideológicas do
PCUS. Como ele, acalentamos uma visão mecanicista do
desenvolvimento da História e uma imagem messiânica sobre nós
mesmos (...). Como ele, desprezamos a necessidade de estudar,
entender e aprender com o povo e a realidade brasileira; eles é que
devem adaptar-se a nossos manuais. Como ele, somos bem pouco
tolerantes a divergências. Como ele, desenvolvemos (...) uma
hierarquia rígida e limites à autonomia intelectual; nossas bases
foram acostumadas não a pensar por conta própria, mas a aplicar a
política formulada pelo Comitê Central e transmitida por direções
intermediárias que às vezes não cultivam nem humildade nem
disposição ao debate” (MARTINS, 19.08.1991: 06).
Essas
palavras expressam o sentimento autocrítico que permeou o partido
nessa fase e sintetiza a evolução histórica do partido. Ainda
nessa senda, alguns artigos identificaram a resistência e a
incapacidade de setores partidários, a começar pela direção
central, em aceitar os novos rumos e ensinamentos da história e a
se reciclar.
Campos,
por exemplo, observou que esta dificuldade era tão acentuada que,
“mesmo quando alguma retificação é inevitável, persiste a
auto-suficiência característica de quem se considera dono da
verdade”. Para ele:
“A
nova posição aparece repentinamente em um documento ou em um
artigo de nossos órgãos de imprensa, como se nenhuma mudança
tivesse ocorrido e como se o reconhecimento do erro pudesse
comprometer a imagem da direção. Assim é que, de “vitrine da
burguesia”, a mesma Cuba transformou-se, como num passe de mágica,
em referência da classe operária, para citar apenas um exemplo”
(CAMPOS, 28.10,1991: 18).
Foi
no terreno da organização que a autocrítica em relação ao
stalinismo – mesmo quando não foi assumida – se evidenciou
objetivamente. Borges admitiu que o partido herdou os “aspectos
negativos” do PCUS “deformando o modelo leninista de organização”:
“Em
vários artigos e em algumas palestras da fase preparatória do
congresso, a herança negativa ainda se faz presente. Alguns
companheiros da direção, por exemplo, insistem em falar sobre “o
perigo da influência burguesa em nosso meio”. É como se, no íntimo,
propusessem restringir o debate interno para evitar o risco da
destruição do partido. Além disso, observa-se uma nítida resistência
às opiniões divergentes. É a velha história do “desvio ideológico”,
como se fossem portadores da verdade final, os juízes da história”
(BORGES, 24.11.1991: 12).
Esse
depoimento, além de representar outra importante contribuição ao
esforço de adaptação do partido à nova realidade mundial,
permite-nos identificar a permanência da herança stalinista, a
qual muitos se apegavam na tentativa de manter o partido na trilha
anterior. Os métodos e argumentos utilizados são conhecidos. A
novidade estava em personalidades importantes do partido fazerem
afirmações deste quilate e permanecerem em suas fileiras.
Os
anseios democráticos se manifestaram amplamente. Mesmo destacados
membros da direção admitiram a necessidade de modificações
estatutárias e comportamentais que possibilitassem a flexibilização
da organização, desde que mantivessem o caráter revolucionário e
o seu papel de vanguarda.
Por
outro lado, retomou-se a discussão sobre a importância da
democracia socialista, questionando-se outro cânone da ortodoxia
stalinista: o partido único. “Se a luta de classes continua no
socialismo, é melhor que se expresse às claras, o que exige
disputa aberta entre os partidos políticos. A hegemonia por
decreto, o sistema de partido único, mostrou-se um presente de
grego para o comunismo. É hora de fazer a crítica
marxista-leninista do partido único”, escreveu Joffilly
(19.08.1991: 11).
Analisando
a experiência soviética, Joffilly concluiu que “o partido único
atrapalha muito mais do que facilita a experiência a construção
do socialismo e da ditadura do proletariado”. Ele admitiu até
mesmo a pluralidade que incluísse “partidos pequeno-burgueses,
oscilantes ou burgueses, reacionários, hostis, inimigos”. Para
ele, “o limite é o respeito à legalidade socialista e à
soberania nacional” (Id.).
Esse
debate provocou a inflexão na formulação tática-estratégica
baseada na teoria etapista. Passou-se, então, à autocrítica dessa
tradição, a qual imbuía o reconhecimento dos equívocos táticos,
principalmente no que dizia respeito à política de alianças.
Por
outro lado, muitos reafirmaram o etapismo. Para o dirigente
nacional, Euler Ivo, “a revolução socialista brasileira em duas
etapas não é uma invenção e vontade do PC do B, mas determinada
por uma realidade objetiva”. Contudo, também ele admitiu a
necessidade do partido redirecionar a tática, tendo como eixo
central a aglutinação dos setores antiimperialistas. Isto
pressupunha a ampliação do leque de alianças que, nas suas
palavras, deveriam ser “ainda mais vastas que durante os últimos
25 anos, para tristeza e sofrimento dos petistas enrustidos dentro
do PC do B que sempre vacilam quanto à (nossa) tática”
(IVO, 24.11.1991: 05).
Ainda
que as posições apresentadas até aqui tenham caráter individual
– já que o PC do B não admite o direito de tendência –
elas não estão absolutamente isoladas no contexto do debate que
precede o 8ºCongresso.
De fato, as resoluções adotadas por este conclave, expressam os
elementos polêmicos e assimilam muitas formulações críticas e
autocríticas.
O
8º Congresso se realizou nos dias 03 a 06 de fevereiro de 1992, em
Brasília. Neste, os 518 delegados aprovaram o informe político
apresentado por João Amazonas, o qual reafirmava a antiga tese de
que a URSS deixara de ser socialista a partir de fins da década de
1950, quando teria caído sob o domínio dos “revisionistas
contemporâneos”, representantes da tendência “anti-socialista,
de cunho liberal-burguês”, liderada por Kruschev. De acordo com
essa análise, foi a partir deste momento que se iniciou a “transição
gradual de volta ao capitalismo”, a qual teria levado a URSS e o
Leste Europeu aos resultados catastróficos observados na atualidade
(AMAZONAS, LUSTOSA e FERNANDES,
1992: 37-38).
Não
obstante a permanência da caracterização tradicional, o texto
resolutivo inovou ao assumir, no balanço sobre a época socialista,
que as análises anteriores não teriam tratado do período de
construção do socialismo, isto é, os anos sob domínio de Stalin.
Agora, o PC do B reconhecia que, mesmo no tempo do
todo-poderoso Stalin, ocorreram fatos que levaram à degeneração e
deformação da sociedade e Estado soviético. Este, pouco a pouco,
“sofreu alterações no seu conteúdo democrático e popular”.
“Ainda que mantendo seus propósitos de defesa do interesse do
proletariado e da Revolução (sic.), converteu-se num órgão
burocrático afastado das massas”, afirma o informe (id.: 42-44).
Embora
o partido reconheça os aspectos negativos do período stalinista, a
tônica que prevalece é a reafirmação do papel positivo que o
“guia genial dos povos” teria desempenhado na “construção do
socialismo”. Simultaneamente, as resoluções não consideram o
stalinismo enquanto corrente de pensamento teórico-político
presente no interior do movimento comunista internacional. Para o PC
do B, não existe a categoria stalinismo. Na sua avaliação,
“o ataque ao stalinismo tem sido um artifício para introduzir idéias
revisionistas e, fundamentalmente, tem levado ao anticomunismo”
(id.:49).
O
partido recusa tanto o epíteto de stalinista quanto o de
anti-stalinista. Afirma que a figura de Stalin deve ser avaliado no
plano histórico. Isto é, como um líder que esteve à frente da
luta revolucionária e que, enquanto tal, teve “méritos incontestáveis”
mas também “cometeu erros que prejudicaram a causa do
proletariado” (id.: 49-50).
No
debate interno esta foi uma das questões mais difíceis.A própria resolução expressa ambigüidade, a qual se
explica pelos valores impregnados na práxis da militância, desde a
base até a cúpula – especialmente entre os mais velhos.
Há dificuldade em romper plenamente com o passado. De qualquer
forma, o partido aprovou a retirada de qualquer referência a Stalin
em seus estatutos.
Diante
da ofensiva anticomunista, o documento considera essencial a
reafirmação dos princípios. Assim, o partido declara que
permanece “partidário inabalável da teoria do
marxismo-leninismo” e dos conceitos que esta comporta (id.:
52-54). O partido procura manter os princípios, encarando o desafio
de superar os erros do passado.
Por
outro lado, admite que o marxismo-leninismo passa por uma crise,
caracterizada pela dispersão teórica, pelas vacilações e
contestação aos “princípios essenciais da doutrina marxista”.
A superação dessa crise seria a “grande tarefa histórica da
atualidade” e pressupõe o desenvolvimento da teoria marxista, ou
seja, a sua atualização (id.: 96).
As
resoluções congressuais não aprofundam a avaliação sobre o socialismo
albanês. Apenas registra que o “balanço crítico da experiência
do socialismo na URSS” fornece os elementos para o estudo e a
compreensão do processo que resultou na capitulação do Partido do
Trabalho da Albânia (PTA). Dessa forma, é negada a referência
albanesa sem entrar em maiores detalhes (id.:95).
O
novo curso político da liderança albanesa foi caracterizado por
Amazonas como “uma
vergonhosa capitulação”. “Os dirigentes albaneses mudaram de
campo. Servem, hoje, às forças anticomunistas, desprezam o
socialismo, repudiam a revolução”, diria o dirigente máximo do PC
do B (19.07.1991: 12).
A
crítica aos rumos desencadeados pelas transformações políticas
no Leste Europeu, levaria o partido a adotar posições polêmicas,
como, por exemplo, saudar o golpe de Estado na URSS, em agosto de
1991, como “um acontecimento alvissareiro”. Opositor, desde o início,
à política de Gorbatchov, o presidente do partido avaliou que a
derrubada do dirigente soviético interrompia um “processo
regressivo” de restauração capitalista. Este seria um passo
importante para a retomada da “caminhada pela reconquista do
socialismo” (AMAZONAS, 20.08.1991).
Diante
das reações negativas, a Comissão Executiva Nacional, reunida em
28 de agosto, analisou o acontecimento alvissareiro. A CEN
reafirmou o significado restaurador e contra-revolucionário de
Gorbatchov e Yeltsin. Sua crítica não residia na tentativa de
afastamento deste, mas na incapacidade dos golpistas em expressarem
as aspirações das forças progressistas e de não terem condições
de “restaurar o curso socialista”. “Por isto, inclusive, o
levante malogrou”, observou. Desde o primeiro momento o PC do
B, “soube distanciar-se da campanha imperialista pró-Gorbatchov.
Compreendeu igualmente que não seria por um atalho golpista que se
retomaria o caminho socialista”, concluía a cúpula comunista (CEN,
21.08.1991).
Não
menos polêmica foi a nova posição do partido em relação à
China. Caracterizada anteriormente como social-imperialista,
agora é saudada pela direção nacional do PC do B, que,
entre 1989 e a realização do 8ºCongresso,
passou a reconhecer o fortalecimento do socialismo naquele país e a
sua importância na luta antiimperialista.
A
exemplo da reaproximação com a China – com quem havia rompido
nos anos 70 – o PC do B reavaliará sua política em relação
a Fidel Castro e Cuba. O dirigente máximo cubano, que no passado
recebeu adjetivos nada apreciadores – por sua ligação com o revisionismo
de Moscou – agora é saudado como dirigente revolucionário. A
Cuba, antes capitalista, readquire o status de socialista, “alento
para os povos de todo o mundo” (ACO, 22.03.1993).
A
ruptura com a Albânia, o país das águias, indicou a adoção
de uma nova política internacional que buscava rearticular e
reaglutinar as forças marxistas-leninistas e socialistas. O
congresso afirmara a necessidade de envidar esforços no sentido de
um maior engajamento com as forças decididas a levar adiante a
causa revolucionária, destacando a China, a Coréia do Norte, Vietnã
e Cuba e os partidos marxistas-leninistas de diversos países –
inclusive o PCB e o MR-8 no Brasil.
A
reorganização do movimento comunista latino-americano –
majoritariamente de inspiração marxista-leninista – ganhou
impulso com a realização, em novembro de 1990, no México, da Reunião
de Partidos Comunistas e Movimentos Revolucionários. Ocorreram
ainda outros encontros semelhantes: a realização, em agosto de
1992, do Seminário em Homenagem a Che Guevara (convocado pelo MR-8,
PCB e o PC do B, com a participação de Nina Andreiva
e outros representantes de organizações comunistas da ex-URSS).
Destacam-se ainda os seminários realizados em Quito (Peru), em março
de 1992 e fevereiro de 1993. Inserido nesse contexto de reorganização
do movimento comunista internacional realizou-se, logo após o 8ºCongresso,
uma reunião com a participação de 24 partidos comunistas que
haviam enviado delegações ao evento brasileiro.
O
estreitamento dos novos laços internacional foi reforçados com a
viagem de Amazonas e outros dirigentes do partido à Coréia do
Norte, onde participaram da festa de aniversário do grande líder
Kim II Sang, que completava 80 anos. De passagem por Pequim,
Amazonas foi recebido por representantes do Partido Comunista
Chinês; na Bélgica, a convite do Partido do Trabalho,
participou das comemorações com Nina Andreiva, presidente do Partido
dos Bolcheviques de Toda a União Soviética; em Lisboa, o líder
brasileiro manteve contato com o Partido Comunista (Reconstruído)
e com Álvaro Cunhal, presidente do Partido Comunista Português
(PCP).
Na
Coréia, Amazonas assinou a Declaração de Pyongyang,
firmada por 71 partidos e organizações. Esse documento admite que
o “socialismo fracassou em alguns países”. (sic.) O
fracasso é explicado pelo “fato de que nesses países não se
instaurou uma infra-estrutura social em conformidade com as exigências
intrínsecas dessa sociedade e não foi construída de acordo com a
teoria científica do socialismo” (ACO, 25.05.1992: 07).
Contudo,
reafirma a superioridade do socialismo e realça o caminho específico
de cada país e partido nacional na sua construção, respeitando-se
suas realidades próprias. Esta seria a valiosa lição
tirada das experiências vividas. Por fim, conclama-se todos os
partidos a estreitarem os laços de “unidade internacional na luta
pelo socialismo”, causa considerada “invencível” (id.).
[continua]
Referências
bibliográficas
BORGES,
Altamiro. “Heranças marcantes no terreno da Organização”.
Tribuna de Debates 9, 24 de novembro de 1991, p. 12.
CAMPOS,
Eduardo. “Abandonar a arrogância e valorizar a autocrítica”. Tribuna
de Debates 7, 28 de outubro de 1991, p. 18.
IVO,
Euler. “O PC do B precisa de uma nova “grande tática”. Tribuna
de Debates 9, 24 de novembro de 1991, p. 05.
JOFFILLY,
Bernardo. “O partido único não deu certo”. Tribuna de
Debates 2, 19 de agosto de 1991, p. 11.
MARTINS,
Antônio. “O PC do B na encruzilhada histórica”. Tribuna de
Debates 2, 19 de agosto de 1991, p. 06.