O Brasil
no sistema mundial contemporâneo
Introdução
Há
algum tempo, autores vêm investigando a natureza das mudanças
ocorridas, em especial, no mundo do trabalho pelos idos das décadas
de 60 e 70 do século XX. Há pontos de vista os mais variados sobre
o tema, à esquerda e à direita, com diferentes ênfases em
elementos como informação, centralidade do trabalho, precarização
das relações de trabalho, regulação das relações sociais
capitalistas, emprego industrial etc. Contudo, não é nossa intenção
mapeá-los, sequer parcialmente. Na verdade, o presente artigo tem o
propósito de assinalar que os termos nos quais é levantada a questão
para o centro do sistema capitalista não podem ser mecanicamente
estendidos a sua periferia, em especial, o Brasil, em razão de uma
dinâmica econômica e social que lhe é própria, ainda que, de
origem, conectada à engrenagem do sistema mundial capitalista.
A
desestruturação da sociedade salarial
O
debate ao qual nos referimos nas notas introdutórias muitas vezes
inicia com a reflexão acerca de quais legalidades regiam, no centro
do sistema, o mundo social da produção e do trabalho no pós-II
Guerra Mundial. Posto que emergia naquele momento uma estrutura
social e econômica que conjugava altas taxas de crescimento econômico,
expansão do assalariamento e um conjunto de proteções sociais
afiançadas pelo Estado.
Do
ângulo econômico, este sistema (ao qual, acompanhando Castel
(2005), passaremos a designar como sociedade
salarial) pressupunha grandes aumentos de
produtividade/intensidade do trabalho, por meio, sobretudo, de
estratégias de racionalização do processo de produção em massa
e de sua mecanização. Tais ganhos eram sistematicamente repassados
aos salários, realimentando o consumo de massa e os investimentos
em escala ampliada e produzindo taxas
consideráveis de crescimento econômico.
Já
do ponto de vista social, a consolidação de um estatuto do
assalariamento (Castel, p.417: 2005), afiançado pelas proteções
sociais do Estado, implicava que a inserção dos indivíduos nesta
estrutura passava necessariamente por sua condição salarial. Condição
esta que permitiu uma relativa homogeneização social, uma vez que
o pertencimento à sociedade, a identidade, os conflitos, o modo de
vida, consumo etc. só são compreensíveis se vinculados a essa
mesma estrutura.
Estamos
tratando aqui de um arranjo social específico, historicamente
construído como resultante de contradições sociais fundamentais
que opunham e aproximavam grupos e classes em torno de interesses,
apostas, conflitos etc. Isto é, não se trata de uma concessão das
classes proprietárias, mas de um produto histórico das lutas no
seio das sociedades sob análise. Contudo, tal arranjo não suprimia
as contradições da produção capitalista, mas apenas criava os
meios pelos quais estas se desenvolviam. São estas condições que
asseguram uma reprodução sócio-econômica do sistema capitalista
segundo este formato histórico particular. Ocorre que, por volta da
década de 1960, o modelo entra em colapso e, com ele, as regulações
relacionadas ao trabalho e à proteção social. Assinalemos pelo
menos dois movimentos importantes da crise: 1 – uma reestruturação
produtiva, organizacional e geográfica do capital; 2 – o ataque
aos benefícios sociais, aos quais estava relacionada, no fim das
contas, a crítica liberal ao modelo de Estado em voga.
Este
artigo não tem o propósito de investigar, uma a uma, estas mutações,
mas, de modo geral, a hipótese da qual partimos é a de que o
rompimento do modo histórico como se reproduziram as relações
capitalistas no período em questão dá origem a uma sociedade na
qual explode a heterogeneidade dos vínculos de pertencimento
social, mais do que nunca subordinados a uma economia (capitalista)
automatizada. Daí a centralidade das categorias do risco e da
flexibilidade. Se a sociedade salarial implicava altas taxas de
emprego associadas a proteções sociais não-monetárias, o
“admirável mundo novo” fará emergir - com ritmos distintos, de
país a país - uma economia de mercado em constante processo de
subversão de suas próprias bases materiais, entregue a si própria,
sempre a bem da “modernização” em curso. E, é claro, operando
em escala mundial.
Sobre
o ponto, cumpre ressaltar que a sociedade salarial não pressupunha
a supressão daquilo que, segundo Marx (2002: 96), distingue
historicamente a produção capitalista – uma espécie de inversão,
em razão da qual o objeto – capital, trabalho morto – passa a pôr
o sujeito – trabalho assalariado vivo, peça
fundamental para a valorização ininterrupta (e posta como um fim
em si própria) do primeiro. Entretanto, as configurações deste
sistema se modificam ao longo do tempo. Aqui estamos tratando da
direção que toma a produção social do capital, a partir do trânsito
de um modo deste se reproduzir a outro, especialmente, a de um
modelo que comporta uma série de mecanismos de proteção social
frente ao mercado para outro no qual se radicaliza a autonomia da
vida econômica frente à sociedade. É neste sentido que se atribui
centralidade às categorias do risco e da flexibilidade, procurando
designar o ajuste incessante da sociedade aos saltos dados pelo
ininterrupto movimento do capital.
É
inevitável apoiar o presente argumento na importância que ganhou
nas últimas décadas a riqueza financeira, bem como na emergência
de formas de trabalho dissociadas do contrato por tempo
indeterminado. Sobre o primeiro ponto, movimentos de valorização
na esfera das finanças passam a ser determinantes das
possibilidades postas para o lado real das economias nacionais. A
liberalização financeira produziu novos elos de conexão, em
escala mundial, entre as expectativas de valorização dos ativos (não
necessariamente atreladas ao lado real da economia) e as flutuações
no preço das moedas, implicando duras restrições,
particularmente, às economias periféricas, em termos de emprego, dívida
pública, inflação e outros.
Sobre
a segunda questão, não é difícil perceber uma reestruturação
geral do mundo do trabalho, respondendo às necessidades da concorrência
internacional de capitais, sempre relacionadas a uma maior
flexibilidade da força de trabalho, seja no processo produtivo,
seja no que se refere a regras que regem a contratação/demissão.
Vejamos o caso francês e a importância, neste contexto, que ganham
as formas de trabalho chamadas atípicas.
[Na
França] o contrato de trabalho por tempo indeterminado está em
vias de perder sua hegemonia. Esta forma, que é mais estável de
emprego, e que atingiu o apogeu em 1975 e concernia, então, a cerca
de 80% da população ativa, caiu hoje para menos de 65%. As
“formas particulares de emprego” que se desenvolvem recobrem uma
infinidade de situações heterogêneas, contratos de trabalho por
tempo indeterminado, interinidade, trabalho de tempo parcial ...
mais de dois terços das contratações anuais são feitas segundo
essas formas, também chamadas de atípicas (Castel; 2005: 514).
Não
apenas na França, mas para as nações desenvolvidas, os dilemas do
mundo do trabalho se apresentam como a passagem de um formato histórico
a outro, em razão da qual vai se dissolvendo a estruturação de vínculos
sociais relativamente uniformes, dados pela sociedade salarial. Esta
estrutura não é obra da natureza, mas da história, e,
particularmente, de um padrão de relação entre capital, trabalho
e Estado, funcionando como lastro social da construção política
da sociedade salarial. Antes de passar ao próximo ponto, vale
ressaltar que as transformações recentes repercutem também sobre
este padrão, alterando o nexo entre as classes sociais e a esfera
da política, tema estruturante dos debates sobre os espaços de
possibilidade que se abrem às sociedades contemporâneas. Tal linha
de argumentação parece propícia para a investigação de como as
composições políticas em várias nações, mais ou menos
conservadoras, e apoiadas em determinadas coalizões sociais, ao
longo das últimas décadas, converteram a noção de reforma em seu
exato oposto, passando esta, então, a significar quase
invariavelmente um degrau adiante na escalada de retirada de
direitos e concessões à fúria acumulativa dos mercados.
A
dissolução do compromisso fordista: e nós com isso?
Indo
direto ao ponto, se é fato que o sistema capitalista opera em
escala mundial, não é menos verdade que constitui um espaço
fraturado, não-uniforme. Assim, por um lado, suas determinações
se estendem a seu espaço como um todo. Por outro, estas não têm o
mesmo estatuto, independente da localização das nações no
interior do sistema. Para os países periféricos, por conseguinte,
a questão que ora nos preocupa – sobre as mutações no mundo do
trabalho – não pode ser levantada pela via do etapismo: estruturação
e ulterior heterogeneização dos vínculos sociais fundados no
assalariamento. Isso porque jamais constituímos algo como uma
sociedade salarial com altas taxas de emprego formal e concomitante
generalização de um sistema de proteção, resultando numa
relativa coesão social.
Para
um país como o Brasil, os processos de industrialização e
urbanização, ao longo do século XX, jamais significaram a
conformação de uma sociedade salarial, nos termos em que tratamos
acima. As transformações das bases econômicas e sociais sempre
conviveram e – mais do que isso – pressupuseram a manutenção
de certos aspectos constitutivos de nossa formação. Co-existência
- do arcaico e do moderno - expressa, originalmente, na vigência de
relações escravistas, obra do capital comercial até quase o século
XX, que de modo algum bloqueava nossa entrada no mundo burguês,
antes consistindo do modo singular como se reproduziam as relações
de capital no Brasil.
Na
verdade, reside aqui um ponto fundamental da nossa formação
social: mais do que uma oposição rígida entre o arcaico (pré-capitalista/escravista/patrimonialista)
e o moderno (capitalismo/liberalismo/impessoalidade/igualdade
perante a lei), trata-se de um balanceio ininterrupto entre
elementos antagônicos – antagonismo dissolvido, por exemplo, no
Brasil do século XIX, do ponto de vista das idéias, na ambivalência
de pontos de vista das classes proprietárias, que ora festejavam as
novas idéias liberais, ora praticavam o favor e o escravismo; uma
totalidade social, pois, na qual simultaneamente se pressupõem e opõem
os dois pólos, ensejando uma dialética de inovação e retorno ao
“antigo” que embalou o processo de desenvolvimento brasileiro e
da constituição de suas classes sociais.
Isto é, a escravidão – resistente mesmo à independência política
- não implica qualquer trava à acumulação capitalista e aos negócios
em nosso país, antes consistindo de uma forma específica – uma
realidade histórica irredutível a esquemas generalizantes - com
que se manifestava em terras periféricas a vida burguesa. A contínua
alternância entre os dois pólos dá a medida de uma certa
flexibilidade originária do país, terreno propício à imputação
do risco social a sujeitos flexibilizados por necessidades
estritamente econômicas, relativas a nossa modernização. E isto,
desde o ponto de partida. Afinal, fomos originalmente organizados
aos moldes de uma empresa econômica voltada à acumulação
primitiva da metrópole portuguesa.
Aproximando-se
do presente, como não se lembrar do discurso oficial da década de
1990, ávido por nos fazer ingressar no mundo da globalização, que
àquela altura nos redimiria da síndrome do país que deu errado?
Ocorre que se cobrava o preço pela entrada, aceitando-se pagamento
com algumas reformas de cunho liberalizante, acrescidas,
eventualmente, de crises financeiras, multiplicação de dívidas públicas,
cortes de gastos públicos, desemprego etc. Afinal, o risco social
é uma espécie de categoria ontológica da formação brasileira,
elemento constituinte da nossa história, resistindo a quaisquer
mudanças, e, especialmente – aqui a singularidade – funcionando
em prol destas.
Desta
maneira, é evidente que a experiência periférica envolve uma
outra dinâmica social, que escapa à relativa coesão européia. Do
ponto de vista empírico, tal fato se manifesta numa ampla gama de
indicadores. Por exemplo, vejamos alguns números para o ano de
2004: no mundo rural, havia mais de 50% de analfabetos, entre
pessoas com 60 anos ou mais de idade. Ainda na área rural, mais de
26% dos domicílios sequer tinham esgotamento sanitário. Para o país
como um todo, 30% das pessoas eram pobres. No Nordeste, tal índice
chegava a 50%. Finalmente, 14 milhões de pessoas conviviam com a
fome, em escalas variadas.
Índices que demonstram, não uma conjuntura momentaneamente
desfavorável, mas os efeitos acumulados de legalidades que regem
historicamente a sociedade brasileira, determinantes da produção
de um tecido social pouco coeso, convivendo, contudo, com transformações
intensas desta mesma estrutura social e de sua base econômica ao
longo do tempo.
Retomando
a questão da virada promovida pela crise da sociedade salarial, a
reestruturação do capital das décadas de 1960 e 1970 não nos
passa ao largo, a despeito das diferenças entre centro e periferia
em termos de coesão da estrutura social. Se esse é o caso, o que
resulta daí? Em linhas gerais, para o Brasil, trata-se da
desestruturação de uma matéria social jamais completamente
estruturada, o que, por força da lógica, nos coloca em posição
de vanguarda junto ao mundo. Isto é, se a meta passa a ser o
desarranjo da homogeneidade social fundada no vínculo salarial,
necessariamente estamos adiantados. No ponto seguinte, tiraremos
conclusões acerca da presente assertiva, que acaba por situar a
problemática contemporânea do desenvolvimento brasileiro,
indissociável, por um lado, das metamorfoses do sistema mundial do
capital, mas, por outro, frontalmente distinta da crise da sociedade
salarial no mundo desenvolvido.
Notas
conclusórias: o futuro e o passado de mãos dadas?
Se o argumento que apresentamos, de
fato, faz algum sentido, então são outros os desdobramentos dos
desenvolvimentos sociais recentes para o Brasil. Neste sentido, é
premente pensarmos com as próprias cabeças, já que a crise da
sociedade salarial não se refere a nós, a não ser indiretamente.
A questão brasileira, mais do que a passagem de um período a
outro, seria a da necessária reflexão em termos “não-etapistas”, no seguinte sentido: por
um lado, não se completou a constituição de uma sociedade
salarial no Brasil (e, nesse particular, não poderia estar superado
o primeiro período);
por outro, se a “última modernidade” remete à imputação
radical pelo mercado de todo tipo de risco e incertezas à vida
social, então jamais fomos tão modernos,
uma vez que a flexibilidade operante, chancelada pelas necessidades
econômicas, com todos os efeitos sociais daí resultantes, é
conosco mesmo. E, assim, o sinal da equação se inverte: sendo a
norma a flexibilidade, são as nações centrais que passam a mirar
nos padrões brasileiros, que apontam para uma ampla plasticidade da
sociedade para se ajustar ao movimento autônomo de acumulação de
valor. Nada mais ilustrativo aqui do que a atual centralidade na
cena política nacional dos indicadores de bom desempenho de
qualquer governo responsável, observado de perto pelos mercados: a
relação dívida/PIB, o risco país e assim por diante, novas
medidas irrefutáveis de bem-estar social.
Caso
o quadro aqui esboçado contenha um diagnóstico correto, perplexos,
indagamos: o que fazer, visto que nossos padrões de cotejo passaram
a nos ter como referência? Quais projetos de desenvolvimento são
possíveis neste contexto? Quais as bases materiais de eventuais
projetos societários, dada a heterogeneidade da inserção
produtiva pela via do trabalho no Brasil?
A
apreensão intelectiva do modo de operação, regras, reprodução
etc. de nossas estruturas sociais consiste de momento fundamental
para a reflexão acerca das possibilidades que lhes são postas. Por
outro lado, um elemento fundamental para tal análise reside na
compreensão da simultaneidade de dois momentos: a estruturação
pela metade de um estatuto do assalariamento, nos termos que aqui já
definimos, em função da qual se pode avaliar/medir a condição de
nosso atraso; e, conjugado ao primeiro, de forma contraditória, uma
espécie de ultra-modernidade no interior de um espaço mundial
capitalista cujos determinantes econômicos entregues a si próprios
impõem a flexibilidade social necessária a seu curso independente.
Do
ponto de vista da teorização acerca das tendências possíveis
para um país como o Brasil, não se trata, pois, da mera retomada
de um padrão de desenvolvimento que não completamos, mas –
conforme dito acima - da concomitância, no caso brasileiro, do
atraso – em função das tarefas inconclusas de um Estado Social
em derrocada no centro - e da vanguarda no sistema mundial produtor
de mercadorias. Este é o chão social – para falar como Roberto
Schwarz – dos conflitos, idéias, projetos e caminhos possíveis
para a experiência brasileira. Portanto, se nos interessa o
desvendamento das legalidades que regem a vida social e econômica
contemporânea, eis o nó central. A ele está predicada a questão
de qual o fundamento material da política – supondo-se ter sido
essa a esfera por excelência das disputas em torno de projetos
societários - nos dias de hoje, dado o estado de dessolidarização
correspondente à desarticulação social promovida pelo movimento
autônomo do capital. Dinâmica esta cujo lastro certamente reside
no abismo social entre classes, matéria da qual - há algum tempo -
o centro passa a importar conhecimento de um país como o Brasil,
arrematando o argumento da inversão dos sinais entre núcleo e
periferia.
Se não se trata disso – de qual o referente social da política
nos dias de hoje em um país a um só tempo super moderno e atrasado
– podemos esquecer. O resto não é mais do que mera consultoria.
Afinal, no mundo das mercadorias, nada mais comum do que vender soluções
acabadas a um país periférico que parece mudar profundamente para
sempre retornar ao mesmo ponto, algo como um incessante movimento de
pêndulo.
por
BRUNO
MORETTI