por
LIGIA
ELIAS COELHO
Jornalista. Trabalhou durante muitos anos em
jornais e revistas do Rio de Janeiro, com passagens, também, por
emissoras de rádio e televisão e assessorias de imprensa e
sindicatos.
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Entrevista
– Vito Giannotti
Texto
e entrevista de Lígia Coelho
Para
o trabalhador conhecer sua própria história
O
escritor e ex-metalúrgico Vito Giannotti lança História das Lutas dos
Trabalhadores no Brasil, um livro destinado a todos os que
querem conhecer a história da classe trabalhadora no País,
mas indicado, principalmente, ao trabalhador brasileiro
Do
primário à Universidade, os alunos estudam que a História
se faz por meio dos reis, rainhas, grandes estadistas,
almirantes, brigadeiros, generais, empresários e políticos.
O trabalhador humilde, que ergue as construções, forja o
ferro e o aço, lavra os campos, fia e tece, entre tantos
outros ofícios, nunca é citado. Para este personagem, quase
sempre esquecido, e para preservar a sua história, nunca
lembrada, Vito Giannotti escreveu História
das Lutas dos
Trabalhadores no Brasil, resultado de dez anos de trabalho
e pesquisa. Para isso, consultou mais de 500 livros, fora
jornais, revistas e outras fontes.
Editado
pela Mauad, trata-se de um documento histórico da maior
importância para todos que querem conhecer as lutas,
conquistas e derrotas dos trabalhadores brasileiros. Indicado
tanto para sindicalistas quanto para professores, estudantes e
pesquisadores, será útil também, e principalmente, para os
próprios trabalhadores, que precisam conhecer sua história
contada do ponto de vista de sua classe.
Em
320 páginas, com linguagem simples e acessível, o autor traça
um panorama de toda a história da classe trabalhadora
brasileira, desde suas origens, no começo da industrialização
do país, cerca de 100 anos após a revolução industrial na
Europa, até o ano de 2002, com a eleição de Lula. Sempre
contextualizando o Brasil na conjuntura internacional.
Brasileiro
nascido na Itália, como bem aponta na apresentação o
professor Rubim Santos Leão de Aquino, Vito trocou a
Faculdade de Filosofia pelo ofício de trabalhador braçal –
foi marítimo e nos anos 60 fixou-se no Brasil, trabalhando
como metalúrgico, em São Paulo. Em seu currículo de 64 anos
bem vividos predominam algumas paixões: além do Brasil e dos
trabalhadores e sua história, Vito é apaixonado por comunicação
popular. Numa sociedade em que a grande mídia, com raras exceções,
volta-se inteiramente para a defesa do mercado e do capital,
ele entende que o trabalhador precisa criar a sua própria
comunicação, para disputar hegemonia.
“Os
trabalhadores que querem mudar o mundo e a sociedade na qual
vivem precisam conhecer sua história” – diz Vito, logo na
introdução. Essa a motivação deste História
das Lutas dos Trabalhadores no Brasil. “Este trabalho não tem a
pretensão de aprofundar os fatos da nossa história. Deseja,
porém, oferecer apenas uma primeira visão panorâmica,
geral, da história da classe operária no Brasil”.
Nos
anos 60 e 70, Vito lutou contra a ditadura militar e, como
tantos que militaram naquela época, foi preso várias vezes
– pelo Exército, pelo Dops e pela Polícia Federal. Nas
lutas diárias como metalúrgico forjou a sua militância
sindical no Brasil e descobriu a importância de uma comunicação
alternativa, popular, voltada para os interesses dos
trabalhadores. Dos boletins e jornais sindicais para os livros
foi um pulo. Escreveu, entre outros, O
que é Estrutura Sindical (Brasiliense), CUT
ontem e Hoje (Vozes), Força
Sindical – a Central neoliberal (Mauad), Muralhas
da Linguagem (Mauad),
O que é Jornalismo Operário (Brasiliense) e Comunicação Sindical – a arte de falar para milhões (Vozes),
este último em parceria com a sua mulher, a jornalista
Claudia Santiago.
No
início da década de 90, cada vez mais envolvido pelo tema da
comunicação popular, fundou, com Claudia, o Núcleo
Piratininga de Comunicação (NPC) e passou a dar cursos e
fazer palestras em diversas partes do país, a convite de
sindicatos e associações de classe. Sempre tendo como
perspectiva a importância da comunicação sob a ótica dos
trabalhadores, na disputa da hegemonia sócio-político-cultural.
Nesta
entrevista, Vito Giannotti conta, em detalhes, as motivações
que o levaram a escrever este História das Lutas dos Trabalhadores no Brasil e, é claro, nos
fala de sua grande paixão pela classe que abraçou e por
comunicação popular. |
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O
que o motivou a escrever o livro?
V.G.:
Já tinha escrito vários outros livros menores sobre este mesmo
tema. O primeiro, em 1970; o segundo, em 1980, um lançamento da
Vozes, intitulado Cem Anos de
Luta Operária. Teve duas edições. A segunda, com dez mil
exemplares, rapidamente esgotados. Muitos colegas, companheiros com
quem militei e trabalhei, e alunos dos cursos do NPC, me pedem este
livro, do qual me restou apenas um exemplar. Além disso, constatei
que não existe, no Brasil, um compêndio que conte a história dos
trabalhadores brasileiros. Existem, sim, ótimos livros que narram
episódios, momentos históricos, mas nenhum que narre a luta dos
trabalhadores brasileiros, desde suas origens até os dias de hoje,
em linguagem clara, resumida e compreensível para qualquer
trabalhador que tenha, no máximo, oito ou dez anos de estudo.
Passei então a pesquisar e o resultado é este livro de 320 páginas.
Gostaria que fosse menor, mas não foi possível. É muita informação.
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Quais
as maiores dificuldades que você encontrou?
V.G.:
Resumir as informações, procurar passar o essencial para quem leu
pouquíssimo sobre a história dos trabalhadores ou nunca leu nada.
Informações sólidas e suficientes, embora reduzidas, para quem não
tem o hábito de ler.
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Como
conseguiu isso?
V.G.:
Primeiro: redigindo frases curtas, com vocabulário o mais simples
possível, usado no dia-a-dia. Frases de, no máximo, 30 palavras.
Segundo: evitei citações. Embora tenha pesquisado em mais de 500
livros, fora jornais e outros periódicos, não fiz citações, para
não tornar a leitura enfadonha. Finalmente, não utilizei notas de
pé de página. Quando terminei o livro, pedi para um amigo, que não
terminou o ensino médio, para que lesse e indicasse todas as
passagens que não entendeu e palavras que não conhecia. Ele
apontou 850 palavras. Foram todas substituídas. Tive que fazer um
esforço de traduzir, sem empobrecer o texto, muitas palavras como: detentores (donos), cárcere
(prisão), fictício
(inventado), taxados de
(chamados de), deflagrar
(detonar), adulterado (falsificado)
e muitas outras.
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Num
livro dessa natureza – uma pesquisa tão minuciosa, num acervo
de mais de 500 livros – o autor não corre o risco de incorrer
em erros, equívocos, imprecisões? O que você fez para
minimizar isso?
V.G.:
Para evitar esse problema o livro foi revisado (sob o ponto de vista
histórico) por oito pessoas diferentes – doutores em História,
pesquisadores, historiadores, jornalistas. É claro que algumas
imprecisões podem acontecer, mas procurei oferecer informações
seguras das várias fontes em que pesquisei. Afinal, foram dez anos
de trabalho. Na época do impeachment
de Collor escrevi, em apenas 12 dias, Collor,
a CUT e a Pizza, que teve duas edições rapidamente esgotadas.
Mas, com este, tive que ter muito mais cuidados.
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Deixando
de lado as dificuldades, quais as curiosidades que você
descobriu ao fazer o livro – fatos inéditos ou pouco
conhecidos, aspectos interessantes que gostaria de destacar?
V.
G.: Registro alguns fatos muito pouco conhecidos. Por exemplo:
descobri que em 1907 houve uma greve dos trabalhadores que construíam
a linha ferroviária Estrada de Ferro Sul, em Cachoeiro do
Itapemirim (ES). A greve durou uma semana. No último dia, a polícia
reprimiu violentamente o movimento e matou 72 trabalhadores. O fato
foi noticiado de forma muito discreta no Jornal
do Commercio do Rio de Janeiro, no dia seguinte ao
acontecimento. Uma nota pequena, sem o nome de nenhuma das vítimas.
O jornal está guardado no Arquivo Nacional. Creio que não existem,
hoje, no Brasil, 50 pessoas que conheçam esse fato.
Um
outro fato que merece registro: em 5 de julho de 1962, os sindicatos
liderados pelo PCB e pela ala esquerda do PTB convocaram uma greve
geral por aumento de salário. Aqui no Rio, na Baixada Fluminense
(sobretudo em Duque de Caxias e São João de Meriti) os
trabalhadores famintos atacaram supermercados em busca de alimentos.
A polícia investiu contra eles, feriu mais de cinco mil pessoas e
matou 43. O registro é do jornal Última
Hora, publicado em 6 de julho. Também consta do acervo do
Arquivo Nacional.
Outro
fato pouco conhecido: em maio de 1906, ferroviários de Jundiaí,
interior de São Paulo, entraram em greve reivindicando redução da
jornada de trabalho para oito horas diárias. Doze grevistas foram
fuzilados pela polícia, encostados num barranco.
Minha
intenção não é fazer um necrológio da classe trabalhadora, ou
apontar mártires, mas esses são fatos desconhecidos, pouco
conhecidos ou relegados ao esquecimento, que precisamos resgatar.
Quero combater a visão predominante nas escolas, na mídia e na
sociedade em geral de que o povo brasileiro é pacífico/passivo,
despolitizado, que não luta. A idéia de Gilberto Freyre, a da “índole
pacífica” do povo brasileiro, é um mito. No livro quero combater
a balela da tal “cordialidade” do nosso povo que só serve para
perpetuar a alienação e o desinteresse pela política. Insinua que
o brasileiro só quer saber de samba, futebol, carnaval e mulher. É
um mito, que rebaixa a auto-estima do brasileiro e o subestima como
povo. Em 1968, a repressão da ditadura militar matou sete
manifestantes em passeatas e atos públicos. E as pessoas iam às
manifestações mesmo sabendo dos riscos que corriam, o que derruba
o mito da passividade do brasileiro.
-
Todos
esses episódios ocorreram há 40 anos ou mais, alguns no início
do século passado. E hoje, o cenário no Brasil ainda é de
violência contra o trabalhador?
V.G.:
Durante o período de explosão das greves no Brasil, no final dos
anos 1970, a polícia reprimiu violentamente os movimentos. Somente
em 1979, matou seis operários em piquetes. O exemplo mais famoso é
o de Santo Dias da Silva, em São Paulo, mas há outros, como Orocílio
Gonçalves, da construção civil de Belo Horizonte, e Benedito
Martins, metalúrgico de Divinópolis (MG). Hoje a repressão é
maior no campo e contra os moradores de favelas e bairros pobres. É
só lembrar da chacina dos 19 sem-terra em Eldorado dos Carajás
(PA), no final dos anos 90, ou dos inocentes chacinados em Nova Iguaçu
(RJ), em 2006. Dos 20 executados pelas chamadas “forças da
ordem”, 18 não tinham nenhuma passagem pela polícia, eram
trabalhadores. Mata-se muito no Brasil. São 55 mil assassinatos por
ano contra 119 no Canadá e 69 no Japão, um país que tem
praticamente a mesma população do Brasil, de acordo com dados do
livro de Michael Moore, Stupid
White Man.
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Até
aqui falamos do livro. Gostaria que você falasse um pouco sobre
o autor. Quem é Vito Giannotti?
V.G.:
Não é ninguém especial. Vito Giannotti é apenas um apaixonado
pelas lutas dos trabalhadores no mundo e no Brasil.
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O
que levou um italiano, ex-estudante de Filosofia, a trocar a
faculdade pela fábrica e a trocar um país desenvolvido por um
país do terceiro mundo, em plena ditadura militar?
V.G.:
Nasci por acaso na Itália. Saí de lá, porque queria transformar
este mundo. Naqueles tempos, as idéias da luta contra o
imperialismo e por um mundo socialista eram muito populares.
Influenciados pela Revolução Cultural chinesa, achávamos que os
intelectuais tinham que viver um curto período como operário. Então
saí da Itália, percorri vários países trabalhando como marítimo,
como pescador, num navio de pesca industrial. Vim para o Brasil para
passar poucos meses, mas me apaixonei pelo país no primeiro dia e
resolvi ficar, apesar de o Brasil estar em plena ditadura. Depois de
trabalhar no Espírito Santo, fui para São Paulo e trabalhei como
metalúrgico durante 25 anos.
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Como
foi a convivência com os operários brasileiros na fábrica?
V.G.:
A minha experiência na fábrica determinou a minha paixão por uma
transformação social no sentido do socialismo e especificamente
pela comunicação como arma fundamental desta revolução.
Trabalhando na fábrica, meu desespero diário era ver os
trabalhadores comentando novelas, programas de TV tipo Chacrinha ou
Flávio Cavalcanti ou as novelas da Globo, sem nenhuma preocupação
com os problemas da classe. Às segundas-feiras de manhã, chegava
louco para conversar sobre política, discutir a situação da nossa
categoria, as condições da classe trabalhadora, os crimes da
ditadura e encontrava os colegas comentando o Fantástico,
falando de futebol.
Então
percebi a necessidade imperiosa de se fazer veículos de comunicação
para informar e formar os trabalhadores. Comecei a colaborar com
jornais sindicais, a escrever artigos, a editar boletins e panfletos
para os trabalhadores. Militava na oposição sindical em São Paulo
e me preocupava com a questão da comunicação popular. Fizemos
diversos jornais – Luta Operária, Luta Metalúrgica,
Luta Sindical. Os jornais iam mudando de nome conforme eram
descobertos e perseguidos pela ditadura. E, talvez por ter passado
por uma faculdade e por meu interesse pela comunicação, eu sempre
era escalado para escrever os artigos e colaborar nas publicações.
Passei
então a ter uma preocupação obsessiva por uma linguagem fácil,
cativante, que capturasse o interesse do trabalhador. Buscamos o “operariês”,
como contraponto à linguagem distante, rebuscada, típica dos
jornais de esquerda, cheias de “economês”, “sindicalês”,
“politiquês” e “juridiquês”. Fiquei obcecado pela
linguagem simples, fácil, atraente. Em 1986 publiquei, pela
Brasiliense, O que é
Jornalismo Operário,
no qual dediquei um capítulo inteiro ao “operariês”. A partir
de 1992, juntei a minha experiência da fábrica com a experiência
da jornalista Claudia Santiago, da CUT, e passamos a dar cursos
sobre comunicação popular e história dos trabalhadores para todo
o Brasil. Escrever em linguagem simples, compreensível, acessível
a todos é um dogma para mim.
por
LIGIA ELIAS COELHO
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