por RAYMUNDO DE LIMA

Formado em psicologia, mestre em Psicologia Escolar (UGF) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

Para ler e compreender...

 

Parece que as escolas públicas e particulares perderam o foco de ensinar ao aluno primeiro conhecer a língua materna e desenvolver o gosto pela leitura. Dados de uma pesquisa recente revelam: o aluno que não lê – ou que não compreende um texto – vai mal também nas outras matérias. Portanto, a leitura e a compreensão dos textos devem ser base da aprendizagem.

É chamado de “sintoma da circularidade”, ou seja, o desempenho da leitura interfere na aprendizagem de todas as matérias, além de promover a socialização e a cidadania do sujeito-leitor. Parece óbvio: o aluno não se sai bem nas matérias porque não compreende os textos recomendados pelo professor. Na prova, tende a se sair mal o aluno que não sabe ler os enunciados, que não compreende o que está sendo pedido que se faça.

O Sistema Nacional de Avaliação Básica (Saeb), em 2005, avaliou os estudantes brasileiros, em todas as séries, demonstrou que o desempenho hoje é pior do que há dez anos. Em Português, os alunos da 8ª. série alcançaram 232 pontos. O mínimo aceitável para essa etapa da vida escolar seriam 300 pontos. Uma simples medida poderia reverter esse escandaloso fracasso de nosso sistema de ensino: priorizar o ensino da nossa língua e incentivar a leitura de contos, romances, ficção, enfim, da literatura em geral.

Não se trata de ensinar o que é dígrafo – lembrando de uma crônica de Rubem Alves. Mas, de desenvolver principalmente no jovem o interesse de ler para pensar melhor. Os jovens de hoje pensam mal porque não sabem como organizar as idéias; usam meia dúzia de palavras querendo dizer tudo, mas fora do seu grupo não faz sentido. A nova geração parece gostar de ler textos descartáveis da Internet, sempre com pressa, sem saborear o sentido das palavras. E, ficam distantes dos jornais, revistas, e livros que demandam mais tempo e paciência para interpretação e compreensão.

Um número significativo dos jovens que chegam à universidade não consegue compreender um texto e nem saber fazer uma boa redação. Sabemos que o bom leitor deve estabelecer um encontro existencial e cultural com o autor. Não é preciso admirá-lo, mas respeitá-lo pelo seu trabalho de ter escrito uma boa obra. Uma boa leitura, ainda, implica em compreender a razão e a emoção do seu escrito[1].

Também, não basta insistirmos num ensino pretensamente crítico só porque leva o aluno a repetir as frases de efeito proferidas pelo professor contra o isto ou aquilo, no fundo, visando ser incluído num grupo social supostamente mais conscientizado. É preciso aprofundar o saber sobre o que é formar um cidadão crítico hoje, que difere sobre ser crítico na época da ditadura militar[2]. Hoje, o propósito de construir um sujeito crítico deve vir junto com a construção de um “sujeito-leitor-critico”, com seu direito de se posicionar de modo independente e formular um pensamento consistente e estilizado sobre o que leu, tanto oral como escrito.

Falta diálogo entre ensino e biblioteca

Nossas escolas carecem de um projeto de formação do sujeito-leitor. Quando a escola possui sua própria biblioteca não existe um diálogo entre o que ela ensina e o acervo da biblioteca, observa o professor da Universidade Federal do Maranhão, César Augusto Castro. O ensino que deveria preparar para a vida visa apenas as provas da escola e o vestibular. Ainda, é preciso criticar os professores que encaminham os alunos para “fazer pesquisa” na Internet, passando-lhes dupla idéia falsa: que realmente se pode “fazer pesquisa” na Internet (ora, a “rede” serve apenas para “levantamento de dados”), e, que a biblioteca é apenas um museu de livros, já superado pela Internet. O resultado dessa pseudo-pesquisa da Internet é a colagem acrítica de textos, visando enganar o professor e ele mesmo, pensando ter realizado um bom trabalho.

Pouco se investe para desenvolver nos alunos a iniciativa de ir à biblioteca buscar informações nos jornais, revistas, periódicos científicos, teses, livros, etc. Nossas escolas não trabalham os alunos para serem verdadeiros “estudantes”, isto é, alguém que saiba processar as informações e dados, fazer conexões de idéias, contextualizar os autores e ousar reconstruir um conhecimento próprio, se possível num texto próprio.

Aluno e estudante

Nem todo aluno é estudante. O salto para ser estudante implica numa mudança de atitude de saber mais-e-mais, de questionar, problematizar as informações, esforçar-se para aprofundar os conhecimentos. O aluno-estudante aprender a selecionar o que deve ler, o que efetivamente pode contribuir para sua formação intelectual e melhorar sua compreensão sobre a complexidade do mundo atual. É preciso que o aluno supere a condição de passividade, de apenas ler os textos que o professor mandou.

Embora hoje seja um lugar comum criticar o ensino “bancário”, que apenas leva o aluno a memorizar, a repetir ou reproduzir o saber ideologizado, na prática da sala de aula muitos professores são conservadores. Há aqueles que não revelam seu receio de levar o aluno a problematizar demais, porque este poderia virar o foco da crítica para a relação de poder do professor sobre os alunos. Nesse sentido, Gusdorf[3] observa que um professor assim jamais se prepara e prepara o discípulo para a ruptura futura, superando o mestre. Muitos professores doutrinam os alunos para criticar apenas a realidade de “fora” (o sistema político, a conjuntura mundial, etc), mas, jamais o autoriza sustentar uma atitude crítica para “dentro”, isto é, para o modo do seu professor ensinar, o confronto de suas idéias com os fatos da história, a certeza absoluta de uma teoria única  para resolver todos os problemas, etc. 

Para Maria Morais da Costa, da Universidade Federal do Paraná, “... a sala de aula tem sido apenas uma alfabetizadora, isto é, capaz de dar a conhecer às crianças a correspondência entre o som e a letra. As infinitas possibilidades semânticas das combinações entre o universo e a palavra ficam relegadas ao autodidatismo ou ao desconhecimento total[4].

O cotidiano do ato de ensinar revela que a maior prova da competência teórica do professor está na sua vocação para “saber fazer” o aluno ler, escrever, inventar com seus próprios recursos cognitivos e levá-lo para além dos autores. Os verdadeiros estudantes e professores comprometidos com a atitude democrática-pluralista devem denunciar o dirigismo ideológico de só ler uma única linha de textos como se fosse panacéia. Um verdadeiro salto na qualidade do ensino e da aprendizagem é conseguir fazer com que os alunos desenvolvam uma atitude de “iniciativa” de leitura independente e de “problematizatização” diante dos textos. Isso seria uma “prática da liberdade”, como queria Paulo Freire (1976). O sujeito “libertado” – conscientizado – estaria preparado para ler os acontecimentos do mundo e desvelar as falácias divulgadas pela mídia, pelos governos e pelo saber canônico existente na escola e na universidade.

Um aluno que se faz sujeito-leitor tem fome de ler mais e está no caminho de vir a pensar melhor. Possivelmente, logo passará a se ver impulsionado para organizar o seu pensamento pela escrita. Escrever faz parte da humanização[5] do sujeito-leitor que sonha melhorar o mundo em que vive.

Incômodo

Um sujeito-leitor é aquele que a cada ato de leitura aprende a superar a posição ingênua por outra mais crítica e autônoma no modo de pensar, agir e ser. Fico incomodado com o descaso e falta de interesse de meus ‘próximos’ para ler obras da literatura. Os docentes, especialistas nisso ou naquilo, salvo algumas exceções, não sustentam o hábito de pensar e gozar com a literatura. Um professor que conhece literatura faz diferença tanto na qualidade da aula como na produção de seus textos. Os grandes nomes da filosofia e da ciência estão sempre citando uma passagem de um livro de um Dostoievski, de um Balzac, de um poema de Pessoa. Nossos especialistas, coitados, só lêem textos que reforçam o que já sabem, dado por sua especialidade ou linha de pesquisa formal. Fico com pena dos alunos desses professores, que, se tivessem consciência do quanto eles estão perdendo neste tipo de ensino estreito e sem sabor certamente trocariam de professor ou de professora por outro(a) mais culto(a)[6]. Minimamente, seria uma compensação por vivermos numa era do vazio[7] de cultura genuína

 

Referências

BELLINI, M. Ler e escrever: o estudante e o sentimento de autonomia. In: Iniciação à ciência e a pesquisa. (Formação de professores EAD, n. 1, cap. 3. Maringá: Eduem, 2005, p. 29-44.

COSTA, M.M. Leitura e poder. In: Gazeta do Povo, Curitiba, cad. G, 1995.

FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. 6.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.

GUSDORF, G. Professores para quê? Lisboa: Moraes, 1978.

MACHADO, A. V. O conceito de critica em função do ensino de história. Disponível em: http://orbita.starmedia.com/outraspalavras/art01avm.htm Acesso em: nov. 2006.


__________

[1] Recentemente, alguns doutores, mais por má vontade do que por ignorância, não compreenderam um artigo do professor de ética da USP, Renato Janine Ribeiro, que expressava sua indignação como cidadão e filósofo sobre o crime bárbaro do menino João Hélio, ocorrido no Rio. Lendo as reações publicadas no jornal, fica evidente que não quiseram compreender o texto muito bem escrito do prof. Renato. Ou seja, não se deve confundir a incompreensão de um texto barrado por mecanismos de defesa do ego de um doutor tomado de inveja ou cinismo e a  incompreensão como resultado do analfabetismo funcional[1] ou da falta de hábito de leitura.

[2] Um interessante artigo atual é de MACHADO, A. V. O conceito de critica em função do ensino de história. Disponível em: http://orbita.starmedia.com/outraspalavras/art01avm.htm Acesso em: nov. 2006.

[3] GUSDORF, G. Professores para quê? Lisboa: Moraes, 1978.

[4] COSTA, M.M. Leitura e poder. In: Gazeta do Povo, Curitiba, cad. G, 1995.

[5] “Escrever faz parte da humanização, mas não é uma atividade isenta de emoções, as mais variadas delas. Escrever é um ato de barbárie para Borges, talvez porque tenhamos que lidar com nossa inapetência, nossa confusão de idéias, de argumentos, com densas emoções” (BELLINI, M. Ler e escrever: o estudante e o sentimento de autonomia. In: Iniciação à ciência e a pesquisa. Formação de professores EAD, n. 1, cap. 3. Maringá: Eduem, 2005, p.33.  

[6] Lembro-me do filme Madadayo, de Akira Kurozawa. Logo no início do filme, um aluno se levanta e diz ao professor que está se aposentando: “o senhor nos ensinou muito mais do que a língua alemã; o senhor é ouro puro”.

[7] LIPOVETSKY, G. A era do vazio. Lisboa: Antropos, 1989.

por RAYMUNDO DE LIMA

   

 

 

 

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico
 

clique e acesse todos os artigos publicados...  

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2007 - Todos os direitos reservados